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O festival do comidas nas ruas de Paris e outras cidades da França.

Novas e criativas receitas de Bacalhau, por grandes chefs brasileiros.

Uma homenagem à caiprinha: Sidney Simões conta a história do drinque brasileiro.

O pícaro A. Falcão apresenta suas receitas de conquistar mulheres.

Um roteiro da cidade de Campina Grande, por José Nêumanne.

Pratos excêntricos e exóticos, por Caio Mourão.

Um roteiro da cidade de Natal, por Nei Leandro de Castro.

Para ver antes do almoço:
a cozinha tradicional paraibana.
(um segundinho até carregar).

Atlanta, da Guerra Civil
à Coca Cola,
por Lea Maria Aarão Reis.

Léa Maria volta de
Buenos Aires
e conta o que viu lá.

Cahors, no coração da França.
Por Celso Japiassu.

Um olhar sobre a Galícia.

Caio Mourão ensina a fazer um
exótico Risoto de Morangos.

Nei Leandro de Castro confessa
seu amor por Florença e traça o roteiro sentimental de Lisboa.

Dê uma olhada em alguns pratos de restaurantes europeus.


Vale a pena ver como se faz
um leitão.

50 Sonetos de Forno e Fogão:
apresentação,
introdução
,
receitas em a-b-c,
d-e-f
,
j-l-m,
p-r-s-t-v-x
.

Mestre Eça de Queiroz mostra
como se comia na Grécia
e na Roma antigas.


Maria das Graças Targino com crianças na Índia

 

INDIA: MUNDO À PARTE PARA DELEITE OU HORROR

 

Maria das Graças Targino

 

[Índia] a terra de sonhos e romance, de fabulosa riqueza e fabulosa pobreza, de esplendor e andrajos, de palácios e cabanas, de fome e pestilência, de gênios gigantes e lâmpadas de Aladim, de tigres e elefantes, de serpentes e florestas, o país de cem nações e cem idiomas, de mil religiões e dois milhões de deuses, berço da raça humana, lugar onde nasceu a fala humana, mãe da história, avó da lenda, bisavó da tradição, cujos dias de ontem são contemporâneos da antiguidade que moldou os demais países [...] único país do planeta dotado de

imperecível interesse para príncipes e camponeses estrangeiros,

para letrados e ignorantes, sábios e tolos, ricos e pobres, servos e homens livres, a única terra que todos os homens desejam conhecer e, uma vez tendo conhecido, ainda que num relance, não trocariam esse relance pelos espetáculos de todo o resto do mundo reunidos.

(Mark Twain)

 

Como o Brasil, a Índia é um país descrito por muitos como um continente. Como o Brasil, a Índia é descrito como espécime de desigualdades sociais imensuráveis e dolorosas, mas antes de tudo, como o Brasil, a Índia traz em si complexidade tal, que torna inútil e banal qualquer tentativa de definição, dentro do previsto por Mark Twain, ainda no século XIX, conforme transcrição inicial.

 

Neste sentido, esclareço que registro nada mais além do que sentimentos vividos e vivenciados ao longo de um pouco menos de um mês em visita recente a esse país, em grupo de estudos filosóficos em budismo, hinduísmo e quiçá, islamismo e jainismo. Logo, podem ser eles contestados ou endossados, mas, de qualquer forma, conduzem à reflexão de que a Índia é, essencialmente, uma civilização. Civilização na acepção de processo contínuo, em que, elementos culturais, como conhecimentos, técnicas, bens, valores, hábitos, costumes, tendências, vulnerabilidades, gostos etc. são construídos e reconstruídos, coletiva ou individualmente, a cada momento. Chamo de civilização como sinônimo de transmutações permanentes e inevitáveis, o que significa um tornar-se permanente, e jamais um ser ou estar perene e definitivo. Relato de uma das mais antigas civilizações do mundo, originada mais ou menos 3000 a.C., ao longo do vale fértil do rio Indus.

