CANCÚN: MITOS E VERDADES

Maria das Grašas Targino

 

EIS UM POUCO DE CANCÚN

Cancún (ou Cancun) faz parte do imaginário de qualquer pessoa que ame desvendar novos horizontes. Ao que se sabe, os maias habitaram durante vários séculos regiões circunvizinhas, localizadas no Estado mexicano de Quintana Roo. Em que pese a imprecisão dos registros históricos, acredita-se que a Península de Yucatán do citado Estado, onde Cancún está situada ao noroeste, especificamente no município de Benito Juárez, foi descoberta por um espanhol, o navegador Francisco Hernández de Córdoba, ano 1517, século XVI.

Anos se passaram. Até então, Cancún era praticamente uma ilha deserta que expunha desavergonhadamente a beleza sem igual do azul do mar do Caribe. Porém, a história dá uma cambalhota fenomenal – para o bem ou para o mal, a depender do olhar de quem o julga. Ao final dos anos 60 / começo dos anos 70 do século passado, o Governo do México institui um fundo de fomento para turismo direcionado àquela região, onde reinavam absolutos alguns produtores de coco. Obras de infraestrutura têm início, com investimento maciço na construção de estradas e de uma área destinada à construção de hotéis por, aproximadamente, 20 km, dando origem ao que se conhece, hoje, como zona hoteleira, que abriga resorts e hotéis das maiores redes do mundo. Além da mão de obra da construção civil, os serviços de apoio e das redes de hotel, restaurantes e casas noturnas atraem, desde então, sobretudo, o trabalhador mexicano, embora venha gente de outras nações pobres.

Como decorrência, a data oficial de fundação de Cancún é 20 de abril de 1970. Do minguado número de habitantes dessa década – fala-se em menos de 10 nativos – hoje, Cancún conta com, aproximadamente, 630 mil habitantes fixos. Eis, então, o éden do século XXI. Numa atmosfera de tranquilidade e segurança, que permite ao turista (domínio ostensivo dos norte-americanos, talvez pela proximidade física) andar a pé ou de ônibus públicos a qualquer hora, Cancún atrai milhões de interessados não apenas no encanto do mar – são cerca de 22 km de praias de areia fina e branca e que se espalham entre lagoas de água salgada Nichupté e o mar do Caribe de límpida água azul-turquesa. A curiosidade vai além. Alcança os cassinos, o encantamento dos arredores, o conforto ostensivo dos hotéis, a intensa vida noturna, os parques, a perfeição da flora e da fauna, o artesanato ancestral, e sua rica cultura com lendas e histórias que fazem a vida da cidade, salpicadas sempre pela influência maia.
Aliás, são os maias os responsáveis pela designação do local, antes chamado de Ekab = terra negra. Em seu dialeto, Cancún significa “ninho de serpentes”. Esta é a versão mais comum. A segunda e menos aceita significa “lugar da serpente dourada", em alusão ao seu estranho formato de um número sete mal desenhado. Segundo se diz, às primeiras horas da manhã, lembra um ofídio dourado, graças ao forte reflexo do sol.

O clima genuinamente tropical, com prevalência de 27 graus e 240 dias de sol pleno e absoluto, também é um atrativo a mais. Basta deixar de lado a temporada dos temíveis furacões que vai de junho a outubro ou esquecer do que se fala sobre o furacão Wilma. Em 2005, causou danos às praias da zona hoteleira com erosão de significativa parte da cobertura de areias brancas. A imediata recuperação por parte do Governo, à época, suscitou protestos, face ao deslocamento de 1,3 bilhões de galões de areia vindos de outros lugares da península.

TRÊS MITOS SOBRE CANCÚN

1          CANCÚN É MÉXICO

Verdade que Cancún está em território mexicano. Mas é o exemplo vívido de que os limites geográficos não são determinantes para refletir a realidade de um país em sua totalidade. Decididamente, no sentido estrito do termo, Cancún não é México. Cancún não resume o México. Nas ruas, nos parques, nas belas ruínas que cercam a cidade, por toda parte, lá estão os invasores – turistas de todos os continentes, incluindo um número exorbitante de brasileiros. Do outro lado, por trás dos balcões de todo tipo; nas portarias dos diferentes estabelecimentos; nos transportes públicos; nos passeios turísticos, na condição de trabalhadores, lá estão eles – mexicanos de diferentes lugares, e, decerto, cancunenses.

