COLÔMBIA: UMA SOCIEDADE SEM SAPATOS

 

Maria das Grašas Targino *

 

Cada viajante largado na imensidão de um território desconhecido, aí está por alguma razão. Deixando de lado as imposições de trabalho ou de estudo, as motivações são sempre as mais variadas possíveis. Alguém decide deixar para trás uma vida vivida em busca de revelar o desconhecido. Há quem o faça para encontrar novas ideias: compor músicas, escrever livros num lugar estranho, onde se sinta mais livre. É comum, ainda, o desejo de conhecer povos, desvendar culturas e adivinhar destinos alheios ao seu ou nem tão distintos – a vida do ser humano se repete aqui e acolá. Há quem pense em simplesmente relaxar e se deixar levar para onde o vento o leva. Há de tudo. As viagens podem rejuvenescer ou envelhecer. As viagens podem trazer esperanças de um mundo melhor ou, ao contrário, podem trazer mais desesperança.

BARRANQUILLA: CARNAVAL, RIO E MAR

Todo esse palavreado tão somente para dizer que uma viagem de estudos para Colômbia, especificamente Barranquilla (o que não impediu uma fugidinha à famosa Cartagenas), me deixou, pela primeira vez, um gosto amargo na boca – a total impossibilidade de conhecer ou, no mínimo, vislumbrar, a realidade de um país. Voltei com um sentimento de vazio e incompletude, até porque me enquadro dentre os que viajam em busca de desvendar povos, hábitos e costumes. Gosto de estar com as pessoas nas ruas, nas praças, nas esquinas. Na universidade, um clima extremamente cordial e amistoso. Mas foi lá, onde, de imediato, percebi que estava sitiada. Havia um cuidado imenso com os estrangeiros. Mil recomendações. Temor. Medo. Prevenção. Não importa a palavra que se use.

 

Regressei com a certeza de que a Colômbia é um país de extrema beleza, mas de difícil compreensão. Por trás dos rostos risonhos, parece haver um persistente “resquício de medo”. Afinal, as Forças Armadas Revolucionárias Colômbia – Exército do Povo ou, simplesmente, FARC ou FARC-EP, organização comunista e que se autointitula guerrilha revolucionária de origem marxista-leninista, está em quase 20% do território colombiano, com ênfase para as selvas do sudeste do país e para as planícies situadas na base da Cordilheira dos Andes. Dizem que as FARC há muito tempo estão envolvidas com o tráfico de drogas. Controlam parte significativa do refino e da distribuição de cocaína em território colombiano, o que lhes permite suprir outros países. Há outra facção – os chamados guerrilheiros urbanos –, que se infiltram nas próprias universidades. Fora os dois segmentos, os chamados paramilitares, de início, reunidos para combate à guerrilha e às drogas, hoje, também são temidos por sua violência. Há, ainda, a polícia que agrega muitos e muitos jovens, e, portanto, parecem mais facilmente subornáveis. E o que dizer dos governantes?

Sob esta perspectiva, tal como se dá no Brasil, a estratificação social é visível em qualquer parte. Exemplificando, no caso específico de Barranquilla, ao lado de uma única universidade pública, a

Universidade do Atlântico, estão quase 20 outras instituições de ensino superior que cobram caro, muito caro. Afinal, o salário mínimo do povo colombiano é de exatamente 566.700 mil pesos colombianos (que equivalem a R$ 653,97) para cobrir despesas básicas de moradia, luz, água, transporte público, itens sempre de valor elevado.

 

Por tudo isso e de muito poucas informações checadas e vivenciadas, voltei ao Brasil com a certeza de que visitei a Colômbia, mas não conheci um país. De Bogotá, nada a dizer: aeroporto, ceia num restaurante frequentado pelo povo da terra (fugindo dos redutos para turistas) e uma noite de hotel. Nada mais. De Barranquilla, fundada em 1629, onde o rio (Magdalena) encontra o mar (Caribe), além de figurar como o principal porto marítimo e fluvial do país, há muito a dizer. Por conta das margens arenosas do rio, há quem a chame de La Arenosa (A Arenosa). Por seu esplendor, há quem a chame de Puerta de Oro (Porta de Ouro).

 

Informações prévias alardeiam sua fama como a “terra do carnaval”. Por sua diversidade cultural, o carnaval de Barranquilla é classificado pela UNESCO [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura] como Obra Mestra do Patrimônio Oral e Imaterial da Humanidade. Tal como ocorre no Brasil, onde se respira a festa do Momo por muitos e muitos dias, em Barranquilla, também. Oficialmente, a festa acontece nos quatro dias anteriores à Quaresma, mas a população o vive durante cerca de dois meses em meio a turistas que chegam de toda parte para a grande festa.

