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Para ver antes do almoço:
a cozinha tradicional paraibana.
(um segundinho até carregar).

Atlanta, da Guerra Civil
à Coca Cola,
por Lea Maria Aarão Reis.

Léa Maria volta de
Buenos Aires
e conta o que viu lá.

Cahors, no coração da França.
Por Celso Japiassu.

Um olhar sobre a Galícia.

Caio Mourão ensina a fazer um
exótico Risoto de Morangos.

Nei Leandro de Castro confessa
seu amor por Florença e traça o roteiro sentimental de Lisboa.

Dê uma olhada em alguns pratos de restaurantes europeus.


Vale a pena ver como se faz
um leitão.

50 Sonetos de Forno e Fogão:
apresentação,
introdução
,
receitas em a-b-c,
d-e-f
,
j-l-m,
p-r-s-t-v-x
.

Mestre Eça de Queiroz mostra
como se comia na Grécia
e na Roma antigas.

 

A catedral de pedra

 

Diário do Laos e do Cambodja

 

Daniel Japiassu

 

Nono dia: Hanoi-Vientiane

Preocupação com os canarinhos


O dia foi inteiramente perdido no aeroporto de Hanoi, pois o vôo, da Vietnan Airlines, atrasou quase 10 horas... Foi tempo mais que suficiente para que o funcionário da alfândega local viesse me perguntar sobre a atual forma física de Romário.

Já no fim da noite, chegando em Vientiane, capital do Laos, mais explicações futebolísticas. O fiscal queria saber que fim havia levado o capitão do tetra, Dunga. Disse-lhe que tinha se aposentado; o homem ficou profundamente indignado.

 

Décimo dia: Vientiane-Luang Prabang


Capitalismo chique e beleza milenar


A capital do Laos é uma belíssima cidade, de muitos contrastes, que merece atenção do visitante. Primeiro porque, a cada esquina, é possível comparar as duas faces desse novo tigre asiático.

 

Templos budistas de meio milênio (devidamente restaurados durante a segunda metade do século passado) dividem lugar com o capitalismo chique - em latente antagonismo com a selvageria de Saigon.

 

Outro motivo para que o viajante saia a descobrir a cidade é que um dia e meio não constitui tempo suficiente para fazer justiça às belezas de Vientiane. Lembre-se: você terá de pegar o avião para Luang Prabang à noite.

 

Décimo-primeiro dia: Luang Prabang

 

A antiga capital merece respeito


Leio no guia que comprei em Hanoi que Luang Prabang era capital do Laos até meados do século 16. Preparo-me, como qualquer ocidental ignorante, para desembarcar em um grande centro econômico. Mas o que vejo logo ao pisar no aeroporto é que a cidade mantém-se adormecida no tempo.

Trata-se de um vilarejo medieval com alguns traços de colonização francesa e toques sensíveis de capitalismo - muito sensíveis, graças à Buda!

 

Minha acompanhante durante a estada é a jovem Souda, que me leva a percorrer os grandes monumentos da antiga capital. Ela me explica que Luang é uma cidadela sagrada para os laos e detêm dezenas de patrimônios da humanidade. Os templos são mesmo colossais, principalmente o que fica no alto da maior montanha local, de onde se pode avistar toda a cidade e os campos de arroz que cercam o cenário.

 

Aproveite bem o dia e espere pelo pôr-do-sol no templo da colina. É um espetáculo só comparável ao crepúsculo em Angkor Vat.

 

Décimo-segundo dia: Luang Prabang


A catedral de pedra


Souda está no hotel - cuja comida é fantástica e baratíssima - às 6h30. Está sorridente. É seu modo, nada ortodoxo, de demonstrar afeição pelo cliente. E diz que estou atrasado...

 

Vamos pegar uma chata no Mekong e subir o rio parando nas vilas de pescadores para conhecer algumas etnias ancenstrais. É um bom momento para adquirir tapeçarias e outros artefatos artesanais, que sustentam, juntamente com a pesca, a economia desses povos.

 

Sou apresentado a uma senhora de longos cabelos grisalhos, atenta a seu tear já gasto, que me garante ser o dia de muita sorte. Pergunto por quê e ela me responde que o templo budista encravado na encosta do rio, alguns metros acima, acordou mais iluminado do que habitualmente. E que isso só pode significar uma coisa: Buda está de bom humor.

 

Fazemos a curva no Mekong, quando ele se une ao rio Nam Ou, e eis que surge Tham Ting e Tham Theung, as duas escavações que formam um monastério nas rochas. É uma visão que remete às aventuras de Indiana Jones (talvez porque se pareça, na arquitetura, ao templo de Petra, na Jordânia, usado por Steven Spielberg na terceira aventura da série).

