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Para ver antes do almoço:
a cozinha tradicional paraibana.
(um segundinho até carregar).

Atlanta, da Guerra Civil
à Coca Cola,
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Léa Maria volta de
Buenos Aires
e conta o que viu lá.

Cahors, no coração da França.
Por Celso Japiassu.

Um olhar sobre a Galícia.

Caio Mourão ensina a fazer um
exótico Risoto de Morangos.

Nei Leandro de Castro confessa
seu amor por Florença e traça o roteiro sentimental de Lisboa.

Dê uma olhada em alguns pratos de restaurantes europeus.


Vale a pena ver como se faz
um leitão.

50 Sonetos de Forno e Fogão:
apresentação,
introdução
,
receitas em a-b-c,
d-e-f
,
j-l-m,
p-r-s-t-v-x
.

Mestre Eça de Queiroz mostra
como se comia na Grécia
e na Roma antigas.

Saigon, cidade aberta

A experiência de um jornalista que aprendeu nos livros de história que o Vietnã venceu a guerra. Será?

por Daniel Japiassu

 

Assim que pus os pés no aeroporto de Tan Son Nhat, e um nativo de fala alegre e péssimo inglês me veio receber com um cartaz de boas-vindas nas mãos, fiquei sabendo da existência de um museu dedicado ao célebre conflito.


Minha curiosidade havia sido despertada não apenas pelo fato de o tal museu ser um marco anti-americano bem no centro de Saigon (aliás, Cidade de Ho Chi Minh), mas também por um salão - de gosto duvidoso, segundo o guia comprado em Bangkok por absurdos US$ 25 - denominado "Verdades da Guerra".
Como tinha o dia livre pela frente e uma cidade inteira por conhecer, desabalei-me do hotel cinco minutos depois do check in e enveredei pelas ruas, ora estreitas ora vastas, do mais conhecido cenário da Guerra do Vietnã.


"O senhor sabe onde fica o War Remnants Museum?", perguntei a um raro pedestre de andar calmo e olhar sereno, cujo semblante remetia aos tempos do deus Brahma ou do próprio Buda.


"Está vendo aquele outdoor da Coca-Cola?" Disse-lhe que sim, como se fosse possível não perceber algo tão ostensivo. "E aquela placa da Toyota?" Nem um cego teria a ousadia de negar àquele veterano asiático de ralas sobrancelhas, bigode fino e barbicha idem mais esta desnecessária questão. "Pois bem", disse ele, enfim, com um suspiro algo desalentado. "O museu fica bem no meio deles". Desculpei-me pelo incômodo e, dividido entre a gratidão e o arrependimento, tomei a direção do belo prédio em estilo francês, transformado, em 1975, no mais contundente tributo ao comunismo e, mais precisamente, ao camarada Ho Chi Minh.


A velha Saigon é mesmo um estranho pedaço de chão, cravado em um dos mais férteis solos da Ásia, no qual a tradição mística dos séculos 6 e 7 e o ritmo frenético do mais puro capitalismo se encontram e, acredite, convivem em inexplicável harmonia. Além disso, mantém a aparência dos tempos da guerra, lá se vão mais de 30 anos, quando norte-americanos e vietcongs travavam uma das mais sangrentas batalhas da história.


Como se não bastasse, a herança da colonização francesa permanece intocada. A região, incorporada após duas violentas batalhas, em 1862 e 1880, e que constituiu até meados dos anos 50 (juntamente com Cambodia e Laos) a célebre Indochina, mantém muito bem conservado o bairro francês. Alguns prédios construídos no início do século são hoje sede da burocracia comunista. Além da arquitetura, a influência pode ser sentida também na culinária local.

 

O estilo francês no prédio da Prefeitura


Para completar o quadro, a cidade já conta numerosa coleção do melhor concreto armado que se pode contemplar - visto de cima, o mar de arranha-céus faz sombra à metropolitana Kuala Lumpur, na Malásia, adotada por nove entre dez grandes empresas de informática no decorrer da última década.


O mais impressionante, porém, é verificar que, entre todo tipo de propaganda, pululam bandeiras vermelhas ornamentadas com o rosto do "venerável" Ho Chi Minh e o eterno símbolo soviético (a foice e o martelo). Elas estão por toda parte, é verdade, mas a poluição visual patrocinada pelas multinacionais dá ao visitante a impressão de que os Estados Unidos venceram a guerra.


Saigon é a imagem acabada de uma cidade que anseia por investimentos, mas parece clamar desesperadamente por cuidados. Apesar da economia aberta pelo partido comunista, que transformou o centro em uma paisagem desconfortantemente capitalista, mantém-se fiel, aqui e ali, a alguns conceitos que estamos acostumados a estudar nas primeiras aulas de história ainda no primeiro grau: o mais admirável mercantilismo. A Cidade de Ho Chi Minh é um exemplo idiossincrático do que a cultura e a religião são capazes quando a identidade de um povo está em perigo. Não se trata de discurso pretensamente nacionalista. O vietnamita não parece precisar disso; sabe que expulsou cada um de seus invasores nos últimos 2000 anos de história. Entretanto, a luta, agora, é bem mais sutil. O capitalismo não se utiliza de alabardas, armaduras bem polidas, aviões de combate ou laser de última geração para impor suas regras. Vive de criar necessidades.

