CHICAGO: A CIDADE DE MIL NOMES


Maria das Grašas Targino

ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA E SONHO AMERICANO
Ao contrário de muitos brasileiros, nem mesmo quando adolescente, alimentamos a chance de viver o sonho americano, expressão cunhada pelo historiador e escritor estadunidense, James Truslow Adams, em 1931, para designar uma existência com oportunidades igualitárias para todos a partir de suas próprias conquistas. Nunca acreditamos muito nisto. À medida em que conseguimos desvendar os Estados Unidos da América, a distância ou em períodos de visita, mais, ou menos prolongados, a turismo ou a estudo, confirmamos nossa desconfiança. Nem só de maravilhas vive o povo norte-americano. Além das históricas e sérias questões raciais que se alastram ao longo do tempo e cujas cinzas reacendem, agora, no Governo desastrado de Donald Trump, justiça, igualdade social, liberdade e democracia plena, como em outras nações, incluindo a nossa, persistem como ideal a ser arduamente perseguido.


Não obstante tais ressalvas, impossível não se render ao que os EUA têm de melhor. No caso, ao encanto especial de Chicago, principal cidade do Estado de Illinois, cuja capital é Springfield. A cidade constitui o terceiro maior centro urbano do país, aquém tão somente de Nova York e Los Angeles. Ademais, simboliza com perfeição a multirracialidade da população norte-americana. Ao tempo em que os brancos ocupam o primeiro lugar, os afro-americanos vêm em seguida, a tal ponto que a região sul da cidade abriga a segunda maior concentração urbana de negros do país, após tão somente o bairro Harlem, Nova York, cenário de muitos filmes e romances. Logo após, estão os hispânicos ou latinos, além de número considerável de europeus, a exemplo dos poloneses, cuja maior colônia fora de seu país está em Chicago. Há, também, muitos e muitos asiáticos, como chineses, indianos, filipinos, coreanos, paquistaneses, vietnamitas e outros que se radicalizaram no país.

CHICAGO OU CITY WINDY OU...


Dentre as grandes cidades norte-americanas, Chicago chama atenção pelo elevado número de apelidos. O mais famoso é windy city ou a cidade dos ventos. A explicação é óbvia: os ventos são contínuos, e, quase sempre, fortes. Mas há os que dizem que a expressão windy, dentre os residentes, assume o significado de falador / falastrão, em alusão aos políticos locais que conversam demais e agem de menos... Mas há outros codinomes: Chi-town, menção aos muitos chineses que vivem por aí; second city (duas possibilidades: o fato de manter a segunda maior área metropolitana do país por quase todo o século XX atrás apenas de Los Angeles; sua reconstrução após o “Grande incêndio de Chicago”); “a mais americana das grandes cidades”, por ser um caldeirão racial e cultural, como descrito; city by the lake, adotado desde 1890, face à extensão e à beleza estonteante, desde sempre, do lago Michigan. Eis um dos cinco grandes lagos da América do Norte e o maior de água doce dos EUA, além de constar como o quinto do mundo. À beira de suas águas, à extremidade sudoeste do lago Michigan, Chicago resplandece e desafia o rio homônimo, aliás, o único do mundo que flui para trás, ou seja, seu fluxo foi revertido para aproveitamento das águas do lago, hoje em dia, à disposição da população. Quer dizer, por mais estranho que pareça a nós, brasileiros, podemos beber água de torneira em Chicago, com segurança e tranquilidade.
Mas não para por aqui. Há muitos outros nicknames com justificativas variadas, excêntricas ou não. Alguns derivam do universo cultural, como: city of big shoulders (cidade de grandes ombros), citação do poeta Carl Sandburg no poema “Chicago”; my kind of town (meu tipo de cidade preferida), trechinho de canção homônima de Jimmy Van Heusen, popularizada por Frank Sinatra; the city beautiful (a bela cidade), em referência ao movimento desencadeado pela Exposição Colombiana Mundial, ano 1893. Chi-beria, título de peça teatral sobre a Sibéria, consta como alcunha bastante comum entre 2014 e 2015, quando da chamada North American Cold Wave, evento climático de extremo frio ocorrido em parte do Canadá e dos EUA, à época.


