BUDA OU PESTE: FACES DE UMA MESMA MOEDA?

 

Maria das Graças TARGINO

 

Mais uma vez, há quem questione meu apego à escrita. Mais uma vez, respondo com palavras repetitivas e reincidentes. Escrevo para ser. Escrevo para viver. Escrevo para evocar fatos vividos ou presenciados. No caso específico dos lugares visitados ou vislumbrados, escrevo para eternizar os caminhos traçados, os povos com quem cruzei ou esbarrei, as estradas que percorri quase sempre a passos lentos e amorosos... E complemento com um texto genial do escritor colombiano Héctor Abad Faciolince, que diz literalmente:

Nunca entendi porque não se pergunta aos engenheiros porque constroem pontes e, sim, porque escrevemos livros. É como se nosso ofício fosse uma vocação sacerdotal [...] ou uma chamada do mundo sobrenatural. Acho que é simples. Tal como o engenheiro que descobre que se dá bem com a matemática [...], o escritor se dá conta de que gosta de ler, de contar histórias e de escrever [...] É assim: muito simples, sem chamados misteriosos, sem vocações advindas do além. Escrevo [...] como arquitetos projetam casas. Talvez a diferença esteja no fato de que eles fazem para viver. Eu escreveria mesmo que ninguém me pagasse para escrever. Será esta a faceta sacerdotal de escrever?

E é movida por este desejo intenso de fazer perdurar estradas percorridas, que paro para discorrer sobre a República da Hungria (Magyar Köztársaság). Em especial, sobre Budapeste.

 

Situada na Europa Central, sem litoral, a Hungria mantém limites com sete outras nações – Áustria, Eslováquia, Romênia, Ucrânia, Sérvia, Croácia e Eslovênia – e, desde 2004, integra a União Européia (UE). Seu percurso abriga muitas histórias plenas de dominações e de revoluções, a partir da instalação do Reino da Hungria, ano 1000 d.C., graças à iniciativa do Rei Estevão I, posteriormente, Santo Estevão da Hungria. A consolidação do Reino ocorre somente em 1006, quando do extermínio dos opositores nobres pagãos. No entanto, se há episódios históricos e decisivos a contar, à “boca pequena”, comenta-se que são quatro “os grandes desastres” da história húngara.

 

Em primeiro lugar, a invasão mongol, entre 1241 e 1242, que devasta quase por completo a nação e sua população. Mais adiante, é a vez dos turcos tomarem seus territórios. Nesse ínterim, entra em cena o muito conhecido até hoje, o rei Matias Corvino, que fica no poder entre 1458 e 1490. Lenda ou verdade, dizem que fez três promessas à sua gente: edificar a majestosa Igreja de São Matias; enviar sua filha ao convento numa ilha, desde então, chamada Ilha Margarita, em homenagem à princesa; e construir uma quantidade muito grande de castelos como segurança à cidade. No entanto, os palácios em profusão não impedem o terceiro grande desastre – as duas grandes Guerras Mundiais – com graves conseqüências para o país. Ao fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945, adere ao comunismo, que sobrevive, tal como na República Tcheca, por mais de 40 anos, apesar das lutas em contrário, até o final dos anos 80 e início dos 90, quando as primeiras eleições livres ocorrem e a República se instala. O anunciado quarto desastre rompe a sisudez do relato. Refere-se à derrota da seleção húngara na final da Copa Mundial de Futebol, ano 1954. Apesar de dois gols à frente, perde para a Alemanha e o placar é de 3 x 2.

HUNGRIA EM SÍNTESE

1 Nome oficial: República da Hungria (Magyar Köztársaság).

2 Capital: Budapeste.

3 Forma de Governo: República Parlamentarista. Divisão administrativa: 19 condados e Capital.

4 Área geográfica: 93 033 km².

