PERU: LENDAS, MITOS E RITOS

Maria das Grašas Targino e Alisson Dias Gomes

 

Difícil conhecer o verdadeiro país quando não se vive seu dia a dia junto com sua gente. O máximo que se pode fazer é deixar de lado os estereótipos turísticos, a começar pelos pontos mencionados (parques, restaurantes, praias, ilhas, etc.) em guias como o “máximo” para ser visto e, então, lembrado posteriormente por quem visita nações. Vale analisar feições, comportamentos, horários adotados pelos cidadãos e pelas famílias, sobretudo, quando se tem a grata felicidade de contar com um amigo nativo, como aconteceu conosco ao visitar o Peru, em especial, a capital Lima. O país que recordávamos em visita há mais de 20 anos nada tinha a ver com o Peru de 2014. Aliás, lendas, mitos e ritos se iniciam desde a designação – República do Peru. Uma das histórias é que, com a chegada dos espanhóis, questionados sobre o nome do lugar, os nativos responderam – biru. Depois de evolução linguística, o território passou à história como Peru, mas, na verdade, biru significava “não sei”, “não entendo” ou similar.

 

O país avançou. Caminhou. Mas como natural, não deixou para trás sua história plena de fascínio. Afinal, culturalmente, é o berço de uma das civilizações mais avançadas e ricas de que temos notícias. Os indícios da presença do homem em território peruano datam, mais ou menos, de 10.560 a.C. De início, a sociedade mais antiga de que se tem notícias nas Américas – a civilização de Caral – emerge na costa do Pacífico entre 3 000 e 1 800 a.C., seguida de diferentes culturas arqueológicas, tais como Nazca, Wari e Chimu e, posteriormente, o império inca, de longe, o maior Estado da América pré-colombiana. Aliás, até os dias de hoje, a província mais visitada, ao contrário do que se pensa, nem é Cuzco nem tampouco Machu Picchu. É Nazca com suas misteriosas linhas e desenhos. Vistas de perto não simbolizam nada. Vistas do alto, delineiam figuras de macacos, aranhas e beija-flores, o que faz crer que as tais linhas têm origem extraterrestre e, em algum momento histórico, se prestaram para enviar mensagens dos humanos para os seres além da Terra, como consta do livro bastante conhecido do controverso escritor suíço, Erich Anton Peter von Däniken. Este se notabilizou, exatamente, por teorias acerca de suposta influência extraterrestre na cultura do homem desde a pré-história, apresentadas em “Eram os deuses astronautas?”, traduzido para o português, ainda em 1968, ganhando versão cinematográfica logo adiante, com alcance internacional.

 

Colonizado por longos anos pelos espanhóis (século XVI), estes trouxeram consigo, além da adoção de violenta escravatura, um surto de vírus e bactérias de proporções gigantescas. A população de quase 10 milhões de indígenas se reduziu a apenas 600.000 indivíduos em 100 anos. Desta forma, a história do povo peruano é plena de combates não apenas contra os espanhóis, mas também contra norte-americanos e os vizinhos chilenos. Na atualidade, após a declaração oficial de sua independência, 28 de julho de 1821 e consolidada, a partir de 1824, o Peru consiste em república presidencialista democrática distribuída em 25 regiões mais a capital Lima. Enquanto cada região mantém governo próprio com mandato de quatro anos, Lima é administrada por um conselho da cidade. Interessante perceber que o povo da terra se refere, sempre, diferenciando as três grandes partes do vasto Peru: costa; serra e selva, que sustentam notável diversidade climática, além de grande biodiversidade de plantas e animais. Falam como se em cada uma dessas regiões, não mudassem tão somente de paisagem ou de céu ou de mar, mas transformassem a própria alma ou a força do espírito.

 

De qualquer forma, hoje, com sua cultura milenar, o Peru impõe-se como nação com belezas naturais inarráveis, significativo patrimônio arqueológico (sítios pré-colombianos, como Cuzco, Machu Picchu, Olamtaytambo e Sacsaihuaman) e riquezas de arquiteturas adquiridas pelo encontro das culturas ibérica e inca. No entanto, a bem da verdade, suas praias nada têm de convidativas: oriundas da Antártida, as correntes marinhas que banham a costa são “geladas”, embora, ao seu largo, estejam o litoral sul do país e o norte do Chile, considerada a área mais seca do mundo.

