SÓ NO BRASIL... HÁ JALAPÃO

 

Maria das Grašas TARGINO

 

Há poucos dias, texto de José Roberto Guzzo inicia assim: “Só no Brasil...”, expressão, segundo ele, repetida pelos brasileiros 365 dias ao ano, quase sempre, para nomear fatos peculiares à vida nacional e que nada têm de positivo. No caso específico, refere-se à publicidade oficial, praga que parece tomar conta da mídia do país, em qualquer modalidade. O jornalista não se equivoca.

 

Exatamente por conta da veracidade de seus argumentos, exaltamos, hoje, algo de muito bom do Brasil, além de sua gente pacata e pacífica, se é que é possível repetir esse refrão nos dias atuais. A verdade é que o país é pródigo de beleza natural, por onde quer que se vá. De Norte a Sul, de Leste a Oeste. Há beleza extrema nas cinco regiões, nos 26 estados e no Distrito Federal. O rio Amazonas, lá em cima; as limítrofes Cataratas do Iguaçu, lá em baixo. E há muito mais: Fernando de Noronha; Paquetá; Alcântara; Pirenópolis, Serra da Capivara, Ouro Preto, Pantanal, Ponta do Seixas, Marajó, Praia de Pipa, Gramado e Canela, Olinda, Camboriú, Barra Grande, etc.etc.

 

E o que dizer do Jalapão? Há quem pense que se trata do Japão. Nenhuma relação. Trata-se de um rincão nosso, bem brasileiro, perdido no sudeste do Tocantins, entre Bahia, Piauí e Maranhão, cuja denominação vem de um tubérculo, a jalapa. Por sua beleza, o Jalapão tem sido cenário de novelas, reality shows, comerciais e alguns filmes, como o recente “Xingu”, de Cao Hamburger, que, apesar do inesperado fracasso de bilheteria, resgata a história dos indianistas e irmãos Villas Bôas. Em seus 34.113,20 km² de área, o Jalapão abrange oito municípios tocantinenses: Ponte Alta do Tocantins, Mateiros, São Félix do Tocantins, Santa Tereza do Tocantins, Rio da Conceição, Lizarda, Lagoa do Tocantins e Novo Acordo.

 

O Parque Estadual do Jalapão, por sua vez, reserva natural com 158.885ha, instalado em 12 de janeiro de 2001 graças à Lei Estadual nº 1.203, é o coração da região. E é muito mais do que isto: é uma benção dos deuses para os amantes do ecoturismo ou aventureiros. Isto porque, quem viaja para essas bandas não pode esperar luxo, desde o transporte (caminhonete tração 4x4), estradas de terra, comida caseira (nem por isso menos deliciosa) até a hospedagem simples, mas aconchegante. Para se ter ideia mais exata, apesar de o Parque estar somente a 350 km da capital Palmas (bem além das expectativas e de beleza surpreendente), são mais ou menos seis horas de viagem.

 

De início, passamos pela bela Taquaruçu ou Taquarussu (= taboca-gigante), a 32 km de Palmas, região serrana, com balneários e cachoeiras naturais, que fazem a festa dos visitantes. No trajeto, também está Ponte Alta do Tocantins, considerado o portão do Jalapão, o que assegura seu status de município turístico, apesar de pequenino (6 491 089 km2) e de população estimada em apenas 7.200 habitantes. Mais adiante, a Cachoeira do Suçuapara ou Sussuapara (alusão ao veado-galheiro típico de regiões pantaneiras, mas que não vive mais por ali). Escondida à beira da estrada, lá está ela: pequena fenda de, aproximadamente, 60 metros de comprimento e 15 metros de altura, que dá origem a estreitos caníones úmidos, por onde a água resvala entre rochedos cobertos de musgo, numa visão de esplêndido cartão postal. Falando nisto, eis o que inexiste por aqui. Em centros artesanais, livrarias e aeroporto, fotos e nada mais. É uma evidência de que ainda há muito a ser feito no campo do turismo, apesar da existência do chamado Centro de Atendimento ao Turista do Estado de Tocantins, em pontos da cidade.

 

Retomando a trajetória até o Jalapão, rememoramos as estradas íngremes, com poucas casinhas à vista. A região é considerada um dos remanescentes de cerrado mais bem cuidado em território brasileiro. Este varia incrivelmente do cerradão para o dito cerrado limpo, com vegetação mais e mais rasteira. Há de tudo: savanas, desertos, serras, chapadas, florestas, campos e veredas. Mesmo assim, invariavelmente, as pessoas questionam – o que há por lá para ver e fazer? O ver se confunde com o fazer e vice-versa. Redescobre-se a natureza. Volta-se a respirar o ar puro. Descobre-se, pela primeira vez, perdido na matas, o chamado capim dourado, matéria-prima do artesanato genuíno da região, cuja coleta e manejo estão regulamentados pela Portaria do Instituto Natureza do Tocantins nº 362, de 25 de maio de 2007, face ao temor de sua extinção. Frágil se fortalece na fabricação de luminárias, bolsas, esculturas e qualquer tipo de bijuteria. É a natureza assegurando a economia local e, sobretudo, garantindo que comunidades quilombolas se destaquem por seu labor e por sua vida produtiva. É o caso da Mumbuca, berço do capim dourado. Afora o artesanato, esse capim genuinamente da região já voou ao exterior sob a forma de semijoias rumo a desfiles em Paris, Milão e Londres.

