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O festival do comidas nas ruas de Paris e outras cidades da França.

Novas e criativas receitas de Bacalhau, por grandes chefs brasileiros.

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O pícaro A. Falcão apresenta suas receitas de conquistar mulheres.

Um roteiro da cidade de Campina Grande, por José Nêumanne.

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Um roteiro da cidade de Natal, por Nei Leandro de Castro.

Para ver antes do almoço:
a cozinha tradicional paraibana.
(um segundinho até carregar).

Atlanta, da Guerra Civil
à Coca Cola,
por Lea Maria Aarão Reis.

Léa Maria volta de
Buenos Aires
e conta o que viu lá.

Cahors, no coração da França.
Por Celso Japiassu.

Um olhar sobre a Galícia.

Caio Mourão ensina a fazer um
exótico Risoto de Morangos.

Nei Leandro de Castro confessa
seu amor por Florença e traça o roteiro sentimental de Lisboa.

Dê uma olhada em alguns pratos de restaurantes europeus.


Vale a pena ver como se faz
um leitão.

50 Sonetos de Forno e Fogão:
apresentação,
introdução
,
receitas em a-b-c,
d-e-f
,
j-l-m,
p-r-s-t-v-x
.

Mestre Eça de Queiroz mostra
como se comia na Grécia
e na Roma antigas.


REPÚBLICA TCHECA, PRAGA E MUITO MAIS

 

Maria das Grašas TARGINO *

 

Como os demais países do centro europeu, a exemplo dos “irmãos” Alemanha, Áustria, Eslováquia, Hungria e Polônia, a República Checa tem uma longa história. São invasões, conquistas, revoluções e um regime comunista que perdura por 41 longos anos. Adepta à democracia somente em 1989, por meio de uma “Revolução Branca”, hoje, a antiga Tchecoslováquia mantém regime parlamentarista, e, sobretudo, caminha incrivelmente rápido rumo ao progresso. Integrada à União Européia desde 2004, “se dá ao luxo” de manter até os dias de hoje sua moeda (coroa checa, K?), o que lhe assegura certa vantagem diante das demais nações da UE ou, no mínimo, certa autonomia.

 

O país está invadido por indústrias, com ênfase para suas célebres cervejarias. Além de mais barata do que a água mineral, para quem gosta da bebida, há a possibilidade incrível de usufruir as delícias de spas que oferecem exóticos banhos de cerveja, como acontece em Chodova Plana, a 155 km de Praga. O banho é preparado com 50% de água mineral e 50% de cerveja escura a temperatura de 34 graus. Durante a imersão (tempo máximo de 20 minutos), o felizardo saboreia canecas de cerveja e após o banho, pode mergulhar nas piscinas dos spas.

Há, ainda, os famosos cristais da Boêmia, sinônimo de produtos de alta qualidade, embora, nos dias atuais, existam imitações em qualquer lojinha de souvenir dos produtos originais dessa região. Ademais, o país atrai para seus balneários uma multidão de estrangeiros, na maioria, os vizinhos e antigos colonizadores, alemães e russos, além dos próprios tchecos. Beneficiados por excelente sistema de saúde pública, estes têm permanência assegurada para sua recuperação, se for o caso, em cidades balneárias com termas incríveis, como Karlovy Vary, que constitui um capítulo à parte por sua beleza ímpar.

Em nossa visita ao país de clima tremendamente frio, oscilando entre menos 3 a 5°C abaixo de zero, nos meses de inverno mais intenso, a capital e maior cidade, Praga (ou Praha, em tcheco) nos encantou. Situada na Boêmia central, localiza-se sobre colinas, em ambas as margens do rio Moldava (ou Vltava), um pouco antes de sua confluência com o rio Elba. Suas 18 pontes e sua infinidade de torres fazem da cidade verdadeiro cartão postal onde quer que se esteja – Distrito do Castelo (Hradcany), Cidade Pequena (Mala Strana), Cidade Velha (Stare Mesto), Bairro Judeu (Josefov) e Cidade Nova (Nove Mesto) – e justificam os variados cognomes a ela atribuídos, como: “Cidade Dourada”, “Cidade das Cem Cúpulas”, “Coroa do Mundo”, “Sonho de Pedras” e “Pérola do Oriente”.