 

No entanto, sua riqueza ímpar – que torna o país multicor e sedutor – é a mescla de raças. Se a maior parte dos peruanos descende dos incas, a maioria é mestiça, graças à intervenção de europeus, ameríndios, negros, e, em menor proporção, de árabes e asiáticos. Como decorrência, apesar de o espanhol figurar como língua oficial, outros idiomas estão presentes no cotidiano das coletividades, com ênfase para quíchua e aimará, línguas faladas pelos silvícolas pré-colombianos. O primeiro, largamente utilizado dentre os incas, na atualidade, ainda é adotado, também, na Bolívia e no Equador.

Em termos de religião, prevalece o catolicismo, com cerca de 90% da população. Porém, tal como se passa no Brasil, há expansão crescente de evangélicos, com 12,5%; e 3,3% para outros credos, além dos que se intitulam ateus, 2,9%. Mesmo assim, é visível a olho nu a conservação de tradições, lendas, mitos e ritos, religiosos ou não. São crendices, que como as danças, variam de região para região, e, às vezes, de distrito para distrito.

SOBRE LIMA

Poucos são os dias de sol em Lima, o que justifica o apodo “A feia” ou outro, mais cordato, “A cidade cinza”. De qualquer forma, trata-se de uma cidade onde há muito a se ver e viver, entre museus, parques, praças, restaurantes e teatros. Só no caso de universidades, abriga 28 instituições. Dentre elas, está a mais antiga do continente, de 12 de maio de 1551, a “Decana de América”, a Universidad Nacional Mayor de San Marcos.

 

O Centro Histórico de Lima é visita imperdível. Tombado desde 1988 como Patrimônio Mundial da UNESCO [Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura], apesar de parcialmente danificado por terremotos, abriga uma série de edificações. Além da Praça Maior de Lima e da Catedral, há uma série de outras igrejas católicas que se postam nas imediações. Entre elas: Basílica e Convento de São Francisco de Assis; Basílica Menor e Convento de Santo Domingo; Santuário e Convento de Santa Rosa de Lima; Santuário e Mosteiro das Nazarenas; Basílica Menor de Nossa Senhora da Mercê; e o Palácio Arquiepiscopal de Lima. Outros prédios também fazem a festa aos olhos dos visitantes. É o que acontece com a Casa de Aliaga, a mansão mais antiga da cidade e que está diante do Palácio do Governo; Casa do Ouvidor, também bastante antiga; Casa de Pilatos, cuja denominação se explica por sua semelhança com construção semelhante na Espanha (Sevilha); Casa Goyeneche, em estilo original francês; Casa Riva Aguero, que abriga o Museu de Arte Popular; e Casa das Treze Moedas, hoje, elegante restaurante.

 

Ainda no Centro Histórico de Lima, estão o Parque Universitário, de 1870, que abriga o Centro Cultural da mencionada “Decana de América”; o Palácio de Torre Tagle; e o Tribunal da Santa Inquisição. No entanto, os museus também são numerosos em Lima, quer estejam ou não no Centro Histórico, a exemplo do Museu de Artes; Museu de Ouro; Museu de Arqueologia, Antropologia e História do Peru, além da coleção de arte erótica do Museu Larco Herrera e o Museu Metropolitano de Lima com atividades culturais permanentes ou pontuais.

 

Miraflores, Santo Isidro e Barranco são bairros onde o turista encontra de tudo, incluindo o rico artesanato local, lojas sofisticadas e restaurantes da mais fina categoria. O Parque Kennedy ou, simplesmente, “Parque dos Gatos”, em Miraflores, constitui um caso à parte. Segundo dados da imprensa local, por lá estão cerca de 120 felinos, descendentes de casal introduzido no local pela própria Prefeitura, ao final dos anos 90, para combater uma onda de ratos. Os gatos ficaram, e, como natural, ao lado dos aliados – é comum encontrar pessoas cercadas de cinco a seis gatos – ganharam detratores que lhes acusam de causar riscos à saúde pública.

 

Por fim, o Parque da Reserva com seu circuito de águas constitui atração única. Além dos jogos de luzes e água ao entardecer, abriga uma série de atividades culturais, que vão da presença de estátuas vivas a músicos, grupos de dança e de teatro. Em Lima, também chama atenção a prática de parapentes, que se torna cada vez mais popular por lá, favorecendo ao interessado sobrevoar o mar e o citado Miraflores. No mesmo bairro, o que dizer do encantador Parque do Amor? Em seu centro, a escultura “O Beijo”, de Victor Delfín, reúne em suas imediações namorados de faixas etárias variadas, unidos por um sentimento em comum – a paixão. A cada ano, no dia 14 de fevereiro (dia de São Valentim = dia dos namorados no Peru), se dá concorrida competição para selecionar o casal que consegue dar o beijo mais demorado. Fascínio total!

