NOVA IORQUE: CONTRADIÇÕES, ENCANTOS E DESENCANTOS

 

Maria das Grašas TARGINO

 

Referimo-nos, aqui, à metrópole Nova Iorque ou Nova York ou New York City (NYC), a cidade mais populosa dos Estados Unidos da América. Com seus 8.175.133 habitantes “espremidos” numa área de 784 km², o que corresponde a uma densidade demográfica em torno de 10 000 hab. / km2, ocupa o terceiro lugar dentre as maiores aglomerações urbanas da América, aquém somente de São Paulo e México, DF. Isto é, não estamos falando do Estado de New York, e sim da cidade de NYC, situada no extremo sul do Estado.

 

Reiteramos que NYC está cercada de visões estereotipadas mundo afora. A cidade é sinônimo de progresso e ebulição. Sua importância se constata na força de abrigar a sede de representativos organismos mundiais, tais como a da Organização das Nações Unidas (ONU), a partir de 1950, o que enfatiza a influência política da cidade. Seus impactos alcançam os mais diferentes segmentos, como ciência e tecnologia, pesquisa e desenvolvimento, finanças, alta costura, comércio (possui, por exemplo, a maior loja do mundo, Macy’s), educação (as Universidades de Colúmbia, Nova York e Rockefeller estão no ranking das 100 melhores do mundo), arte e entretenimento. A respeito dos conglomerados midiáticos, ao lado de impressos locais e em idiomas específicos, como espanhol, italiano e chinês, jornais diários de renome são publicados na cidade. É o caso de New York Daily News, New York Post, Wall Street Journal e New York Times. Além de portais e sites de todo tipo, os impressos convivem com, aproximadamente, 60 estações de rádio e televisão. Entre as emissoras de TV, estão algumas reconhecidas internacionalmente, como ABC, CBS, NBC e Fox. A cidade conta, ainda, com importantes casas editoriais e numerosas agências de publicidade.

 

Em termos da indústria de entretenimento, a Broadway com seus variados e permanentes espetáculos atraem multidões. Amostra significativa é o espetáculo “The phantom of the opera ou O fantasma da ópera”. Baseado em romance do francês Gaston Leroux e inspirado no livro “Trilby”, do também francês George du Maurier, tem sua edição original lançada no longínquo 1910. Daí em diante, ganha adaptações variadas tanto para o cinema como para o teatro, atingindo o auge ao chegar à NYC, onde está em cartaz desde 1986, ou seja, 28 anos, e sempre com plateias cheias. Afora “O fantasma...”, em 15 dias, tivemos a chance de assistir musicais fantásticos, a exemplo de Spider Man, Once, Pippin e Matilda, cada um dos quais com características e singularidades incríveis. E há muito mais...

 

Na verdade, os nova-iorquinos carregam consigo, além dos estereótipos de cidade cosmopolita e esplendorosa, a sombra cinzenta da manhã fatídica de 11 de setembro de 2001. Ataques contra os EUA perpetrados pela organização fundamentalista islâmica Al-Qaeda deixam, à época, um saldo de quase três mil vítimas. Dezenove terroristas sequestram quatro aviões comerciais de passageiros, um dos quais colide contra o Pentágono, sede do Departamento de Defesa do país, próximo à capital Washington, D.C (Condado de Arlington, Virgínia) e outro cai em pleno campo aberto nas imediações de Shanksville (Pensilvânia). A lembrança entre a população da cidade é forte: as chamadas Torres Gêmeas do complexo empresarial do World Trade Center, símbolo do poder da cidade como núcleo para assuntos internacionais e capital cultural do mundo, são então destruídas. Hoje, até livros didáticos incluem a tragédia, como estratégia para que a população não a esqueça. Novos prédios estão em construção no local do antigo Center em ritmo acelerado e o Memorial está sendo finalizado, entre amplos jardins, e já aberto à visitação em homenagem às vítimas da tragédia. É interessante observar que os visitantes são incentivados a colaborar com o Governo norte-americano por meio de doações em dinheiro, arrecadadas à entrada do vigiado Monumento: 10 dólares dão direito ao turista de ostentar uma pulseirinha lembrando sua contribuição.

