Viagem ao Reino do Camboja

 

Maria das Graças Targino *

Visitar a Indochina (países entre Índia e China, restritamente Vietnã, Laos e Camboja), pressupõe conhecer o Reino do Camboja. Sim, Reino do Camboja. Se o termo – reino – desperta sempre o sentimento de algo bastante “chique”, o sistema de monarquia constitucional do Camboja (Sudeste Asiático) com seus aproximados 15 milhões de habitantes marcadamente pobres, põe por terra a ilusão que o termo, em geral, proporciona. Embora, oficialmente, mencionem-se como etnias do Camboja a khmer (90%), a vietnamita (5%), a chinesa (1%) e outras, como chams e cerca de mais 30 tribos, que juntas somam 4%, o cambojano (khmer) é, em sua essência, uma mescla de raças – chinesa (como os olhos denunciam) + indiana (como a cor atesta).

 

Independentemente de etnias, os cidadãos, espalhados em 181 040 km² de área, estão submetidos a uma vida diária nada fácil. Em média, as famílias têm três filhos, quando vivem na histórica capital Phnom Penh, cidade mais populosa do país, localizada na confluência do Rio Mekong e dois de seus numerosos afluentes. O número sobe para cinco, em se tratando das comunidades rurais, o que justifica a densidade populacional de, aproximadamente, 75 habitantes / km².

 

Você pode imaginar um país / uma capital sem metrô, sem trem e pouquíssimos ônibus púbicos e carros particulares? São mais ou menos 50 táxis em Phnom Penh. Em compensação, tal como no vizinho Vietnam, sobram motos, o que torna o tráfego caótico ao ponto de inacreditável e justifica elevada incidência de mortes no trânsito. Aqui, é possível perceber a corrupção presente no país por toda parte – a multa pelo não uso do capacete é de dois dólares americanos, mas se o cidadão cambojano abre mão do recibo, baixa para um dólar. À semelhança da Índia, há por toda parte os tuk-tuk (triciclo com cabine para transporte de duas ou três pessoas), utilizados indistintamente por nativos e turistas. A diferença fica por conta do pagamento. Além do valor mais alto, os motoristas chegam às raias da loucura quando um turista usa o dinheiro local, o riel, em vez do dólar, ainda que adote a correspondência justa – 4.000 riéis = um dólar americano. E mais, tal como as outras duas nações da Indochina, o cambojano não adota a circulação de moedas – só circulam cédulas.

 

 

Ainda em relação ao transporte, diante da falta de ônibus e alternativas terrestres, resta ao cambojano utilizar a hidrovia. O país é facilmente navegável, tanto por conta da extensão do rio Mekong com seus afluentes, quanto pela importância do lago Tonle Sap.

 

Você pode imaginar um país predominantemente sem saneamento? Dá para imaginar sem saúde pública gratuita? Verdade, a saúde é paga. Se o indivíduo não pode arcar com as despesas e não há uma rede de amigos para ajudar, o destino é a morte prematura. Adendo: oficialmente, a saúde pública é garantida e de qualidade...

 

Você pode imaginar um país sem educação pública? “No papel”, a Constituição do Camboja prevê educação básica obrigatória e gratuita durante os primeiros nove anos dos indivíduos. Na prática, as escolas são visivelmente deficientes, até porque não há transporte público gratuito para as crianças. Segundo dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), cujo objetivo central é promover o progresso, reduzir a pobreza no mundo e produzir estudos sobre as condições de vida das populações, a taxa de analfabetismo do povo cambojano chega a 26,40%, atingindo mais as mulheres do que os homens. Há explicação para isso? Sim, por muito tempo, a educação esteve sob a responsabilidade dos wats (templos budistas), favorecendo somente o segmento masculino. De qualquer forma, reiteramos: nada mais incolor do que cifras estatísticas! Se não há escolas gratuitas, o índice de não letrados poderia ser bem mais elevado! Pura lógica!

