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Para ver antes do almoço:
a cozinha tradicional paraibana.
(um segundinho até carregar).

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Caio Mourão ensina a fazer um
exótico Risoto de Morangos.

Nei Leandro de Castro confessa
seu amor por Florença e traça o roteiro sentimental de Lisboa.

Dê uma olhada em alguns pratos de restaurantes europeus.


Vale a pena ver como se faz
um leitão.

50 Sonetos de Forno e Fogão:
apresentação,
introdução
,
receitas em a-b-c,
d-e-f
,
j-l-m,
p-r-s-t-v-x
.

Mestre Eça de Queiroz mostra
como se comia na Grécia
e na Roma antigas.


 

Passagem para o Vietnã (I)

 

 

CIDADE ABERTA DE HO CHI MINH

 

Léa Maria Aarão Reis*

 

 

Desembarque no aeroporto internacional da Cidade de Ho Chi Minh, ex- Saigon, no meio da tarde, depois de 14 horas do vôo de 10 mil quilômetros, iniciado em Paris. São seis horas de diferença de fuso horário para mais, o calor é acachapante e a sensação é de estupor.

 

A passagem pela polícia da República Socialista do Vietnã, na chegada, foi tranqüila, os funcionários são corteses e nada lembra o contato áspero dos policiais europeus.

Saio, estonteada, do moderno edifício bem climatizado do aeroporto, sem dúvida muito mais confortável que o Tom Jobim do Rio de Janeiro, e entro na camionete Suzuki estalando de nova, acompanhada pela jovem guia Thao, que se encontra estacionada em um gigantesco estacionamento, à nossa espera. Mergulho no caos do trânsito da cidade.

 

O ritmo é frenético, e hordas de milhares de motos, chinesas, coreanas e japonesas, lambretas, vespas e bicicletas circulam, envolvendo, perigosamente, o nosso carro. No país todo são 2 milhões de motos circulando. Novas, elas custam ao vietnamita cerca de 700 dólares.Vêm buzinando, resfolegando e carregando duas, três, quatro ou mais pessoas cujo equilíbrio e habilidade me lembram os malabaristas de circo. São poucos os automóveis e quase não há ônibus.

 

É bom esquecer, nessa chegada ao Vietnã, as imagens orientalistas tradicionais, a ficção de Somerset Maugham sobre o Oriente colonizado, as memórias de Marguerite Duras e os filmes clássicos americanos sobre as colônias européias.

 

Aqui, as referências são outras. Estão mais para O Americano Tranqüilo , de Graham Green e para Indochina , de Catherine Deneuve.

 

Estamos em um país socialista – mas budista -, de 80 milhões de habitantes que trabalham freneticamente, como formigas determinadas, para entrarem na festa da economia asiática globalizada.

 

O país cresceu 8 %, em 2006. Uma proeza, tendo em vista que há apenas vinte anos o Vietnã, unificado, abriu-se para o mundo, com o turismo, depois de passar uma década fechado sobre si mesmo, se reconstruindo e lambendo as profundas feridas causadas pelo que chamam de “guerra americana” ou “guerra da reunificação”.

 

Em onze meses de 2006 o país recebeu 3 milhões e 300 mil turistas, mais 2,5% do que no ano anterior. Em novembro passado foi visitado por mais de 300 mil estrangeiros, mais 30 mil do que em outubro, e vai nessa velocidade, junto com a Tailândia e com a India se alinhando como um dos destinos turísticos orientais mais em moda na Europa.

 

A terra arrasada pelos bombardeios impiedosos dos aviões B-25 foi saneada, embora o país quase tenha voltado à “idade da pedra”, como, aliás, prometeu fazê-lo, nos anos 60, o comandante Westmoreland, então chefe das forças americanas na guerra. Os vietnamitas deram a volta por cima. E que volta.

 

Plantaram, novamente, nas terras devastadas. As vítimas civis atingidas pelo napalm e pelo agente laranja - cujos terríveis vestígios ainda haveremos de ver, nos próximos dias, no Museu da Guerra da Cidade de Ho Chi Minh e nos homens e mulheres aleijados cruzando conosco, especialmente nas ruas de Hanói – estão sendo assistidas por firmes políticas públicas. A população não passa mais fome, como antes. Pelo contrário: melhora, a cada dia, o padrão de vida e recebe, amistosamente, os grupos de turistas americanos que saem da visita ao impressionante Museu da Guerra com lágrimas nos olhos, depois de percorrer as galerias de fotos com os horrores da guerra. Se o general os visse!