 

No entanto, mais do que o esplendor das múltiplas atrações – parques, igrejas, monumentos, museus , estátuas, bibliotecas, edifícios (tal como o famoso Empire State Building), bairros e ruas célebres – há a certeza inabalável de que NYC reúne em seu território gente de toda parte. Raças e nacionalidades se mesclam. Segundo dados oficiais, cerca de 40% dos habitantes são “forasteiros”. Há de tudo. Além de número considerável de brasileiros, há gente da Colômbia, Coreia, Filipinas, Índia e Bengal, Irlanda, Jamaica, República Dominicana, além do Equador, Haiti, México, Paquistão, Vietnam e de Porto Rico, etc., o que traz à tona incrível diversidade linguística. O populoso e grande bairro chinês (Chinatown), que agrega a maior concentração de chineses do Ocidente, constitui exemplo clássico, ao lado da Little Italy.

 

Porém, apesar da aparente integração do imigrante e do negro à sociedade norte-americana, a maior parte deles exerce profissões menos privilegiadas ou menos valorizadas numa sociedade altamente capitalista. Salvo exceções, eles estão em lojas, restaurantes e bares, quiosques e “camelódromos”, estações de trem, limpeza das ruas, serviço de taxi e assim por diante. A bem da verdade, difícil encontrar norte-americanos por aí.

 

De forma similar, surpreende a presença significativa de moradores de rua. São muitos. Sempre imigrantes ou negros. Idades variadas. Homens e mulheres. Loucos, deficientes, velhos, drogaditos, viajantes com malas nas mãos calejadas, casais hippies e assim vai. De acordo com informações colhidas na discutível Wikipedia, 95,1% dentre as vítimas de homicídio e 95,9% dentre as vítimas de tiroteios em NYC são negros ou hispânicos, agravado pelo fato de que 90,2% dos detidos por homicídio e 96,7% dos capturados por tentativa de assassinato também fazem parte dos dois segmentos. Mesmo assim, depois de altas taxas de criminalidade na década de 80 até os primórdios de 90, NYC possui, agora, a menor taxa de criminalidade entre as 25 maiores cidades do país.

 

É evidente, a cada minuto, que como qualquer cidade, NYC, com sua chuvinha quase diária (tal como ocorre em nossa brasileira Belém do Pará), é plena de contradições. O liberalismo corre solto. Veste-se de tudo. Figuras exóticas desfilam pelas ruas. Mulheres e / ou homens seminus ganham alguns trocados por sua exposição, sob o olhar do policiamento ostensivo de profissionais que vigiam os quatro cantos da cidade em duplas, acompanhados de cães ou montados a cavalo.

 

Solidariedade e simpatia estão aquém do esperado minimamente. Enquete nacional realizada pelo Business Insider, entre 19 e 23 de agosto de 2013, coloca NYC, ou melhor, seus habitantes como os mais grosseiros dos EUA, referindo-se não ao Estado de New York, mas à metrópole. De imediato, periódico de âmbito local, 27 de agosto, em coluna semanal do jornalista Mike Vogel (ver newyorkgritty.net), sob o título “New Yorkers rude? Oh, gimme a break ou Nova-iorquinos mal educados? Oh! Deem-me um tempo!” rebate. Apresenta uma série de argumentos, apoiados na invasão da cidade por imigrantes e, sobretudo, turistas. Indiferente ao fato de que o turismo representa elevada fonte de renda para o Estado, diz que enquanto os habitantes de Manhattan odeiam o centro da cidade e o evitam tal como o diabo foge da cruz, são obrigados a frequentá-la para trabalhar e cruzar as ruas empilhadas de “desocupados”.