 

No caso da Índia, são milhões de mundos. Mundos que se entrelaçam e se prolongam por 3,9 milhões de km 2, tocando aqui e acolá, o oceano Índico.

China, Nepal e Butão, ao norte. Ao noroeste, Afeganistão e Paquistão. Ao leste, Myanmar e Bangladesh (antigo Paquistão Oriental). O Estreito de Palk e o Golfo de Mannar separam a sua extremidade sul de Sri-Lanka. Ao norte, ocupando 2.400 quilômetros, a imensa e decantada cordilheira do Himalaia, onde está o pico mais elevado do mundo, o Monte Everest. Mas, muito mais do que na descrição física, a diferença está que esses milhões de mundos, distribuídos em 26 estados e seis territórios, encerram culturas orientais, em seu primitivismo encantador e assustador em meio a campos virgens, e culturais ocidentais, em seu primitivismo também encantador e assustador em meio a fortalezas de cimento e pedra.

 

Falo, assim, das discrepâncias marcantes e latentes: a Índia rural, com pés e mãos encharcadas de lama e sujas de dejetos de animais e de humanos; a Índia tecnológica, com pés e mãos ágeis e hábeis em direção ao reino “encantado” da informática. Falo das distinções que saltam aos olhos entre as ditas cidades sagradas, como Rishikesh e Varanasi, em comparação com cidades urbanizadas, como Mumbai (capital comercial), Calcutá, Madras, Bangalore (versão indiana do vale norte-americano do silício) e Nova Delhi. Esta pode ser e o é, oficialmente, a capital da Índia como nação soberana. Mas os povos díspares que se estendem pelo território indiano, e que somam, aproximadamente, um bilhão e 100 mil habitantes, se vêem como integrantes de um universo, o qual na sua disparidade, desafia qualquer rótulo ou categorização. São, essencialmente, partícipes do continente indiano, na sua vastidão, nas suas congruências e incongruências.

 

Fauna, flora, condições climáticas, idioma

 

As diferenças estão em toda a parte e atingem todos os setores. Fauna, flora, condições climáticas, idioma e religião constituem bons exemplos. Com 81 mil espécies, a Índia detém cerca de 6,5% da fauna do mundo, abrigando em torno de 441 áreas de preservação das espécies. Elefantes, macacos, muitos macacos fazem parte do cenário das cidades, rurais ou não. Em se tratando da flora, são 45 mil diferentes tipos de plantas e arbustos, o que corresponde a mais ou menos 7% da flora mundial. A variedade das condições climáticas, que vão do tórrido ao ártico, faz frios os invernos da região norte em contraste com o clima ameno e agradável do sul. Em contraposição, os verões são tão quentes em determinadas partes do País, que a temperatura pode alcançar mais de 40ºC, sendo freqüentes os períodos de seca e / ou as fortes chuvas, chamadas de monções.

 

 

Quanto ao idioma, o Governo da Índia reconhece oficialmente 15 línguas principais, ao lado do hindi, idioma nacional, e do inglês, língua unitária da administração, haja vista que os indianos o utilizam há mais de dois séculos, como resquício do processo de colonização pela Inglaterra. Aliás, sem preocupação histórica, menciono a vinda dos europeus para o “continente” indiano, ainda no século XVII. A Batalha de Plassey, em 1757, estabelece a supremacia dos ingleses frente a holandeses e portugueses. Dos anos de dominação, a Índia herdou dos britânicos malha ferroviária útil e pesado sistema burocrático. Porém, a partir da Primeira Guerra da Independência (1857), luta por sua autonomia como nação livre, contando com o apoio decisivo do Congresso Nacional Indiano, fundado em 1885, até conquistar a sonhada independência, em 15 de agosto de 1947, firmando-se como República, no dia 26 de janeiro de 1950.

 

O sânscrito, língua indo-européia do ramo indo-ariano, persiste como idioma clássico, por questões culturais. As mais célebres epopéias hindus, como Ramayana e Mahabharata, originalmente estão em sânscrito, e entre longo período, do século VI a.C. a XI d.C., figura como a língua da literatura e da ciência hindus, além de ter concorrido para os estudos de filologia ocidental, ao final do século XVIII, em face de visíveis semelhanças com o latim e o grego.