Quem visitou a capital Cidade do México, DF ou outros estados mexicanos, entende bem o que desejamos reafirmar: Cancún não é a “cara do México”. Cancún é a “cara da estratificação social” que marca com fogo a realidade de países em desenvolvimento. A prova mais evidente, e porque não dizer, chocante, é que a maioria das praias é privativa dos hotéis! Verdade que o México como um todo é um país de cultura ímpar, mas coalhado de sérios problemas sociais e econômicos, como o nosso Brasil, o que o distancia da Cancún-paradisíaca. É só lembrar que Cancún é uma adolescente em oposição ao México, sábio ancião, que carrega consigo uma bela história impregnada pela riqueza asteca. Se não dá para comparar Cancún x México não dá para negar a audácia do empreendimento do Governo mexicano em instalar a cidade paradisíaca, hoje, responsável por mais de um terço do turismo da nação. Para ideia mais precisa, seu aeroporto é o segundo mais movimentado do México, aquém somente do da capital, mantendo a maior parte do tráfego internacional dos aeroportos da América Latina.

2          CANCÚN É SÓ CALMARIA

Verdade que desde muito tempo, Cancún vem atraindo casais em lua de mel e / ou aqueles que celebram suas bodas em terras cancunenses, em busca de aconchego e fantasia. Dizem que Cancún e Riviera Maya juntos somam cerca de 46 mil casamentos, a cada ano. No entanto, ao lado da aparente calmaria, a vida noturna é loucura total. Há de tudo e para todos os gostos. Além de muitos restaurantes, há bares em profusão, muitos dos quais localizados nos próprios hotéis, os quais mantêm, com certa frequência, o sistema all inclusive. Por um valor preestabelecido, o hóspede usufrui tudo o que o hotel oferece, incluindo refeições a qualquer hora, e, como não poderia deixar de ser, áreas de lazer, as ditas (ou malditas) praias privativas, spas, campos de golfe, sessões de massagem, jogos, etc.

Além das potencialidades dos hotéis, há uma imensidão de casas noturnas. O Hard Rock das décadas de 60 e 70, que seduzia jovens de diferentes nacionalidades, se faz presente em estabelecimentos próprios ou em outras paragens. Trata-se de estilo musical com raízes no chamado rock de garagem, cujo traço característico é ser bem mais pesado do que o rock convencional. Destaque também para a casa CoCo Bongo, onde o turista dança até o amanhecer. Há muitas outras. Difícil selecionar ou indicar. E há, ainda, como previsível, os mariachis, designação dos praticantes e, também, do próprio gênero musical, que se espalhou entre lavradores e nativos, unindo ritmos e harmonia vindos da Europa, mas, sobretudo, dos astecas. Estes perambulam pelas calçadas à busca de algum trocado, mas, prestem atenção, com ou sem aquele imenso chapelão – este é só para turista ver, comprar e largar adiante!
 
Para programas mais familiares que comportam qualquer faixa etária, lá está o Captain Hook Pirate Ship (Navio dos piratas), com seu espetáculo de gosto discutível, mas atraente, sem contar que oportuniza aquele passeiozinho clássico de turista deslumbrado – subir à Torre Escénica, que favorece visão ampla da cidade.

Circo remete invariavelmente à infância, à alegria e a nenhuma dor. Circo na cidade, promessa de domingo festivo. Não é à toa que a companhia Cirque du Soleil, fundada em 1984, em Quebec, Canadá, há 25 anos por Guy Laliberté (dizem, ex-artista de rua), dispensa publicidade. Seus ingressos se esgotam quase de imediato. Hoje, é mais do que um circo. É verdadeira indústria de entretenimento, com infinidade de produtos, que incluem de chaveiros e imãs a sofisticadas joias e máscaras. No caso, em Cancún, lá está ele com “moradia permanente” e muito charme, reunindo famílias inteiras em revoadas barulhentas e inquietas.

Para os mais aventureiros, há a possibilidade de mergulhos em Cancún e arredores, ênfase para a denominada Grande Barreira de Corais Maya, que constitui o segundo maior recife de coral do mundo, perdendo somente para a Austrália.

3          CANCÚN SE RESUME À ZONA HOTELEIRA

Mito fácil de derrubar. Visitar Cancún é se deliciar com os arredores. Além de sítios arqueológicos de tirar o fôlego, ruínas maias podem ser encontradas até mesmo na zona hoteleira, como o sítio arqueológico de El Rey, o maior da zona de hotéis, e bem próximo do conhecido Hilton Cancun Beach & Golf Resort. De fato, há muito a descrever! Por enquanto, além de Chichén Itzá, Xcaret e Isla mujeres, fica a sugestão para visitar a Playa del Carmen e muito mais, incluindo os parques Xel-Há e Xplor, sempre lembrando que há muito a fazer...