Há apelidos advindos de ações cívicas ou políticas, a exemplo de the city that works, lema propagado pelo então prefeito Richard J. Daley para descrever Chicago como centro metropolitano que não dorme. Great commercial tree (grande árvore comercial), uma das tantas expressões atribuídas à Chicago, reproduz parte do hino do Estado de Illinois, enquanto heart of America tem a ver com o fato de, além de se impor como um dos maiores centros de transporte do país, Chicago está localizada bem no coração dos EUA, uma vez que Illinois está na região centro-oeste da nação.


Em oposição, há apodos críticos e que denunciam a insegurança da grande cidade. É o caso de Chiraq ou Chi-Raq, título de filme de Spike Lee, ano 2015 = Chicago + Iraque, com o intuito de confrontar a elevada criminalidade de certas zonas de Chicago com as mortes registradas na Guerra do Iraque. Bem antes, em 1830, Chicago ganha o apodo de city in a garden, quando o Governo de então adota o lema latino, que persiste até hoje – urbs in horto – ou “a cidade num jardim”, confirmando-se como profecia, uma vez que, em pleno século XXI, Chicago é pródiga em imensos parques, com destaque para o Lincoln Park. Além de seus gramados sem fim e suas belas esculturas, como o gigantesco South Pond Pavilion, em formato de colmeia, o local comporta, em seus 5km² de área, o Chicago History Museum, o Peggy Notebaert Nature Museum, o Lincoln Park Conservatory e o Lincoln Park Zoo, um dos últimos zoológicos grátis do mundo, que enche os olhos dos visitantes de alegria e de espanto por sua conservação e pelo zelo como os animais são tratados.

 

GRANDE INCÊNDIO E RECUPERAÇÃO

Mesmo antes de desembarcar em Chicago, o viajante, de uma forma ou de outra, toma ciência do incêndio que destruiu a cidade. No verão de 1871, no auge de uma fase de ventos secos e extremamente violentos, e, portanto, propícios à propagação de incêndios, a cidade, que se desenvolvera consideravelmente durante a Guerra Civil Americana, entre 1861 e 1865, graças à expansão e à modernização do sistema ferroviário e da tecnologia, além do avanço do comércio de trigo, sofreu o chamado “Grande incêndio de Chicago”. Iniciou na zona sul e se alastrou em toda a cidade, com o registro de 300 mortos e cerca de 90 mil desabrigados, além de danos estimados em 200 milhões de dólares. O local onde tudo começou tem gerado muitas lendas. Dizem que foi num estábulo, o que justifica a presença, aqui e ali, de alguma escultura de vaca no centro e nos subúrbios.

A reconstrução de Chicago representa um marco para a cidade e seus cidadãos, que se orgulham da rapidez com que tudo aconteceu. Engenheiros e arquitetos de diferentes nacionalidades devolveram a vida à cidade, e pouco tempo depois, mais ou menos em 1890, ela já ocupa o segundo posto no ranking das cidades mais promissoras dos EUA, abrangendo, naquele momento, um milhão de pessoas. Hoje, seus 606,34km² abrigam 2 695 598 habitantes, o que corresponde a 4 572 23 habitantes / km². A maior concentração está na região metropolitana, com 9,5 milhões, total que equivale a 65% da população do Estado.

CHICAGO: HISTÓRIAS, LENDAS E FANTASIAS

Além da vaquinha incendiária, os chicagoenses alimentam belas histórias, lendas e fantasias. Cultivam, por exemplo, a memória de um dos mais famosos gângsteres mundiais e estadunidenses, Al Capone, ícone do crime organizado do início do século XX, com suas famosas cicatrizes no rosto, que justificam o apelido de Scarface. É o rosto desse homem cercado de magia e mistério que está em bugigangas de toda natureza nas famosas lojas de souvenires. Ainda em relação à denominação da cidade, há indagações e controvérsias em torno de sua etimologia. Dizem que há séculos passados, aproximadamente 3.000 anos a.C., bem antes da chegada dos primeiros europeus ao Novo Mundo, os habitantes da região, os chamados potawatomis, viviam perto do atual rio Chicago. Não tardaram a batizá-lo em sua língua nativa de Checagou (cebola ou alho silvestre), expandindo tal denominação para a vila que se formou ao redor.


