CINCO LETRAS E MUITA HISTÓRIA: SIENA

Maria das Grašas Targino

Conheci a capital Siena (província homônima), na região Toscana (Itália), em 2011, em companhia de religiosas residentes em Roma e vinculadas à Congregação das Irmãs dos Pobres de Santa Catarina de Siena, fundada pela senesa Savina Petrilli (1851-1923) e hoje, em diferentes continentes e nações, incluindo o Brasil e a capital do Piauí, Teresina, onde as monjas se dedicam ao ensino fundamental e médio. Um dia de esplendor graças à aproximação entre as irmãs brasileiras e um grande amigo nosso, as quais intermediaram o encontro em Roma e o passeio de lá até aqui. Na oportunidade, visitamos a herança histórica mais preciosa da Congregação. Aí estão incluídos a casa onde nasceu a menina Catarina; a Casa Madre, onde as irmãs residem; o Museu Afetivo de Savina, que conserva relíquias de sua vida de criança, adolescente e mulher; e o majestoso Santuário de Santa Catarina.

 

A partir desse dia de encantamento, passei a sonhar com uma estada prolongada tanto com o fim de conhecer o dia a dia dessa cidade mágica quanto para aprender o idioma italiano numa universidade pública destinada ao ensino do idioma para estrangeiros. E assim fiz. E aqui estou, há, praticamente, 90 dias.

 

A província de Siena possui, aproximadamente, 269.388 habitantes, espalhados por 36 comunas em 3.821 km², incluindo a capital Siena, e que corresponde à densidade de 56 habitantes / km². Ao norte, faz fronteira com a antiga rival – a província de Florença – que integra a história de lutas entre as regiões italianas, como descrevo em outro texto. A nordeste, limita-se com a província de Arezzo; a leste, com a região da Úmbria (províncias de Perugia e de Terni); a sul, com a região do Lácio (província de Viterbo) e com a província de Grosseto; a oeste com a província de Pisa.

 

Em se tratando de Siena capital, em seus 118 km², está ela cercada de beleza por toda parte. Constitui, na realidade, uma das cidades mais atraentes da Toscana e da Itália como um todo, abrigando cerca de 54 mil indivíduos, numa densidade próxima a 455 habitantes / km². Em suas redondezas, o encanto e a qualidade dos olivedos dão vazão à produção de vinhos famosos, a exemplo de Chianti, Brunello di Montalcino e Rosso di Montalcin. Além da beleza dos arredores, com destaque para Montelpucino, Montalcino e San Gimignano, as praias localizadas em províncias vizinhas, como Lucca, Livorno, Castiglione e Grosseto (não se comparam em termos de beleza às do Nordeste brasileiro) dão aos seneses a oportunidade de viver a beleza do oceano, como dizia o eterno Tim Maia em suas doses de pura inspiração e nostalgia: “ver na vida algum motivo para sonhar é ter um sonho azul, azul da cor do mar.”

 

Situada na região central da Toscana, a mais ou menos 322 metros acima do nível do mar, a cidade de Siena se desenvolveu em cima de três colinas. Isto acabou dividindo seu centro histórico em três grandes partes chamadas de Terzo. O Terzo di Camollìa abriga a Basilica Cateriniana San Domenico; o Terzo di Città, o Duomo e o Museo Santa Maria della Scala; o Terzo di San Martino, a Piazza del Campo. Em outras palavras, literalmente entre muralhas, seu centro histórico, por seu valor artístico e harmonia estilística, constitui Patrimônio da Humanidade, nos moldes da UNESCO, desde 1995. Siena é plena de ruas estreitas nos moldes medievais que nos conduzem ao coração da cidade, onde reina soberana a citada Piazza del Campo, em formato de meia lua.

 

Ao seu redor, estão o Palazzo Pubblico (de 1930) com seu célebre Museo Civico.  Ao lado, a Mangia Torre, com seus 102 metros (505 degraus), permite uma visão panorâmica indescritível em seu esplendor. As demais construções da Piazza seguem regra rígida do ano de 1929, que veta a construção de varandas e, em seu lugar, prevê janelas duplas ou triplas. É essa Piazza de beleza ímpar que abriga o histórico palio, corrida de cavalos sem sela, que acontece desde 1283, em 2 de julho e 16 de agosto, atraindo multidões mundo afora, numa conjunção imperfeita entre sagrado e profano, trazendo a Igreja para o centro do sistema de contradas. O que é este sistema? Fiel às tradições de luta entre os povos no longínquo século XVII, a cidade medieval promove verdadeira “batalha” entre 17 contradas, que correspondem aos nossos bairros. Caracterizam-se como instituição democrática, independente, soberana e com estatutos próprios. A administração fica a cargo de uma diretoria (Seggio), cujo chefe-mor é o Priore. As sedes das contradas são verdadeiros museus. Cuidam do patrimônio, incluindo tudo que trata da trajetória da instituição: estandartes de vitórias nos palios; trajes das cerimônias; bandeiras; objetos raros e preciosos, como autógrafos de celebridades em visita à sede; etc.

