MYANMAR: ONDE FICA ISTO?

 

Maria das Grašas TARGINO

 

Diante da informação à família ou aos amigos próximos – “Estou indo a Myanmar” – salvo una única exceção (surpreendentemente, uma “sobrinha” de 11 anos), os demais lançaram uma pergunta imediata: “onde fica isto?” O desconhecimento é plenamente justificado. Em primeiro lugar, a antiga denominação, Birmânia, ainda prevalece dentre oposicionistas do governo vigente e até em alguns países ocidentais, como Austrália, Canadá, Estados Unidos da América (EUA), Irlanda e Reino Unido. Em segundo lugar, são variações numerosas, a exemplo de Bam-m? ou Maran-m? ou Miamar ou Mianmá ou Mianmar ou Mranma, que nomeiam uma realidade única: a atual República da União de Myanmar, a maior nação do sudeste da Ásia continental e o 39º maior do mundo.

 

Em terceiro lugar, o interesse maior em torno de Myanmar nem está vinculado ao seu desenvolvimento nem tampouco a uma vida cultural intensa nem ao incentivo ao consumo desenfreado. A curiosidade que desperta, em geral, vem do encanto que cerca o budismo. Apesar de ser possível encontrar muçulmanos (3%), cristãos (7%), hindus e animistas (juntos somam 5%), é um país predominantemente budista, com 85% de adeptos ao budismo teravada, que se impõe como o registro mais antigo dos ensinamentos do Buda histórico. Crianças e jovens o praticam desde muito cedo, em reclusões voluntárias ou impostas pelas famílias .

 

A beleza da natureza também suscita curiosidade. É visível que o ínfimo crescimento econômico da nação tem contribuído para a preservação do meio ambiente. Por exemplo, 49% de seu território são ocupados por florestas e bosques, que escondem uma flora incrível. Seringueiras, acácias, manguezais, bambus, coqueiros e palmeiras se unem aos carvalhos e pinheiros. Localizado entre Índia, China, Laos e Tailândia, Myanmar ostenta um solo rico graças à presença de quatro rios, dentre os quais se destaca Ayeyarwaddy, chamado de “mãe”, por sua generosidade. Assim, encontramos por aqui muitas das frutas tropicais comuns no Brasil. Mamão, banana, tangerina, melancia, ata, mangaba e melão extasiam por seu colorido e frescor, embora seja impossível saboreá-las livremente, quando expostas à venda nas ruas das cidades, por conta da higiene precária.

 

Além do desafio de enfrentar nosso próprio desconhecimento, eis a coragem de enfrentar uma viagem longuíssima. É impossível chegar a Myanmar sem escala no continente africano ou europeu, em nosso caso, Amsterdã, onde permanecemos em trânsito por quase sete horas. Além do trajeto cansativo, um susto (nada grato) que chega com e-mail da operadora, poucos dias antes da viagem, com recomendações importantes. Entre elas: “[...]: só use água mineral, até para escovar os dentes [...] Banho: não abra a boca ao tomar banho”. De fato, não é alarme falso. É a verdade pura e crua. O sistema de saneamento é inacreditavelmente deficiente. Como resultado, doenças tropicais espreitam os desavisados. Mas para quem conhece a realidade de países, como Índia, cuja tecnologia de ponta convive com o ápice da miséria humana; ou como Nepal, onde as diferenças sociais berram aos quatro ventos; ou como Cuba, país destroçado e destruidor da esperança do futuro de sua gente, o medo voa para longe, quase de imediato. A curiosidade e a magia prevalecem. É a chance de conhecer nova gente. Aliás, gente para quem a vida nem sempre tem sido fácil, tanto face à postura dos governantes como face às intempéries da natureza. Terremotos, enchentes e desabamentos são comuns, sobretudo, quando das monções, denominação para as chuvas frequentes entre junho a setembro. Aliás, as pessoas ainda lamentam o terrível ciclone de 2008, que deixou o saldo de quase 130 mil mortos e um milhão de desabrigados.

 

Independentemente de todos estes detalhes, a chegada ao país passa a ideia do que é o povo birmanês (ou birmã ou mianmarense). Verdade que há sempre o risco de enganos, principalmente, por conta da total inacessibilidade à língua oficial, o birmanês. Em Myanmar, coexistem, no mínimo, quatro grandes famílias linguísticas (sino-tibetana, que inclui o birmanês; austronésia; tai-kadai; e indo-europeia), todas elas longe da compreensão dos ocidentais. No entanto, os raros contatos com os nativos – sempre simpáticos e com sorriso nos lábios – fluentes em língua inglesa e / ou as informações de guias locais nos fazem crer que, ao lado do orgulho nacional diante da independência do Reino Unido, a satisfação ante a realidade do dia a dia é um sonho remoto.

