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Para ver antes do almoço:
a cozinha tradicional paraibana.
(um segundinho até carregar).

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à Coca Cola,
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Léa Maria volta de
Buenos Aires
e conta o que viu lá.

Cahors, no coração da França.
Por Celso Japiassu.

Um olhar sobre a Galícia.

Caio Mourão ensina a fazer um
exótico Risoto de Morangos.

Nei Leandro de Castro confessa
seu amor por Florença e traça o roteiro sentimental de Lisboa.

Dê uma olhada em alguns pratos de restaurantes europeus.


Vale a pena ver como se faz
um leitão.

50 Sonetos de Forno e Fogão:
apresentação,
introdução
,
receitas em a-b-c,
d-e-f
,
j-l-m,
p-r-s-t-v-x
.

Mestre Eça de Queiroz mostra
como se comia na Grécia
e na Roma antigas.


 

 

ALTURAS DE MACHU PICCHU

 

Clemente Rosas

 

I – Cusco e o Vale Sagrado

 

Se você é sexagenário e ainda sente, como eu , atração pelo turismo de aventura , se já pensou em “ encarar ” a trilha inca para Machu Picchu, recomendo que se apresse. Apesar dos cuidados do Governo Peruano , aquele mundo fascinante talvez não se mantenha tão preservado como o encontrei, por muito tempo . Ou então , mais provavelmente, você já não terá forças para chegar , como um verdadeiro peregrino , até ele .

Enfrentei esse desafio a menos de um mês de completar 65 anos , no final de agosto passado , e vinha relutando em transmitir minha experiência : as emoções de um andarilho naquele mundo misterioso, impactante pela geografia , pela história e pela cultura , não são facilmente traduzíveis. Este relato servirá apenas como uma exortação a quem deseje conhecê-lo.

 

Saí de São Paulo para La Paz em avião da LAB (Loyde Aéreo Boliviano), um tanto intranqüilo pela má fama da companhia nos meus tempos de estudante . Mas não houve problemas , e pernoitei na capital boliviana, já iniciando a adaptação às altitudes que teria de enfrentar . O aeroporto de El Alto , fazendo jus ao nome , é o mais elevado do mundo : quatro mil e poucos metros . E a cidade fica apenas duzentos metros abaixo . Qualquer pequena ladeira deixa o transeunte sem fôlego , e o ar gelado e seco fere-lhe as narinas , formando crostas sanguinolentas que , no meu caso , perduraram até mais de uma semana após o retorno ao Brasil.

No entanto, o “sorochi” – mal das alturas, em quíchua, a língua dos incas – só fui sentir no dia seguinte, já em Cusco, para onde prossegui ainda de avião. Talvez porque tenha subestimado as recomendações que me fizeram, de pouca movimentação e comedimento em comidas e bebidas.

 

Chegando no meio da manhã, eu e Eduardo, meu filho e acompanhante, não resistimos à tentação de bater pernas pelas ruas estreitas da cidade, assediados por peruanos de sangue índio e trajes típicos, a nos oferecer artigos de artesanato, descortinando, em cada esquina, velhas edificações incas ou espanholas, muitas vezes superpostas: a Praça de Armas, a Catedral, o convento de Santo Domingo, construído sobre o Qoricancha, o Templo do Sol, ou “recanto de ouro”. Almoçamos um “cuy” com “tamal”, regado a cerveja cusquenha (o “cuy” é um roedor, parente próximo do nosso preá, e “tamal”, uma espécie de panqueca de milho), e, sem tempo para a sesta – de regra para todo bom nordestino – fomos levados pelo nosso guia a conhecer as ruínas dos arredores: Sacsayhuamán, a fonte de Tambomachay, Chinchero, as “terrazas” circulares de Moray, as salinas de Maras. Ao final de uma tarde de escaladas em todos esses monumentos, estava “pronto”: a cabeça doendo e latejando, o corpo esgotado. Tive que recolher-me e fazer uso das “sorochi pills”, as pílulas tão aconselhadas, que me acompanharam desde então, até quase o fim da trilha.

