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Europa Século 21(II): Berlim, cidade palimpsesto. Por Léa Maria Aarão Reis.

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Mostar, uma tragédiar: escombros e turismo. Por Maria das Graças Targino.

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Maiorca, de história, beleza e prazer.

Reencontrando o encantamento. Por Humberto Mendes.

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As quatro estações e uma tragédia.

Passagem para o Vietnã (II). Por Léa Maria Aarão Reis .

Passagem para o Vietnã (I). Por Léa Maria Aarão Reis.

Affonso Romano de Sant'Anna e o Egito: Um Obelisco Inacabado.

Simplesmente Marraquech. Por Maria das Graças Targino.

Arte em construção. Por Maria das Graças Targino.

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Índia: mundo à parte para deleite ou horror.

Bar é coisa séria. Por Paulo Maldonado.

Alturas de Machu Picchu. Por Clemente Rosas.

Pequeno guia pessoal dos botequins cariocas. Por Celso Japiassu.

A arte de viajar: o ver e o olhar do viajante. Por Débora Menezes.

O Ano Cortázar em Buenos Aires, por Léa Maria Aarão Reis.

Buenos Aires Revisitada, por Nei Leandro de Castro.

Informe de Buenos Aires, de Celso Japiassu.

Chile, 30 anos depois. Por Léa Maria A. Reis.

A indizivel arte de saborear charuto, por Paulo Maldonado.

Moacir Japiassu dá a receita de um prato com rolas acidentadas.

Cuba: os paradoxos da Revolução. Maria das Graças Targino.

Charmes de Tiradentes. Léa Maria Aarão Reis

O último dia do ano em Fiesole. Celso Japiassu.

O Diário do Vietnam, de Daniel Japiassu.

A viagem continua: os diários do Laos e do Cambodja. Daniel Japiassu.

Saigon, cidade aberta. Por Daniel Japiassu.

As Primeiras Pizzas do Rio. Léa Maria Aarão Reis.

O festival do comidas nas ruas de Paris e outras cidades da França.

Novas e criativas receitas de Bacalhau, por grandes chefs brasileiros.

Uma homenagem à caiprinha: Sidney Simões conta a história do drinque brasileiro.

O pícaro A. Falcão apresenta suas receitas de conquistar mulheres.

Um roteiro da cidade de Campina Grande, por José Nêumanne.

Pratos excêntricos e exóticos, por Caio Mourão.

Um roteiro da cidade de Natal, por Nei Leandro de Castro.

Para ver antes do almoço:
a cozinha tradicional paraibana.
(um segundinho até carregar).

Atlanta, da Guerra Civil
à Coca Cola,
por Lea Maria Aarão Reis.

Léa Maria volta de
Buenos Aires
e conta o que viu lá.

Cahors, no coração da França.
Por Celso Japiassu.

Um olhar sobre a Galícia.

Caio Mourão ensina a fazer um
exótico Risoto de Morangos.

Nei Leandro de Castro confessa
seu amor por Florença e traça o roteiro sentimental de Lisboa.

Dê uma olhada em alguns pratos de restaurantes europeus.


Vale a pena ver como se faz
um leitão.

50 Sonetos de Forno e Fogão:
apresentação,
introdução
,
receitas em a-b-c,
d-e-f
,
j-l-m,
p-r-s-t-v-x
.

Mestre Eça de Queiroz mostra
como se comia na Grécia
e na Roma antigas.


BUENOS AIRES REVISITADA

Nei Leandro de Castro

Em 1959, morando em Natal, ganhei um concurso de poesia, promovido pelo jornal “O Globo”. O prêmio era uma viagem a qualquer país da América do Sul e eu escolhi a Argentina., com segundas intenções: o vôo fazia escala no Rio de Janeiro, cidade que eu tinha loucura para conhecer. Aos 19 anos, pobre de marré, de si, vendi jornais velhos, garrafas vazias, pedi dinheiro emprestado e lá me fui. No Rio, me apaixonei pela cidade, paixão que resiste aos anos, aos tiroteios e a certos políticos, tipo assim Garotinho e Rosinha. Também caí de amores por Maria Lina, bonita, inteligente, de olhos verdes, um ano mais jovem que eu.