 

Dentro, milhares de imagens de Buda, de diferentes proporções, em ouro, prata, bronze, gesso, terracota, madeira, cristal e vidro. E um mix de aromas provenientes de uma infinidade de incensos. O silêncio da gruta santa só é quebrado pelo motor dos barcos com turistas que chegam a cada 15 minutos. Mas, quando tudo está calmo, é possível mesmo ouvir o cair dos pingos das estalactites em cada canto. E o eco dos sussurros vibra em cada bronze antigo.

 

A volta para o hotel parece mais longa do que foi a ida àquela catedral de pedra. Você saberá por quê.

 

Para se refazer do choque de civilizações, nada melhor do que uma passada nas cataratas de Kouangsy, um local para piqueniques e passeios despreocupados. Relaxe e se prepare, pois a próxima parada, depois de voltarmos para a capital Vientiane, será o Cambodja. E quem não tiver fôlego para aguentar os três dias em Angkor Vat vai lamentar.

 

Diário do Cambodja

 

Palacio Real em Phnom Penh

 

Décimo-quarto dia: Vientiane-Phnom Penh


Nos domínios do Khmer


A capital do Cambódia fervilha. Phnom Penh lembra Saigon em diversos aspectos, mas o trânsito é menos caótico - o que garante a integridade física do visitante atento.

 

Passeio pelas ruas do centro e deparo com algumas preciosidades. Primeiro, a pagoda prateada ou pagoda do Buda de esmeraldas ou Wat Preah Kaeo Morakot. Ela fica próxima ao Palácio Real e merece a sua atenção pela beleza e pelo faiscar que emana de sua torre. Como os dias nesta época do ano são quase sempre azuis na Indochina, o cenário é mesmo inspirador.

 

Uma dica: ande sempre com alguns trocados da moeda local à mão, pois nas cercanias dos pontos turísticos há muitos monges e pedintes profissionais, que lhe seguem em busca de algum alento financeiro.

 

Caminhando um pouco mais, chega-se ao Palácio Real, erguido em 1866 pelo rei Norodom. Inaugurado em 1870, ele é uma obra-prima da arquitetura imperial, ornamentado com dragões reluzentes e pintado com o clássico amarelo-ouro que dignifica a presença do rei.

 

Chega a noite e, com ela, a chance de conhecer o outro lado da cultura khmer. A vida noturna na capital cambodiana é um delírio de cores, aromas e sabores. Come-se bem nesta terra, acredite!

 

Experimente o peixe no espeto com a pimenta local, servido nos restaurantes do bairro velho. Mas leve água do hotel, em abundância de preferência, pois a temperatura, que já não é das mais amistosas, sobe consideravelmente após a segunda garfada.

 

Décimo-quinto dia: Phnom Penh-Siem Reap


Nada há como o complexo de Angkor


Pego o avião e parto para a segunda grande jornada desta aventura pela Indochina: Siem Reap. Ou, mais precisamente, o complexo templário de Angkor, construído em pedra no século 12, tombado pela Unesco como patrimônio mundial da humanidade e símbolo maior da cultura khmer clássica.

 

Desculpe a franqueza, leitor, mas estamos, eu e minha guia miss Punch, diante de algo tão estarrecedor que não se pode descrever em palavras. Também não se deixe influenciar pelas fotos aqui expostas. Elas não sabem o que o local esconde e não compreendem o que ele significa.

 

Angkor Vat

 

Nada há como Angkor, leitor. A começar pela visão dos templos ainda na entrada, de longe, que servem como aperitivo para as descobertas que o visitante faz a cada nave ultrapassada, a cada coluna secular, a cada escultura corroída do deus Brahma.

 

Sou recebido por uma filha de Shiva, uma senhora bastante idosa de cabeça raspada e vestida com o tradicional manto alaranjado dos monges. Ela não me compreende muito bem, mas não parece interessada. Prefere que eu repita uma complicada mis-en-scene diante de um Buda de terracota ornamentado por uma centena de incensos.

 

Apresenta-me também a Garuda, uma ave com corpo humano que simboliza a penitência para os budistas. Miss Punch observa tudo um tanto impressionada, apesar de conhecer cada desvão do templo de olhos fechados. Esses encontros não são raros em Angkor. Mas o turista que se deixar levar pelo receio perde muito da visita.

 

Uma dica para os vídeomaníacos e fotógrafos inveterados: não deixem para comprar filmes e baterias em Angkor. Além de o preço ser uma exorbitância - Brahma prefere não interferir na atividade comercial de seus fiéis -, há uma grande chance de você sujar o local com plásticos, caixinhas de papelão, etc.

 

É mais fácil o visitante encontrar a iluminação do que um cesto de lixo nos templos de Siem Reap.