 

No dia seguinte fomos levados de carro até Urubamba, às margens do rio de mesmo nome, tributário do nosso Amazonas, e que por sua vez recebe o Vilcanota, ambos compondo paisagem de rara fertilidade e beleza: o Vale Sagrado dos Incas. Visitamos Ollantaytambo, aldeia que se conserva viva, quase como era antes da chegada dos conquistadores espanhóis, e ponto de partida da caminhada de quatro dias que nos aprestávamos a iniciar. O pernoite em Urubamba, depois de um jantar ao som de músicas peruanas, foi nosso último conforto urbano antes dela.

 

II – A Trilha Inca

 

A caminhada se inicia em um portal indicativo e uma ponte pênsil, nos arredores de Ollantaytambo, onde compramos os indispensáveis cajados, os saquinhos com folhas de coca, água, gorro e luvas para o frio das noites. Já levávamos chapéus, capas para chuva (“ponchos de agua”), repelente para insetos, protetor labial. Desprezei a recomendação do protetor solar, convencido de que o sol dos Andes não poderia ser mais forte que o nordestino, ainda mais para quem estaria de cabeça coberta, calça e camisa de mangas. E estava certo.

 

Quanto ao protetor de lábios, não conseguiu impedir que os meus fossem crestados pelo vento frio. Já os mosquitos praticamente não incomodaram no percurso, apesar da sua fama e do nome pretensioso: “pumahuacáchi”, isto é, “o que faz chorar o puma”. Só fomos conhecê-los no fim da viagem, quando descansávamos numa rua de Aguas Calientes, à espera da hora do trem que nos levaria de volta para Cusco: um ataque súbito e cerrado, que nos fez correr às mochilas, em busca do repelente. O bichinho é como o nosso maruim, bate e pica instantaneamente, deixando uma marquinha preta. Mas no caminho, protegido por calças e mangas compridas, apenas me diverti ao ver as canelinhas cor-de-rosa dos gringos e gringas com quem nos encontrávamos (e para quem toda excursão abaixo do Equador tem que ser de bermudas) cheias de marcas e calombos.

 

O fluxo dos caminhantes, que tende a crescer a cada ano, é controlado: só se pode tomar a trilha acompanhado por um guia local, devidamente treinado para comunicar-se com estrangeiros e incutir-lhes o respeito à ecologia e à cultura nativa. Sete é o número máximo de participantes a cargo de cada guia. No nosso caso, e sem que o tivéssemos exigido, éramos apenas nós dois, escoltados por Walter, o acompanhante, e cinco carregadores, entre eles o cozinheiro e seu ajudante.

 

E aqui vai o primeiro registro de mérito: se algo pode ser rotulado de heróico nessa jornada, é o trabalho desses “porteadores”. Curvados sob o peso de trouxas enormes, que às vezes ultrapassam o limite oficial de trinta quilos, deslocavam-se correndo, ladeira acima, ladeira abaixo, saltando de uma pedra a outra, infatigáveis, para chegar ao local do acampamento antes de nós e preparar tudo para receber-nos. Ali encontrávamos as barracas armadas, a mesa posta, a refeição pronta. Com exceção das mochilas individuais, todo o material era transportado por eles: barracas, fogão, utensílios, alimentos, combustível. A cada manhã nós os deixávamos atrás, desmontando o acampamento, e éramos ultrapassados no caminho. Na próxima parada lá estavam eles, à nossa espera, já com tudo organizado. E quando demorávamos, vinham ao nosso encontro, oferecendo-se para carregar nossas mochilas. Todos índios, alguns sem sequer entender o espanhol.

 

No caminho, como eram freqüentes as ultrapassagens de “porteadores” – além dos nossos, os de outros grupos – recebemos do Walter uma instrução de segurança: abrir passagem sempre do lado externo da estreita trilha, resguardando-nos do lado da montanha. Uma “trombada” de uma daquelas trouxas que excediam as medidas do corpo do carregador – como uma folha levada por uma formiga – poderia muito bem jogar-nos no abismo, montanha abaixo.