 

CUZCO: “UMBIGO DO MUNDO”

Conta a lenda que o Sol, em sua condição de deus e criador, enviou ao mundo seu filho, o Inca Manco Capac e, também, a filha Colla Mama Ocllo Huaco, a fim de que livrassem os homens do estado de selvageria em que viviam. Colocou-os próximo ao lago Titicaca, munidos de uma varinha de ouro. Então, mandou que caminhassem até o ponto onde a varinha afundasse, com facilidade, na terra. Nesse local, deveriam instituir a capital de um império. Foi Cuzco o local privilegiado, que em quíchua, significa exatamente o “umbigo do mundo”. No entanto, quase sempre, quem vai a Cuzco, com o objetivo maior de chegar a Machu Picchu.

 

Fincada no sudeste do Peru, a antiga capital do império inca se destaca pela grandiosidade da civilização indígena do passado e pelo barroco andino coexistirem lado a lado nas ruas de pedra, coroadas pelo Palácio Qoriacancha e pela Igreja de Santo Domingo ladeando a Praça das Armas (marco principal), onde estão a Catedral e a Igreja Companhia de Jesus. Nesse misto de cultura ameríndia e mestiça nas alturas, é possível encontrar tecidos extraordinários, animados festivais de verão, maravilhas arqueológicas e conviver com hábitos genuínos do povo peruano. Com a melhor infraestrutura turística do país, a cidade recebe diariamente, em média, 25 voos provenientes de Lima.

 

É possível se deter um pouquinho mais por Cuzco, andar pelas ruelas e misteriosos becos para entender porque a cidade foi declarada Patrimônio Histórico da Humanidade pela UNESCO. Localizada a 3.399m acima do nível do mar, guarda construções coloniais, de estilo barroco andino, erguidas sobre restos de edificações incas, como é o caso de quase todas as igrejas, observadas por milhares de visitantes de todos os cantos do planeta. Seu mais imponente legado são as ruínas da Fortaleza de Sacsayhuamán e o Inti Raymi (Festival do Sol), celebração no solstício de inverno, comemorado a cada 24 de junho com grande festa. Por conta de seus sítios arqueológicos, Cuzco é também considerado a “Capital Arqueológica de América”. A rua mais popular é a Hatunrumiyoc, onde está o Palácio Episcopal, atual Museu de Arte Religiosa. A cidade está constantemente lotada de gente que quer ver o muro que serviu de base para a construção espanhola. Não é à toa. O muro constitui em si mesmo uma obra-prima de pedras gigantes milimetricamente recortadas e encaixadas.

 

Mas o mais interessante de se fazer em Cuzco é ir além da história oficial e do trivial relatado por guias para conhecer os costumes da gente. Fugindo dos restaurantes turísticos, é possível se sentir um pouco cusquenho numa das tradicionais chicherías e picanterías ou, ainda, provando a famosa chicha de jora, bebida alcoólica andina fermentada à base de milho. Por fim, vale a pena chegar até o Vale Sagrado dos Incas, a 15 km ao norte de Cuzco, composto por rios que descem as ladeiras dos Andes peruanos, monumentos arqueológicos fascinantes e povoados incas que parecem conservar as práticas de outros tempos.

 

MACHU PICHU: A “CIDADE ACHADA”

Machu Picchu é o maior tesouro do Peru. Não é à toa que o lugar rende mais riquezas, de todos os tipos, há tantos anos, para o país que conserva fortes práticas de valorização do passado. Por ano, o santuário histórico recebe mais de 500 mil visitantes e movimenta a economia, com o ingresso de mais de 150 milhões de dólares, segundo dados do Ministério de Comércio Exterior e Turismo. Pode parecer clichê, mas o lugar é mesmo espetacular.

 

É possível se chegar de trem (até Aguas Calientes) e de ônibus, que costumam estar lotados de turistas até a “cidade achada”. E há a opção de o visitante se deslocar a pé em reflexiva caminhada, que leva de um a quatro dias. Isto porque, havia vasta rede de caminhos por todo o território inca, dentre os quais algumas trilhas ainda sobrevivem. Andarilhos do mundo inteiro atravessam o caudaloso rio Urubamba e de lá dão início a jornada a 2.150 m de altitude, nas ruínas de Chachabamba.