5 População: 9.976.062 habitantes (jul. 2011).

6 Densidade populacional: 110 hab./km².

7 Idioma oficial: húngaro ou magiar.

8 Moeda: florim húngaro (forint).

9 Clima: temperado continental.

10 Rio principal: Danúbio (Duna), segundo rio mais longo da Europa.

11 Agricultura: trigo, milho, batata, beterraba e cevada.

12 Pecuária: bovinos, suínos e aves.

13 Mineração: gás natural e carvão.

14 Indústria: alimentícia e bebidas, tabaco, química, petroquímica e construção.

15 Religião prevalecente: Catolicismo.

16 Gentílico: húngaro ou magiar.

 

 

Quanto à Budapeste, impossível dissociá-la do rio Danúbio (Foto 2), fonte de criação para artistas, poetas, romancistas e apaixonados, com cruzeiros memoráveis para qualquer mortal... Depois do Volga, é o ele o segundo rio mais longo da Europa. Separa com seus 2.845 a 2.888 km de extensão e suas 10 pontes, as duas grandes cidades – Buda e Peste – que desde 1873, se unem, oficialmente, para dar vida à Budapeste, sexta maior capital da UE e que atrai, a cada ano, mais de seis milhões de turistas, sendo denominada, com justiça, “A Pérola do Danúbio”. O caso mais emblemático da magia que cerca o rio está vinculado a Johann Strauss II, compositor austríaco, que se imortalizou com a valsa O Danúbio Azul, a tal ponto que é ela mais identificada com a Áustria do que o próprio hino nacional daquela nação. A valsa está em diferentes países e perpassa gerações, incluindo Hungria e Brasil: é difícil imaginar um brasileiro que não identifique seu cantarolar...

 

Retomando Budapeste, do lado de Buda, à margem ocidental do Danúbio, está a parte mais antiga e montanhosa, com o bairro do Castelo Real, zona reconhecida pela Unesco como Patrimônio da Humanidade, desde 1988, e onde se situam a sede real e a zona residencial mais rica . Do lado de Peste, à margem oriental, está a parte mais plana e onde pulsa a vida econômica e comercial da capital, com preciosidades arquitetônicas.

 

De qualquer forma, por toda parte, seja em Buda, seja em Peste, há muito a ver. Além dos amplos e bem cuidados jardins, que se estendem por toda a cidade, Budapeste é também muito conhecida por suas termas (a exemplo das Termas Gellért) e seu patrimônio cultural e histórico de extrema riqueza. Além do grandioso Teatro Nacional da Ópera, de 1884, há muitos e muitos monumentos, sinagogas, mausoléus e igrejas. Destaque para a Basílica de Santo Estevão (foto 6), a maior da capital, mas, sobretudo, a mais importante por conservar, em seu interior, a relíquia do catolicismo húngaro de maior valor. Referimo-nos à Sagrada Mão Direita do Rei Santo. Aliás, a Hungria em sua totalidade, é uma nação majoritariamente católica (63,1%), com 25,5% de protestantes e 11,4% de ateus. Entre os monumentos, mencionamos a Estátua da Liberdade e o Bastião dos Pescadores.

 

 

E há mais: Castelo de Buda, Castelo de Vajdahunyad, Estação Ferroviária Leste, Mercado Municipal, Museu Nacional da Hungria, Museu de Belas Artes, Museu Etnográfico, Parque Municipal, Praça dos Heróis, Praça Octogonal, Praça Vörösmarty, Teatro Nacional de Budapeste e Praça do Parlamento. Aliás, o Parlamento (Országház) (foto) é um dos maiores do mundo e um dos cenários mais fotografados e visitados por suas coleções e instalações. Guarda a fantástica Sagrada Coroa Húngara e é, sobretudo, o palco político do país, cuja Assembléia Nacional reúne 386 deputados, eleitos por mandato de quatro anos.

