Singapura, o nome da modernidade

 

Maria das Graças Targino

 

O esplendor de modernismo e tecnologia tem nome: Singapura ou Cingapura. Deixar a Indochina rumo à República de Singapura (Republik Singapura / Xinjiapo Gongheguo / Singapur Kudiyarasu), Península Malaia, ainda que também no sudeste asiático é um susto. Um grato susto. Trata-se de nação composta por 63 ilhas, incluindo a própria Singapura, com destaque também para as ilhas de Jurong, Pulau Tekong, Pulau Ubin e Sentosa. Toca ao norte na Malásia por meio do Estreito de Johor. Toca ao sul nas Ilhas Riau / Indonésia pelo Estreito de Singapura. A capital Cidade de Singapura, até agora livre de catástrofes naturais, com seu clima equatorial, e, portanto, quente e úmido durante quase todo o ano, exala modernidade por toda parte. Edifícios suntuosos dão espaço para uma imensidão de verde, haja vista que quase a metade (47%) de seu território (área total de apenas 704 km²) está ocupada por vegetação. Jardins bem cuidados. Praças acolhedoras. Ruas engalanadas por sombrosas árvores, o que lhe confere, com justiça, o apodo de “Cidade Jardim”.

 

Para expandir a área do país, além do número crescente de arranha-céus, os governantes têm lançado mão do sistema de aterramento marítimo, com a previsão de ampliar mais 100 km² até o ano de 2030. Algumas vezes, os projetos envolvem pequenas ilhas que são conjugadas graças à recuperação de terras com a finalidade de constituir novas ínsulas de dimensões mais significativas.

 

Singapura: gente e vida

 

Em compensação, a área agrícola é irrisória, o que faz com que os singapurenses importem quase todos os produtos, como carnes e vegetais, restringindo sua plantação a algumas variedades de legumes e verduras, bananas-da-terra e orquídeas. A pecuária local inclui a criação de suínos, aves e bovinos, com índice razoável de pesca – aproximadamente, 13,3 mil toneladas por ano. A mineração limita-se ao granito e em se tratando da indústria, há produtos eletroeletrônicos, refino de petróleo, química, máquinas, metalúrgica e naval. Até grande parte da água consumida em Singapura vem da Malásia. Como decorrência dessa realidade, o nível de vida do país é muito elevado, com salário mínimo em torno de 800 dólares mensais. Dizem que Singapura é a décima cidade mais cara do mundo e a terceira da Ásia, perdendo tão somente para Tóquio e Osaka.

 

Nada é grátis. Isto porque empresas estatais dominam os mais importantes segmentos da economia local, como transporte público, comunicação e serviços públicos em geral. Apesar das facilidades de moradia – quase 85% da população de Singapura vivem em casa popular financiada pelo Governo – a saúde não é gratuita nem tampouco a educação, tanto a privada quanto a pública. Ressaltamos que ambos os serviços – saúde e educação – mantêm qualidade bastante elevada. Em matérias veiculadas na mídia internacional e brasileira sobre educação, Singapura é sempre mencionada como exemplo a ser seguido, com índice de analfabetismo em torno de 7,6%, que se referem quase sempre às gerações mais velhas. Ao lado da Noruega e da Finlândia, a cidade-Estado de Singapura possui um dos melhores sistemas educacionais do mundo pautado pelo uso cotidiano da tecnologia.

 

 

No quesito exportação, tendo como principais parceiros o Japão, os Estados Unidos da América, a vizinha Malásia e Tailândia, os singapurenses trabalham com acessórios para computador e similares; orquídeas, petróleo refinado, como citado. Quanto à orquídea (mil espécies), impõe-se por sua resistência como a flor oficial da nação, configurando seu poder, haja vista que desde a etimologia já exala força. Isto porque, Singapura deriva do sânscrito simhapura ou singhapura, que significa “cidade do leão”, ou seja, remete à figura leonina que inspira temor e, ao mesmo tempo, domínio. Quanto ao petróleo, há uma curiosidade: os singapurenses o importam de Brunei e países árabes, o refinam e o exportam. Isso valoriza o serviço portuário, considerado o mais importante da região e um dos cinco mais movimentados do planeta.

 

Também em termos de economia, o turismo representa significativa fonte de renda. No ano de 2012, por exemplo, a cidade-Estado recebeu em torno de 10 milhões de visitantes dos mais distintos países, como o Brasil, que fazem circular a moeda oficial, ou seja, o dólar de Singapura. Isto porque, o dólar americano, o euro e qualquer outro dinheiro não são aceitos no território local, em mais uma prova de valorização das “coisas da terra”. Afinal, o país é visto como o quarto principal centro financeiro dentre os demais países (aquém somente de Londres, Nova York e Tóquio): os números apontam para a existência de mais de 26.000 empresas multinacionais instaladas em Singapura, o que justifica o orgulho de sua gente em ter uma cidade considerada como centro de excelência para os empreendimentos. E mais, eis o segundo maior mercado de jogos de cassino e o terceiro maior centro de refinação de petróleo do planeta.