 

III – Warmiwañusca

 

Nos dois primeiros dias, caminhamos nas encostas de montanhas pardacentas, variando do marrom-escuro das rochas ao amarelo-creme do capim ressequido, que rescendia a fermentação de bagaceira de engenho. Na medida em que se avança em direção ao norte, e pelo lado leste da cordilheira, a paisagem vai mudando para o verde, e a trilha se esconde na floresta. Andávamos uma média de dez a doze quilômetros por dia, o que não é muito, não fosse o fato de estarmos quase sempre subindo ou descendo escadas íngremes, de pedras irregulares, com degraus às vezes estreitos, de meio metro de altura. A qualidade do piso só melhorava nos pequenos trechos em que o caminho original estava preservado. Pois quando Manco Inca, o penúltimo rei dos Filhos do Sol, em 1536, fracassou em sua rebelião para retomar a cidade de Cusco, e se retirou com seus guerreiros para as selvas da Montanha Velha (Machu Picchu) e Vilcabamba, fez destruir pontes e veredas, para dificultar a perseguição dos espanhóis. E assim eles resistiram por mais 36 anos, até a prisão e decapitação, em Cusco, de Tupac Amaru, o último dos chefes incas. Caminhávamos, portanto, por sendas refeitas, bisonhamente refeitas pelos conquistadores.

 

Nosso primeiro acampamento foi próximo ao sítio arqueológico de Wayllabamba. Além da área plana para armar as barracas, apenas uma torneira ao ar livre, sobre um tanque de lavanderia, e uma tosca latrina. A menos que se quisesse mergulhar nas águas geladas do riacho que corria perto, como fez meu filho, o banho teria que esperar. E assim aconteceu.

 

O segundo dia – já me informara suficientemente – era o grande teste para os caminhantes: dez quilômetros de subida quase ininterrupta, sem talvez cem metros de terreno plano. Tanto que, antes de encarar-se o trecho que leva ao ponto culminante, há um desvio para um posto médico, onde são avaliados os que demonstram não estar bem, e aí se decide se podem prosseguir. Pois a partir dali não haverá mais socorro, e a volta será extremamente penosa.

À medida que ganhávamos altura, a respiração ia ficando mais difícil, e as paradas para tomar fôlego, mais freqüentes. A cada vinte passos. A cada dez degraus. A cada cinco. Acabei por aceitar a oferta de Eduardo, deixando-o levar a minha mochila, além da dele. E até mesmo a bolsa de lã de alpaca, que havia comprado para guardar passaporte, dinheiro e pequenos objetos, e levava a tiracolo, parecia pesar ao meu pescoço como uma pedra-mó. Passei-a também ao guia Walter. E pedi de empréstimo o “bastón” do meu filho.

E foi assim, apoiando-me em dois cajados, erguendo o corpo com os braços, já que os músculos das pernas quase não respondiam, ouvindo, em várias línguas, os apelos de encorajamento de andarilhos que já se achavam no topo, e até mesmo o som de uma flauta inca, tocada por um peruano, foi assim que afinal cheguei a Warmiwañusca. “El Paso de la Mujer Muerta”, como tal chamado pela silhueta de uma mulher deitada que a montanha, de longe, parece compor. 4.215 metros.

 

Poucos minutos depois, após os cumprimentos e a foto ao lado do marco indicativo, comecei a enregelar, ao vento sem obstáculos daquele cume. Foi preciso vestir às pressas casaco, luvas, gorro. E fazer face a nova realidade, não muito menos dura: para chegar ao próximo acampamento, em Pacaymayo, era preciso descer ainda uns dois quilômetros de escadarias violentas. Aí já não faltava o fôlego, mas o cuidado para prevenir acidentes era extremo, diante da irregularidade do piso: cada pedra com uma inclinação diferente. Aos 65 anos, as articulações inspiram cuidado. Um entorse de tornozelo, uma lesão no joelho seriam desastrosos naquela hora.

