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Cuba: os paradoxos da Revolução. Maria das Graças Targino.

Charmes de Tiradentes. Léa Maria Aarão Reis

O último dia do ano em Fiesole. Celso Japiassu.

O Diário do Vietnam, de Daniel Japiassu.

A viagem continua: os diários do Laos e do Cambodja. Daniel Japiassu.

Saigon, cidade aberta. Por Daniel Japiassu.

As Primeiras Pizzas do Rio. Léa Maria Aarão Reis.

O festival do comidas nas ruas de Paris e outras cidades da França.

Novas e criativas receitas de Bacalhau, por grandes chefs brasileiros.

Uma homenagem à caiprinha: Sidney Simões conta a história do drinque brasileiro.

O pícaro A. Falcão apresenta suas receitas de conquistar mulheres.

Um roteiro da cidade de Campina Grande, por José Nêumanne.

Pratos excêntricos e exóticos, por Caio Mourão.

Um roteiro da cidade de Natal, por Nei Leandro de Castro.

Para ver antes do almoço:
a cozinha tradicional paraibana.
(um segundinho até carregar).

Atlanta, da Guerra Civil
à Coca Cola,
por Lea Maria Aarão Reis.

Léa Maria volta de
Buenos Aires
e conta o que viu lá.

Cahors, no coração da França.
Por Celso Japiassu.

Um olhar sobre a Galícia.

Caio Mourão ensina a fazer um
exótico Risoto de Morangos.

Nei Leandro de Castro confessa
seu amor por Florença e traça o roteiro sentimental de Lisboa.

Dê uma olhada em alguns pratos de restaurantes europeus.


Vale a pena ver como se faz
um leitão.

50 Sonetos de Forno e Fogão:
apresentação,
introdução
,
receitas em a-b-c,
d-e-f
,
j-l-m,
p-r-s-t-v-x
.

Mestre Eça de Queiroz mostra
como se comia na Grécia
e na Roma antigas.


UM OBELISCO INACABADO

 

Affonso Romano de Sant'Anna

 

Muitas são as coisas estranhas, porém nada há de mais estranho que o homem, já entoava o coro na “Antígona” de Sófocles. E isto ressoa a todo instante dentro do meu espanto aqui no Egito. Agora, por exemplo, estou no Vale dos Reis e a perplexidade se multiplica. Nessas imensas e calvas montanhas de pedra estão cavados dezenas de palácios funerários de faraós. A angústia da vida diante da morte perfura a pedra, o homem como um escaravelho vai descendo, escavando, construindo corredores e salas por dezenas, centenas de metros treva a dentro. O faraó não quer morrer. O faraó quer derrotar o fim e decretar seu recomeço. Então, manda decorar todas as paredes com cenas coloridas de sua vida, dourando a memória de seu tempo, ritualizando o diálogo com os deuses.

 

Desço por uma dessas habitações, a de Ransés III. Deslumbramento. Não se consegue explicar como construíram e decoraram esses labirinto sem os recursos de luz que temos hoje. Mas o que não se faz para derrotar a morte? Quanto tempo levaram os escravos-escaravelhos nessa empreitada? O faraó , senhor da vida alheia, começa a construir sua morte no momento em que nasce. E dela todos devem participar. Vivos e mortos.

 

As rainhas também. Estão lá no Vale das Rainhas. Mas uma delas- Hatchepsout sobrelevou-se às demais e superou os homens mortos. Não lhe bastava desafiar a morte nas profundezas. Mandou erigir um magnífico templo com três terraços de colunas à luz do Sol. A morte, uma vez mais, foi derrotada.

 

Vou a Luxor e Karnak. A morte insiste em desfigurar, derruir, abater a vida. Andou tombando estátuas, rolando cabeças e corpos de pedras. Mas a sua vitória não foi total. E se não foi total, então, ela foi, de novo contida, retardada. Derrotada por esses seres minúsculos, terríveis e sublimes sob a forma humana, que somos nós, os mais estranhos dos viventes.

Entre Luxor e Karnak duas alas com centenas de esfinges de pedra, marcam o caminho onde procissões sagradas se realizavam. Com o tempo, a cidade atual foi se plantando entre as ruínas. Olho pela janela do carro e vejo alguns meninos jogando bola entre as sobrantes esfinges com cabeça de carneiro. Impassíveis, as esfinges assistem o interminável jogo humano.

 

No templo de Karnak circulo entre as 134 largas colunas revestidas de hieróglifos. Ponho a mão numa e outra, deslizo a memória na palma de minhas mãos. Faço-me menino. Derroto o tempo, volto à infância quando colecionava as estampas do sabonete Eucalol. Já lhes disse, toda a minha cultura vem das estampas do sabonete Eucalol. A mitologia grega, as sete maravilhas, o primeiro espanto diante do mundo que ia além das estreitas margens do rio Paraibuna.

Agora passeio por outro rio, o Nilo. É largo, muito maior do que imaginava. Tão fecundo quanto me garantiram. O navio que vai passando por Tebas, Karnak, Luxor, Kom Ombo, Edfur , Assuam e outros lugarejos fundindo realidade e memória e derrotando a morte, reinventa a história. Bem faziam os faraós em ancorar dentro das pirâmides a barca do Sol para conduzi-los à eternidade. Um rio corre em nós além da vida.

 

A beleza resiste à morte. E resiste ao fanatismo. Nessa ilha de Philae constato, de novo, que os desenhos e esculturas em efígie pelas paredes estão danificados. A fúria islâmica não aceitava representação de divindades. Martelaram o quanto puderam o rosto da beleza. Mutilaram-na em toda parte. Mas a beleza, em sua ruína, nos dá lições de eternidade. O deus Seth, ao Sul, com sua coroa branca e o deus Horus, ao Norte, com sua coroa vermelha presidem o tempo.

 

Mas entre tantas coisas, algo imóvel e latente permanece desafiante. Com a multidão, acordo cedíssimo e viajando de charrete vou visitar o obelisco inacabado nas imediações de Assuam. Como um gigante, como um Ransés II cru, ele está lá talhado, deitado na véspera de si mesmo. Mas quis o azar ou um terremoto, que isto não ocorresse. Um tremor fatal abriu-lhe fendas, e o que seria esplendor nas praças e templos, ali jaz, inerte, ante o pasmo do olhar humano.

 

O que é imperfeito e inacabado também fascina.

 

 

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