 

Indo além, está a Cachoeira da Velha, fusão de duas quedas das águas do Rio Novo, em forma imaginada ou imaginária de ferradura. Cada uma delas tem cerca de 20 metros de largura. Tão espetacular quanto a cachoeira em si é a pequena Prainha do Rio Novo, de água doce e branda, cercada por variada vegetação, o que é um convite escrito pela mãe natureza para um descanso até chegarmos a Mateiros. Lá, numa pousada aconchegante, um casal para lá de gentil e daquele tipo “faz-tudo” (incluindo variados e deliciosos pães e bolos para o gostoso e farto café da manhã), nos recebe de braços abertos.

 

Mateiros, que recebeu este nome face ao número elevado de veados da espécie mateiro aí existente, é em si mesmo um município muito importante para a região. Pequeno (5.890 km2), baixa densidade demográfica (1, 646 habitantes), até a instalação oficial do Parque, não passava de um lugar perdido nesse Brasil gigante. Daí em diante, passou a se desenvolver na condição de centro da expedição sob encargo da Universidade de Brasília e do Instituto de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA), haja vista que sua localização geográfica facilita o acesso às demais cidades do Tocantins e dos estados vizinhos.

 

Além disso, Mateiros possui encantos quase inumeráveis. Além da Cachoeira da Velha, abriga a Cachoeira do Rio Formiga. Se a descrição ainda não supre a curiosidade de quem insiste em perguntar – “Deus meu, o que há para se ver nesse lugar tão distante?” – as dunas sozinhas valem a pena.

 

 

São mais do que maravilhosas: elas são maravilhas com seus majestosos 25 a 30 metros de altura. Há uma diferença gritante entre o adjetivo maravilhoso (a) e o substantivo maravilha! E mais, sua cor varia a depender do horário – areias vermelhas ao cair do sol, areias douradas ao amanhecer. Aliás, sua cor varia a depender do sentimento que carregamos conosco – vermelho paixão, cinza desilusão... Fora esses atrativos, lembramos a Serra da Muriçoca, a Pedra da Baliza e o Mirante da Serra do Espírito Santo. Como a própria denominação insinua, essa serra se impõe como elevação que permite, em seu ponto mais elevado, desvendarmos um largo horizonte de rara perfeição – eis uma visão excepcional da região. A Serra da Catedral, por sua vez, é um espetáculo à parte: a distância, se assemelha a uma bela igreja esculpida pelas mãos de um artista abençoado. É só deixar a imaginação voar e o espírito livre para sonhar...

 

É a natureza também que supre o peixe para a alimentação e o comércio. Apesar de o Jalapão parecer amedrontadoramente árido e seco, com calor que passa dos 40°C durante todo o dia, esfriando ao anoitecer, ao contrário do que se pensa, há água em abundância. Os buritis que sobrevivem nos locais onde a água jorra, com sua imponência e elegância, denunciam a presença de água, aqui e ali. Vários e numerosos cursos d’água dão vida à bacia do rio Tocantins, segundo maior rio totalmente brasileiro. Nasce no Estado que deu origem ao Estado de TO, Goiás. Chega a Tocantins. Segue pelo Maranhão e Pará até alcançar o Rio Amazonas.

 

Eis, então, mais uma atividade à disposição do nativo ou do turista – o banho de rio e cachoeira, e, sobretudo, no que não se encontra tão facilmente. São os chamados fervedouros. Para quem não sabe do que se trata (como também não sabíamos), os fervedouros são águas cristalinas que convivem lado a lado com areia infinitamente branca. Até aí nada de peculiar. O peculiar é a impossibilidade de afundar em suas águas, porque a pressão que vem de baixo para cima não permite. E há mais de um. Entre eles: Fervedouro dos Buritis e Fervedouro do Alecrim, este último, um dos cenários de gravação de “Xingu”.

 

Dizem, ainda, que há onças, lobos-guarás, antas, tamanduás-bandeiras e por aí vai. Mas fácil mesmo de avistar só as emas velozes que perseguem motoqueiros e desavisados. Dentre as diferentes espécies de pássaros, destaque para a arara-azul , cuja foto à distância serviu de galhofa para nossos companheiros de viagem. Parece demais? É só ver para crer, incluindo também visita prolongada a Palmas!J

 

 

* Jornalista, com pós-doutoramento na Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica. E-mail para contato: gracatargino@hotmail.com

 

 

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