 

A trilha inca atravessa montanhas, vales e florestas. Seus 35 km são percorridos em quatro dias. Contudo, existe a opção de apenas um dia, alternativa mais comum aos visitantes que desejam viver a experiência, tida por muitos como mágica, cósmica e surpreendente. São 7 km de encostas para chegar às ruínas de Wiñay Wayna (em quíchua = “sempre jovem”) mais outros seis até o centro de Machu Picchu. A 500 m de altitude acima do rio, Wiñay Wayna é a etapa de descanso antes de chegar a Machu Picchu. Nesse ponto, o caminho junta-se com a trilha de quatro dias. Aqueles que atingiram Wiñay Wayna, percorreram três dias de sobe-e-desce: cruzaram montanhas, venceram desfiladeiros e passaram pelo ponto mais alto da trilha, Warmiwañusca, a 4.200 m.

 

Com as décadas, o caminho tornou-se tão popular que milhares de pessoas aderiram às trilhas. Porém, o impacto dos caminhantes foi violento: toneladas de lixo foram acumuladas e o movimento maciço provocou erosão em alguns trechos, ameaçando a integridade das ruínas arqueológicas. Por conta disto, o Governo peruano impôs restrições. Agora, é preciso autorização para percorrer o caminho e, no mínimo, 400 dólares para cobrir os gastos. Incluindo as equipes de apoio, 500 pessoas iniciam o caminho a cada dia. Para estar entre os escolhidos, é necessário reservar lugar com, no mínimo, três meses de antecedência.

 

O momento culminante da trilha inca é a chegada em Inti Punku (Porta do Sol), entrada original de Machu Picchu. Acredita-se que esse acesso não era uma via comercial, mas um percurso cerimonial. Era considerado um ponto de peregrinação. Cada etapa incluía rituais às montanhas sagradas. Depois de mais de seis horas de caminhada, a recompensa é uma visão grandiosa. Dá para entender o impacto que Machu Picchu produz nas pessoas. O lugar impõe respeito e admiração. A paisagem transmite a força da natureza. O ambiente transporta as pessoas a outro espaço e tempo.

 

E aí, oportunamente, perguntas surgem. Afinal, o que teria sido Machu Picchu? Apenas uma fortaleza, como indicam alguns arqueólogos? Mas para proteger o que e de quem? Isolada pelas correntezas do Urubamba e por um anel de picos montanhosos, Machu Picchu não mantém características de fortaleza clássica ou de centro administrativo. Mais lógico, seria conceber a cidadela como refúgio espiritual ou, até mesmo, esconderijo político. De fato, a cidade é uma obra autossustentável, com plataformas agrícolas e edificações talhadas na própria montanha. Todo material utilizado na construção veio das redondezas. As estruturas são de granito; os muros ligeiramente inclinados compensam o impacto de possíveis terremotos. Trata-se de conjunto arquitetônico de alto valor estético. No total, são 150 casas, além de palácios, templos e aquedutos. Tudo muito bem preservado, o que justifica seu tombamento também pela UNESCO, em 1983.

 

Em termos históricos, quando os espanhóis invadiram e dominaram o Peru, jamais chegaram a Machu Picchu. Somente em 1911, o explorador norte-americano Hiram Bingham descobriu as ruínas. Quando ali chegou, a cidade estava escondida, recoberta por 400 anos de vegetação. Depois de dois anos de exploração arqueológica, patrocinada pela Yale University (Estados Unidos da América) e pela National Geographic, Bingham voltou aos EUA com mais de cinco mil artefatos. A maioria continua em Yale. Na atualidade, o Governo peruano e a University discutem sobre o retorno das peças para que sejam resgatadas num museu local. O norte-americano jamais imaginaria que, um século depois, a antiga cidade seria uma das Sete Novas Maravilhas do Mundo Moderno!

 

O explorador não encontrou nenhum objeto considerado como tesouro, nem tampouco nenhuma cerâmica espetacular ou qualquer objeto de ouro ou de prata. Apenas algumas peças de bronze e de uso diário. Na verdade, o tesouro mais extraordinário de Machu Picchu é a localização natural, cercada de montanhas e florestas. É esse entorno, neste ambiente mágico, que faz com que visitantes de todas as partes do mundo sejam atraídos e se deslumbrem com a beleza enigmática de Machu Picchu.