 

Você pode imaginar um país submetido a um longo processo de colonização? A partir de 1863, os franceses impõem sua presença por longos 90 anos, exatamente até 9 de novembro de 1953, quando Camboja ganha sua independência em caráter definitivo. Nesse intervalo de tempo, são muitas guerras. Durante a Segunda Guerra Mundial, a maior parte do território cambojano é ocupada pelos japoneses. Mais adiante, por conta da famosa Guerra do Vietnã, apesar dos esforços para manter sua neutralidade, como os vietnamitas lançam mão do território vizinho para abastecer as forças que operam no Sul do Vietnã, em 1970, os Estados Unidos da América bombardeiam o Camboja. Pouco tempo depois, o Primeiro-Ministro Sihanouk é deposto pelo general Lon Nol, que conta com o apoio irrestrito dos norte-americanos. Descontentes, os comunistas (os chamados khmers vermelhos), sob a liderança de Pol Pot, conseguem, em 1976, proclamar a República Democrática do Camboja. No ano seguinte, o Partido Comunista do Camboja é oficialmente reconhecido como governante do país. Às doenças e à fome, alia-se a barbárie de genocídio em massa: o regime chega a matar por volta de dois milhões de pessoas. Adiante, os khmers vermelhos atacam o vizinho Vietnã, especificamente, os chams (sul do Vietnã), bem como, povos tailandeses. Os chams revidam, invadindo o território cambojano, em 1979. As forças vietnamitas instauram um governo socialista, que continua a ser atacado sistematicamente pelos comunistas.

 

Em 1991, as várias facções, sob a liderança da ONU, assinam, por fim, um acordo de paz. Dois anos mais tarde, a mesma Organização supervisiona as primeiras eleições livres e o Primeiro-Ministro Sihanouk, de volta à pátria, forma um governo de coligação e, posteriormente, se torna rei. A guerrilha dos vermelhos prossegue sua luta. Por outro lado, em 1997, um golpe de Estado faz com que o co-Primeiro-Ministro Hun-Sen afaste do poder outro co-Primeiro-Ministro. Desta vez, o príncipe Ranariddh, filho do Rei Sihanouk. Depois de anos de devastação e isolamento, apesar da prevalência do multipartidarismo, hoje, estão no poder o Primeiro-Ministro Hun Senno, no cargo há 21 anos (desde 1993) e o Rei Norodom Sihamoni (desde 2004), filho mais velho de Norodom Sihanouk. O Rei, segundo as tradições, é agraciado com as quatro sublimes bênçãos do Grande Buda: longevidade, saúde, felicidade e sabedoria.

 

Você pode imaginar um país que vive em paz há tão somente 16 anos, depois de atravessar guerras e mais guerras, cujo saldo de mortos está em redor de 10 milhões? Literalmente, o país se mantém envolvido em guerras sangrentas entre 1970 e 1998. Para uma ideia mais precisa, entre os anos 80 e 2013, contabilizam-se meio milhão de mortos e mutilados. Em 2013, registra-se o saldo de 58 mil pessoas mutiladas. Em decorrência, na atualidade, há muitos jovens (quase a metade da população tem menos 15 anos), que se fazem acompanhar de numerosas crianças órfãs, cujos pais foram mortos em combate. Isso traz consequências muito sérias até hoje.

 

Além de saúde, seguridade social, educação, saneamento, moradia e trabalho deficitários, há a questão das minas terrestres. Longe de ser uma lenda, é uma verdade cruel. Ainda é preciso limpar cerca de 12 milhões de minas, o que demanda tempo e dinheiro, com o adendo de que se localizam nas montanhas e zonas rurais, exatamente onde estão quem possui menos condições econômicas... Apesar do envolvimento de organizações internacionais não governamentais, até o final de 2013, apenas 2,5% de minas havia sido desativadas. Em oposição, um evidente ponto positivo – ao lado do único idioma oficial quase desconhecido (khmer) –, outras línguas ganham força: o francês, face à história do país; o vietnamita, pela proximidade geográfica e o inglês, por sua universalidade.

