Viagem à paisagem azul

Clemente Rosas

TORRES DEL PAINE

 

Patagônia Camp

 

Se você é dos que procuram, temporariamente, fugir às tensões urbanas e mergulhar na natureza, vá ao Parque Nacional Torres Del Paine, na Patagônia Chilena. Paine, na língua dos índios “tehuelches”, primeiros habitantes do lugar, quer dizer azul, cor predominante da paisagem, pela presença de grandes lagos, tendo apenas como contraponto o cinza escuro das montanhas e o branco de seus picos nevados. Lá, os traços de presença humana são mínimos – dois “campings” e algumas “hosterias” – e o espetáculo da vida selvagem se desenrola aos olhos do visitante, que pode travar contacto íntimo com ele a pé, ou, em alguns trechos, em lombo de cavalo.

 

Já tendo encarado, há sete anos, a trilha inca para Machu Picchu, e cumprindo agora 72 de idade, resolvi enfrentar esse novo desafio. E trouxe no coração e na memória mais uma vivência inesquecível, que não quero partilhar apenas com filhos e netos. Ofereço-a também aos amigos que me honram com a sua leitura.

 

Mas é preciso, antes de tudo, alguma determinação para chegar lá. A Patagônia é longe. Saindo na madrugada de Brasília, onde fui encontrar meu filho e “escudeiro” Eduardo, fomos a São Paulo, para a conexão que nos levaria a Santiago. De São Paulo a Santiago, três horas e meia de avião. Pernoite em Santiago, nova madrugada, e mais três horas de voo até Punta Arenas. Daí a Puerto Natales, mais três horas em automóvel. E mais hora e meia para chegar ao “Patagonia Camp”. Dois dias de deslocamento, com pouco tempo para comer e para dormir, que são rapidamente esquecidos quando se chega.

 

No “camping”, ficamos alojados em barracas arredondadas, os “yurts”, inspirados nas cabanas dos mongóis: estrutura em madeira, cobertura e paredes de lona plástica, claraboia no alto para permitir eventual contemplação das estrelas. Mas com todo o conforto e segurança possíveis: calefação, banheiro completo acoplado, e sustentação por cabos de aço, para resistir às fortes rajadas de vento, típicas do lugar. Ligando os 18 “yurts” quase escondidos no pequeno bosque às margens do Lago Del Toro à central administrativa com o restaurante, passarelas em tábuas de madeira bruta.

 

A ideia por trás desse tipo de hospedagem é deixar o visitante confortável, mas bem íntimo da natureza, sentindo as suas pulsações – o ruído da chuva e do vento na lona da barraca – como a criancinha que, no colo da mãe, sente o seu respirar e o calor do seu corpo.

 

O Lago Del Toro

 

As alternativas de excursão eram apresentadas na véspera, após o jantar, para opção dos andarilhos. Nossa primeira escolha foi, prudentemente, a trilha em uma península do Lago Del Toro, o maior de todos, com 198 km². Boa parte em terra plana, serviu como teste de resistência, em face da aspereza do meio: frio intenso, apenas pouco acima de 0º, e sensação térmica bem abaixo, pelas lufadas de vento, frequentes e inesperadas. A instabilidade do tempo é uma das características do lugar: ao longo do mesmo dia, tivemos tempo bom, partículas de neve, e chuva, em momentos sucessivos.

 

Mas o que íamos vendo nos fazia esquecer o desconforto. Nosso primeiro guia – uma mocinha de cabelo trançado e feições ameríndias – talvez para não nos assustar, havia falado em um percurso de oito quilômetros. Acabamos caminhando treze, medidos pelo GPS do meu filho. Observamos que só há árvores nos grotões, mais protegidos do vento, e ainda assim de tronco rugoso e retorcido, e folhas pequenas. Nas planuras e nas encostas das montanhas, a aspereza do vento gelado só permite ervas e moitas rasas e compactas, como a “mata guanaco”, assim chamada pelas flores cor de telha, que a fazem parecer com o lombo dos guanacos, e a “mata barrosa”. Esta, pelos espinhos, é conhecida jocosamente como o “coxim das sogras”.