 

Para os notívagos (ou não), em especial aos finais de semana, há mil opções. Peças teatrais, exposições de arte, fantásticas danças húngaras e zíngaras (ciganas), feiras artesanais, shows folclóricos e de música popular. Esta, ao que tudo indica, há inspirado a grandes compositores e pianistas, como Franz Liszt e Béla Viktor János Bartók de Szuhaf?. E seguindo a tendência das demais capitais européias, a música clássica com concertos variados e de preços acessíveis estão por toda parte. É possível, ainda, durante dia e noite, provar bebidas típicas, sempre muito fortes. Os pratos da terra, com nomes indizíveis (fiéis à dificuldade da língua húngara), nos deixam com vontade de “quero mais”...

 

Aqui, unindo inspiração e línguas, acrescentamos que conhecer Budapeste esclarece de uma vez por todas o porquê de o grande compositor e escritor brasileiro Chico Buarque de Holanda ter encontrado aqui estímulo para seu festejado livro Budapeste. Além de se encantar com a cidade, o personagem, o ghost writer José Costa (ou Zsoze Kósta), aprende o húngaro com a amada Kriska e num dos trechos de sua fala, diz: “[...] a única língua do mundo que, segundo as más línguas, o diabo respeita [...]”.

 

E como a perfeição inexiste, Budapeste guarda em si mesma um toque de tragédia – de suas pontes, suicidas se lançam à morte, com freqüência, independentemente das providências tomadas pelos governantes no sentido de elevar as muralhas. Dizem que se trata de resultado da história perpassada de tristeza, por guerras, revoluções, combates, e, por conseguinte, muita morte... Dizem que há um sentimento de tristeza entranhado em sua gente. Dizem que há intensa nostalgia herdada de povos milenares vindos de muito distante. A este respeito, os guias locais, sem disfarçar preconceitos, se adiantam para explicar que não se referem aos ciganos. E reforçam: os húngaros não são ciganos. Cercada de mistérios e de imprecisões, acredita-se que a origem deste povo tão discriminado está na Índia ou no Egito. Por conta do intenso movimento migratório, que se inicia em pleno século X, nos dias atuais, estão por toda parte. A Hungria é apenas uma nação a mais, e a população de origem cigana que está em seu território ronda em torno dos 10%.

 

Indo além, lembramos que, à semelhança de outras cidades européias, na história de Hungria e de Budapeste, em particular, há contos e controvérsias. Dentre eles, um se refere à famosa Ponte das Correntes (Széchenyi Lánchíd), de 1849 e que consta como a primeira ligação permanente entre Buda e Peste, com seus 375 metros (Foto 9). Em 1852, um par de leões foi acrescido a cada uma de suas extremidades. Há quem assegure que os felinos não têm língua. Outros dizem que sim, a depender do ponto de observação dos transeuntes... E a discussão se acalora com as pessoas tentando adivinhar o que fazem os tais leões distintos dos demais...

 

Elizabeth da Áustria ou Sissi, imperatriz da Áustria, em 1867, junto com o marido, imperador Francisco José, foram coroados, respectivamente, Rei e Rainha da Hungria. É ela outro mito. Perdura no imaginário de húngaros e de turistas, graças à singularidade de sua vida e morte e, especialmente, pelo papel histórico que desempenhou como apaziguadora entre os povos integrantes do império austro-húngaro. Sissi é tema de uma série de três filmes. O primeiro, 1955, produzido pelo roteirista e diretor de cinema austríaco, Ernst Marischka, até os dias de hoje, é lembrado dentre o povo brasileiro, graças ao protagonismo da inesquecível Romy Schneider. Assim é Hungria...

 

E nos resta uma pergunta. Pergunta sem resposta unívoca, sem consenso, mas com amor – Buda ou Peste: faces de uma mesma moeda?

 

FONTE: FACIOLINCE, Héctor Abad. Basura. Madrid: Lengua de Trapo, 2000. 230 p.

 

Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica. E-mail para contato: gracatargino@hotmail.com

 

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