Nossa excursão de vinte dias começa pela cosmopolita Cidade de Ho Chi Minh, no Sul, próxima do histórico delta do Mekong. Depois, vai passar pelo centro do país, pela cidade imperial de Huê e balneários de Da Nang e Hoi An, no paralelo 17 – que cortava o Vietnã em dois, de 1954 a 1975 – e terminará no norte, em Hanói, no delta do Rio Vermelho, com a ida obrigatória à extraordinária baía de Halong, um cartão postal do país e patrimônio da Humanidade, no Mar do Sul da China. É lá que repousam os “dragões de pedra” – impressionantes formações rochosas, que segundo os mitos nacionais protegem o país e, certamente, ajudaram a botar para correr as tropas americanas de Nixon.

 

Muitos grupos de turistas, alemães, americanos, franceses, neozelandeses, australianos e asiáticos de várias origens circulam pelo lobby do bonito e confortável hotel Grand, o quatro estrelas onde nos hospedamos, no distrito turístico da Cidade de Ho Chi Minh.

 

Percebe-se que houve várias intervenções arquitetônicas no prédio, mas ainda dá para apreciar a famosa “arquitetura da Indochina”, uma mistura fascinante do art decô europeu com elementos asiáticos. Ela é um dos inúmeros estilos arquitetônicos que vão se apresentar, durante a viagem - referências às diversas fases que o país já viveu, invadido pelos chineses, controlado por japoneses, colonizados pelos franceses e parceiro dos soviéticos, mas sempre rechaçando o invasor e consolidando sua identidade única e própria.

Hoje, há uma autêntica arquitetura vietnamita.

 

No Grand, as palmeiras estão nos pátios, na beira da piscina, nos largos corredores e nos varandões arejados. Os elevadores são antigos, há ladrilhos hidráulicos no piso e grandes janelas na fachada. Os apartamentos amplos e com o teto alto têm pequenos balcões. Neste cenário retrô, só falta um piano tocando um tango ou o clássico I'm in the mood for love , como nas melancólicas trilhas musicais dos filmes de Wong Kar-Wai.

 

As avenidas da ex - Saigon são largas, traçadas como os boulevards franceses, com dezenas de restaurantes. Os mais chics, em locais fechados; os populares, improvisados nas calçadas, oferecendo phö, a sopa de peixe com tamarindo que vem a ser uma instituição nacional.

 

A cozinha vietnamita de Saigon é sofisticada e mais leve que a chinesa porque usa mais ervas e não tem tanta fritura. É mais delicada que a tailandesa e a indiana porque menos condimentada. Nos restaurantes mais caros, bem baratos para quem tem dólares no bolso (a moeda local é o dong e o dólar vale cerca de 16 mil dongs), a sucessão de pequenos pratos, como no dim sun chinês, é uma aventura. Nesse menu tour as delícias são a salada de lótus ( goi sen ), a carne cozida no coco, peixe com tomate, porco, cogumelos e o arroz de jasmim cozido no vapor e (sempre) levíssimo.

 

Em alguns cardápios o tour chega a nove pratos perfumados, coloridos e arrumados com arte. Sopas, caldos, saladas, massas, rolinhos, pastéis e bolinhos, carnes, vários tipos de arroz e uma imensa variedade de frutos do mar.

A base da cozinha está nas raízes de bambu, de lótus, dos cogumelos de vários tipos, no coco e no gengibre. Acompanha cerveja estrangeira ou a vietnamita ( Tiger, Saigon e 333 ou bababa , que é ótima) ou o vinho de arroz e bons vinhos franceses – que não custam muito.

É vasta a variedade de frutas: muitas são familiares, mas as melancias e as bananas são mais saborosas que as nossas e as minúsculas tangerinas, sem caroço, são deliciosas. A fruit du dragon , prima da fruta de conde, além de linda e decorativa, é gostosa.

 

De sobremesa, arroz doce ou arroz de coco. E, no final, chá verde, que deve ser tomado só algum tempo depois de terminada a refeição, como é o hábito local, para queimar gorduras e facilitar a digestão.

