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Um roteiro da cidade de Natal, por Nei Leandro de Castro.

Para ver antes do almoço:
a cozinha tradicional paraibana.
(um segundinho até carregar).

Atlanta, da Guerra Civil
à Coca Cola,
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Léa Maria volta de
Buenos Aires
e conta o que viu lá.

Cahors, no coração da França.
Por Celso Japiassu.

Um olhar sobre a Galícia.

Caio Mourão ensina a fazer um
exótico Risoto de Morangos.

Nei Leandro de Castro confessa
seu amor por Florença e traça o roteiro sentimental de Lisboa.

Dê uma olhada em alguns pratos de restaurantes europeus.


Vale a pena ver como se faz
um leitão.

50 Sonetos de Forno e Fogão:
apresentação,
introdução
,
receitas em a-b-c,
d-e-f
,
j-l-m,
p-r-s-t-v-x
.

Mestre Eça de Queiroz mostra
como se comia na Grécia
e na Roma antigas.


 

 

PASSAGEM PARA O VIETNÃ (II)

 

Léa Maria Aarão Reis*

 

 

O Perfume dos Incensos de Huê

 

O jato Airbus 319 da Vietnã Airlines, a cauda pintada com a bela flor de lótus dourada, aterrissa na pista do aeroporto de Da Nang, outro nome legendário da guerra da reunificação. A cidade onde foi instalada a gigantesca base aeronaval das tropas americanas é pequena, com extensa praia de mar profundo, aberto e selvagem, açoitada, não raramente, pelos tufões que nascem no Mar da China. Da Nang é estratégica porque é a cidade vietnamita mais próxima do Laos e do Cambodia. Foi de onde decolaram os B-52, nos primeiros vôos de bombardeio ao país.

 

Nas suas areias, estão lá, alinhados, dezenas de bunkers sombrios desfilando pela janela da nossa camionete, durante vários quilômetros. Novas reminiscências de guerra.

 

Estamos próximos da cidade imperial de Huê e da milenar aldeia de Hoi An, uma espécie de Paraty, nas cercanias do célebre paralelo 17, o divisor do país em dois até 1975. Aqui, há centenas de mochileiros e neo-hippies: muitos deles são garotos que prestaram serviço militar obrigatório em Israel e agora vêm gastar o soldo recebido viajando pela Índia, Tailândia e, mais recentemente, Vietnã.

 

Entramos no Vietnã profundo, onde rastros de uma linhagem imperial se misturam aos mitos e às lendas.

 

Uma gigantesca bandeira vermelha com a estrela dourada tremula na entrada da cidade imperial ou Cidade Púrpura, apenas um pouco menor que a Cidade Proibida de Pequim. Dentro dela, a luta foi encarniçada e durou vários dias, homem a homem, me informam. Fora dela, em um campo lateral, meninos disputam uma animada pelada. Futebol é paixão nacional e ouvimos diversas vezes algum vietnamita sorridente recitar para nós o nome dos jogadores do time brasileiro, na última Copa. Não erram um e se divertem pronunciando, mesmo que alguma dificuldade, “Ronaldinho” e “Cacá”.

 

 

Na Cidade Púrpura, que de púrpura não tem mais nada, os edifícios, os templos, a biblioteca, o teatro, alojamentos de concubinas, dos militares e mandarins – os políticos – obedecem á mesma planta das cidades imperiais chinesas, com a residência do imperador no centro do vasto terreno. Agora, eles começam a ser restaurados.

 

Monumentos de outros conjuntos arquitetônicos monumentais, com as tumbas imperiais, situados nas proximidades de Huê, também. Nessas cidades particulares os imperadores se retiravam para ler, pescar, fazer poesia, música, e onde construíam seu túmulo. Um dos mais incríveis é o do vaidoso imperador Khai Dinh, títere dos franceses e morto em Paris, em 1925. A construção do complexo durou 11 anos e mistura estilo e materiais asiáticos e ocidentais.

O túmulo está no alto de uma colina, ao fim de uma impressionante escadaria ladeada por centenas de estátuas de pedra de mandarins, generais, dragões, cavalos e elefantes.

 

O desenho urbanístico da cidadela celebra as forças do yang e do ying, da terra e da água, com o severo túmulo diante do pequeno Lago da Meia Lua. De cada lado da tumba, duas altíssimas colunas simbolizam a conexão do homem com o céu, com o cósmico.

 

Ao fundo deste cenário, no horizonte, fincadas sobre uma cadeia de montanhas, em formidável contraste, dezenas de torres de transmissão dos inúmeros canais de TV oferecidos hoje aos vietnamitas - CNN e canal 5 comunicam o homem com o homem.