 

No entanto, o perambular por Delhi e pelos Estados de Maharashtra, Uttar Pradesh e Bihar deixa antever quão complexa é a mescla de diferentes idiomas, dentro do prescrito na alusão que se faz à Torre de Babel. Complexa e negativa, porquanto interfere no processo de comunicação das comunidades e, portanto, no avanço das nações. As línguas principais conservam a sua literatura e grafia, além da produção de filmes e manutenção de meios midiáticos, de naturezas distintas. Afora isto, são cerca de 844 dialetos, escritos ou orais, que marcam presença em diferentes regiões do País, o que conduz a “revoltas lingüísticas” ante qualquer tentativa para imposição de uma só das tantas línguas como idioma nacional.

 

Ademais, os veículos de comunicação de massa, impressos ou não, conservam autonomia. Cerca de quatro mil e 453 jornais são editados, a cada dia, em mais de 100 línguas e / ou dialetos, e o total de periódicos publicados ultrapassa a casa dos 30 mil. E mais. Segundo dados da Embaixada da Índia, graças à liberdade de expressão, tal autonomia vai além: dentre as 150 publicações mais importantes em inglês e 350, em línguas indianas, a maioria é de propriedade privada. O mesmo ocorre no rádio e na televisão, não obstante a expansão da Televisão Nacional da Índia. Esta mantém três canais nacionais, dois especializados, 10 canais de línguas regionais, quatro redes estatais e um canal internacional, afora número significativo de canais privados, indianos e estrangeiros, embora chame a atenção o nível primário da propaganda televisiva local.

 

Além do preço incrivelmente baixo de chamadas telefônicas, locais, nacionais e internacionais, há postos de internet por toda parte. Em flagrante contraste com a qualidade de vida da população, qualquer casebre da zona rural pode abrigar uma lan house, a poucas rúpias indianas (moeda nacional) por hora, equivalente à média de um ou dois reais brasileiros. Em contraposição, indianos e indianas, de diferentes faixas etárias, localidades e credos, já se queixam dos riscos da progressiva ocidentalização e das mudanças bruscas nos hábitos culturais, entre os quais a preservação da castidade dos jovens até a consumação do casamento, por conta da disseminação da Rede em território indiano. Preconceitos são abalados e a competição pelo mercado de bens e serviços ganha espaço. Preconceitos prosseguem arraigados, como a condenação do homossexualismo, traduzido na negação da sua existência, principalmente, nos vilarejos e na zona rural.

 

O indiano é profundamente devocional

 

Dentre os elementos citados como representativos dos contrastes que se fortalecem à medida que se caminha pela Índia, nenhum é maior do que a religião. Sem dúvida, o sentimento de religiosidade é algo arraigado ao ser humano. Todos o possuímos, de maneira mais, ou menos latente. Os ideais religiosos contribuem para estruturar e confirmar o sistema legal dos povos, escrito ou oral. E a alma do indiano é profundamente devocional. Esta pode ser uma explicação simplória, mas eficaz, acerca da força das religiões entre o povo indiano. Força ou fraqueza, porque nutro a sensação de que, na Índia, a religião é muito mais ópio do que devoção. É muito mais narcótico do que manifestação de crença na existência de forças sobrenaturais. Cada rio ou lago, cada montanha ou colina, cada gruta ou descampado parece abrigar alguma fé, lenda ou conto da mitologia. Há conformação e passividade quase generalizada em torno dos desígnios dos deuses para justificar a pobreza extrema que assola a maior parte do País. Isto justifica a propagação de fala atribuída a um político indiano (com o qual concordo), que diz: “a Índia precisa mais de privadas do que de templos ou mesquitas.”