 

Templo de Vat Xiengthong

 

Décimo-sexto dia: Siem Reap


Sapinhos menores que um dedal


Voltamos a Angkor para descobrir que dois dias de visita, definitivamente, não são suficientes para devassar essa imensidão de pedra.

 

A manhã é de sol tórrido, entrecortado por uma fina garoa que insiste em nos seguir. Eu e miss Punch vamos explorar os Pequenos Segredos do complexo. Trata-se de uma série de salas e ante-salas de pedra divididas por minitemplos, onde se podem encontrar imagens de Buda, da Garuda e de Brahma.

 

As paredes são completamente forradas por um trabalho em relevo que reconstitui a iluminação de Buda e diversas passagens do Mahabarata - o mais longo poema do mundo, com cerca de 100 mil versos, que conta a história do conflito entre Kauravas e Pandavas e que constitui o princípio da milenar cultura hindu.

 

À tarde, passo a uma parte do templo denominada Grandes Segredos, onde encontro a mais bela arquitetura local - já bastante corroída pelo tempo, é verdade.

 

À entrada deste complexo feito de rocha no século 13, uma multidão de minúsculos sapinhos nos aguarda. São menores do que um dedal e, assim que nos aproximamos, iniciam a fuga aos milhares. Um espetáculo impressionante.

 

Esse cenário majestoso erguido com blocos de pedra (cujo encaixe é perfeito apesar dos diferentes formatos e tamanhos) está servindo de pano de fundo para uma reportagem do Discovery Channel. A emissora inicia as filmagens de um especial sobre a construção do templo de Angkor Vat durante o reinado de Suryavarman II, em 1113 - com atores vestidos tipicamente e uma centena de figurantes escolhidos dentre a população local.

 

Aproveite o dia para conhecer também o Terraço dos Elefantes, esplendoroso como tudo por aqui. Mas não se esqueça do pôr-do-sol. Nessa hora, corra para o alto do Palácio de Phimeanakas e aguarde o momento ocasional. Vale cada suspiro e cada foto.

 

Décimo-sétimo dia: Siem Reap-Phnom Penh


Uma cidade cercada pelo passado


Estou de volta à capital, após a desintoxicação cultural em Siem Reap. O sol é ainda mais abrasador. E meu guia, o "jovem Sorem" (como eu o chamo embora ele só entenda metade da expressão), inicia a excursão pelos prédios sagrados da cidade.

 

Vou conhecer cada salão do Palácio Real. As bandeiras estão baixas, o que significa que o imperador ainda não chegou. Sorem sabe tudo sobre o "seu rei", como ele diz. Desde os primórdios da dinastia até os dias atuais, nada escapa a esse rapaz de olhos vivos e voz compassada.

 

Visito o templo do imperador, cujo chão é forrado por placas de prata de 40 quilos. Uma visão abissal. Devidamente protegidas por painéis de vidro, centenas de imagens de buda em ouro, marfim, pedra, esmeralda, diamante e cristal, doadas pelo povo (o " meu povo", segundo Sorem) a seu soberano sagrado.

 

O dia está azul, como sempre no Cambódia, e meu guia me leva ao centro de Phnom Penh, onde almoço no restaurante dos correspondentes de guerra. Nas paredes, imagens do conflito capturadas pelas lentes de fotógrafos que abasteciam a esperança de voltar inteiros para casa nos copos da aguardente local.

 

Do alto do segundo andar, percebe-se a movimentação às margens do Mekong (sempre ele, leitor, razão de viver de vietnamitas, laos e cambodianos). Toda a orla foi recuperada nos últimos cinco anos pelo governo e pela iniciativa privada, o que emprestou um ar afrancesado ao ambiente, como na década de 50, antes de a guerra arrasar a cidade.

 

Ao se despedir, o jovem Sorem me alerta sobre os perigos de me aventurar pela cidade. É que as cercanias permanecem minadas. São em torno de 4 milhões de artefatos da época da guerra esquecidos e que ainda respondem por mais de 500 mortes anualmente.

 

Sigo a recomendação de meu guia, mas aproveito as últimas duas horas no Cambódia para me aproximar de uma tenda armada no banco de areia que emoldura o Mekong.

 

Foi um erro, leitor! Se você estiver extasiado com a cidade (como eu estava), não vá até a areia! A visão da miséria por detrás do calçadão sublime é horripilante mesmo para nós brasileiros, já acostumados a toda sorte de humilhações.

O enorme cassino construído por um conglomerado malaio, alguns metros rio acima, ajuda a revoltar ainda mais o visitante. Sigo para o aeroporto com um nó na garganta. Vou precisar de algo mais forte do que o vinho tinto da classe econômica para descansar. Nada que 22 horas de viagem até São Paulo e a visão das favelas na marginal do Rio Tietê não amansem.

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