 

Dentre as atrações turísticas, está o centro histórico tombado como Monumento Nacional, em que se destaca o esplendor do bairro El Prado, que comporta as edificações mais antigas, a exemplo do hotel El Prado.

 

 

Merece destaque, ainda, La Cueva. De antigo bar de caçadores, famoso por reunir autores famosos, como Gabriel García Márquez, que começou seus escritos na bela Barranquilla; o pintor Alejandro Obregón; o fotógrafo Nereo; e o primitivista Noé León, membros do movimento apelidado de “Grupo de Barranquilla”, na atualidade, La Cueva consiste em fundação sem fins lucrativos. Na condição de ícone local e nacional, sonha em fortalecer as raízes caribenhas, agrupando cidadãos que primam pela preservação da cultura, o que justifica a outorga de concessão de título de Bem Cultural da Nação pelo Ministério de Cultura do país, o que o faz divulgar a riqueza da gastronomia local em pitorescos restaurantes.

 

Surpreendente é o moderno complexo arquitetônico do Parque Cultural do Caribe. São 22 mil m2 de beleza estonteante e de atividades múltiplas oferecidas à população. Há bibliotecas voltadas a públicos de diferentes idades, incluindo crianças, mas, para falar a verdade, é de tirar o fôlego o Museu do Caribe, inaugurado em 2009. Sua grandiosidade em termos de atuação traz um sopro de esperança. Tal como o Museu de Arte Contemporânea de Barcelona (Catalunha, Espanha) e o Museu Guggenheim (Bilbao, País Vasco, Espanha), o Museu do Caribe segue a tendência moderna dos museus. Além da interatividade e hipertextualidade, é hipermidiático e busca suprir as demandas dos cidadãos, de forma individualizada. Em seis andares, além da Sala Gabriel García Márquez, está distribuído em cinco grandes eixos: Sala da Natureza; Sala da Gente, Sala da Palavra; Sala da Ação; Sala da Expressão. Há sempre a possibilidade de interação, com destaque para a última delas, onde o visitante é instigado a escutar e a ensaiar passos dos ritmos caribenhos colombianos, a exemplo do bullerengue, chalupa, fandango, cumbia e porro. E mais, graças à forma como está estruturado, o Museu favorece a cada um seguir seu próprio caminho, enquanto a conjunção dos meios (som, imagem e texto) se faz presente o tempo todo.

 

Dentre as igrejas, destaca-se a Catedral Metropolitana Maria Rainha de Barranquilla e a Igreja de São Roque, esta dos anos 1857, situada no bairro São Roque de Barranquilla. Há, ainda, o Teatro Amira da Rosa; o Centro Cultural; o velho edifício da Alfândega em estilo republicano. No Museu de Antropologia da Universidade do Atlântico, apesar de tradicional em sua estrutura e funcionamento, foi onde encontrei uma das peças mais simbólicas do país: uma montagem

 

 

com sapatos de todos os tipos e tamanhos, acompanhada por um belo texto de Marcos Alfonso López, traz à tona a alma da nação.

CARTAGENAS DAS ÍNDIAS: CIDADE AMURALHADA

Um dia de fuga a Cartagenas representa experiência única. Cartagenas das Índias chama a atenção por suas muralhas do século XVI que a cercam por completo. Além de permitirem uma visão privilegiada do Caribe os imensos paredões de pedra contam em silêncio histórias

 

 

e histórias do povo caribenho, uma vez que, por séculos a fio, protegeram o porto mais importante da região contra os ataques de perigosos piratas, preservando, àquela época, tesouros dos colonizadores espanhóis. Agora, as muralhas sofrem novas invasões. Desta vez, dos turistas que chegam de toda parte: Cartagenas é uma das regiões mais visitadas da Colômbia, até porque mescla história e modernidade: o típico da cultura caribenha se funde com resquícios da influência europeia.

 

E, de fato, há muito a ser visto, quando se anda preferencialmente a pé por suas ruas estreitas de paralelepípedos e casas coloridas

Há sacadas de madeira floridas. Há carros de boi ou carruagens puxadas a cavalo que trotam nas ruelas. Na Popa de la Galera, uma pequena colina, cuja parte mais elevada mede 148 metros acima do nível do mar, além de se ter uma visão privilegiada da cidade, é possível se fantasiar de nobre e de pirata, posar com o bicho preguiça e outras brincadeiras mais.