 

Íamos vendo, e continuamos a ver, nos cinco dias seguintes de caminhadas, toda a fauna da região: rebanhos de guanacos, que já não se assustam com a presença humana, “ñandus” (as nossas emas), raposas, lebres (únicos animais não nativos, que viraram praga), condores, flamencos (nossos guarás), cisnes do pescoço negro, gansos selvagens. Vimos até mesmo um tranquilo gambá (“chingue”, para os patagônios), caminhando calmamente ao lado da estrada, confiante por certo no poder de sua terrível arma defensiva.

 

Só não nos foi dado contemplar o puma (a nossa suçuarana), o grande predador, caçador noturno e extremamente arisco. Mas encontramos as suas pegadas (inconfundíveis), seus dejetos e os despojos das suas vítimas: cadáveres de guanacos, muitas vezes já destroçados pela contribuição posterior das raposas e dos condores.

 

Esse privilégio só coube, por extremo acaso, a duas garotas da Catalunha que, dias depois, para a nossa inveja, não apenas viram, como também fotografaram uma mamãe puma, em planície aberta, partilhando a refeição – um ganso selvagem – com seus dois filhotes.

 

O Vale do Rio Serrano

 

Para descansar dos treze quilômetros inesperadamente percorridos no dia anterior, optamos por uma programação mais leve, a única com retorno para almoço na sede do “camping”. Pela manhã passeio no vale do rio Serrano, à tarde visita à “Cueva del Milodón”, gruta onde foi encontrado o fóssil de um animal de dez mil anos atrás, hoje quase um símbolo da Patagônia.

 

Do vale do rio Serrano, posso dizer que compõe uma das paisagens mais deslumbrantes que já tive ocasião de ver: imensa planície verde, emoldurada por montanhas escuras encimadas de neve, e cortada por rio cristalino, com apenas umas poucas casas de madeira pintada como enfeite. Se pedíssemos a uma criança para pintar um quadro bucólico, de sua livre imaginação, creio que não sairia algo muito diferente.

 

O rio Serrano é o que dá esgotamento ao Lago Del Toro, e, curiosamente, apesar da grande superfície do lago, tem sua saída próxima à desembocadura do rio Paine, que o alimenta. Caminhando pelo vale, na paz daquele ambiente quase onírico, pudemos observar melhor os gansos “caiquén”, cuja lição de harmonia e fidelidade “conjugal” logo nos foi passada pelo nosso acompanhante.

 

Eles estão sempre em casais, e nunca se separam. O macho, bem maior, tem o corpo quase todo branco, com asas cinzentas. A fêmea é cor de café. Andam, nadam e voam juntos. E mesmo quando em bandos mais numerosos, as parelhas são perfeitamente distinguíveis. Se um deles morre, dizem os patagônios, o sobrevivente se mantém sozinho, como o cisne do famoso soneto de Júlio Salusse.

 

Quanto ao “milodon darwini”, nome científico da preguiça gigante que habitou aquelas paragens em tempos pré-históricos, deve ter sido parente do nosso “megatherium”, cujos ossos foram encontrados nas grutas de Minas Gerais. Na entrada da caverna, produto da erosão marítima na rocha sedimentar (aquilo tudo esteve debaixo d’água, há milhões de anos), tiramos fotos ao lado da estátua que reproduz o bicho em seu tamanho natural – três metros – com toda a reverência devida àqueles viventes que por ali reinaram, antes de nós, humanos.

 

As escavações na gruta continuam, na esperança de novas descobertas.

 

O “Mirador las Torres”

 

Além da Kris Andrea, a moça que nos recebeu em Punta Arenas e nos acompanhou na primeira trilha, tivemos mais dois guias que se revezavam: o Rodrigo, chileno de cabelo rastafári, enrolado com um turbante na parte de trás da cabeça, e o Chávi, aventureiro basco, de costeletas e brincos nas orelhas. Ambos exóticos, mas competentes e bons companheiros. O Chávi, então, era um cientista: sabia o nome científico de todas as plantas e a história geológica de todas as montanhas da Patagônia.

 

 

Foi o Rodrigo que nos acompanhou na mais árdua das caminhadas: a que tem como objetivo o mirante das torres que dão nome ao parque. Foi ele que, diplomaticamente, com todo o respeito aos “bastones” incas que usávamos orgulhosamente como apoio, nos convenceu a substituí-los pelo duplo apoio de bengalas reguláveis, de aço carbono e pontas agudas. Afinal, dos 18 quilômetros que íamos percorrer, para ir e voltar, boa parte estava em encostas íngremes, cobertas de neve.