 

Nas ruas e avenidas da Cidade de Ho Chi Minh há lojas onde se vende, a preços bem baratos, o que o turista procura: objetos de laca, de chifre de búfalo, cestaria, e, em especial, rattan, cerâmicas, porcelanas, sedas, gravuras, roupas, miudezas, quimonos e os chapéus cônicos - os nón là -, feitos de folha de palmeira envernizada e usados para proteger do sol.

 

As livrarias proliferam e estão sempre cheias. Em algumas delas há salas especiais para as crianças, que passam tardes de domingo, lendo. O movimento editorial é intenso e publica-se em vietnamita e em inglês. Lê-se muito, no Vietnã. Hoje, o país tem 85% da população alfabetizada, incluídas as populações das dezenas de minorias étnicas que, em geral, vivem nas montanhas.

 

A vida nas calçadas é animadíssima, embora em Hanói é onde ela atinge o seu ápice. Barbeiros cortam cabelos de clientes, sapateiros trabalham, vendedoras de água de coco – e de tudo – circulam. Jovens vestidas com o ao dai - a roupa símbolo do Vietnã e expressão de feminilidade, no país, com pantalona preta e túnica longa e lascada dos lados – procuram atrair clientes para dentro das lojas. Todos, vendedores e fregueses se aboletam em banquinhos para beber, comer, conversar, jogar cartas, xadrez ou gamão, ver a vida passar e brincar com as crianças.

 

Não vi mendigos nem pedintes nessas calçadas que evocam, ainda hoje, a cosmopolita Saigon, cidade aberta, no passado e no presente. Elas representam um prolongamento do interior das casas, cujo espaço é exíguo, e abrigam famílias numerosas. É tal o problema da falta de espaço urbano que, para se ter uma idéia, cada habitante de cidade vietnamita dispõe, para si, de apenas um metro e meio quadrado para se movimentar dentro de casa!

 

Uma simpática herança cultural deixada pelo colonizador francês é a dos cafés com mesas nas calçadas. Estão sempre cheios, têm música, são animados e barulhentos. Uma pena que o café na calçada do célebre Hotel Metrópole, na praça da Ópera, local central no livro de Graham Greene, O Americano Tranqüilo , não exista mais, embora o hotel também tenha sido cenário da segunda versão do filme e exista, ainda hoje, no mesmo lugar e com relativamente poucas modificações na elegante fachada afrancesada.

 

As ruas limpas do distrito turístico dos hotéis não são as mesmas das de Cholon, por exemplo, o empoeirado bairro chinês no qual está o templo budista de An Quang e um gigantesco mercado no qual se vende toda a pirataria chinesa imaginável.

 

Mas barulho, em todas as ruas da Cidade de Ho Chi Minh, é o que não falta, desde o raiar do dia até a alta madrugada. Como na Índia, no Vietnã também dirigem com o dedo na buzina. Praticamente não existe sinalização de trânsito nem sinais nos cruzamentos, e é preciso buzinar o tempo todo para avisar “estou aqui, atrás de você”, “estou me aproximando” ou “vou virar à esquerda”.

 

Quase todos os motoristas, em especial as mulheres, usam máscara tipo cirúrgica para se proteger do ar poluído e para resguardar a pele do sol. A pele bem clara das moças atrai bom marido e significa status.

 

No espetáculo envolvente e ensurdecedor, de cores, luzes, movimento, sons e formas que é a rua da cidade vietnamita, o mero ato de atravessar a rua já se transformou em atração turística. Como o fluxo do trânsito não pára, é freqüente, diante dos grandes hotéis, um bell boy munido de uma tabuleta, reunir grupos de turistas para atravessá-los, vagarosamente, para o outro lado da rua.

 

Quem não quer depender de porteiro, e se não aparecer alguém para oferecer ajuda – o que é raro – uma boa dica é atravessar a rua, lentamente, para que os motoristas possam desviar de você ! Com coragem e olhando fixo para a frente , sem virar para os lados. Do contrário, você desiste ao ver a onda de motos, bufando, avançando na sua direção.

 

A estrada para o delta do Mekong é bem asfaltada, tem duas largas pistas, sem buracos, e é ladeada por infindáveis terraços de plantações de arroz e de alagados onde florescem os lótus. No caminho, a paisagem é pontuada por grupos de lindas adolescentes uniformizadas com o ao daí , pedalando nas bicicletas, na saída do colégio.