 

O hinduísmo predomina entre 80% da população, em seis linhas – nyaya; yoga; vaisheshika; samkhya; mimansa e vedanta. Resultante da evolução, ao longo dos séculos, do vedismo e do bramanismo, hoje se impõe como ampla manifestação cultural, expressa por rica literatura poética e religiosa, que cristaliza preceitos relativos à vida cotidiana e à organização social. Os templos variados refletem a orientação ela mesma diversificada dos milhões de deuses – cada habitante pode ser visto como divindade. Os hinduístas ultrapassam em quase seis vezes os muçulmanos. Mas há muito mais: budistas, jainistas, parses, judeus, sikhs, católicos etc. se misturam.

 

Não falo em convivência sempre pacífica, mas sim, na sobrevivência concomitante de tantos e tão distintos mitos e ritos. A caverna Mahakala, onde Gautama Buddha (ou Buda) se recolheu até alcançar a iluminação e se eternizar sob a sombra da árvore Bo, que tem descendente localizada no belo templo budista Mahabodhi, ambas na pequena cidade de Bodhgaya, são lugares repletos de peregrinos. A miséria indescritível da população contrasta com a fé quase insensata dos que beijam o solo que rodeia a árvore bendita, em pausados e ensaiados gestos.

 

Foi em Bodhgaya, a caminho de Mahakala, que vivi uma das situações mais dolorosas da viagem: caminhar por entre um corredor de desvalidos, de todas as idades, de cores distintas, de mutilações variadas e inarráveis. Cena digna de um filme de horror! Mulheres grávidas, velhos desdentados, crianças se arrastando pelos chãos íngremes... Aliás, este último quadro se repete praticamente em todos os lugares visitados. A explicação é a incidência ainda alta da poliomielite e / ou a “lenda”, confirmada por alguns monges e guias turísticos, de que, nas regiões mais pobres, pais desesperados mutilam os próprios filhos quando recém-nascidos, como forma de garantir a sua função de pedinte entre peregrinos e turistas, mais adiante. Prefiro e preciso crer que se trata de “lenda”! Da mesma forma, fecho os olhos ao aborto ou ao genocídio corrente de bebês meninas, não importa a proibição formal da “seleção de fetos”.

 

Em relação ao budismo, as denominadas stupas e ainda os mosteiros se espalham por muitos lugarejos, em infindas variações, que se refletem até mesmo na construção dos prédios. É o caso, por exemplo, dos templos indiano, japonês, tailandês e butanês, em Bodhgaya. É a veneração ao Dalai-Lama, chefe supremo do lamaísmo, religião dominante do Tibete, originada do budismo maaiana, associado aos cultos mágicos locais e ao tantrismo.

As mesquitas, templos maometanos, trazem milhares de fiéis muçulmanos que se prostram para recitar o Namaaz. Como visto em Delhi, os adeptos do jainismo, fundado por Mahavira, ainda no século VI a.C., com os seus fascinantes templos de pedras, crêem no carma e no ainsa (rejeição da violência e respeito absoluto à vida de qualquer ser), e se opõem ao sistema de castas do bramanismo, defendendo valores morais ascéticos severos. Inclusive, os mais ortodoxos se dispersam em regiões longínquas, nus e desnudos, na tentativa de maior aproximação à mãe natureza.

 

Os sikhs, adeptos do sikhismo, religião monoteísta (século XVI), fundada pelo Guru Nanak, professada em especial pelos panjabis, repelem o sistema de castas e a idolatria, mas conservam as suas gurudwaras de mármore e ouro. Há, ainda, sinagogas para os judeus; catedrais para os católicos e as igrejas ortodoxas dos armênios, na sua maioria, refugiados da perseguição atroz dos pogroms (ataques contra comunidades judaicas, tolerados pelas autoridades oficiais) do império otomano.