 

Como são centenas ou milhares que interrompem seu duro cotidiano tanto com o “caminhar de tartaruga” (próprio de quem passeia) como para pedir as mais incríveis informações, é impossível cumprimentar a todos com um bom dia ou “oi”. Conclui dizendo que as pessoas confundem “ocupado e apressado” com “pouco amigável e rude”. Vogel esquece, no entanto, que mesmo nas residências universitárias (onde estive por 15 dias com minha filha ao longo de um curso de atualização de inglês), nos restaurantes ou lanchonetes, nos transportes públicos, também são raros cumprimentos, sorrisos e gestos de amabilidade. Crianças e adolescentes ocupam assentos no metrô e no ônibus, não importa se há descapacitados ou idosos em pé. A descortesia é extrema ou intensa em diferentes situações.

 

Do outro lado, há perseguição (mais do que proibição) ostensiva contra os fumantes. Fumo só no interior dos lares ou nas ruas, com o adendo de que alguns prédios delimitam X ou Y metros de distância. No lastro das incoerências, em se tratando de uma nação desenvolvida, a obesidade assusta. A preferência por junk food ("comida lixo") assegura o reinado de uma quantidade significativa de redes de fast food. No centro e com o cetro real, o McDonald's está por toda parte.

 

Outro aspecto controverso é o desperdício de energia e água. Na residência universitária, por 15 dias, 24 horas, todas as luzes de corredores e demais áreas de domínio comum são mantidas acesas. Recursos naturais se esvaem ao lado da prática do descartável para quase tudo. Dizem eles que a reciclagem funciona, mas a economia seria, no mínimo, uma medida preventiva. Também chama atenção o quase sumiço do livro – há alguns anos atrás, presença marcante – nos parques, e, em especial, no transporte público. Os jornais impressos – alguns de caráter local, distribuídos gratuitamente à semelhança de países europeus – sobrevivem nos metrôs. Entretanto, é indescritível a marca da tecnologia. Em situações as mais diversas, lá estão tablets, ipods, ipads, iphones e demais apetrechos. Sós ou acompanhadas, as pessoas consultam e-mails, facebooks, Google... Trocam mensagens. Sorriem. Mostram expressões de apreensão, surpresa ou indignação, mas “o outro / o próximo” simplesmente inexiste. Casais substituem afagos por consultas aos equipamentos de última geração: frente a frente, sozinhos, nem se olham nem se veem. Estão “grudados” nos equipamentos. Há, ainda, quem tome o café da manhã numa cafeteria qualquer acompanhado do smartphone e assim por diante.

 

Aliás, no metrô, aberto desde 1904, e peça indispensável ao dia a dia do nova-iorquino, haja vista que funciona ininterruptamente 24 horas por dia durante toda a semana, as inovações tecnológicas são a marca principal ao lado do isolacionismo crescente e a olho nu. E há o hábito advindo da vida corrida de fazer suas refeições (quase sempre “porcarias” ou “besteiras”) ao longo do trajeto ou nas ruas e nos parques em meio a um trânsito infernal que mistura limusines, bicicletas, ônibus, carros, táxis, vans, caminhonetes, furgões e até tipos de rickshaw, que nos fazem lembrar Índia e Cuba. E há ainda os ferries e os helicópteros, que cruzam espaços tão distintos – céus e mares.

 

Mas, sem dúvida, vale a pena ver ou rever The Big Apple (A grande maçã) ou “Gotham” (Capital do mundo) dos anos 2013, num verão quente e úmido, distante do frio e da neve que invadem a cidade durante o inverno, entre novembro e fevereiro, mais ou menos. É sempre bom viver suas contradições, seus encantos e desencantos. Como diz a bela canção “Encontros e despedidas” do brasileiro Milton Nascimento,

 

Coisa que gosto é poder partir

Sem ter planos

Melhor ainda é poder voltar

Quando quero...

.............................................

São só dois lados

Da mesma viagem

O trem que chega

É o mesmo trem

Da partida...