 

É uma periferia que lembra a Barra da Tijuca. Planície a perder de vista e grandes canteiros de obras dos quais sobem conjuntos habitacionais impessoais e altos edifícios. Ali, a cidade busca mais espaço para os seus habitantes.

 

O embarque no pequeno porto é num sampan, e vamos almoçar em um dos inúmeros pequenos restaurantes nas dezenas de ilhotas do delta. As mesas são dispostas em um quintal ajardinado, e nos alpendres as pachorrentas redes estão esticadas. Poderíamos estar em local semelhante, no interior de Minas, sem qualquer diferença – as mesmas alamandas, jasmins, buganviles, até as marias-sem-vergonha, com os mesmos cheiros e perfumes. Nada que lembre a carnificina da guerra naquele delta, as terríveis investidas dos invasores noticiadas, diariamente, pela mídia do planeta, nos anos 60.

 

Mas o Museu da Guerra, no centro da cidade, que recebe milhares de visitantes por ano, não deixa esquecer. Lembra que 3 milhões de vietnamitas morreram enquanto ela durou – aliás, por coincidência, hoje, também são

3 milhões de vietnamitas que vivem fora e são estimulados pelo atual governo para voltar para o país: médicos, agrônomos, arquitetos, engenheiros, professores, técnicos das mais diversas formações.

 

Dentre centenas de outras, as fotos de Robert Capa, morto no Camboja, estão nas paredes do museu, assim como a foto original do premio Pulitzer Nick Ut, a menina nua correndo por uma estrada bombardeada, depois de atingida pelo napalm, na época uma foto ícone da guerra do Vietnã. Ao lado, a mesma garota, já mulher, com o filho no colo e mostrando as costas definitivamente deformadas pelas queimaduras.

 

Também memória de guerra e visita turística obrigatória é o Parque da Defesa, nas florestas nas imediações da cidade, onde é mostrado o impressionante complexo de três andares de túneis subterrâneos Cu Chi, no qual viveram e resistiram os vietcongs, durante anos. Debaixo da terra, refeitórios, cozinhas, dormitórios, ateliês e até salas de cirurgia. São poucos os turistas que descem pelos mínimos buracos (onde se colocava pimenta para confundir os cães farejadores dos americanos). Eles foram cavados para que apenas os guerrilheiros vietnamitas, pequenos e magros, pudessem descer.

 

Vemos os tecidos dos uniformes e as sandálias de borracha para homens e mulheres, fabricados nos túneis Cu Chi, com as solas de modo a disfarçar direção das pegadas. E visitamos os respiradouros por onde saía a fumaça que se misturava à neblina quando, antes do sol nascer, era cozido o arroz nas cozinhas sob a terra.

 

A visita mais tocante é à casa onde Ho Chi Minh – “tio” Ho, como o chamam os vietnamitas, até hoje – viveu, à beira do rio Saigon, quando o país era colônia francesa. No passado, foi a alfândega do porto. Hoje, é um pequeno museu com seus pertences pessoais: as sandálias de borracha, os óculos, equipamentos para a sua ginástica diária, um exemplar de um dos paletós cáqui que, invariavelmente, vestiu, de 54 a 1969, quando morreu. A máquina de escrever, poesias manuscritas, o microfone com o qual declarou o Vietnã independente, em 1945 e muitas fotos dos primeiros 30 anos do século passado, quando Ho Chi Minh viveu em Paris, onde estudou, em Londres e em Nova Iorque trabalhando como garçom.

 

O bonito prédio do museu, muito simples, é de arquitetura indochinesa clássica. Dos seus jardins bem cuidados admiro o skyline da cidade, do outro lado do rio, ao pôr-do-sol. As luzes de edifícios / torres começam a acender e há gigantescos outdoors de propaganda de bancos de investimento estrangeiros e de marcas de automóveis japonesas, nas margens do rio Saigon.

 

Um pouco de música ainda sai dos alto falantes dispostos em vários cantos do jardim pelo qual ninguém mais circula porque é tarde e o museu está fechando. Dá tempo, no entanto, de comprar o pequeno volume com o testamento de Ho Chi Minh na butique. Em seguida, sou a última visitante, retardatária solitária atravessando as aléias do espaçoso jardim musical, no lusco fusco, ao som de nostálgicas canções russas.

 

(continua)

 

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