Chichén Itzá – Chichén Itzá ou Xichen (em maia, pessoas que vivem na beira da água), é o sítio arqueológico mais preservado da Península de Yucatán, distante do centro de Cancún mais ou menos 200 km. Fundado por volta dos anos 435 a 455 a.C., em seu ápice, século XIII, foi centro político e econômico da civilização maia, reunindo mais de 35 mil habitantes. Declarado, em 1988, Patrimônio Mundial da UNESCO [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura], alcançou o ápice turístico, após ser eleito, em Lisboa – Portugal, ano 2007, como uma das Novas Sete Maravilhas do Mundo, não obstante a campanha New Seven Wonders não ter o reconhecimento oficial da UNESCO. Isto pouco importa, diante do deslumbramento de sua arquitetura. Dentre outras estruturas, destacam-se a Pirâmide de Kukulkán; o Templo de Chac Mool; a Praça das Mil Colunas e o Campo de Jogos dos Prisioneiros. É um panorama que causa euforia e, ao mesmo tempo, certa paz e uma vontade imensa de percorrer com certa vagareza seus 15 km² de terreno pouco íngreme em meio a pequenas fontes e rios que aliviam o calor...

Xcaret – Difícil descrever a quantidade e a diversidade de atrações desse parque enorme, 76 km do centro de Cancún! O problema é selecionar o que fazer ao longo de um dia inteiro, que parece muito, muito curto! Imperdível o passeio em rios subterrâneos! Além de variados e bons restaurantes, o que dizer da selva tropical; do belo aquário de arrecifes de coral; dos shows intermitentes, inclusive espetáculos equestres; do povoado maia; das belas praias; das tartarugas marinhas; do aviário; da beleza dos flamingos em seu rosa estonteante; do mariposário? As capelas de São Francisco de Assis e a de Guadalupe atraem devotos. Para os mais curiosos, há visita ao Cemitério Mexicano Puente al Paraiso. Os museus constituem um capítulo à parte. Neles, a figura da legendária pintora mexicana Frida Kahlo ocupa lugar de destaque. Vítima de acidente e presa a um colete de gesso por toda a vida, utiliza sua permanente dor advinda também de outras enfermidades para desafiar a sociedade da época. Constantes autorretratos e procedimentos médicos são retratados sem respeito a regras ou perspectivas. Vai adiante. Revolucionária, usa adereços e vestimentas indígenas, propaga objetos de devoção a santos populares e ostenta vida pessoal para lá de tumultuada, quando mescla casamento convencional com romances paralelos tanto com homens famosos quanto com mulheres.

Isla mujeres – a meia hora de barco de Cancún (7 a 10 km de distância), fica uma pequena e tranquila ilha, conhecida pelo nome sedutor de Isla mujeres, que constitui, também, um dos oito municípios do Estado de Quintana Roo. Sua designação é atribuída aos espanhóis. Quando eles lá chegaram, a ilha era consagrada à deusa lunar dos maias, o que justificava muitas figuras-deusa espalhadas pela ilha. Não havia outro nome a ser dado: Isla mujeres! Praias privadas se alternam com praias públicas na parte sul da ilha. É o lugar ideal para espreguiçadeiras, toalhas ou sofisticadas estendidas para aproveitar a lentidão das horas e a beleza do lugar. Nadar com baleias ou tubarões-baleias, além de golfinhos, sempre sob a supervisão de profissionais, é uma opção para lá de atraente. O Parque Natural de Arrecifes Garrafon também está por lá.

TRÊS VERDADES SOBRE CANCÚN (Estão “na cara”!)

  1. BELEZA PARA DAR E VENDER!
  2. CUSTO DE VIDA PARA LÁ DE ELEVADO! Paisagens, golfinhos, parques magníficos, mexicanos sorridentes, mar cor de mar, céu cor de céu, golfinhos, visão de casais enamorados, tudo enfim, em dólar e tudo inflacionado às alturas!
  3. O INGLÊS É O IDIOMA MAIS FALADO DA ILHA, embora, oficialmente, seja o espanhol. E mais, alguns dizem que o esperanto se fala por lá! É ouvir para crer!

 

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