 

Surpreendentemente, cada contrada possui seu padroeiro e “sua” Igreja, sempre vizinha à sede central. Além da imersão batismal na Igreja Católica, as crianças são batizadas, formalmente, nas contradas, que mantêm sua própria pia batismal. É algo tão fora de propósito, que, decerto, a Igreja Católica (ou qualquer outra) deveria ficar fora dessa disputa e, em contraposição, lutar em prol de interesses sociais com vistas a um mundo melhor. Não só no exterior, mas no interior dos templos, incluindo a majestosa Cathedral (Duomo), a Basilica Cateriniana San Domenico, a Parrochia de San Mamiliano in Valli, a Igreja de Santa Maria degli Angeli Il Santuccio, como de tantas outras, ao lado da imagem de Cristo e dos santos, estão as bandeiras das contradas. Padres desfilam pelas ruas com os membros da organização nos dias que antecipam o palio! Comportam-se distantes da irmandade e da paz.

 

Praticamente vizinha à Piazza del Campo, eis a Piazza del Duomo: a Cathedral, o Museo dell’Opera Metropolitana e um pouquinho adiante, la Cripta Ed “ex-Fonderie” del Duomo e o Battistero até alcançar o Complesso Museale di Santa Maria della Scala, o mais antigo hospital-hospedaria que assistia aos peregrinos graças à construção da importante Via Francigena. À época, a via ligava Canterbury (principal centro religioso do Reino Unido por abrigar o arcebispo da região) à capital italiana, Roma, prosseguindo até a Terra Santa, expressão adotada pelos cristãos para designar a região onde Jesus nasceu e viveu, com ênfase para Jerusalém, onde morreu e ressuscitou. Posteriormente, século XVII, passou a ser procurada por jovens e ricos europeus à busca de conhecimento. Na atualidade, ano 2019, século XXI, os peregrinos partem da vizinha Lucca a caminho da capital italiana para alcançar Jerusalém. Hoje, o Complesso... abriga a biblioteca e a fototeca “Giuliano Briganti”, um museu de artes para crianças, além de exposições permanentes de artistas locais, nacionais e internacionais.

 

Como não visitar a Fortezza Medicea? Trata-se de uma construção de tijolos construída por Cosme I, em 1560, após a derrota de Siena para Florença na chamada Guerra de 1554-1555, quando durante 18 meses, mais de oito mil seneses morreram. A Fortezza, além de oferecer, em caráter permanente, sessão de filmes, cursos, exposições, workshops, mantém, ainda, a Enoteca Itálica, onde é possível provar bons vinhos da Itália.

 

Siena, com suas muralhas reconstruídas ou conservadas cuidadosamente, com seu número estonteante de templos, sempre da Igreja Católica, com uma vida cultural intensa durante todo o ano, com ênfase para primavera e verão, merecia uma descrição extremamente detalhada alusiva à própria história, aos artistas, à beleza e à composição de cada item citado. Merece destaque a segurança da cidade medieval, que possibilita ao cidadão ir e vir a qualquer hora do dia.

 

Mas, Siena comprova, sobretudo, o que sempre argumentei. As cidades são graciosas ou majestosas, desgraciosas ou simples, mas são as pessoas que importam. Aqui, os transportes públicos são inacessíveis para parte da população por seu valor elevado. O repúdio mais, ou menos intenso em relação aos imigrantes paira no ar. Problemas de atendimento à saúde pública existe. O desemprego, idem. A universidade apresenta problemas de infraestrutura e organização. A biblioteca nos remeteu às bibliotecas brasileiras da década de 70 (século XX), com sistema retrógrado e cerceador do estímulo à leitura. O trânsito, às vezes, é difícil, por conta das ruelas estreitas e do que se chama por aqui de ZTL, ou seja, zona de tráfico limitado.  

Gente de boa índole convive com gente de alma obscura. Há realmente de tudo. O branco e o negro, na acepção de claridade e escuridão ou do bom e do mal convivem despudoradamente. Sobre o branco e o negro, a mitologia romana atribui à criação de Siena a Sénio eAscanio, filhos de Remo, irmão gêmeo de Rômulo, fundador da cidade de Roma e seu primeiro rei. “Reza a lenda” que os irmãos eram filhos do deus grego Ares (ou Marte, nome latino) e da mortal Rhea Silvia, filha de Numitor, rei de Alba Longa. Os meninos foram lançados ao rio Tibre e arremessados às suas margens até serem encontrados por uma loba, que os amamentou e deles cuidou até que um pastor os achou e os criou como filhos. Em decorrência, o brasão de Siena é em branco e preto, simbolizando a fumaça branca e preta proveniente das celebrações de agradecimento que os legendários Sénio eAscanio teriam feito após a instituição de Siena.

Por fim, acredito que a Siena que embalou meus sonhos por longos oito anos, continua uma belíssima cidade, mas, em sua essência, desnudou-se e se mostrou infinitamente humana, e, portanto, falha! Como humana e inevitavelmente falha, mesmo assim, vale a pena! Decerto, primor, perfeição, apuro e esmero são meras palavras no que diz respeito ao ser humano e aos recantos mais queridos!
 
Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.