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O festival do comidas nas ruas de Paris e outras cidades da França.

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Uma homenagem à caiprinha: Sidney Simões conta a história do drinque brasileiro.

O pícaro A. Falcão apresenta suas receitas de conquistar mulheres.

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Pratos excêntricos e exóticos, por Caio Mourão.

Um roteiro da cidade de Natal, por Nei Leandro de Castro.

Para ver antes do almoço:
a cozinha tradicional paraibana.
(um segundinho até carregar).

Atlanta, da Guerra Civil
à Coca Cola,
por Lea Maria Aarão Reis.

Léa Maria volta de
Buenos Aires
e conta o que viu lá.

Cahors, no coração da França.
Por Celso Japiassu.

Um olhar sobre a Galícia.

Caio Mourão ensina a fazer um
exótico Risoto de Morangos.

Nei Leandro de Castro confessa
seu amor por Florença e traça o roteiro sentimental de Lisboa.

Dê uma olhada em alguns pratos de restaurantes europeus.


Vale a pena ver como se faz
um leitão.

50 Sonetos de Forno e Fogão:
apresentação,
introdução
,
receitas em a-b-c,
d-e-f
,
j-l-m,
p-r-s-t-v-x
.

Mestre Eça de Queiroz mostra
como se comia na Grécia
e na Roma antigas.

CHILE TRINTA ANOS DEPOIS

 


Lea Maria Aarão Reis*

 

Trinta anos atrás, na noite de 11 de setembro, as pessoas não paravam de chegar, abrindo, nervosas, as portas de madeira, tipo faroeste, do Degrau original, o célebre bar do Leblon, onde, naquela época, se reuniam os boêmios do Rio, artistas, intelectuais de todas as espécies, jornalistas alternativos, contestadores, alguns dedos duros e um punhado de espias dos serviços secretos da ditadura, xeretando tudo e a todos.


Naquela noite de 11 de setembro de 73, as notícias continuavam a chegar do Chile, devidamente censuradas, através do rádio ao lado do caixa do seu Carlinhos, e confirmavam o que todos insistiam em não aceitar: o sórdido golpe contra o governo de Allende, o bombardeio de La Moneda, o suicídio do presidente e as dezenas de primeiras baixas que abririam a longa e tenebrosa sucessão de crimes cometidos, durante as quase duas décadas seguintes, pelo bando de Pinochet _ ele e seus asseclas fardados.


Todos choravam, alguns grupos cantavam "guerreiros de Caparaó" e o sentimento, de luto, era o de que se fechavam, naquele dia, com a tragédia chilena, as últimas saídas que ainda poderiam conduzir o continente a um futuro de independência, liberdade e soberania. Kissinger, os fascistas e Cia. haviam, enfim, vencido.


No Degrau, romanticamente, jurávamos nunca mais pisar em solo chileno.

 

Trinta anos depois, há um mês, numa manhã gelada de 5 de setembro, estamos defronte de Moneda. Nós e mais alguns grupos de turistas fotografamos a estátua, recém inaugurada, de Salvador Allende, à esquerda do palácio, na Praça da República.

 

Com os olhos cheios de lágrimas, atravessamos o muito bem cuidado jardim do pátio interno espanhol da elegante construção, sempre aberto aos visitantes, e saímos na rua lateral - calle Morandé, onde um pequeno aindame oculta a obra discreta que vem se fazendo há meses para reabrir a célebre e histórica porta de Morandé número 80, por onde entravam e saíam todos os presidentes do Chile democrático, e através da qual os traidores passaram com o cadáver de Allende. A porta, emparedada há trinta anos por Pinochet, era um dos símbolos mais fortes, nos preparativos da cidade de Santiago, que, liberada, enfim, ia render homenagem ao seu presidente morto.
Pergunto a um dos vários policiais que vigiam o agora plácido local, onde namorados gostam de passear, se ele sabia qual era a janela em que o presidente havia aparecido pela última vez. Em voz bem baixa e visìvelmente constrangido, ele informa: a quarta, no segundo andar, à esquerda de Morandé 80. Penso que o homem pode estar querendo se livrar da incômoda turista e inventa qualquer coisa. De qualquer modo, olho na direção indicada. Depois, muito comovida, vou andando em direção ao metrô mais próximo, pela larga avenida Bernardo O'Higgins, para pegar o carro na locadora e iniciar uma das mais bonitas viagens que já fiz. Desta vez ao sul do Chile.
Antes de mergulhar no excelente metrô, passando por uma pequena feira de domingo, dos bouquiniers, compro, de um velho sorridente, por um dólar, o cartaz de uma foto de Allende com o texto de sua última fala, o emocionante Discurso de Despedida. O velho, muito satisfeito, me diz que o cartaz vende mais do que os de Guevara, outra atração da sua barraca.