 

Há um perfume de canela e de sândalo no ar. Vem das árvores de um bosque próximo, de onde é extraída a resina que as mulheres acocoradas nas calçadas da vila de Thuy Xuan - no caminho para as tumbas -, amassam, nas varetas de bambu, e secam ao sol para transformá-las em incenso. Elas vendem os conhecidos leques de sândalo, maços de incenso, sandálias de seda, chapéus cônicos de palha.

 

De repente, uma barulheira na pequena estrada. Um cortejo fúnebre passa defronte. Dezenas de carros buzinam, enfeitados com estandartes e apetrechos de papel alegremente colorido. Crianças, velhos e adultos sopram cornetas, soltam bombinhas e ligeiros fogos de artifícios. É balbúrdia, é festa, não há choro nem vela. São a família e os amigos acompanhando o morto na sua passagem para uma nova vida.

 

Perfumado também, devia ser, no passado, o rio que corta a cidade, o Hong Giang. Hoje, não mais, mas ainda o chamam de Rio Perfumado. As flores de lótus caíam nas águas das suas cabeceiras, perfumando-as – é o que contam as histórias.

 

Na beira do rio, até chegar ao Thien Mu Pagoda - o mais famoso pagode do país, com uma torre octagonal de 21 metros e sete andares -, passamos por house boats, habitações familiares. Em muitos barcos há jardins plantados no deck superior, com vasos, canteiros, até pequenas árvores. Outros, são lojas que expõem as roupas, os sapatos e as mercadorias. O freguês, é claro, se aproxima de barco também.

 

No pagode de Thien Mu, monges budistas recebem os visitantes - as monjas não se mostram. Então nos explicam a diferença entre templo budista e pagode. No templo são feitas as orações. Há, inclusive, os chamados templos familiares, que se vê de vez em quando, nas ruas e estradas. São construídos por famílias ricas que ali fazem as preces. Nos pagodes se reza, mas é também o local onde vivem monges e monjas e discípulos.

 

Em Huê, a mesma confusão nas ruas, a aventura suprema de atravessar de um lado para o outro. Sucedem-se butiques com algodões, linhos e sedas – finas e puras ou misturadas a rudes sintéticos - e, principalmente, roupas feitas. Uma ou duas garotas vendedoras, em geral elas são irmãs, escolhem o tecido com o cliente, tiram suas medidas e avisam que horas mais tarde entregarão a roupa pronta no hotel do turista. Atrás da lojinha, quase sempre há grandes galpões onde numerosas famílias – no Vietnã elas ainda são numerosas – trabalham como formigas, concentradas em dezenas de máquinas de costura, não só para atender ao movimento do varejo como para vender e exportar confecção – é notável, aliás, a boa qualidade da sua modelagem.

Desses galpões sai o prêt-à-porter que se vê em Nova Iorque, Londres, Paris, por toda parte, o made in Vietnã de roupas e sapatos proliferando.

 

De um modo geral, esses negócios familiares de comércio são chefiados por mulheres – e não pelos homens dos clãs. No Vietnã, o desempenho cultural feminino, ao contrário do que ocorre na China, por exemplo, ainda hoje, é tão ou mais marcante que o do homem - talvez produto da educação socialista e uma das conseqüências da guerra americana, durante a qual as resistentes, as mulheres soldados do exército do Norte e as guerrilheiras do Sul mostraram impressionante coragem, força, capacidade de liderança e persistência raras.

 

Á noite, dá vontade de comer uma pizza. Encontramos uma, de excelente qualidade. O dono da pizzaria é italiano e o local é um ponto de encontro de jovens. A atmosfera iluminada pelas velas é semelhante à dos anos 60, nos bistrôs europeus. Fala-se francês, italiano, e tudo lembra o ambiente afável e cosmopolita dos cafés de Istambul, da época, a última parada no Ocidente para os moços que seguiam de jipe para o Afganistão, Kandahar, Mazar-el-Sharif, Índia, Nepal. Sinto-me muito bem, num clima de confraternização. Não há nada que nos remeta à agressiva globalização de hoje.