 

IV – A “Montanha Velha”

 

Não encontramos maiores comodidades em Pacaymaio, o segundo acampamento. Apenas pias e vasos sanitários, e a mesma água gelada, desencorajando abluções mais abrangentes. O terceiro dia foi ainda de grande esforço, já não tanto pelas subidas, mas pelas descidas bruscas e pela distância a vencer. Passamos pelos sítios arqueológicos de Runkuracay, Sayacmarca e Puyupatamarca, rejeitando a opção de pernoitar nas proximidades deste: pelo desabrigo da área do “camping” e pela altitude de 3.640 metros, a noite se prenunciava enregelante – em torno de zero graus. Além disso, valia a pena chegar a Wiñayhuayna, a “Fonte da Juventude”, mesmo no escuro, a fim de desfrutar da maior comodidade desse último pouso: chuveiros elétricos, bar e até alojamento para quem arrenegasse a barraca. E também para, saindo de madrugada, alcançar Machu Picchu, a “Montanha Velha”, na luz da manhã, quando se faz mais deslumbrante, e ainda não estaria cheia dos turistas ricos e flácidos que sobem de ônibus, pelo outro lado, e se hospedam no hotel cinco estrelas que fica na entrada da cidadela.

 

Em Wiñayhuayna, apesar dos atropelos iniciais de acomodação – apenas dois chuveiros para mais de meia centena de caminhantes esbaforidos, ausência total de cabides, difícil regulagem das torneiras de água quente e fria – confraternizamos com algumas companheiras de peregrinação: australianas, americanas, as brasileiras que documentaram os lances finais da minha quase agônica escalada a Warmiwañusca. E nos despedimos dos nossos “porteadores”, cuja tarefa ao nosso lado se encerrava com aquele pernoite. No dia seguinte, desceríamos de ônibus de Machu Picchu, e almoçaríamos em Aguas Calientes, estação terminal da nossa jornada.

 

O trajeto do quarto e último dia foi mais ameno, até mesmo pela perspectiva da chegada, O objetivo se achava próximo. Ao final, apenas mais um sacrifício: uma escadaria tão íngreme que teve de ser galgada com mãos e pés. No seu topo, o derradeiro “paso”, estava Intipuncu, a “Porta do Sol”, umbral de onde se descortina, em toda a sua magia, a Cidade Sagrada. A nossos pés, estendendo-se de forma ascendente pelo dorso da montanha, livre da cobertura florestal que a escondeu por mais de trezentos anos, e restaurada pelo Governo Peruano, só lhe faltavam os antigos tetos de palha.

 

No gramado dos seus pátios internos pastavam tranqüilos lhamas. No seu limite superior, erguia-se o cerro de Uchuy Picchu, a “Montanha Bebê”, e mais atrás, um pouco à direita, a massa imponente de Wayna Picchu, a “Montanha Jovem”.

Na pequena descida até o controle de entrada, cumprimos mais um dos rituais sugeridos aos peregrinos. Diante da grande pedra representativa de Pachamama, a “Mãe Natureza”, colocamos nossas oferendas: pedrinhas de granito colhidas no começo da viagem. E soprando três folhas de coca em direção às montanhas, agradecemos a proteção merecida no percurso, que havíamos solicitado, com idêntico gesto, no momento da partida.

 

Já dentro da cidadela, ouvimos, sentados na relva, longas explanações do nosso guia sobre cada uma das verdadeiras relíquias que íamos visitar: o Templo do Sol, o Templo do Condor, o Templo das Três Janelas, a provável “sala de banhos” do imperador, o observatório astronômico de Intihuatana (“onde se amarra o sol”), por onde se orientavam os incas para semear e colher. E o fizemos em perfeita quietude, com a atitude reverencial que o ambiente estava a exigir. Pudemos até mesmo contemplar um beijaflor nos galhos de um arbusto de jardim, e uma furtiva chinchila, a vigiar-nos de uma fresta entre as pedras. A missão estava cumprida.