 

Há 64 anos atrás, exatamente a 4 de janeiro de 1948, livre do subjugo do RU, se dá a instalação da República Presidencialista. Sao Shwe Thaik assume, à época, a presidência e U Nu, o cargo de primeiro-ministro. Porém, a democracia finda quando, em 1962, um golpe de Estado liderado pelo general Ne Win derruba o governo civil (parlamento bicameral) então em vigor. Ne Win se mantém no poder por quase 26 anos. Os militares dão as ordens sob o comando do general Than Shwe de 1992 até fevereiro de 2011.

 

No decorrer dos anos e das décadas, a designação da República sofre alterações. Quando da libertação, União da Birmânia. Posteriormente, entre 1974 a 1988, República Socialista da União da Birmânia. Retoma, então, o nome original, mas, em seguida, ano de 1989, o Regime Militar impõe União de Myanmar como a designação oficial do país. Em 2009, os militares oficializam a República da União de Myanmar, com a ressalva de que, nesse mesmo período, alteram a designação de outras cidades, como Rangum ou Rangoon, atual Yangon (a cidade mais populosa). Há outras mudanças. Um pouco antes, em 2006, a Junta Militar transfere a capital de Rangum para a quase impronunciável, Naypyidaw, termo que significa "cidade dos reis". E há uma explicação para isto: nomes das cidades e capitais mudam segundo previsão astrológica alusiva aos governantes da vez.

 

A verdade é que, nesse período, os militares se fortalecem a cada dia, desrespeitando, inclusive, os resultados de eleições livres ocorridas em território nacional, 1990, depois de quase 30 anos. À época, o legítimo vencedor, representado pela Liga Nacional pela Democracia, conquistou mais de 60% dos votos válidos e mais de 80% postos na Assembleia. Como resposta, a líder Aung San Suu Kyi, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz no ano seguinte por sua luta incansável em prol da democracia, é mantida em prisão domiciliar por muito tempo, com libertação pouco antes do período que aí estivemos. No momento atual (de abertura, dizem eles), o sistema político vigente é mantido sob controle do denominado Conselho de Estado para a Paz e o Desenvolvimento. Thein Sein ocupa a presidência ao lado de dois vice-presidentes.

 

Assim, por toda parte onde estivemos – Yangon; Heho; Inle lake; Mandalay (“a cidade dos monges” e a segunda capital do país); Amapura; Sagaing e Bagan (primeira capital e berço do budismo em Myanmar) – se há um sentimento de alívio, verdadeiro ou construído, ante uma nação livre da colonização, é impossível falar em democracia. Uma das evidências refere-se à recomendação explícita dos agentes de viagem para a não identificação como jornalista quando da solicitação do visto, por ser uma categoria profissional vista com reservas pelos governantes birmaneses. Ao tempo em que há repressão, a corrupção está por toda parte. Por exemplo, o governo autoriza somente dois litros de gasolina para cada veículo pequeno, mas o combustível é vendido, no mercado negro, nas calçadas em plena luz do dia, diante das quais se formam filas gigantescas de motos. Aliás, a quantidade de motociclistas birmaneses faz com que os motoqueiros teresinenses constituam um ponto perdido no oceano...

 

De forma similar, é utopia referir-se a uma nação livre de conflitos. Ao longo das décadas, apesar da musicalidade de sua gente, Myanmar continua a enfrentar tensões étnicas face à coexistência de diferentes grupos. O governo fala de 135, mas dados precisos parecem impossíveis de conseguir. Entre os que sobrevivem e os dizimados, os birmanes ou bramás constituem a etnia mais importante (68% da população total). A seguir, bem aquém, estão os shans (10%), kayins (7%), rakhines (4%), chineses (3%) e mons, com meros 2%.

 

Na verdade, Myanmar é uma civilização milenar e, portanto, de difícil compreensão para os visitantes. Sua história é rica em detalhes. São povos que vêm, se instalam, dominam e, mais adiante, são derrotados. Além dos ingleses, há registro da presença de intrusos portugueses, indianos e japoneses. O que está claro é o papel dos monges budistas em todas as lutas. Atuam sempre como foco de resistência, o que lhes assegura lugar de destaque, inclusive nas fortes reivindicações em prol do retorno da democracia, em 2007, o que justifica a visita de Hillary Clinton, Secretaria de Estado dos EUA, ao país, em novembro de 2011.