 

Os parses, antigos persas zoroastristas, por sua vez, permanecem nas suas torres de silêncio e / ou nos seus templos de fogo, cultuando hábito que nos assombra, como ocidentais: devolvem os mortos à natureza para a delícia dos abutres que rondam as colinas. Enquanto isto, à semelhança dos católicos, os muçulmanos enterram os seus. Os hinduístas os cremam, com naturalidade descomunal – sem choros e sem velas – como visto em Varanasi, de maneira assustadora. Cadáveres trafegam ao nosso lado, carregados por homens da família. Há casos em que lançam os corpos às águas sagradas, sobretudo, ao sagrado rio Ganges. São os ditos “insepultos” – bebês, gestantes, leprosos, portadores de varíola e os sannyâsins, iluminados que renunciaram às posses do mundo.

 

Varanasi também é inesquecível pela vista do amanhecer em passeio de barco a remo pelo mágico Ganges. Espetáculo único: velhos esperam a morte chegar vivendo nas escadarias (ghats) sujas que levam ao rio sagrado; pessoas oram aos deuses e lançam oferendas às águas; outras se banham ou escovam dentes; algumas lavam roupas e tapetes; há quem se penitencie. Há de tudo! A cerimônia do fogo, a cargo de vários monges, ao cair da tarde, no Dasaswamath Ghat, constitui cena cinematográfica, em sua originalidade.

 

Depois do choque provocado pela presença da morte, dos ghats repletos de surpresas, nem sempre agradáveis aos olhos, das ruelas imundas de comércio de Varanasi (aliás, a bem da verdade, homens ou crianças fazendo xixi ou cocô são incontáveis em qualquer lugar da Índia), visita ao santuário budista de Sarnath, em Uttar Pradesh, traz imensa paz. Foi aí onde Buda fez a sua primeira pregação e Sarnath atingiu o seu apogeu no século V d.C., reunindo nas suas instalações cerca de mil e 500 monges.

 

O velho e o novo na Índia de 2006

 

As contradições advindas do confronto entre o velho e o novo na Índia de 2006 estão por toda parte, desde a tecnológica Mumbai até a miserável mas fascinante Bodhgaya. Em Rishikesh, capital mundial da ioga, a permanência por três dias, num ashram (comunidade espiritual e auxílio aos necessidades sociais), situado às margens do Ganges, cujas águas nascentes o fazem ainda limpo, me deu a dimensão exata da beleza e da força de tradições milenares, como a crença que um banho nas suas águas, limpa o peregrino de quaisquer pecados. A prática de rafting me encantou e atemorizou, simultaneamente. O entardecer. O amanhecer olhando o Ganges. A mirada dos picos gelados do Himalaia a partir de uma das montanhas altas de Rishikesh a tornam inesquecível.

 

 

Indo a Khajuraho, os seus templos (Madhya Pradesh), construídos entre os séculos X a XI, surpreendem pelo erotismo de esculturas, que reproduzem não só o cotidiano do império Chandella, mas deuses e deusas sempre em poses sensuais. Mas afinal é de origem indiana o mais célebre tratado de amor e sexo de que se tem notícia, o Kamasutra. Data do período entre 320 a 480 d.C., a “era dourada dos guptas”, quando a Índia vivencia o avanço das artes, da cultura, da literatura e da ciência, mediante a produção de obras sobre medicina, matemática e astronomia.

O velho e o novo, o primitivo e o atual se confundem, também, em práticas e hábitos espantosos. Entre eles, o uso da mão esquerda para a limpeza de fezes, mas da mão direita para as horas de refeição; os arrotos a cada momento; o arado puxado a búfalos na agricultura; e o trânsito ensurdecedor. Em ruelas estreitas ou em avenidas largas, vacas, porcos, pessoas e dejetos (animais ou não) se misturam com motos, carros, ônibus e, mesmo nas metrópoles, com o rickshaw (bicicleta ou lambreta para transporte de várias pessoas). A Organização Mundial da Saúde delimita em 65 decibéis o limiar dos ruídos que causam mal à saúde, como aumento da dose de adrenalina, alta de pressão, estresse e insônia, além da perda total ou parcial da audição. O que dizer da loucura desse trânsito, sob o comando cômico de guardas com cassetetes de madeira em perdidas esquinas?

