O dia em que amei Buenos Aires (*)

 

 

Eduardo Ramos

 

 

Fui chamado para uma viagem de trabalho a Buenos Aires, a Paris da América Latina. Falam que está suja, com mendigos e o pior: cheia de brasileiros. De fato, os brasileiros são o que há de melhor na região da Calle Florida. Não, isto não é um fato, há flores de todas as cores por aquelas bandas, como diria Vinícius e cantava o Tom, que, como Chico e Caetano, apareceram na pequena TV de tubo, 14 polegadas, disponível em meu hotel.

 

Agora sim, fatos: esta foi minha quarta vinda à cidade, a segunda a trabalho e a primeira em que vim só. Fico pensando agora e creio que gostei de tudo que vi da Buenos Aires turística. Bem, talvez não do passeio de barco rio acima, nem da visita guiada à Casa Rosada, mas isso já foi há tempos.

 

Tive um sonho, chorei, sozinho fico emotivo. Fui a um café à uma da manhã, escrevi e-mails para o amigo que já morreu, admirei las chicas que não estavam ao meu redor. Em verdade, quase só tinha brasileiros naquele café.

 

Caminhei de madrugada pela 9 de julho e refleti: de fato ganha de longe da Paulista, los Hermanos tienen razon. Com o Rio, não há com o que comparar, nós demolimos e sepultamos nossa avenida central e foram erguidos prédios-túmulos no Centro e de arquitetura duvidosa por toda a Zona Sul. Em Buenos Aires há prédios modernistas, possivelmente de influência francesa (?), como também há em São Paulo. Em Sampa, contudo, há uma degeneração neoclássica que não se vê em Buenos Aires. Uma tese de arquitetura poderia explicar por que, ou como, a arquitetura se manteve tão preservada em Buenos Aires, ou talvez bem melhor seja perguntar ao Enrique Saravia. Será que algum governo coordenou isso?

 

Vi os prédios no belíssimo bairro de Palermo como nunca havia visto antes. No último dia sobrou uma tarde e meus colegas de trabalho foram correndo às compras, aos couros e à velha Calle Florida. Quase acompanhei a manada –e aqui não há qualquer crítica, só um sentimento de que fazemos muita coisa por inércia e que, de vez em quando, é bom romper–, mas, num rasgo de bom senso, lembrei-me de meus armários cheios de objetos de pano, metal e plástico de que não preciso e decidi pegar um táxi e saltar em um lugar qualquer de Palermo, apenas para olhar e caminhar.

 

Acho que desde que vim a Buenos Aires pela primeira vez, queria fazer isso. Mas só se pode conhecer uma cidade sozinho.

 

Os prédios, os postes de luz, as calçadas meio sujas, com alguns buracos, lojas muito familiares, as panaderias, heladerias , tiendas de flores, todas claramente com décadas, os cafés, cada sacada modernista, cada praça e monumento de Palermo são uma inscrição em carne viva daquele povo, de sua história. As pessoas circulando se encaixam perfeitamente no cenário, uma perfeita tradução do que é aquela cultura. Até os garotos e garotas que saíam da escola pública eram os atores perfeitos.

 

Eu sinto um pouco isso em São Paulo, talvez por isso goste tanto de lá: os asfalto, a arquitetura, a poluição, as horrendas passagens subterrâneas, as pessoas apressadas, competindo mais amigas, a Rita Lee, tudo se encaixa em perfeita tradução. Não há como não sentir-se assim, por exemplo, caminhando nas cercanias da Paulista.

 

O Rio é diferente, o mar abre nossos horizontes e é como se a cidade não traduzisse uma coisa só, ou algo fácil de se perceber. A arquitetura não tem identidade, cada vez mais as lojas antigas são substituídas, o povo admite tanta variação que não parece haver um traço comum, senão talvez o sotaque. Ou talvez seja também nossa capacidade de abrigar a tudo, a todos e de conviver com artistas nas ruas fingindo que não os vemos. Não competimos, mas somos distantes, meio blasé, muito mais que os paulistas. Ou talvez tenhamos tanta beleza natural que não tenha como uma cultura traduzir-se no espaço, quiçá nas pessoas que neles habitam.

 

Sobrevoamos o espaço aéreo uruguaio, avisa o piloto, o que me lembra do encanto que foi descer em Buenos Aires pelo aeroporto Aeroparque, e não por Ezeiza. Quase me senti na Guanabara, pousando no Santos Dumont. Quase, pois nada consegue ainda superar a sensação de pousar no paradisíaco aeroporto carioca.

 

O que me faz lembrar que este vôo, desgraçadamente, pousará no sujo, pobre e vergonhoso Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro Galeão Antonio Carlos Jobim, nome que é a confirmação perfeita do que disse antes, sobre o Rio.

 

Caminhando por Palermo, reativei algumas referencias, comi alfajores de verdade, empanadas de atum pela primeira vez e indeléveis sanduiches de miga. Conheci uma nova Buenos Aires, na qual, por alguns momentos, eu parecia ser o único estrangeiro. Entrei em uma Igreja, me surpreendi com um sistema de áudio que fica tocando uma gravação de uma missa e tive certo frio na barriga quando rezava uma Ave Maria –é, estou em uma fase religiosa—e, súbito, a gravação da missa entrou em sintonia com minha oração, na parte de Santa Isabel. Retornei ao Aeroparque, para embarcar, caminhando longamente, vendo o sol se por nas turvas águas argentinas a tremeluzir douradas. Sinto que voltarei, preciso trazer meus filhos.

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(*) Escrito a bordo de um 733-700 da Aerolineas Argentinas que decolou do Aeroparque às 20h50 do dia 30 de agosto de 2011. Ontem dormi tarde, hoje acordei 6h para as reuniões de trabalho, agora são 22h30 e vou ligar o Iphone, ainda a bordo, mas já avistando a Guanabara.

 

(*) Anotei numa outra folha do caderno a frase “O Rio é dissipante. Dilui.” E registrei a lembrança do Tom Jobim falando algo nessa linha no especial Antonio Brasileiro, após cantar a canção Lígia com Marina.

 

(*) Na mesma página anotei também: Escrevi com uma caneta Uniball Vision Elite, que adoro, em um caderno de bolso que já tinha ilustrações de minha linda e querida filha Mariana. Fico pensando se conseguiria escrever isto no iPad ou num notebook. No primeiro, no qual anotei todas as reuniões de trabalho desses dias, tenho certeza de que não. Mas esta já seria uma outra história... No iPhone, escuto, em êxtase, o magnífico Canto Triste (Edu Lobo e Vinicius de Moraes). Ouça-a e pense nas cidades observadas e amadas na solidão.

 

 

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