 

Fizemos um bom percurso de “van”, através do vale do rio Serrano, flanqueando o rio Paine, o lago Pehoe (“lugar escondido”, na língua indígena) e o lago Sarmiento, até a “Hosteria las Torres”, ponto inicial da trilha. O lago Sarmiento, com seus 83 km², nos proporciona uma visão especial. Por ser um dos poucos lagos fechados, salinizou-se, e sua coloração é o azul marinho intenso, ressaltado pelas bordas esbranquiçadas, produto da secreção calcárea de animais aquáticos, como se dá com os arrecifes de coral.

 

Da caminhada, que consegui levar a bom termo, ainda que lentamente, registro apenas uma amenidade: poder beber a água de qualquer riacho encontrado. Não poderia haver outra mais pura. O resto era dureza: embora a altitude não fosse tão grande como nos Andes Peruanos, o frio era mais intenso, e as rajadas de vento ameaçavam nos arrancar das sendas. Caí duas vezes na neve (que é macia), felizmente do lado da montanha. Mas fui recompensado quando descortinamos, de repente, as torres: três serras escarpadas em granito cor-de-rosa, com um lago azul aos seus pés. Produto da intrusão de rocha vulcânica em montanhas sedimentares formadas no fundo do oceano que, em dias remotos, cobria tudo aquilo, e aflorando depois pela erosão destas, as torres se impõem à paisagem circundante pelo contraste de cor e de forma.

 

E foi à sua soberba vista, sentados sobre uma pedra negra, com o manto da neve ao redor e flocos sobre as nossas cabeças, que fizemos o nosso “lanche de trilha”, na inesperada companhia de um coreano desgarrado que encontramos por lá, no rosto de bolacha aquele ingênuo e simpático sorriso dos orientais.

 

Os “icebergs” azuis

 

Fizemos ainda três excursões: à laguna Azul, ao lago Grey, e até um sítio arqueológico, com inscrições rupestres pré-colombianas. Na primeira, vimos as cascatas do rio Paine: o “Salto Grande” e o “Salto Chico”. Na última, e para nossa surpresa, marcas de mãos e desenhos de homenzinhos e animais em tinta vermelha, semelhantes aos que vi no Vale do Catimbau, aqui em Pernambuco, e em áreas menos prestigiadas do Vale do Curimataú, na Paraíba. A identidade de cultura, consideradas as distâncias, não deixa de ser intrigante.

 

Mas a impressão mais marcante e inusitada tivemos na visita ao lago Grey, de 15 km² e águas acinzentadas por sedimentos das montanhas que o cercam, fazendo jus ao nome. Ao fundo, fica um glaciar datado de dez mil anos, que, pelo fenômeno do aquecimento global, preocupação de todos, vem diminuindo progressivamente. A jusante, de onde sai o rio Grey, que drena o lago, e a sotavento, caminhamos sete a oito quilômetros em uma pequena península escarpada e na praia de pedrinhas cor de chumbo.

 

 

E foi nessa praia que contemplamos o espetáculo dos “icebergs” desprendidos do glaciar, flutuando lentamente até ancorar aos pés do visitante deslumbrado. São azuis! Nosso guia basco, o cientista, deu-nos uma longa explicação que não saberia reproduzir. Digo apenas que o fenômeno tem a ver com a compactação produzida na geleira, que expulsa as bolhas de ar do seu interior. Assim, toda água em grande volume ou densidade, como no mar ou na geleira, revela-se azul à luz do sol. O fato é que os “icebergs” são azuis, de um intenso azul celeste, que as nossas fotos não deixam desmentir.

 

Foi aí também que, por oferta especial do nosso guia, brindamos à beleza da Patagônia com um uísque com gelo extraído do “iceberg”. Não sei a idade do uísque, bebida de que, na verdade, não sou apreciador: o Chávi o tirou daquelas garrafinhas estreitas que os beberrões levam no bolso dos casacos. Mas da água em estado sólido, não havia como duvidar: podia ser contada em milhares de anos.

 

Não deixa de ser uma distinção para quem veio de tão longe reverenciar a natureza deslumbrante daquelas paragens, e levar, no coração e na mente, a impregnação dos seus abençoados eflúvios.

 

* escritor

 

 

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