 

Tudo ocorre em nome do processo desenvolvimentista para assegurar qualidade de vida aos quase 4.200 000 de habitantes, o que corresponde a uma densidade geográfica em torno de 6.814 hab. / km², uma das maiores do planeta. São quatro as raças prevalecentes: chinesa, malaia, indiana e “outras” alusivas à mescla de etnias, sem contar os indonésios, europeus e muitos árabes. Na verdade, e isto é evidente quando se caminha pelas ruas, Singapura tem uma população marcadamente e encantadoramente multicultural. Como resultado da diversificação de grupos sociais, são quatro os idiomas oficiais: inglês, malaio, mandarim e tâmil. Este último é falado também em Tâmil Nadu (Índia), no Sri Lanka e na Malásia, com registros escritos datados desde o século III a. C. Além dos 14,5% ateus, quanto à crença religiosa, além do budismo e taoismo (54,4%), há registro de adeptos do islamismo (14,9%), cristianismo (12,9%) e hinduísmo (3,3%). Chama atenção, ainda, a expansão da Fé Bahá'í, religião monoteísta, cuja origem data do século XIX, na Pérsia. Fundada por Bahá'u'lláh, sua essência repousa na unidade espiritual da humanidade. Com leis, escrituras sagradas, administração e calendário próprios, sem dogmas, clero e sacerdócio, o Bahá'í já está em quase 200 países, totalizando cerca de seis milhões de adeptos, incluindo o Brasil. Aqui, os bahá’ís somam um contingente de, aproximadamente, 57.000 crentes espalhados nas cinco regiões e em mais ou menos 1.215 cidades, a exemplo de Manaus, Vitória, Natal, Londrina e Juiz de Fora.

 

Metrópole e força

 

Prosseguindo, afirmamos que a referência a uma grande metrópole fica por conta do trânsito pesado, que mescla diferentes transportes públicos, inclusive uma quantidade impensável de motos, tal como se dá no Camboja e no Vietnam. Ônibus, carros, bicicletas, táxis e metrôs fazem a festa levando gente para lá e para cá, incluindo as complexas redes hoteleiras de luxo, com cassinos e lojas de marcas as mais famosas do mundo. Mas, há segurança pública invejável. É provável que isso decorra do sistema judiciário bastante rígido. Ao tempo em que há pena de morte para traficantes e homicidas, as multas são frequentes e variam a depender da infração. Aplicam-se a diferentes casos, como, por exemplo, “xixi” em locais púbicos; lixo nas ruas; atravessar fora das faixas de pedestre, etc. Pornografia é proibida com rigor e até andar nu em sua própria casa pode resultar em atentado ao pudor, e, por conseguinte, em cadeia. Mascar chiclete em público também é coibido, com a ressalva de que sua venda está banida. Uso do celular por motoristas é igual à prisão. A pichação de muros e prédios públicos e / ou particulares leva o “artista” até três anos de encarceramento. E mais: caso a tinta seja de difícil remoção, é a vez de chibatadas. Tais medidas são vistas pelos opositores como excessivas e contrárias aos valores democráticos, o que faz com que o Governo seja considerado linha-dura.

 

Face ao índice de natalidade baixo (1,2% por ano), o Governo local substituiu a imposição anterior de um filho por família para dois ou três. A prática é incentivada graças ao "bônus bebê", instituído desde 2001. A ânsia de crescimento demográfico parece ter vinculação direta com a sede de progresso, presente no ritmo do país desde seu lema oficial, qual seja, “Avante, Singapura!”. Indo além, quanto aos dados mais significativos para reconhecimento do nível de desenvolvimento de qualquer nação, o produto interno bruto do país (PIB) é de US$ 314.2 bilhões, o que assegura sua 42ª posição entre as demais nações. A renda per capita de US$ 59 900 lhe põe na 4ª posição no ranking mundial mantido pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) / Organização das Nações Unidas (ONU).

 

Resultado desses indicadores elevados, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é muito expressivo, 0,895, colocando o país no terceiro lugar em confronto com os demais. A expectativa de vida é de 75 e 79 anos respectivos para homens e mulheres, com o adendo de que a mortalidade infantil é de cinco por mil nascimentos. O serviço militar é obrigatório. Mas, surpreendentemente, como compensação pelo fato de terem de abandonar os estudos, o Governo repassa a cada indivíduo um valor x e até os 35 anos, os recrutas retornam para duas semanas a serviço das forças armadas, a cada ano.