 

 

A Ponte Carlos (ou de Carlos) merece destaque. Construída entre os séculos XIV e XV, atravessa o Moldava da Cidade Velha até a Cidade Pequena. Em sua longitude de 516 metros (largura de aproximadamente 10 metros), surpreende: ostenta 30 imponentes estátuas de santos e patronos em estilo barroco (peças originais, no Museu Nacional), que incentivam pedidos e promessas, crenças e descrenças, sabores e dissabores. Por sobre a ponte, há de tudo. Artistas expõem sua produção. Retratistas e caricaturistas eternizam o momento dos visitantes. Malabaristas brincam. Meninos correm e se divertem. Vendedores negociam. Turistas regateiam e registram com fotos, muitas fotos.

 

De fato, Praga contém em si mistérios insondáveis. Sua história se funde com vidas de reis, rainhas, poderosos, beneméritos e algozes. São tantas as lendas que se perdem pelas ruas da cidade, que é fácil encontrar nas livrarias, variados títulos que as narram para públicos diferenciados, incluindo crianças e adolescentes. Há contos que se mesclam com verdades históricas. Por exemplo, num dos lugares mais aprazíveis – o Castelo de Praga –, uma das salas atrai, cada vez mais, os curiosos. Conta-se que de uma de suas janelas ocorreu o mais célebre defenestramento (do latim fenestra = janela). Conhecido como a Segunda Defenestração de Praga, ano 1618, imortaliza o termo defenestrar (jogar alguém pela janela). Diante da perseguição religiosa do poder católico da Áustria, a nobreza protestante da região Boêmia não vacila: lança da tal janela os dois emissários do Rei Fernando II. Os homens sobrevivem, mas o ato de tão desmoralizante incentiva séria revolta contra a Casa de Habsburgo e dá início à chamada Guerra dos Trinta Anos.

 

Aliás, tanto falatório faz com que Praga se torne conhecida por suas três mentiras. A primeira refere-se o famoso Menino de Praga. A famosa imagem do Menino Jesus de Praga, hoje, na Igreja de Nossa Senhora da Vitória (ou Igreja da Virgem Maria Vitoriosa), não é de Praga. Procede da Espanha, especificamente de um mosteiro entre Córdoba e Sevilha. Uma senhora da nobreza espanhola a oferece como presente de casamento à filha, quando esta se casa com um nobre checo. A imagem segue para a República Tcheca. Passa de geração a geração até chegar ao convento das Carmelitas Descalças.

 

A segunda mentira envolve justamente o citado Castelo de Praga: nem é castelo, nem é palácio. Do século XVII, antigamente habitado pelos reis da Boêmia, atualmente, é sede de presidência tcheca. Situado na colina Hradcany, é um complexo arquitetônico, que reúne diferentes estilos e se constitui na maior fortaleza medieval ainda existente no mundo. Aí estão antigos salões de festas da dinastia tcheca, a Catedral de São Vito, em estilo gótico; a Basílica de São Jorge e suntuosos jardins. Além do mais, é possível assistir aí a Troca da Guarda. Sem a grandiosidade da que se dá no Palácio de Buckingham, Londres, de uma forma ou de outra, é uma vivência ímpar.

 

Por fim, a terceira mentira refere-se à denominada Praça Venceslau, que pouco tem de praça. É uma avenida. É um local sagrado ou emblemático, onde a população tcheca vivenciou grandes mudanças. Entre as mais conhecidas pelo povo brasileiro, estão a famosa Primavera de Praga, quando protestos contra o regime comunista eclodiram, em 1968; e a mencionada “Revolução Branca” ou “Revolução de Veludo”, em 1989, que derruba o regime e instaura o parlamentarismo vigente. Hoje, a Avenida Venceslau persiste como um palco onde tudo pode acontecer, incluindo manifestações reivindicatórias, festejos cívicos, exposições de arte e assim sucessivamente.

 

Mas Praga tem muito mais do que lendas, estórias ou mentiras. Sua verdadeira história de luta não compromete sua musicalidade. Desde o ensino fundamental, as crianças tchecas são estimuladas a aprender flauta ou outro instrumento musical. O resultado não tarda a chegar: Praga é uma cidade infinitamente musical. Percorrendo a cidade em antigos tramways ou no moderno metrô, igrejas dos vários credos, associações culturais e museus anunciam concertos e / ou recitais em horários os mais variados possíveis e a preços bem acessíveis.