 

 

Graças à decisão da UNESCO, Cartagenas das Índias é Patrimônio Histórico da Humanidade desde 1984. De fato, conserva conjunto arquitetônico de rara beleza. O Castelo de São Felipe de Barajas é de beleza inimaginável.

 

 

E o que dizer da Torre do Relógio e das muitas e muitas praças que imprimem à cidade um ar bucólico e de extrema receptividade a quem chega? Eis a Praça da Alfândega, a Praça São Diego, a Praça de Santo Domingo, onde além da Igreja de mesmo nome, está a estátua de Gertrudis, obra do reconhecido pinto colombiano Fernando Botero, apelidada de La Gorda.

 

O Parque de Bolívar ou Praça de Bolívar, em pleno centro histórico de Cartagenas das Índias, com a estátua de Simón Bolívar, lembra a força do El Libertador em diferentes nações da América Latina, a exemplo de seu próprio país, Venezuela, e outros mais. É o caso de Bolívia, Colômbia, Panamá e Equador e Peru, o que o imortalizou como grande herói, visionário, revolucionário e, sobretudo, eminente libertador dos povos da região.

 

Indo além, o Portal dos Doces, com guloseimas para todos os gostos, convida a um dos pecados capitais – a gula. A Igreja São Pedro Claver, o Teatro Heredia (de 1905) e o Palácio da Inquisição

 

 

constituem beleza à parte. Localizado no Museu Histórico de Cartagenas, este último faz os mais sensíveis se emocionarem. Aí estão intactos a câmara dos tormentos, a guilhotina, a forca e outros instrumentos de atrocidade perpetrada durante a Inquisição.

 

Porém, Cartagenas das Índias não guarda apenas o passado. Vive intensamente o presente, de tal forma que os cinéfilos de toda parte do mundo esperam ansiosamente o Festival Internacional de Cinema de Cartagenas, iniciado em 1960, e que ocorre a cada ano, com a ressalva de que é o mais antigo festival latino-americano da sétima arte. Ademais, há tempo para as bovedas. Situadas entre os Fortes de Santa Clara e Santa Catarina, com 48 colunas em forma de arco e 23 abóbodas, de início, foram utilizadas para fins bélicos. Hoje, abrigam lojas e mais lojas de artesanato, antiguidades e quinquilharias, que fazem a festa dos turistas, uma vez que não podem visitar a casa de Gabriel García Márquez, que tem em Cartagenas uma de suas fontes de inspiração. Por fim, há cerca de 50 minutos de Cartagenas das Índias, está o Vulcão de Lama del Totumo, famoso por suas decantadas propriedades medicinais.

No entanto, em minha visão, nada expressa melhor a situação do país e do povo colombiano e sobretudo, o sentimento de vazio que tocou conta de mim do que a citada montagem de sapatos, e, por conseguinte, de pés descalços que se fazem imaginar no citado texto de Marcos Alfonso López. Parecem dar conta das vidas perdidas e da desesperança de viajantes, como eu.

 

INCÓGNITA DE UMA MEMÓRIA DESCALÇA

Marcos Alfonso Lopez

 

Muitas pessoas não encontram mais solução diante do conflito armado, a não ser abandonar suas terras e aventurar-se por caminhos desconhecidos. Na maioria das vezes, testemunharam assassinatos de familiares, casos de extorsão, recrutamento forçado e ameaças a líderes comunitários. Muitos deles deixam tudo. Recolhem somente alguns pertences do cotidiano, como roupas, calçados e objetos de uso imediato. Mas o que mais chama a atenção são os sapatos e as botas pantaneiras.

Os sapatos não apenas representam a tenacidade da marcha lenta através dos longos e monótonos sulcos abertos na terra arada. Agem como objeto de proteção para os pés, mas com o desgaste produzido ao longo do tempo, transformam-se no reflexo da vida de cada um no momento em que homens e mulheres contemplam o estado precário de seus sapatos ou de suas botas. Cada sapato largado em meio à violência conta uma história. Alguém o usou? Por que deixou de usá-lo? Por meio desta montagem, representamos, através do sapato (peça tão íntima e tão próxima do camponês), seu corpo mutilado, uma sociedade descalça, intervindo ela mesma em tudo que passa: cortando, rasgando, cosendo, envolvendo a todos com os mesmos cadarços e fios de arame farpado. É a opressão refletida, a angústia, o medo de uma comunidade que é despojada e jogada para longe a partir de uma guerra que não lhe pertence.

 

* Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica, E-mail para contato: gracatargino@hotmail.com

 

 

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