 

Fui para Buenos Aires quase à força, pois queria ficar para sempre nos braços da carioca que me seduziu. Tenho vagas lembranças dessa viagem à capital portenha: fiquei num hotel de quarta categoria, perto do turbilhão da Calle Florida, por onde eu circulava todos os dias, sem dinheiro para entrar num restaurante ou mesmo num café. O truque da sobrevivência era me empanturrar no café da manhã e à tarde, quando a fome já apertava seu cerco, devorar o sanduíche mais barato, com refrigerante. Passei uma semana, como um peripatético faminto, pelas ruas movimentadas, pelas lojas de disco, pelas livrarias do Centro de Buenos Aires.

 

A minha melhor lembrança está ligada ao hotel, de cujo nome não me lembro. Numa manhã, descobri que a minha vizinha de quarto (havia portas fechadas ligando os apartamentos), sob o calor quase mortal do verão, ficava nua e se requebrava ao ritmo de rumbas. Vi esse espetáculo através de uma fechadura à moda antiga, ou seja, bem espaçosa, muito generosa. Nunca Onan foi tão reverenciado com tanto prazer.

 

Outra lembrança inesquecível: com a chave do hotel, grande como as chaves de um mosteiro, escrevi o nome de Maria Lina no obelisco da avenida Nove de Julho.

 

No século seguinte, estou de volta a Buenos Aires. O meu hotel, o Crowne Plaza Panamericano, fica a dois quarteirões do obelisco. Uma das minhas primeiras providências foi saber se o nome da antiga paixão estava imortalizado no monumento. Não. Cercaram o obelisco com grades de ferro, com certeza porque havia muitos e muitos insensatos como eu, querendo gravar nele os seus amores. Nesta segunda viagem, estou com muito mais idade, em compensação o dinheiro é suficiente para ir além do sanduíche. Mas ainda resta a insensatez de fazer um “sight seeing”, ou “city tour”, ou excursão, é tudo a lesma lerda.

 

Quatro horas de ônibus, trânsito engarrafado, um imbecil dizendo besteira em duas línguas, paradas obrigatórias na estátua de Evita Perón, na chama eterna em homenagem a San Martin, trinta minutos no estádio de futebol do time de Maradona, trinta e cinco minutos em Camiñito (“Não passem daquela esquina, aqui há muito ladrões”, advertiu o guia), volta pela margem do “rio mais poluído do mundo”, ainda segundo o sensível e inteligentíssimo guia.

 

A sorte é que eu trazia comigo o roteiro lírico-gastronômico de Celso Japiassu. Através das indicações desse meu amigo, que ama Buenos Aires, eu me reconciliei com a cidade.

 

Caminhei pelos seus exuberantes parques, sem obrigação de ver estátuas, ouvir lero-lero ou pegar outra vez o ônibus. Me perdi e me achei nas ruas que cruzam a Florida, a Corrientes, a Av. de Mayo. Amei as livrarias, grandes como catedrais. Conheci o famoso bar do Hotel Claridge, onde bebi o melhor pisco sour da América do Sul e adjacências. Me deliciei com as famosas carnes argentinas em restaurantes de luxo, a preços incrivelmente baixos. Fora do roteiro do Celso, descobri um quarteirão cheio de bons restaurantes italianos, no cruzamento da ruas San José e Venezuela. Destaque para o Campo dei Fiori, com excelente massa e bons vinhos da região de Mendoza. Comi os famosos “alfajores”, tão bons quanto carinho de mãe, segundo os argentinos. E me sentei em volta das mesas do Café Torloni, reduto da boemia e casa de tangos.

 

O show de tango do Torloni, com dois casais de bailarinos, é deslumbrante. As pernas das dançarinas, torneadas e muito brancas, emergem das grutas insondáveis de seus vestidos pretos. As chaves de coxas que elas dão à altura do peito dos parceiros são docemente mortais. Capazes de seduzir todos os monges de um mosteiro beneditino.

Imagino um poeta de 19 anos, marinheiro de primeira viagem, explodindo de testosterona, vendo de perto um desmantelo daqueles.

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