 

Você pode imaginar um país, em pleno século XXI, quase que completamente dependente da agricultura? Pouco mais de 20% vivem nas áreas urbanas. A maior parte do povo está na zona rural. Como decorrência, 80% da população ativa se dedicam às atividades da lavoura, embora a produção se destine majoritariamente ao consumo interno. Há frutas deliciosas. Algumas delas são comuns para eles e ainda exóticas para os brasileiros: lichia e fruta do dragão são exemplos. O arroz, por sua vez, está presente nas três refeições básicas das famílias, o que justifica a ligação mental que fazemos quase instintivamente – Camboja x plantações de arroz.

 

Para exportação, há, ainda, cana-de-açúcar, bananas, café, peixes secos, chá, borracha e pimenta-do-reino, além de héveas, espécies de árvores que fornecem látex para a fabricação da borracha. No caso de recursos minerais, há reservas de ferro, manganês, fosfato, carvão e pedras preciosas, mas a exploração é assistemática. A indústria, por sua vez, limita-se à transformação de produtos agrícolas. Construção civil, exploração de madeira, vestuário e turismo vêm crescendo... Há um dado curioso. É a exportação do petróleo. Em 2005, jazidas de petróleo e gás natural foram encontradas em território cambojano. A exploração comercial desses recursos se inicia em 2013, mas um paradoxo é evidente. Embora em pequena escala, Camboja exporta o produto. Depois, os cidadãos pagam mais caro por seus derivados. Exemplificando: o preço de um litro de gasolina vale mais de um dólar, aproximando-se ao valor que pagamos no Brasil.

 

Você pode imaginar um país, em pleno século XXI, com índices representativos da qualidade de vida acintosamente baixos? Em Camboja, as taxas de natalidade e de mortalidade são, respectivamente, de 26,9% e 9,06%. A expectativa média de vida é incrivelmente baixa em consonância com a falta de condições digna de vida da população – 58 anos, no caso dos homens e 62, para as mulheres, o que resulta em estimativa de 60 anos. Aliás, a presença do sexo feminino é muito forte na esfera social, fazendo diferença, inclusive, na construção civil, no comércio de frutas e quinquilharias. A educação é um caos, como visto. O PIB [produto interno bruto] alcança US$ 36.590 bilhões, colocando o país (de delicioso clima tropical) no 108º lugar dentre todas as nações do mundo. A renda per capita é de apenas US$ 2.400 (184º lugar). Diante do exposto, o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), medida adotada pela ONU para classificar os países por seu nível de desenvolvimento humano, com base nos dados de expectativa de vida, educação e PIB / renda per capita coletados em esfera nacional, em se tratando do Camboja, é de 0,557, o que lhe posiciona na 138ª posição no ranking mundial.

 

Você pode imaginar um país, em pleno século XXI, distanciado das tecnologias? Dois únicos exemplos. Internet e telefone móvel com suas mil potencialidades e multiplicidades são ainda vistos como artigos de luxo e, portanto, muito caros. Há as exceções, sem dúvida. Na capital, os dados oficiais do Governo apontam para o uso da Grande Rede por apenas 3% da população, reforçando a premissa de que a democratização da informação em termos mundiais é mera utopia.

 

Você pode imaginar um país quase que 100% budista? No Camboja, há hinduístas, muçulmanos e católicos, mas 95% são adeptos do budismo teravada, com prevalência dos não praticantes. A filosofia teravada prega a análise contínua da vida, a partir das chamadas “quatro verdades sublimes”: identificação do problema; da causa; da solução; e do caminho para a solução. São cerca de quatro mil templos budistas ao longo de seu território. Como o budismo se centra no Buda, pregando a igualdade entre as pessoas em qualquer nível social, além do respeito máximo aos animais, ênfase para os macacos , seus templos nem são grandiosos nem muito elevados – estão “na terra”, mais próximos dos “pobres mortais”.