 

Reiteramos, pois, que o fato de se livrar do domínio do Reino Unido, não assegura o progresso de Myanmar. Em seus 678.578 km², abriga uma população estimada em 55.400.000 habitantes (dados de 2009), que corresponde a uma densidade de 75 habitantes por km², mas cujos dados sociais não são nada alentadores. Não obstante o alto índice de alfabetização (cerca de 80 a 90%), a renda per capita é de US$ 1.197 e há indicadores sociais preocupantes. Dentre eles, o decantado Índice de Desenvolvimento Humano é considerado baixo (0,451). Para se ter ideia, o nosso IDH, nada elevado, alcança 0,718. A esperança de vida está em torno de 63 anos e a mortalidade infantil é de 66,0 / mil nascidos. Transportes públicos e a aparente precariedade do sistema público de saúde refletem a corrupção endêmica do país. A educação não está em situação melhor, como vimos em visitas às escolas e a limitação de ensino somente do birmanês ao lado de noções de inglês comprova.

 

Aos índices apresentados e ao salário mínimo entre 100 e 120 dólares, aliam-se as denúncias recorrentes da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre a prática de trabalhos forçados, trabalho infantil e tráfico de pessoas, sobretudo, mulheres. Estas, ao que tudo indica, são vítimas de violência sexual, ainda que, paradoxalmente, cerca de 90% casem virgens e se mantenham distantes das “frivolidades” do tempo moderno. Por exemplo, jovens e velhas desconhecem a sofisticação de maquiagens e recorrem, desde criança, a um produto extraído da árvore thanakha para embelezar rostos, refrescá-los e protegê-los.

 

E o contraditório é que não se trata de um país pobre em termos de recursos naturais. Petróleo, madeira, estanho, antimônio, zinco, cobre, chumbo, carvão, mármore, pedras preciosas (ouro, prata, jade e rubi), gás natural e energia hidroelétrica são alguns deles. Além da dádiva da natureza, há muito a ser visto país afora. Existe uma quase infinidade de templos e pagodes, sem contar gigantescos budas. “Corta o fôlego”, por exemplo, a beleza dos pagodes Sule e Chauk Ktat Gyi (ambos em Yangon), sem contar a grandiosidade do Anada Temple (Bagan) e o pagode Mahamuni (Mandalay), com uma inigualável imagem de Buda coberta de camadas de ouro.

 

 

E o que dizer diante das “mulheres-girafa”? Da etnia padaung, elas deformam o pescoço com alongamento de até 25 cm, mediante o uso de aros metálicos e muito pesados por toda a vida, como visto na vila Maing Thauk, redondezas do belo lago Inle), onde estão os leg rowers (“remadores de perna” = método local de pesca) e os imensos jardins flutuantes com o cultivo de frutas e legumes.

 

 

A ponte de U Bein, em Amapaura, é de uma imponência sem fim em sua rusticidade! E há, ainda, a possibilidade de “visitar” o vilarejo de Myinkaba passeando de balão perdido na imensidão dos céus!. Por fim, reforçamos a relação entre desenvolvimento social e avanço da ciência e tecnologia. Decerto, o atraso de Myanmar – menos de 2% da população possui computador em casa, menos de 1% acessa a internet, o celular ainda rareia – constata que nações e povos evoluem a partir da produção e consumo de artefatos tecnológicos. É quase inacreditável ver asfaltos e calçamentos feitos à mão e por mulheres ou assistir a mulheres e crianças transportando materiais de construção na cabeça. É surpreendente andar em cidades onde agências bancárias são peças raras. É incrível brigar exaustivamente para que comerciantes aceitem uma cédula de dólar considerado imperfeita porque alguém a dobrou, o que não ocorre com o quiat, moeda local. É impossível descrever a visita a seis fábricas (mármore, prata, bronze, laca, fumo e seda). Além de os operários trabalharem sem qualquer proteção, os métodos lembram os antepassados mais remotos.

 

No entanto, reconhecemos que a ausência da tecnologia conserva o frescor das pessoas. É impressionante ver como laços familiares e tradições são preservadas, apesar de algumas parecerem insensatas aos nossos olhos, como o caso das “mulheres-girafa” e o uso público de erva chamada detel, que deixa os dentes completamente negros. É interessante presenciar o respeito aos velhos, a simplicidade das vestimentas, a obediência ao calendário lunar e a manutenção da semana com oito dias (a quarta-feira se desdobra em dois dias), e, sobretudo, o sorriso genuíno em rostos de jovens, ou não. Enfim, Myanmar, com número irrisório de divórcios, poucos pedintes e sem violência nas ruas (não obstante seus 2.000 presos políticos), é a prova viva de que o processo desenvolvimentista tem sempre um preço alto a cobrar dos cidadãos.

 

 

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