 

V – Aguas Calientes

 

Descemos em meia hora, de ônibus, para Aguas Calientes, vilarejo espremido nas duas margens de um riacho, no fundo de um grotão, ao pé da montanha. Um pequeno arruado, apenas para hospedar os que chegam até ali de trem e sobem de ônibus para a Cidade Sagrada. E para lhes oferecer, após o passeio, o relaxamento de um banho em fonte de águas sulfurosas, tépidas como o nome indica. O aglomerado urbano quase se resume à estação de trem, ao ponto de saída dos ônibus, uma pracinha com a estátua de Pachacutec, O Reformador (nono da dinastia inca), pequenos hotéis e uma fila de restaurantes e lojas de artesanato e “souvenirs”. No lado mais alto do grotão, a nascente das águas medicinais e as termas, com banheiros, piscinas de água morna e bicos de água fria, para os que apreciam expor-se aos choques de temperatura.

 

Passamos o resto do dia descansando e programei apenas ir às termas, na manhã seguinte. Meu filho, que no vigor dos seus trinta e cinco anos, já havia galgado, na véspera, a “Montanha Bebê”, enquanto eu e Walter esperávamos sentados em Machu Picchu, propôs voltarmos lá, para escalar também Wayna Picchu, como novo desafio. Sensatamente, declinei do convite, combinando esperá-lo no balneário, em sua volta. E lá se foi ele, na primeira claridade, pegar o ônibus de volta à cidadela para, a partir daí, encarar a majestosa “Montanha Jovem”. Sem mochila às costas, venceu rapidamente a trilha, tomando ainda uma variante para conhecer a Grande Caverna, e dentro dela o Templo da Lua, do outro lado da serra. E conseguiu, mesmo assim, encontrar-me, horas depois, quando eu já quase cochilava no calor aconchegante de uma piscina, o olhar perdido entre murais representativos da cultura inca e o verde das encostas.

 

Enquanto me dirigia para as termas, ao longo do arruado, a pé, pois lá não há qualquer forma de transporte urbano para andarilhos estropiados, observava a paisagem e avaliava a brutal diferença daquela orografia para a nossa. As montanhas são altíssimas e abruptas, com neve nos picos mais elevados. Ali onde estávamos, o sol só se mostra após dez horas, e já se esconde às quatorze, embora sua luz difusa seja suficiente, em todo o correr do dia. Que diferença para o nosso sol nordestino, que emerge muitas vezes do mar, às cinco e meia, e se põe doze horas depois, na planura ou entre suaves colinas!

 

Enfim, minimamente recuperados, tomamos, à tarde, o trem de volta para Ollantaytambo, seguindo daí, de carro, para Cusco. Um jantar regado a bom vinho, ao som de um conjunto musical típico, seguido de um breve giro pelo frio da noite cusquenha, povoado de jovens turistas dos quatro cantos do mundo, foi o evento final da nossa aventura em terras peruanas. Na manhã seguinte, embarcamos no avião para La Paz e, no outro dia, retornamos ao Brasil. Nove dias intensos, inesquecíveis, vividos como se fossem semanas, ou meses.

 

 

VI – As Lições da Terra

A primeira reflexão que me veio à mente, naqueles dias de peregrinação, é a que está nas linhas iniciais de “Terra dos Homens”, a obra-prima de Saint-Exupéry, leitura fundamental da minha adolescência: “Mais coisas sobre nós mesmos nos ensina a terra que todos os livros. Porque ela nos oferece resistência. O homem se descobre quando se mede com o obstáculo... O camponês, em seu labor, arranca pouco a pouco alguns segredos à natureza, e a verdade que obtém é universal”. Logo percebi que a ferramenta para alcançar essas verdades não é apenas o arado dos camponeses, ou o avião de Saint-Ex, mas também o cajado dos andarilhos.

 

As pequenas questões que nos enervam, na rotina doméstica ou profissional, perdem toda a importância, dando lugar a um desejo intenso de integração àquele ambiente mágico, a um tempo selvagem e sofisticado, e de empatia com a sua gente. Existe a preocupação, por parte dos anfitriões, em fazer-nos entrar no clima místico em que viviam os Filhos do Sol, em quase contubérnio com a Mãe-Natura: as folhas votivas de coca, as pedrinhas de oferenda, o alto significado transmitido de cada acidente geográfico, de cada ruína. Aceitando o jogo, prestamos a devida reverência à terra e aos que a povoam, desde muito antes de Colombo, e, humildemente, nos dispomos a aprender com eles.