Depois, ele se queixa dos altos preços cobrados nos shows de Maria Bethânia e de Gilberto Gil , na cidade - cerca de 100 dólares, um preço que, evidentemente, ele, que adora música brasileira, não pode pagar.

 

Na face turística desse país, com uma população cuja opinião pública ainda está profundamente dividida entre os mais à esquerda e os (ainda) pró-Pinochet, descobrimos a excelência da auto-estrada Panamericana, privatizada por diversas empresas, com quatro pistas, e através da qual chegaríamos, uma semana mais tarde, a Puerto Montt, cidade que fica a 70 quilômetros do seu final, na Ilha de Chiloé, porta da Patagônia Sul, dos glaciares e da Antártida.


Antes, em Santiago, havíamos experimentado um gosto de Polo Sul, assistindo, em um telejornal, a metereologia informar o tempo nas principais cidades chilenas e os quatro graus negativos de temperatura máxima na Antártida.


Uma das primeiras gratas surpresas da viagem, a 130 quilômetros da capital, além da qualidade da estrada, é a extensão dos vinhedos no Vale do Maipo, onde estão os vinhedos mais tradicionais do Chile - San Pedro, Macul, Santa Rita, Cánepa, Undurraga, Concha y Toro, Santa Inês, Casa Rivas e Maule Segu, fora dezenas de outras ainda desconhecidas no Brasil. É a ruta del vino.


Para o visitante interessado no assunto, é bom saber que existem inúmeras agências de turismo oferecendo excursões de degustação, tão organizadas quanto aquelas francesas, para as diversas regiões do país onde se plantam uvas sauvignon, chardonnay, merlot e carménère.


O viajante encontra também, nas margens da Panamericana, diversas salas de venda de vinhos. Nos supermercados, pode comprar as principais marcas de vinhos nacionais, a preços baixos _ a partir de 2 a 3 dólares os mais populares, e nem por isso ruins _ , vários deles embalados em caixas e ainda mais baratos _ menos de um dólar!
Estamos indo, agora, na direção da cidade de Temuco. Não é preciso parar, mas vale saber que lá é o santuário dos índios mapuches, cidade em que Pablo Neruda nasceu e onde se encontra o centro de controle de atividade dos inúmeros vulcões chilenos _ Vilarrica, Lonquimay, Toluaca, Osorno.


Atravessamos bonitos bosques de pinheiros, com floradas de retamo, a flor amarela, típica da Patagônia, e assistimos ao espetáculo do vento patagônico _ o peulche _, fortíssimo, varrendo os campos durante o inverno. Ao longe, sempre margeando a estrada, paisagens extraordinárias, os picos majestosos e eternamente nevados, dos Andes.


Ficamos só uma noite em Chillán, com spa, grande hotel sofisticado, termas e estação de esqui, aos pés do vulcão Chillán. É lugar de turismo internacional, os americanos adoram, os brasileiros também. Vale uma parada de alguns dias

 

O vulcão Villarica


Mas preferimos parar com mais vagar em Villarica e Pucón, dois lugarejos deliciosos, à beira do lago, ao pé do vulcão Vilarrica. Quem quer turismo/aventura adora. Dezenas de agências oferecem trekking, rafting, escaladas, navegação e longas caminhas até a borda da cratera que está sempre, noite e dia, expelindo faíscas. Os trajos apropriados são alugados nas próprias agências.


Para quem quer vida mais mansa, os hotéis estrelados são ótimos e os restaurantes também. E os preços, muito bons. Aqui é o reino salmão (média de R$ 20 em um bom restaurante) e dos peixes finos, de carne branca _ a vedete é o congro. Ou do pastel de choclo (milho), que não é um pastel, mas sim uma frigideira feita com frango, especiarias e creme de milho.


Não se deve perder a subida, de carro, até 1 500 metros de altitude do Vilarrica, meio do caminho para o topo, onde há um abrigo para visitantes, com café, chocolate quente e lareira acesa (temperatura: cerca de 3 graus, durante o inverno; e neve o ano inteiro).


Lá de cima, a paisagem do lago e dos Andes é estupenda. E tem as excursões até as cavernas vulcânicas formadas pelas lavas solidificadas para quem quer aventura mas nem tanto.


Depois, mais adiante, vamos até a costa do Pacífico, conhecer as praias imensas e desertas, de areias amarelas, onde se assiste a belos espetáculos, inéditos para nós, os do lado do Atlântico _ lá, o sol se põe sempre na linha do horizonte do mar.
Parada para almoço no porto de Valdívia, em um dos inúmeros restaurantes do mercado, à beira do rio. Leões marinhos se espreguiçam ao sol.


Lá, experimentamos, pela primeira vez, os famosos frutos do mar chilenos, os mariscos do Pacífico. Antes, prepara-se o paladar comendo uma pastinha feita de alho, azeite e coentro. Depois, vêm os locos, pirocopos, navaruelas, machas, huepos, puyes, choros e o fortíssimo e afrodisíaco piures. Além do ouriço do mar, o oursin amado pelos franceses, que é o mais refinado e mais dispendioso _ come-se com torradas e apenas um fio de azeite.