 

Prosseguindo o caminhar dentre as perplexidades inerentes às várias índias, causa espanto a precariedade do sistema de água e saneamento dos lugares visitados, ainda que o País lance satélites ao espaço, possua tecnologia nuclear, a ponto de assinar agora Acordo de Cooperação Nuclear com os Estados Unidos da América (EUA). A água é sempre um risco. A alimentação de vegetais ou frutas, idem. A este respeito, Índia é a terra dos molhos. Estes fazem a delícia da comida indiana, com sabor incrivelmente picante, mas, às vezes, dolorosamente picante, a exemplo do servido em alguns vôos internos de Varanasi a Delhi e Delhi a Mumbai. Aliás, há muitos vegetarianos. Talvez, por conta da simbologia da vaca para a civilização hindu, quando se crê que é ela que nos transporta à outra vida.

 

Repito: a falta de higiene é sempre um fantasma. Há epidemias. Há elevada incidência de doenças debeladas em outras nações, como hanseníase e poliomielite, conforme visto no Institute Root (Bodhgaya), que oferece assistência médica à população local, e onde estive alojada por quatro dias. Há discrepâncias também em relação à educação: números (sempre imprecisos) apontam quase 50% de analfabetos contra a formação de cinco milhões de universitários, por ano. O País investe pesado na indústria cinematográfica concentrada em Mumbai, Chennai e Calcutá.

 

É a manutenção de costumes seculares em choque com a força da globalização, intensificada por conta das tecnologias de informação e de comunicação.

 

Segregação continua!

 

Com as economias vizinhas explodindo, a exemplo de Cingapura, Coréia do Sul e Hong Kong, considerados “Tigres do Sudeste Asiático”, a imprensa mundial, inclusive a brasileira, já fala no planeta “Chíndia”, união de China e Índia. Face às suas dimensões continentais, à proximidade física e às similaridades socioeconômicas, os dois países juntos começam a ser vistos por economistas como fenômeno capaz de alterar os rumos da economia mundial. Embora paire a visão irônica da China como lebre e da Índia, como elefante ou “tigre enjaulado”, a “Chíndia” já induz ao incremento da produtividade e a mudanças radicais de hábitos de consumo para preservar o meio ambiente, em nível mundial. Segundo as projeções, quando indianos e chineses alcançarem, mais ou menos em 2050, poder de consumo similar ao da população norte-americana, abrigarão três bilhões de habitantes, gastando 72% da energia global e duplicando o consumo de água do planeta.

 

Estranha ironia! Tais projeções caminham, lado a lado, com a discriminação da mulher, na família, no trabalho e nas artes (com forte reflexo na dança), e com o propalado sistema de castas, oficialmente extinto. Há fatos incríveis. Como noticiado na revista de circulação internacional, India Today, edição de fevereiro de 2006, se um homem delinqüe, mulher e filhos têm que lhe dar apoio incondicional. Se uma mulher comete crime, além do abandono “obrigatório” da família, incluindo a permissão do marido se casar de novo, os filhos menores são mantidos na prisão. Tal insensatez vem provocando reações, como em andamento em presídio feminino de Lucknow. Mesmo ainda aprisionadas, as crianças têm direito, agora, à educação e melhor alimentação, a medicamentos e roupas, graças à intervenção de “pais” ou Guardians for angels, que as visitam três vezes ao mês.

 

A prostituição, praticada, quase sempre, por jovens vindas de países vizinhos, como Nepal e Bangladesh, é duramente punida e perseguida, a tal ponto que o Governo indiano, por meio do Immoral Traffic Prevention Act, estuda punição extensiva aos “clientes”, mas, sobretudo, aos agenciadores ou traficantes de mulheres. Ainda em pleno século XXI, de vez em quando, viúvas se imolam na pira funerária dos maridos mortos. Afinal, o seu destino é sempre incerto, pois são vistas como aves agoureiras e malditas. As noivas, invariavelmente, abrem mão das suas famílias para viverem com as dos maridos, na condição de “operárias do lar”, a quem compete os serviços domésticos mais duros. Paradoxalmente, quase sempre, jovens ou não, as mulheres não abrem mão de ornamentos (colares, pulseiras em grande quantidade, brincos, tornozeleiras, bindis etc. etc.) e de vestimentas multicoloridas e graciosas, como o sari, usado mesmo entre jovens, apesar da crescente ocidentalização. Isto é encantador: mulheres urbanas ou campesinas, ricas ou pobres, novas ou velhas, roupas gastas ou não, mas sempre coloridas e ornadas!