 

Um pouquinho da história de um poderoso "tigre asiático"

 

Como acontece com as nações circunvizinhas, Singapura viveu uma longa história de guerras e invasões, desde quando habitada pela primeira vez, no longínquo século II d.C. A Singapura moderna se institui como posto comercial da Companhia das Índias Orientais, 29 de janeiro de 1819, graças à iniciativa de Sir Stamford Raffles com a devida aquiescência do Sultanato de Johor. Cinco anos depois, 1824, os britânicos se apossam da ilha e a transformam, logo depois, ano de 1826, num dos estabelecimentos dos estreitos britânicos. Quando da Segunda Guerra Mundial, é ocupada pelos japoneses, mas finda a guerra, os britânicos retornam com força total. Tudo segue aparentemente igual, até que Singapura se torna autogovernada internamente, em 3 de junho de 1959. Logo depois, une-se a outros ex-territórios britânicos e forma a Malásia, 16 de setembro de 1963. No entanto, não tarda muito, e se independentiza no histórico dia 9 de agosto de 1965, ou seja, há menos de 50 anos. À época, estava na presidência, Yusof bin Ishak; como primeiro-ministro, Lee Kuan Yew.

 

Hoje, se impõe como uma república parlamentarista com, praticamente, um único partido expressivo, o Partido de Ação do Povo, ao lado de outros sem muita força, o Partido dos Trabalhadores de Singapura, o Partido Democrático de Singapura e a Aliança Democrática de Singapura. O Presidente, na condição de figura de Estado, é eleito por seis anos, enquanto o primeiro-ministro (poder de comando), por cinco anos. Hoje, estão no poder, respectivamente, Tony Tan Keng Yam e Lee Hsien Loong. E aqui, cabe uma curiosidade: apesar da independência, a Constituição vigente é a do primeiro Governo, ou seja, de 1959.

A partir de sua independência, Singapura tem se desenvolvido velozmente, de forma surpreendente e inesperada. Ao lado da Coreia do Sul, Taiwan e Hong Kong, todos situados no sudoeste asiático, o território singapurense constitui o grupo de nações denominado de “Tigres Asiáticos”, exatamente por sua rápida expansão econômica. Aliás, Singapura aparece como o país menos corrompido da Ásia e entre os 10 mais livres de corrupção no cenário internacional, de acordo com o relatório anual da Transparência Internacional, organização não governamental, criada em 1993, com sede em Berlim (Alemanha), com o objetivo de lutar contra os desmandos mundo afora.

O prazer da descoberta

 

Em algum lugar, num dia qualquer, num livro qualquer, li que há duas modalidades de viajantes. O primeiro que odeia comidas diferentes, banheiros eventualmente sujos, camas e travesseiros que não sejam o seu, quer dizer, detesta tudo o que, na prática, define o viageiro. Em compensação, se descobrir possibilidades de adaptar seu dia a dia, é capaz de viver meses a fio naquele lugar. Há um segundo tipo. São aqueles, dentre os quais me adapto melhor, movido pela inquietação. Inquietação para conhecer lugares exóticos, e, sobretudo, aqueles não tão exóticos, e, portanto, pouco frequentados por turistas e lotados por “nativos”. Contratempos inesperados e pratos “estranhos” fazem a festa! As pessoas me encantam!

 

De fato, em Singapura, há muito a descobrir. Cidade cosmopolita, há de tudo e de todos. Mas chamam atenção algumas atrações, em particular. É o caso, por exemplo, da parte mais antiga da capital, dos bairros elegantes e comerciais, a exemplo do Orchard Road e Raffles Palace. Há, ainda os bairros chinês (Chinatown) e indiano (Little India), lotados de turistas à cata de “cacarecos”. O Marina Bay Sands Hotel, com suas três belas torres, é um dos lugares mais fotografados por lá. São 55 andares e uma piscina ao alto num terraço magnífico. E o que dizer da beleza ímpar do Jardim Botânico? Uma manhã ou uma tarde é muito pouco para descobrir suas singularidades.

 

 

A Ilha Sentosa, com suas praias artificiais, seus hotéis de luxo, seu museu de cera e um aquário indescritível faz a festa de crianças, jovens e adultos, desde o atraente acesso por meio de monotrilho. Aliás, também para qualquer idade, desde 2008, Singapura tem a roda-gigante mais alta do mundo, a Singapore Flyer. Com seus 165 metros de altura, usurpou da London Eye (Londres, Inglaterra) o posto de primeiro lugar dentre as rodas-gigantes do universo. O monte Faber nos dá visão panorâmica e inesquecível da cidade. O Gardens by the Bay, inaugurado somente em 2012, nos faz imaginar o céu em plena terra. Dizem que o jardim zoológico, a 30 km da cidade, também dá o que falar, mas pela distância, nos restou a fantasia de imaginar sua beleza, que também é indescritível no National Orchid Garden...

 

 

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