Próximo de Valdívia está Los Molinos, na beira do oceano. O melhor restaurante local, na praia, é o La Bahia. Voltamos a nos fartar com salmão (R$5,00 o quilo, no mercado), acompanhado de ótimo vinho branco, de mais mariscos e congro rosa (R$ 4,00).
Los Molinos, um lugarejo bem simpático, tem uma inédita arquitetura alemã de fim de século 19 começo de 20. Uma mistura de Petrópolis com arquitetura da Europa Central. Estranho, não?


Naquela época, o governo chileno programou a ocupação da região com dezenas de levas de imigrantes contratados na Alemanha. Os descendentes desses alemães, hoje, são donos da célebre cerveja Kunstmann (a cervejaria com o mesmo nome, na beira da estrada que leva de Valdívia a Los Molinos, é parada obrigatória) e dos famosos chocolates de Valdívia, de nível internacional.

 


Bem mais ao sul, chegamos ao sofisticado Puerto Varas, na beira do lago Linhaqueue. Fica sob outro vulcão nevado, o Osorno, um gigante (3 500 metros de altitude) situado próximo da fronteira com a Argentina _ do outro lado dos Andes, e depois de atravessar mais dois lagos, está Bariloche.


Lá, também há excursões, turismo-aventura, e um grande cassino que abre ao meio-dia. É local para férias de norte-americanos. A influência é imensa. As casas de veraneio, na borda do lago, têm a arquitetura tradicional das casas dos subúrbios ricos das cidades dos Estados Unidos: gramado, garagem lateral, cesta de basquete no jardim.


As lojas são requintadas, têm artesanato fino _ há muita peça de bom gosto feita numa madeira loura, da árvore do alerce, típica da Patagônia _ e arte popular, suéteres, belos xales e mantas de lã de alpaca, alguns tecidos à mão. Expõem os produtos ao modo americano e a gente jura que está nos Hamptons!


Há pastos de ovelhas nas imediações, e aqui o reino é do salmão defumado (vem em potes de vidros) e dos campos de lavanda (a flor lilás, seca e perfumada, é vendida em pacotinhos).


Sugerimos um jantar no restaurante La Olla, na beira do lago. A adega é especial, o caldinho de mariscos _ ou de mexilhões _ é delicioso e o salmão, perfeito.


Depois, uma, ou várias idas até Puerto Montt, paralelo 40, último ponto de território chileno no continente. A partir dali o país se desmancha em centenas de ilhas _ Chiloé é a maior, e onde termina a Panamericana _ e ilhotas, formando a hoje chamada Patagônia do Sul. No passado, se considerava que ali era o começo da Patagônia propriamente dita.

 

Mercado de Angelmó

A região é fascinante. Há o grande porto de onde saem as excursões para os glaciares e, nele, o imenso mercado popular de Angelmó _ imperdível. É onde os índios mapuches vendem suas mercadorias, produtos feitos em Chiloé: cestaria, peças em madeira, lãs, peles, couros. Há, também, dezenas de pequenos restaurantes típicos de porto, onde se come muito bem, e é de onde parte a carretera austral, estrada ruim, de terra batida. Fala-se em asfaltá-la em breve, rumo ao sul do mundo e tendo em vista a ampliação dos caminhos do turismo. Por enquanto, porém, é um trajeto que só jipes pesados fazem.

 

De volta a Santiago, dez dias depois, para pegar o vôo da Lanchile de volta ao Rio com escala em São Paulo _ a empresa, aliás, tem ponte aérea Santiago-Puerto Montt _, damos uma última volta, num fim de manhã de claro domingo, pelas ruas da capital.
Observamos com mais atenção que as regras de trânsito são iguais às dos Estados Unidos.


Um jipe que atravessa a nossa frente se chama Montero _ exatamente como nos EUA. (No Brasil, o nome foi mudado para Pajero).


E notamos que várias cadeias de lojas americanas, tipo Burger King, K-fried potatoes e Hushie Shoes se instalaram na cidade.


A influência volta a aparecer, forte.


Enquanto visitamos a curiosa La Chascona, no bairro da Providência, espécie de Ipanema de Santiago _ outro programa imperdível _, uma das oito casas de Pablo Neruda, não podemos deixar de lembrar a profunda tristeza em que o poeta morreu, dias depois do golpe de Pinochet. Neruda não pôde ver o Chile de hoje, trinta anos depois, mais livre, mas com uma distribuição de renda bem pior.


Mas ele ficaria contente de ver seu bonito país novamente uma democracia, onde, de um jeito ou de outro, estão se abrindo aquelas "grandes alamedas por donde passe el hombre libre para construir uma sociedad mejor", como dizia Allende, confiante, no seu último discurso de 11 de setembro de 73.

 

*Jornalista

 


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