 

Por outro lado, a segregação social ainda é fato. Na Índia antiga, o sistema de castas e subcastas tão-somente descrevia a ocupação dos indivíduos. Isto é, há os que pensam (como professores e religiosos); há os que protegem (como policiais e juízes); há os que provêm as necessidades da sociedade (comerciantes); há os que servem ou oferecem serviços (operários).

 

Isto conduz às categorias centrais iniciais: brahmins (casta sacerdotal), kshattriyas (casta real), vaishyas (lavradores, artesãos e comerciantes) e shûdras (classe de trabalhadores não especializados). Por pretensa superioridade, acima de qualquer casta, os sannyâsins. Por pretensa inferioridade, abaixo de qualquer casta, os chândalas ou párias, denominados de “intocáveis”, uma vez que se acreditava que até mesmo a sua sombra poluía as demais castas. Estiveram eles privados, por longo tempo, de todos os direitos religiosos ou sociais, como decorrência do seu nascimento ou da exclusão da sociedade, com o agravante de que o “castigo” perseguia gerações e gerações. Exemplificando: filhos, netos e bisnetos de catadores de lixo ou lixeiros não tinham outra opção; os excluídos por assassinato ou roubo legavam à sua descendência o peso dos erros cometidos.

 

No entanto, cada vez mais, as castas passaram a significar discriminação social, no seu aspecto mais e mais perverso. Se, ainda em 1890, o soberano de Baroda, reino poderoso da Índia, em ato de sensatez e eqüidade, franqueia a educação para todos, na atualidade, em termos oficiais, a República da Índia (Bharat Juktarashtra) garante, constitucionalmente, que todos são iguais. É vedado ao Estado qualquer forma de segregação, seja ela por motivo de religião, raça, casta ou sexo. A “intocabilidade” é, agora, passível de punição.

 

Mesmo assim, a leitura dos jornais indianos, sobretudo aos domingos, mostra que, mesmo ilegal, as castas prosseguem. Se, na atualidade, é difícil distinguir as três mil castas e as 25 mil subcastas somente pela aparência física, recorrendo-se, com freqüência, aos sobrenomes (estes, sim, elementos identificadores), numerosos anúncios em busca de noiva exigem pertencimento às castas “superiores” e / ou cor branca. Isto faz com que homens e mulheres, jovens ou velhos, busquem, de maneira obsessiva, clarear a pele, por meio do processo de despigmentação, ainda que a cor achocolatada predomine entre os mais de um bilhão de habitantes.

 

Decerto, trata-se de herança maldita do sistema segregador, vez que os párias eram, na sua maioria, de tez mais escura. Em contraposição, indianos contemporâneos dizem que não há relação com a manutenção do sistema de exclusão. Engano do estrangeiro. Percebem isto como estratificação essencialmente econômica, a exemplo do que se pratica em nosso País, quando o casamento do filho de um grande industrial com uma favelada causa, no mínimo, certa estranheza. A não ser que se dê nas telenovelas...

 

Índia e Governo

 

Aqui, acrescento o que me parece irônico: as mudanças constitucionais em busca de maior eqüidade derivam de esforço hercúleo de um “intocável”, que rompe os grilhões da “escravidão”. Falo de Ambedkar, figura histórica, ao lado de nomes, como o do hinduísta Mahatma Gandhi, que também muito lutou por justiça para o seu povo e o do sábio Kyasa, autor do poema épico mais conhecido da Índia, o Mahabharata, ele também pertencente à casta inferior. Com permissão para estudar, Ambedkar alcança títulos acadêmicos elevados, como Doctor in Philosophy (PHd), pelos EUA, e doutor em ciências sociais (Inglaterra), perseguindo ainda o sonho de se graduar em Direito, para lutar em prol dos demais excluídos pelo sistema de castas.

