Manaus: A Pérola Decaída

La Maria Aaro Reis*

 

Manaus (origem da palavra em língua indígena: mãe dos deuses) tem, hoje, uma população de dois milhões de habitantes. Um Distrito Industrial que já foi conhecido como “zona franca” – com dezenas de fábricas ainda em operação; a Honda emprega 11 mil operários - e não apresenta, praticamente, mais qualquer edificação da sua interessante arquitetura espanholada - coquetel de ares caribenhos, colonização europeia, ciclo da borracha, atmosfera de começo do século passado. Exceções, o célebre Teatro Amazonas, o Palácio Rio Negro e raros casarões mal cuidados.

 

No passado, mais para Caribe colombiano que para Brasil; bem mais para Venezuela e Peru que para o Sul. Hoje Manaus é uma cidade desfigurada.

 

Ilha emoldurada por magnificas florestas, centro, foco e fascínio de todas as populações do planeta, é recortada pelos sinuosos igarapés em cujas margens favelas de palafitas se multiplicam. No seu lugar, foram construídos, em alguns igarapés, conjuntos habitacionais populares sem esgoto.

 

De Manaus não saem estradas importantes e a sua comunicação com o mundo é feita através de barco e avião. Rodeada pela floresta amazônica, tão aquática quanto terrestre, e pelas águas do portentoso Rio Negro e do Solimões, que logo adiante se reúnem para formar o espetacular Amazonas, a cidade tem clima permanentemente difícil. É quente, muito quente e úmida sempre, sufocante durante o verão e chuvosa no inverno. Há tempestades de rotina, fortes e rápidas, pingos de água enormes e violentos. O clima de Manaus se divide nos meses das cheias e no tempo da vazante e a melhor época para conhecer a região é a partir de setembro – 23% dos visitantes são europeus e sul e norte-americanos. Dados de 2006.

 

O meio ambiente local é frágil e delicado e de equilíbrio precário. Não o respeitam. Por outro lado, a floresta é uma das mais poderosas atrações turísticas que se tem notícia.

 

Chegamos a Manaus quando a marca histórica das cheias, 29.76, de três anos atrás, acabava de ser superada. Antes, o nível das águas permaneceu nessa mesma marca durante 30 anos. Aliás, não entendi o motivo do orgulho de alguns habitantes locais com a superação da tal marca. A cheia de agora é resultado do desmatamento local da floresta, da falta de rede de esgoto (diz-se que apenas 10% da cidade possui rede instalada) e, comentam outros, do entupimento de galerias urbanas pluviais.

 

As ruas do Centro se encontravam alagadas, o prejuízo do comércio, grande, e o principal mercado de abastecimento de alimentos estava inundado pelas águas do Rio Negro e cheirava mal. O lindo prédio histórico do Mercado Municipal, na beira do rio, também encharcado, se encontrava em obras. Se por um lado não encontrei os mosquitos contra os quais fui prevenida por meus amigos do Sul, por outro risquei das refeições as saladas de folhas, legumes e verduras cruas. A conta da situação era alta: setenta e cinco mil famílias desabrigadas. As águas fétidas continuariam subindo até junho, quando então param as chuvas. Na vazante começa o tempo das grandes pescarias turísticas. Surgem carcaças de geladeiras e esqueletos de sofás no fundo das águas dos igarapés.

 

Apesar da cidade depauperada, tão pouco conhecida no Sul, é uma experiência ir à capital do Amazonas. O povo, gentil e atencioso, já se acostumou às multidões de turistas asiáticos, europeus e americanos que não param de chegar. Ainda não absorveu todos os vícios da atividade turística que pode trazer progresso e dinheiro, mas que sem regulamentação envenena uma cidade. As tentativas de exploração do visitante, na rua, são uma realidade local.

 

Há redes de hotéis estrelados, de cadeias internacionais, com um pessoal razoavelmente bem treinado e com os serviços de costume - nada excepcional. As excursões em barcos são a grande atração e o fascínio de Manaus. Passeios rápidos à outra margem do Negro, em pequenos barcos que saem do porto da Ceasa e duram cerca de uma hora para os turistas admirarem o encontro do rio (águas barrentas, escuras) com o Solimões (águas claras) e das duas que, espantosamente, não se misturam. Excursões de pescarias em lanchas e iates contratados nos hotéis e em pacotes pré-fabricados.

 

Manaus é a pérola da joia da coroa do turismo nacional. Deveria ser mantida respeitosamente. Ela é a porta de entrada para a região amazônica profunda.

 

O que fazer, na cidade: saborear o molho do tucupi e o tacacá, pratos turísticos da região. Come-se tacacá e açaí nas dezenas de barraquinhas de calçada. Deliciar-se com a costela de tambaqui, um dos mais gostosos peixes amazônicos, acompanhado da excelente farinha d’água e arroz com ervas, em algum restaurante popular. Procurar pelos temperos hoje em moda em finos restaurantes do Rio, de São Paulo e de Paris, como o cumaru, só encontrado a partir de setembro, no Mercado Municipal ou na feira provisória erguida ao lado, enquanto durarem as obras e quando as águas baixarem.

 

Comer tambaqui ou qualquer peixe amazônico, porque são todos deliciosos, na Peixaria do Joca, no bairro de São Raimundo: varanda modesta, birosca com meia dúzia de mesas toscas, cerveja gelada e uma brisa que vem do rio, lá em baixo, com o céu magnífico do Amazonas de acompanhamento. É imperdível. Outro lugar popular – este, turístico – é a Peixaria Moranguetá, vizinho da Ceasa, no bairro de Vila da Felicidade. Sentado numa de suas mesas se vê o tal encontro das águas.

 

No Centro de Manaus a livraria Valer oferece várias estantes com vasta literatura amazônica. Recomenda-se uma visita – os autores são da região. No volume Amazônia, Globalização e Sustentabilidade, Admilton Salazar, professor de Economia da Universidade Federal do estado do Amazonas (Ufam), faz uma recomendação. É também uma advertência que cai como uma luva para a situação atual do turismo em Manaus e na Amazônia: “Ecoturismo não é para amadores. Vultuosos investimentos específicos são necessários: pré investimentos básicos em educação, saúde, saneamento e segurança além de lodges na selva, parques etc.

 

” Se não tomarmos, urgente, esses cuidados, de modo honesto e levados a sério, daqui a pouco tempo não teremos mais argumentos contra os de fora que, de tempos em tempos, pedem uma Amazônia internacional para melhor preservá-la.

 

 

*Jornalista

 

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