 

FUGA POR NOVA IORQUE

BAR-RESTAURANTE TRAILER PARK – sua intenção é criar um lugar aconchegante e “esquisito”, ao reunir em seu espaço o que há de mais kitsch na cultura norte-americana, entre relógios, bibelôs, peças artesanais, fotos, etc. Aberto a partir de meio dia, na 271 W 23rd St. no badalado Bairro Chelsea é uma delícia em meio à sofisticação. Coerente com a proposta, o ambiente apela para o gosto popular, mas a comida e o atendimento são o melhor que há. É a confirmação do que afirma J. Guilherme Merquior: o kitsch é “a estética do digestivo, do culinário, do agradável que não reclama raciocínio”

BLUE NOTE JAZZ CLUB NEW YORK – situado no também conhecido bairro Greenwich Village (131W 3rd St,), é um clube que reúne figuras interessantes da cidade e prima pela qualidade do jazz, uma das paixões da população local. Sempre lotado, comida deliciosa (os petiscos de camarão dão água na boca) e de preço “salgado” favorece momentos de pura desconcentração.

GAY LIBERATION MONUMENT – NYC convive muito bem com a diversidade, atraindo homossexuais e bissexuais, a tal ponto que o Monumento da Liberação Gay, no centro do pequeno Christopher Park, na West Village, atrai curiosos e quaisquer cidadãos que primem pelo respeito às diferenças. Trata-se de escultura de George Segal em homenagem aos acontecimentos no Stonewall Inn, ano 1969, ocorridos em frente ao Parque e considerados fundamentais para o avanço rumo ao reconhecimento dos direitos dos homossexuais no Estado e na nação, incluindo, adiante, o casamento homoafetivo. Este está legalizado no Estado de New York desde junho de 2011, com a ressalva de que a obra foi inaugurada em 1992, depois de 12 anos de muita luta e controvérsia.

HIGH LINE PARK – parque suspenso localizado em plena New York (529 West 20th St. Suite 8W) surpreende de uma estação para a outra por mudanças radicas em sua aparência. Durante o período de verão, muito verde, variadas flores e ervas, veredas estreitas e a audácia dos que se propõem a experimentar a seminudez em meio à multidão que passeia. Seus idealizadores Joshua David e Robert Hammond vêm sendo premiados porque, de fato, o Parque High Line representa um bem sucedido projeto de revitalização urbana numa cidade tomada por tráfego intenso e poluição desenfreada.

IGREJA DE SAINT AGNES – arquitetura simples, sem nada de notável, atrai como oásis de reflexão e de meditação entre o burburinho do centro da cidade, 143 E 43rd St.

BROOKLYN – NYC integra cinco distritos (os denominados boroughs), que também são condados do Estado de NY. Além de Manhattan, abriga Bronx, Queens, Staten Island e Brooklyn. Atravessar Manhattan rumo ao Brooklyn, Condado de Kings, é uma experiência única. Chegar a pé, de metrô ou de barco ao distrito mais populoso de Nova Iorque possibilita-nos visualizar três esplendorosas pontes (Brooklyn, Manhattan e Williamsburg), e dois rios de reconhecida importância – o rio Hudson e o Rio East. O primeiro deles é, em parte, responsável pelo crescimento da região como centro comercial. Independente de NYC até 1898, o Brooklyn possui bairros comerciais acolhedores e um aprazível recanto hippie, Williamsburg, que atrai por sua feirinha aos sábados, além do fantástico Brooklyn Bridge Park. Ao dispor da maior parte das instalações portuárias e de indústrias da cidade, o Brooklyn se firma como o terceiro centro financeiro de New York, embora seja visto como o local de maior incidência de violência urbana em NYC.

CENTRAL PARK – primeiro parque ajardinado numa cidade norte-americana, o Parque Central data de 1857. Praticamente, atravessa toda Manhattan em seus 4km de comprimento e 800m de largura com seus mais de 100 parques de pequeno porte. O Parque comporta jardins atrativos, campos de esportes, um lago, vários playgrounds e uma imensa área verde, além de pequeno zoológico. Como não poderia deixar de ser, uma quantidade de lojinhas e quiosques para a venda de jornais, revistas, cigarros, sucos, refrigerantes, e, de novo, junk food.

 

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