LENDAS QUE ENCANTAM

PESCADOR E MÁRTIR DA INDEPENDÊNCIA PERUANA

Parece haver muito de verdade no relato passado de geração a geração: o pescador peruano, José Silverio Olaya Balandra, atua durante muito tempo como emissário secreto em prol da independência de seu país. Desde criança se dedica de corpo e alma à pesca artesanal e à venda de pescado, o que lhe permite exercer, mais adiante, sua função de agente secreto. A nado, carrega consigo mensagens entre o Governo de Callao e patriotas da capital Lima. Ao ser pego, não tem dúvidas: engole as cartas oficiais de membros do Congresso então refugiados na Fortaleza de Real Felipe no Callao e de patriotas limenhos da Esquadra Libertadora. Mesmo duramente torturado e fuzilado, no dia 29 de junho de 1823, em Petateoros (hoje, passagem Olaya), jamais delatou os compatriotas. Por sua bravura, é considerado o patrono da Arma de Comunicações do Exército do Peru, desde a instauração do “Dia da Arma de Comunicações”, em 24 de abril de 1967. Seu nome está irreversivelmente ligado ao distrito de Lima, Chorrillos, onde nasceu em 1782, cuja relevância é fundamental para o país. Afinal, a história de Chorrillos remete a Olaya Balandra e, portanto, à resistência peruana aos espanhóis e às lutas tanto pela independência quanto contra o vizinho Chile. Eis suas palavras finais: “Se tivera mil vidas, as daria por minha pátria.”

O SALTO DO FRADE

Também em Chorrillos, “reza a lenda” do “Salto do Frade”, que se situa num penhasco, onde, hoje, está localizado um restaurante que, para manter viva a lenda, mantém um “frade” disposto a saltar do penhasco em troca de moedas dos turistas... Há versões variadas da linda história de amor, mas vamos contar a mais usual. Lá pelos anos 1800, um menino, adotado por uma família rica, termina por se apaixonar por sua meia-irmã. A família discorda radicalmente do romance. O menino é enviado a um mosteiro para se tornar frade. Tempos depois, os namorados passam a se ver às escondidas, onde hoje está o tal salto. Desde lá, era possível avistar embarcações que passavam ou passeavam pelo mar afora. Num dos encontros, a menina não aparece. Enquanto esperava, o frade visualiza uma embarcação carregando a bordo sua amada rumo ao Chile. Desesperado, o frade se atira do penhasco em vã tentativa de alcançar seu amor. Sem conseguir, morre afogado...

PERU E CURIOSIDADES

Lhama – a lhama (ou lama) é um dos animais mais “ilustres” do Peru. Pertence ao gênero de mamíferos camelídeos e ruminantes, dotados de pesado penugem de lã. Mas para quem está interessado em comprar uma malha da lã de lhama, esqueça! As de alpaca, também do mesmo gênero de mamíferos, só que menor do que a lhama, são, invariavelmente, de melhor qualidade e menos ásperas.

Peru e Amazonas – uma das províncias peruanas, situada na fronteira com o Equador é homônimo de nosso Estado – Amazonas.

“Festas Pátrias do Peru” – vivenciamos as chamadas “Festas Pátrias do Peru” ou o “Mês pátrio”! Inacreditável! É exatamente em julho que a população comemora a Independência do Peru do subjugo da Espanha. Agora, 2014, o 193º ano consecutivo da liberdade do povo peruano! É incrível! Há festas por toda parte, com ênfase para parques, praças públicas, museus e outras instituições culturais. As lojas oferecem descontos! Os assalariados recebem gratificação! Escolas e algumas outras entidades entram de férias. As bandeiras do país estão por toda parte, incluindo varandas e telhados de casas e edifícios, como também, em brochinhos nas roupas dos cidadãos de qualquer idade.

Chá ou folhas de coca – o susto inexiste, porque se trata de costume bastante divulgado pelas agências de viagem: à chegada, os turistas são brindados em seu local de hospedagem por chá ou folhas de coca, substância proibida por aqui, por conta da extração da cocaína, potente alcaloide, e, quase sempre, devastadora. No caso do Peru, sobretudo, em visitas a Cuzco e Machu Picchu, a explicação é plausível: mascar a folha ou tragar o chá reduz os efeitos da altitude, como aceleração cardíaca, dor de cabeça e cansaço extremo.