 

 

Antes, durante o almoço, deu para distinguir a diferença entre a cozinha vietnamita da antiga cidade de Saigon, a cozinha da Indochina, e a culinária vietnamita do interior. A sopa aqui é de cogumelos com coco, as spring rolls são de banana e camarão – tudo é um pouco, só um pouco mais picante. As panquecas de abacaxi e o peixe com molho de laranja são deliciosos. Na sobremesa, a influência da cozinha francesa na gastronomia vietnamita - o crème caramel vem com calda de frutas e pedacinhos de melancia, banana e abacaxi. Ao final, arroz perfumado e chá de jasmim. É o cardápio de um jantar no Hoi An Riverside Resort, cuja propaganda apregoa ser “o melhor resort do mundo”. Do mundo não sei se é, mas segundo a edição asiática do Financial Times, de novembro do ano passado, o Hoi An é imbatível, assim como a sua sopa de aipo, cogumelos e camarão.

 

Os bangalôs têm dois andares - dois apartamentos cada um - e se espalham pelos jardins cheios de flores, caminhos cheios de pequenas surpresas naturais, com pequenas fontes e uma extraordinária piscina forrada de preciosa porcelana chinesa azul. A atmosfera é zen-budista, simples, limpa, de extremo rigor. Há leves fragrâncias pelo ar, há silêncio e delicadeza. Das janelas vê-se um rio manso e os terraços de plantações de arroz. De vez em quando passa um barquinho. Você está dentro de uma aquarela oriental.

Os roupões de quarto são de linho cáqui e preto, as miudezas de banheiro são da Occitane, em cada apartamento há longas velas brancas, óleos de coco e almofadas de meditação – tudo, nos mínimos detalhes, é de bom gosto, sem a ostentação do falso luxo.

 

À noite, o hóspede encontra uma flor de jasmim entre os lençóis de fino algodão e, em caixinhas de folha de bananeira, entre frutas e chás, quadrados de docinho de batata doce com coco.

 

E mais: o ar condicionado é perfeito e as conexões com Internet também.

 

A tradição dos resorts e dos spas asiáticos vem de longe. Proporcionam massagens de todos os tipos, banhos de ofurô, tai-chi, aulas de culinária asiática, ensinamentos sobre chás, ginásticas variadas, cuidados com a pele, o rosto, corpo, unhas, os cabelos. Até sauna. Você sai de um lugar como esse novo em folha, por fora e por dentro. A diária de casal é de 170 dólares.

 

Esta tradição foi importada pelos ocidentais que a adaptaram aos hábitos sas estações de águas medicinais européias. Os resorts vietnamitas talvez não sejam tão sofisticados quanto os da Tailândia, mas as massagens proporcionadas são a atração extra - especialmente para os pés, uma extraordinária especialidade nacional. Nas ruas das principais cidades não há quarteirão sem que haja uma placa indicando foot massage . Elas custam quase nada e são procuradas por todos, todos os dias. No Hoi An Resort a experiência é inesquecível e custa só 15 dólares. A jovem acomoda você em uma chaise longue , oferece um suco de limão muito doce, pequeno, fresco, mas não gelado, e sem açúcar, coloca um som de mantra e trabalha nos seus pés e pernas com pequeno instrumento de madeira durante pouco mais de uma hora. Usa óleos, dá as clássicas palmadinhas, socos, e estimula, como ensina a reflexologia, todos os órgãos do corpo. Saímos pisando em nuvens.

 

Partimos então para Hanói, terceira e última parada da viagem através do Vietnã, mas não sem antes visitar a grande atração turística da vila de Hoi An, ativo porto de intercâmbio comercial, sob o domínio japonês, no século XIV. A linda ponte coberta japonesa está lá, toda trabalhada, construída em 1593. Numa de suas pontas, a estátua de um macaco; na outra, de um cachorro. Sinalizam que a sua obra começou num ano do macaco e terminou num ano de cachorro.

 

Prontas para o embarque, deparamos com um grande salão de aeroporto barulhento e superlotado de grupos de turistas, homens e mulheres imensos, muito brancos, ruidosos mas educados, na maioria australianos e neo –zelandeses.

 

Vende-se de tudo nos estandes: roupas, tecidos, miudezas, quinquilharias, palhas, jóias e pérolas, muitas pérolas, antecipando as belezas que teríamos nas mãos, dali a alguns dias, durante o cruzeiro pela mitológica baía de Halong.

 

Pequena gravura lembra que em 2007 estamos no ano do porco.

 

Compro a proteção de Huê e Hoi An : um bonito mala , de sândalo, que enfio pela cabeça. Estou pronta para seguir em frente.

 

 

* Jornalista e escritora. Autora dos livros Maturidade, Além da Idade do Lobo, Cada Um Envelhece como Quer (Editora Campus/ Elsevier), e A Saúde e a Beleza dos Seios (Editora Record).

 

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