 

A partir de 1946, envolve-se na elaboração da nova Constituição, e assume, no ano seguinte, a presidência dos trabalhos. Estes duram quatro anos, os quais coincidem com mudanças profundas na vida do povo indiano. Os britânicos, após anos de colonização, partem. Soberanos independentes reúnem os seus domínios para formar a Índia e o Paquistão. As metades ocidental e oriental do Paquistão, separados uma da outra pela Índia, por 1.500 km 2, digladiam-se em luta histórica e sangrenta, dando origem a Bangladesh.

 

Ainda quanto a questões governamentais, é interessante a declaração da indiana Gita Mehta, autora de belíssimo livro, intitulado Escadas e serpentes: um olhar sobre a Índia moderna, traduzido para o português (Editora Companhia das Letras), em 1998. Ela diz: “[...] apesar da inércia, da rigidez de sua burocracia, da venalidade de seus líderes, das injustiças secularmente institucionalizadas, de seus sistemas sociais [...]”, a Índia sobrevive como a maior democracia do mundo, contrariando o previsto por Malcom Muggeridge, humanitarista inglês, para quem “gente de estômago vazio não faz idéia do que significa democracia.” (p. 36).

 

O regime parlamentarista vigente comporta duas Câmaras. A primeira, Lok Sabha, integra os representantes eleitos pelo povo. No caso da segunda, Rajya Sabha, os membros são nomeados e eleitos. Câmaras e Assembléias Estatais elegem o Presidente, a cada cinco anos. Como chefe do Estado e Comandante das Forças Armadas, este nomeia o Primeiro-Ministro (apoiado pela maioria da Lok Sabha) e demais ministros. Resta, então, o reconhecimento de que a Índia, apesar das desigualdades que ferem olhos e tocam ouvidos, mantém admirável obstinação modernizante. Por exemplo, independente da prevalência do hinduísmo, tem como Presidente, um muçulmano, A. P. J. Abdul Kalam e um Primeiro-Ministro sikh (Manmohan Singh).

 

Tudo isto, em meio às influências do império mongol, do Raj britânico e dos marajás do passado. No que toca aos mongóis, por trem, estive em Agra, onde está a antiga capital do Império Mongol, Fatehpur Sikri, construída no século XVI e habitada apenas por 20 anos. Lá, o Castelo de Agra (mescla de forte e palácio) e o mais famoso monumento da Índia, o Taj Mahal, obra do imperador Shahjehan, são também exemplares da arquitetura mongol, que combina estilo hindu e perso-arábico. Em Jhansi, está o palácio-forte de Orchha, antiga capital de um principado, entre 1531 a 1783, de rajaputros (filhos do rei), antiga casta do noroeste da Índia, consagrada às armas.

 

Finalizando

 

Por fim, a Índia em toda a sua plenitude muito me auxiliou no propósito firme que mantenho de viajar para ampliar a minha visão de mundo perante a história do ser humano. Não carrego comigo pré-concepções ou preconceitos. Desnudo-me inteira para percorrer outros caminhos, outros rumos ou outros hábitos. Desnudo-me inteira para seguir por onde a emoção me leva, por onde o homem comum transita. Desnudo-me inteira para descobrir a alma de cada cidade, de cada povo, no que ele tem de mais genuíno e menos “fabricado”. Mesmo assim, confesso: continuo sem saber o que é a Índia e sem conhecer o seu povo; continuo incapaz de decifrar as suas faces enigmáticas e misteriosas, boas ou más. No entanto, permaneço encantada pela magia dessa terra, que por sua venerável antiguidade e por seus acentuados contrastes, constitui mundo à parte para deleite ou horror, com os inumeráveis santuários hinduístas, que se perdem na escuridão de ruelas ou de esquinas...

 

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