Conil de la Frontera, viagem à Espanha profunda

 

Inocencio Pérez Mato

 

Em pleno verão madrilenho de 1964, minha esposa e eu empreendemos uma viagem à Andaluzia a bordo de nossa flamejante Lambretta 125.

 

Pegamos a estrada da Andaluzia, a esse tempo estreita e com pouco trânsito.

 

A paisagem castelhana nos fazia evocar as aventuras do engenhoso fidalgo. Passando Valdepeñas e seus vinhedos, as oliveiras nos anunciavam a subida até Despeñaperros. No final da grande ladeira estávamos na Andaluzia.

 

Bailén, a da batalha, Córdoba, Sevilha, Jerez. Em Puerto de Santa Maria desviamos pela costa na direção de Gibraltar.

 

Decidimos parar ao acaso numa pitoresca cidadezinha: Conil. Lugar muito tranquilo onde o turismo de massa ainda não havia plantado sua bandeira. Uma praia ampla, os barcos dos pescadores sobre a areia e o casario branco típico da região compunham uma magnífica paisagem.

 

Depois de instalados saimos para conhecer a cidade, chamando a atenção dos vizinhos curiosos pelos recém-chegados.

 

Perto da praia, descobrimos a principal taberna do lugar.

 

Depois da entrada, atrás do balcão, uma série de barris com diferentes tipos de vinho cobria toda a parede. Uma convidativa e suculenta variedade de tapas para acompanhar os tragos. Pedimos dois copinhos e o dono, olhando para os barris perguntou “Qual vinho?” Cada barril exibia sua denominação escrita a giz: Fino, Amontillado, Pajarete, Manzanilla, Moscatel, Oloroso e outros.

 

Sem saber o que responder, recebemos os conselhos dos frequentadores presentes. Cada um defendia ardorosamente sua preferência, argumentando sobre a superioridade da sua escolha. Uma prova cabal do individualismo hispânico. Terminado o debate e para não ofender a nossos conselheiros, decidimos ir fazendo a prova de cada tipo de vinho “hasta que el cuerpo aguante”. Imediatamente armou-se uma conversa muito cordial e amena, até que continuamos nosso passeio, já nos considerando vizinhos no povoado.

 

Depois da praia e da siesta, ao cair da tarde, íamos à taberna para tomar um copinho, papear com o pessoal e saber das novidades.

 

Certo dia organizaram uma partida de futebol entre o time de Conil e o de San Fernando, uma localidade vizinha. Era o grande acontecimento da temporada. Não se falava de outra coisa. Como nós os argentinos tinhamos a fama de bons em futebol, propuseram-me ser o árbitro da partida.

 

Pensei e decidi não aceitar a oferta. Não tinha qualquer prática de arbitragem e minha intenção era assistir à partida como um espectador a mais.

 

Até que chegou o grande momento. O jogo era sobre a areia da praia. Cada time contava com sua fervorosa torcida excitada pelo sol e o bom vinhozinho de Jerez. Os jogadores não tinham muita intimidade com a bola mas o forte entusiasmo compensava a escassez técnica.

 

Os ânimos foram esquetando com vários incidentes entre as equipes até que o juiz decidiu marcar um pênalte contra os visitantes.

 

E aí armou-se a confusão. Voavam empurrões, braçadas, trombadas, paus e insultos na gíria andalusa mais castiça.

 

Pensei na minha boa estrela, quando me neguei a arbitrar a partida.

 

Os ânimos se acalmaram e, finalizado o encontro, uma visita de confraternização à taberna selou a paz entre os adversários.

 

Dias depois continuamos nossa viagem até Algeciras levando conosco uma inesquecível lembrança do lugar.

 

Um ano mais tarde, recomendei este lugar a uma colega inglesa da empresa onde eu trabalhava em Milão. Chegando a Madri com seu marido italiano tiveram contato com um conhecido escritor: Fernando Quiñones, historiador de costumes andaluses e do flamenco. Ao saber que iam de férias a Conil de la Frontera, Quiñones ficou de repente sério e perguntou desconfiado como haviam tido notícia desse lugar. O escritor acrescentou que frequentava o povoado há muitos anos e lhe preocupava as consequências do boom turístico. Nunca imaginaria que uma inglesa e um italiano conhecessem através de um argentino e uma brasileira a existência dessa tão bela e até então secreta comarca andalusa.

 

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