 

E avança sem ser notado, sob o manto do progresso.


Nos mercados da cidade, centenários mercados, o clássico chapéu cônico (que os estúdios de Hollywood ajudaram a imortalizar) já se rendeu aos bonés da Reebok - uma praga, como os mosquitos nas regiões próximas ao rio Mekong. Ao lado das seculares sandálias de bambu, amontoam-se milhares (e milhares é o termo correto) de calçados da Nike, mais onipresente marca ocidental no país. Quem quiser um par, que experimente por conta própria - não há atendente, tampouco câmeras para flagrar os engraçadinhos. E por uma razão muito simples: não há engraçadinhos em Saigon.


No imenso empório central (o Mercado Chinês), voltamos a um tempo imemoriável, quando a moeda de troca era o produto do trabalho familiar. É possível, na falta de dongs (a moeda local) ou, o que seria melhor, de dólares, levar o produto trocando-o por outro. Pelo menos naquela terça-feira, 14 de novembro, o par do Nike valia (ó, heresia!) uma imagem de buda em ouro ou dez farnéis de arroz.


A chegada das multinacionais criou um personagem nosso muito conhecido: o vendedor de rua. Ao lado do templo budista de Giac Lam (mais antigo pagode da cidade, construído em 1744), insistentes camelôs tentam desviar a atenção do visitante, desfiando uma coleção de relógios de pulso, capas e carregadores para telefone celular, máquinas fotográficas descartáveis da Kodak e outras bugigangas. O calor é forte e a vendedora me persegue durante quase meio quarteirão com uma gotejante e reluzente lata de Seven Up na mão. Digo que, por US$ 1, prefiro uma Tiger (a magnífica cerveja vietnamita). Ela não entende, me oferece uma Coca-Cola. Desisto do negócio.


A chamada "economia informal", diga-se, está em cada esquina e já se transformou em uma das maiores preocupações do Estado comunista. A abertura econômica, iniciada em 1986, trouxe a variedade de produtos que só a globalização pode oferecer, mas está cobrando um preço alto.


Um dos principais sintomas é a migração da população do campo (principalmente os jovens) para as grandes cidades - Ho Chi Minh, a capital Hanoi e até mesmo Hue (antiga capital imperial). Como o Vietnã ostenta o título de vice-líder mundial na produção de arroz, o governo vem apostando no grão milenar para evitar que as famílias abandonem a zona rural. O partido comunista vem pregando a necessidade de ultrapassar a líder Tailândia no ano que vem e, para isso, precisa de braços fortes para a lavoura. O êxodo, embora menor do que em meados da década, continua.


Outro efeito colateral da abertura de mercado é o aumento considerável da prostituição nas ruas do centro. Nguyen Trinh, professor primário de 62 anos, trocou as salas de aula e um ordenado muito mal-educado pela vida de guia turístico. Duplicou o salário graças aos investimentos do governo no setor (um dos outdoors mais comuns na cidade traz os dizeres "Vietnam: a Destination for the New Millenium), mas diz, encabulado, que o mercado do sexo, embora já existisse durante a Guerra do Vietnã, nunca esteve tão em alta. Uma breve caminhada pelo centro confirma as palavras do antigo mestre. As moças são muito novas; algumas, ainda adolescentes. E seduzem o incauto cliente com pouca roupa e um michê que não ultrapassa os US$ 10.


O maior problema, no entanto, diz respeito aos índices demográficos do Vietnã (que não param de subir). Nos últimos dez anos, o governo tem criado campanhas para que os casais tenham menos filhos, pois já não há recursos para prover educação, transporte e alimentação de qualidade para os quase 80 milhões de habitantes. O problema, explica-me um morador do subúrbio de Saigon (mascate, como vários de seus vizinhos), é que os vietnamitas não imaginam uma família sem um herdeiro homem. "É uma desonra", afirma ele, que tem quatro filhos, três meninas e um recém-nascido.


Ho Chi Minh é uma séria candidata a São Paulo de olhos puxados. Conta, atualmente, mais de sete milhões de habitantes, uma pequena metrópole que lembra mesmo a paulicéia, Nova York em dia de tempestade ou a caótica Cidade do México.


As ruas são dominadas pelas motocicletas - quase três milhões. É mesmo o paraíso da Honda e de um modelo chinês que custa pouco (cerca de US$ 700), anda menos ainda e polui uma barbaridade. Os (poucos) carros são japoneses, a maioria da Toyota. Não importa o momento do dia, a buzina é item obrigatório em qualquer esquina de Ho Chi Minh. Os motoristas costumam manter uma mão na direção (ou no guidão) e a outra sempre pronta a intimidar qualquer veículo que se aproxime.


Os semáforos, pobres semáforos, teimam em funcionar. Mas, e daí? Ninguém parece ter tempo para esperar pelo verde... Na hora do rush, esqueça tudo que você já viu na vida em matéria de inferno sobre rodas e começará a ter uma vaga idéia do que seja tentar atravessar uma avenida da velha Saigon. Qualquer rua é rua de mão dupla; contra-mão é coisa que não existe! O ensandecido trânsito em Ho Chi Minh tem mesmo a cara do capitalismo vietnamita do novo milênio.

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