Inca cola – o Peru se orgulha de possuir sua própria coca-cola: a inca cola. A poderosa indústria da coca-cola já a comprou. Vamos ver até quando as duas vão circular de “mãos dadas”!

Ceviche – a culinária do Peru encanta pela variedade tanto de ingredientes quanto de sabores e tendências, incluindo a comida criolla, mas seu prato mais conhecido é o ceviche: pescado fresco com cebola roxa, suco de limão, sal e um toque de ají. (tipo de pimenta desse país, que arde pouco, mas possui sabor bem característico). Para quem interessa mais informações, no endereço http://enperu.about.com/od/Comidas_y_bebidas/tp/Diez-platos-fundamentales-de-la-cocina-peruana.htm, estão os 10 pratos fundamentais da cozinha peruana.

Batatas e milhos – ainda no campo da culinária, batata e milho possuem número muito grande de variedades. Há cerca de 3.000 a 4.000 variedades de batatas nos Andes. As amarelas são as preferidas pelos nativos, mas as brancas, negras e doces também são apreciadas. O milho, por sua vez, possui 35 variedades, entre o branco, o amarelo, o morado (negro) e o avermelhado. Seu consumo também é diversificado: fervido, tostado, doce e como bebida, chicha. Eis uma bebida fermentada produzida pelos povos indígenas tanto na Cordilheira dos Andes quanto na América Latina em geral, desde a época dos incas.

Picarone – A comida de quiosques de rua mais conhecida do Peru é o picarone, rosquinha de batata-doce com abóbora, em geral, servida com um caldo doce bastante comum por lá, chancaca. Sabe o que é chancaca? Nada mais nada menos do que uma variação de nossa rapadura, que muda de nome ao deus-dará: chancaca (Peru, Argentina e Bolívia); panela (Colômbia, Costa Rica, Venezuela, México, Equador e Guatemala); piloncillo (México), papelón (Venezuela e Colômbia) empanizao (Bolívia) ou tapa de dulce (Costa Rica); raspadura (Argentina, Guatemala e Panamá; velam (Índia), etc.

Cão careca – o cão pelado peruano, espécie em extinção, e muito pouco visto pelas ruas das cidades – vimos apenas duas vezes – integra o folclore peruano. O cão careca data de 3.000 anos, segundo ilustrações recuperadas da civilização inca. E mais, além de mansos e dóceis, são ideais para quem sofre de alguma alergia. Por não ter pelos, mantém a temperatura do corpo mais elevada e, então, ajuda a aliviar os sintomas de asma e artrite dos pacientes.

Trânsito caótico – caracteriza-se pelo buzinaço 24 horas por dia, reduzindo, um pouco, à noite. Para ideia mais precisa, segundo a Federação Nacional de Táxis e Coletivos do Peru, a frota de táxis engloba 350 mil unidades somente na capital Lima. Deste total, somente 130 mil são oficiais. O resto é irregular. Resultado: faltam transportes públicos razoáveis (são péssimos) e sobram táxis. Estes, estranhamente, não possuem taxímetros. O recurso é abominável – pechinchar, pechinchar...

Touros de barro e cruz – trata-se de tradição antiga que se esvai, embora cultivada por séculos, sobretudo, dentre o povo campesino, com ênfase para o sul do país. Sua origem está na pequena cidade de Pucará, distrito de Puno. Na fase de constituir família e construir uma casa, antes da mudança, os donos da casa colocam no telhado de sua nova residência, bem no centro da cumeeira, um par de touros de barro (ou de outro material), ladeando uma pequena cruz de madeira e uma escadinha com se fora de brinquedo. A cruz indica que ali vive uma família católica; os tourinhos de barro ou “Toritos de Pucará” representam fidelidade, prosperidade e força do trabalho; a escada simboliza a esperança de ascender na vida.

Chola – termo com múltiplas significações. No Peru, tal como na Bolívia, estamos nos referindo às mulheres, que portam uma saia longa até os pés (pollera), blusas multicoloridas, um xale também colorido jogado nos ombros mais um chapéu-coco posto sobre o cabelo dividido em duas tranças sempre longas. De início, o termo chola mantinha conotação pejorativa para identificar mulheres nativas aimarás que, vivendo nas cidades grandes, deixavam de lado valiosas tradições dos antepassados em prol da adesão ao estilo dos mestiços urbanos. Nos dias de hoje, há mudança radical: o visual é prova do orgulho dessas mulheres no que se refere à sua identidade genuinamente indígena.