 

O Palácio Real

 

Você pode imaginar um país com beleza ímpar? A capital Phnom Penh possui algumas preciosidades. Entre elas, o fabuloso Wat Phnom, o Templo da Colina, cuja construção original data de 1373 e o Museu Nacional. Também é de extrema beleza o Pagode de Prata, localizado nas instalações do incrível complexo arquitetônico, construído desde 1782. Estamos nos referindo ao Palácio Real com sua deslumbrante construção branca e dourada e seus amplos jardins. Além de residência oficial do Rei, integra nove edifícios numa área de mais de seis hectares. Dentre eles, destacamos a Sala do Trono, o Pavilhão de Napoleão III, o Pavilhão Phochani, o Pavilhão Chanchhaya e o citado Pagode. Construído no século passado, em madeira, o Pagode de Prata foi posteriormente reconstruído, ano 1962, com concreto e mármore. Chama atenção, sobretudo por seu piso com 5.000 telhas de prata maciça, cada uma das quais com, aproximadamente, um quilo, além de magnífico Buda de Ouro. Estão também nas instalações do Palácio, além do Templo do Buda de Esmeralda, o Museu do Genocídio Tuol Sleng e os Campos da Morte de Choeung Ek. Os dois últimos guardam o testemunho de crimes e torturas ocorridos no país em antigos campos de concentração.

 

Nos arredores da capital cambojana, está Siem Reap, base para exploração de Angkor. Trata-se de um dos mais importantes complexos de templos do mundo. Escondido por floresta densa e misteriosa por séculos e séculos, até o final do século XIX, quando arqueólogos franceses iniciam sua restauração, nos dias de hoje, Angkor Wat revela o fantástico cenário de uma das maiores civilizações da história, cujo reino se estabelece entre os séculos V e XV, com domínio de significativo território do sudeste asiático, desde Myanmar até o Vietnã. Diz-se que Angkor pode ter abrigado população de um milhão de habitantes à época, conquistando o posto de maior cidade do mundo até a Revolução Industrial. Templos, palácios e torres, construídos ao longo de várias dinastias dos Reinados Khmer mesclam estilos, religiões e propósitos. Há a magnífica Porta Sul de Angkor Thom com o Templo Bayon situado no centro do conjunto monumental e suas quatro cabeças revelando faces enigmáticas e assinalando os pontos cardeais, o Terraço dos Elefantes, o Terraço do Rei Leproso, o Mercado Real e Phimeanakas Old Gate. Os turistas se deliciam, também com o Templo Ta Promh e sua selva virgem (Templo das Selvas), set de filmagem de Lara Croft: Tomb Raider, primeiro filme baseado em série de videogames, no caso, Tomb Raider, com Angelina Jolie estrelando como a heroína Lara Croft.

 

Você pode imaginar um país com as vilas flutuantes do lago Tonle Sap? O “Grande Lago” é uma das maravilhas do Camboja. Ao mesmo tempo, revela extremo paradoxo: a beleza geográfica do lugar contrasta com a pobreza do povo ribeirinho, que sobrevive ao sabor das mudanças das estações. Exemplificando: se, durante a estação seca, Tonle Sap ocupa 2.600 km² de superfície, ao longo do período chuvoso, quadruplica sua superfície que chega a 10.400 km². A plantação do arroz, o cativeiro de jacarés e a pesca abundante de mais ou menos 850 espécies de peixes de água doce asseguram a alimentação, enquanto a saúde fica a cargo dos médicos sem fronteiras que marcam presença por lá...

 

No entanto, em que pesem todos os dados aparentemente ou visivelmente negativos, o Camboja tem se destacado por um dos mais expressivos desenvolvimentos econômicos no continente asiático, com crescimento médio de 6% nos últimos 10 anos. E mais, conhecê-lo somente reforça o que pensamos: viajar não se limita a conhecer lugares e paisagens. Viajar é vivenciar culturas. É saber que a cada viagem, mudamos, ou seja, ao final da visita ao Camboja, nos sentimos diferentes. Afinal, somos uma pessoa diferente a cada dia...

 

Viajar é respeitar crenças e tradições curiosas, como a venda de pombos em praças públicas para que as pessoas façam um pedido e logo depois os libertem. Há a restrição de fotos em aeroportos e zonas militares, como, aliás, se dá em outras nações. Nada de estranhamento diante dos que comem aranhas, grilos e morcegos fritos. Afinal, também há deliciosa cozinha, em que o arroz acompanha peixes e frutos do mar bem temperados... Tudo isso determina uma mistura ordinária ou uma mistura extraordinária, a depender do olhar: REINO DO CAMBOJA!

* Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.

 

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