 

Assim, com um pouco de boa vontade, conseguimos ver, na silhueta das montanhas, as formas dos seus animais sagrados: o puma, o condor, a serpente. E até do lhama, bicho tão dócil e tão pródigo, o único já posto a serviço do homem nas Américas, ao tempo do seu “descobrimento”. E ficamos sabendo que a cidadela de Machu Picchu compõe o desenho de um lagarto, assim como Cusco o de um puma, e Ollantaytambo, no Vale Sagrado e centro da produção de milho, o de uma espiga. O Vale Sagrado, aliás, é identificado com a Via Láctea. E até Wiracochan, o enviado de Wiracocha, O Criador, tem seu rosto esculpido em perfil numa escarpa rochosa, parecendo adormecido ou desperto, conforme incidem os raios solares sobre o buraco do seu olho. Monoteístas na interpretação dominante, pois que Inti, o Sol, situa-se no topo da sua hierarquia religiosa, os incas parecem também panteístas, na medida em que sacralizam animais, astros e acidentes geográficos.

 

A outra reflexão é sobre a brutalidade da conquista espanhola, que massacrou aquela civilização de aspectos tão refinados, tanto na arquitetura harmoniosa, despojada e sólida, como nas práticas agrícolas racionais e no trato não predatório com a natureza. Vistos pelos incas como semideuses, os espanhóis, na verdade, só os superavam no uso militar dos cavalos, nos canhões e na total falta de escrúpulos. Assim seqüestraram o imperador Atahualpa, fizeram-no pagar montes de ouro e prata por um prometido resgate, e o executaram. Em supremo requinte de crueldade, forçaram-no a converter-se ao Cristianismo e ser batizado, para escapar à fogueira e morrer pelo método cristão do "garrote vil". Demoliram os templos dos conquistados e sobre eles construiram as suas igrejas, que depois não resistiriam, como as edificações anteriores, à ação dos terremotos. E ainda assim a cultura inca sobreviveu, para maravilhar-nos com a riqueza dos seus mitos e a sua “cidade perdida”.

 

Como racionalista que sou, contudo, não me deixei envolver ao ponto de embarcar na canoa brumosa da fantasia, mantendo-me numa atitude de respeito e ameno esforço de compreensão. Não me plantei, como os que buscam experiências místicas de varejo, ao fundo dos "andenes” circulares e concêntricos de Moray, para passar a noite na companhia das estrelas, à espera de eflúvios cósmicos ou de contactos do terceiro grau com extraterrestres. De qualquer modo, vivi um instante de arrebatamento que desejo reportar, ao final desta crônica.

 

Em Cusco, andei procurando uma espécie de pedra de culto, de que nos falavam, a “Pedra dos Doze Ângulos”. Acabamos por encontrá-la, no meio de uma muralha: nada de especial, a não ser a precisão com que os seus doze ângulos se ajustavam às outras pedras, dos lados. Mas tinha a montar-lhe guarda, em trajes de rei inca, um índio da cordilheira, cujas feições pareciam extraídas de uma velha gravura. Na verdade, um pobre camponês à espera de alguns trocados dos turistas passantes. Em certo momento, vi-o até vacilar, como que tomado pelo cansaço de tantas horas em pé. Por um “sol” de gorgeta, aceitou deixar-se fotografar ao nosso lado. Mas antes, muito sério, em breve pronunciamento, desejou-nos “buena suerte”, colocou na minha cabeça uma espécie de turbante e ergueu o cetro sobre o ombro do meu filho, posando entre nós dois.

 

Aquela atitude de um simples homem do povo, como a revogar a História e a viver, por um momento, a sua fantasia de rei, para colher-nos e honrar-nos, me fez ficar com os olhos úmidos de emoção. Pieguice? Sentimentalismo? Que me julguem os leitores. Mas sem dúvida o farão melhor quando tiverem, como eu, deixado as marcas dos seus passos nas pedras da Trilha Inca.

 

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