 

Assim, apesar de fechada ao turismo durante os longos anos de governo comunista, na atualidade, o setor turístico contribui significativamente para a vida econômica da nação. E, à semelhança de Paris, Praga exala clima intenso de cultura e muita jovialidade. Afirmamos: é uma capital antiga e não uma capital velha. Globos nos céus cheiram à modernidade. Charretes e limusines de aluguel mostram a fusão entre o novo e o antigo. Bodas festejadas em plena rua repetem os costumes dos antigos colonizadores russos e põem em xeque a verdade ou inverdade dos últimos censos que apontam a população como majoritariamente agnóstica.

 

Enfim, tudo justifica a consagração de Praga com o título de Metrópole da Cultura, ano 2000, e a inclusão de seu núcleo histórico como Patrimônio Mundial, Cultural e Natural da Unesco. Música, teatro, poesia, literatura, bibliotecas, museus, igrejas, jardins e monumentos se misturam com cassinos, bares, discotecas e muitas marionetes, que estão por toda parte. O teatro negro é uma referência típica. Seu cenário escuro, sua estratégica iluminação de jogo de luz e de sombras, suas lanternas negras e trajes fosforescentes fazem com que os espectadores se envolvam na beleza do enredo e na perfeição das técnicas que fazem voar personagens ou objetos, lhes conduzindo a um mundo de infinita e grata magia. E tudo em meio a uma espetacular trilha sonora, em que obras clássicas dos compositores checos Bed?ich Smetana e Antonín Leopold Dvo?ák se misturam com a música jovem e contemporânea...

 

Na literatura, estão nomes universais, a exemplo de Franz Kafka, Milan Kundera e Rainer Maria Rilke. Coincidentemente, autores que marcaram nossa adolescência. O primeiro, e ao que parece, o mais festejado pelos concidadãos com museu em pleno centro da cidade, tem em A metamorfose sua obra prima. O segundo marca presença no Brasil, com o sucesso editorial de A insustentável leveza do ser. De Rilke, nos restam recordações do lirismo incontido em suas cartas e seus poemas.

 

Também atrai multidões o relógio astronômico medieval da Old Town (Praça da Cidade Velha). Recorrendo ao mesmo mecanismo da época de sua instalação, século XIV / século XV, entre apóstolos que se movem e o galo que canta ostensivamente, ele anuncia cada hora exata, mas, sobretudo, declara a vitória da morte (simbolizada pela figura de um esqueleto) ante a pequenez do ser humano, que luta e se desespera. Em vão...

 

No entanto, como descobrir povos, cidades e nações consiste, irremediavelmente, em experiência única e multissensorial, no nosso caso, de Praga, gravado a fogo em nossa memória a lembrança do Bairro Judeu. Triste, belo, desafiador. Um sobrevivente no tempo e no espaço, indiferente e sagaz diante das agressões sofridas no decorrer do tempo. Suas sinagogas seculares evocam lembranças infindas. Por exemplo, na Sinagoga Pinkas (fotos internas são proibidas), ano 1535, paredes inteiras, de cima abaixo ou de baixo acima, trazem escrito a mão o nome dos 80 mil judeus da região, vítimas do nazismo atroz e irracional. No piso superior, a exposição “Desenhos de crianças de Terezín” não desperta risos a ninguém. Talvez, tristeza infinda. Indiferença, jamais. Desenhos produzidos por crianças confinadas no campo de concentração de Terezín, durante a Grande Segunda Guerra revelam o contraste profundo entre a inocência infantil e a maldade dos adultos…

 

O antigo cemitério do Bairro Judeu, do século XV, de forma similar, evoca vida, morte, e, em especial, muito sofrimento. Por longo período, às famílias judias era permitido enterrar seus mortos somente na esfera de seu próprio gueto. Como conseqüência, aí estão, aproximadamente, 100 mil corpos em cerca de 10 ou 15 mil tumbas, que se entrelaçam e se fundem num cenário indescritível, atraindo, ainda hoje, sua gente à oração e ao recolhimento, e, mais do que isto, a crença de pedidos que sejam atendidos por meio de mensagens, singelas ou não.

 

Por fim, eis um pouco da República Checa. Eis um pouco mais de Praga. Eis muito mais sobre o que refletir!

 

* Jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica. E-mail para contato: gracatargino@hotmail.com

 

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