Mesmo nos dias de hoje, fantasias rondam a realidade. Fatos simples, como uma quantidade exagerada de esculturas representando cães policiais nas calçadas do centro da cidade, contemplam respostas recheadas de enigmas. Sem saber como explicar, os nativos dão respostas embaralhadas e sem nexo. Descobrimos na internet, durante curso de aperfeiçoamento em língua inglesa: trata-se de iniciativa da polícia local por meio da Chicago Police Memorial Foundation. Esta recorre à imagem dos cães para lembrar os profissionais mortos em serviço e ajudar aos familiares com recursos recolhidos graças à iniciativa.

 

CHICAGO: UM UNIVERSO A DESCOBRIR


Para desbravar os pontos mais importantes (nem sempre de apelo turístico), é preciso algum tempo. A gente se perde entre os encantos de Chicago. Sua mais importante universidade, The Chicago University, até 2017, recebeu 85 prêmios Nobel e está no quarto lugar dentre as instituições de ensino do mundo com mais vencedores do Nobel. E o que dizer das mil e uma praças, 552 parques, jardins, museus, institutos de arte, teatros, sem contar as esculturas para lá de grandiosas e valiosas que, em cada esquina, tornam-se parte integrante da cidade? Em diferentes materiais e formatos, as esculturas – marca de Chicago – parecem enviar mensagens silenciosas aos transeuntes contemplativos. O jazz faz a festa em locais luxuosos ou mais acessíveis, mas há talentosos artistas de rua à espera de oportunidades. Aliás, eles mesclam-se com os homeless (pedintes), em número surpreendente, quem sabe, também à espera, mas, desta vez, do que restou do sonho americano. Os clubes de blues, ênfase para o Buddy Guy’s Legends, são para lá de encantadores. Transportam-nos a sonhos vividos e aos que estão encobertos em nosso universo de perspectivas e expectativas.


Ademais, há uma infinidade de opções de lazer totalmente grátis e de excelente qualidade, sobretudo nos meses de verão. O Millenium Park, por exemplo, situado no Grant Park, possui área de exatos 99 000m² e está aberto ao público por 24 horas. Oferece festivais de jazz e de blues, concertos, danças clássicas e populares, filmes de diferentes gêneros. Passear por seus recantos, incluindo jardins, ênfase para o Lurie Garden, e escadarias requer preparo de atleta ou, no mínimo, alma de poeta. Seu ponto mais divertido é o Cloud Gate, polêmica escultura do artista plástico indiano-britânico, Anish Kapoor. Construída entre 2004 e 2006, por seu formato, ganhou o apelido de The bean (O feijão). De beleza misteriosa, reflete os prédios próximos, a paisagem e as pessoas sob os mais improváveis ângulos, face às 170 placas de aço inoxidável, totalmente imperceptíveis por fora. A Crown fountain também faz parte do conjunto do Park. Eis uma fonte utilizada, nos dias de calor, para as pessoas se refrescarem com seus elevados jorros d’água, que se refletem no chão. Possui duas torres imensas de luz que expõem rostos de moradores ou outros norte-americanos, anônimos ou famosos, caso do primeiro presidente negro dos EUA, Barack Obama, legítimo chicagoense.


Para selecionar o que ver, é muito bom usar os excelentes transportes públicos, sob qualquer ótica, incluindo a acessibilidade, sejam eles ônibus, metrôs e trens, em vez dos ônibus turísticos. Esqueçam as aparentes vantagens dos tours Hop on hop; Double deck; ou o Trolley tour, a não ser que estejam a passeio em Chicago somente por dois ou três dias. Caso contrário, o ideal é caminhar pelas ruas. É adotar o sistema de bicicletas azuis, cujo aluguel é bastante razoável e a experiência, inesquecível! É descobrir a cidade com vagar por suas avenidas largas. É ir conversando com a gente da cidade, arrastando o inglês, gesticulando, usando mímicas ou seja lá o que for. Como disse um guia turístico no famoso passeio a barco (Chicago riverwalk), no caso, voltado à arquitetura da cidade, é vital sair do centro da cidade e conhecer os subúrbios, em especial, os que estão na zona norte e leste. Há de tudo e de excelente qualidade. Há segurança. Há poesia. Há vida. Porém, como qualquer grande metrópole, Chicago possui redutos de risco, sul e oeste, o que faz um ou outro crer que é ela mais violenta do que São Paulo capital. Pouco provável!


Por outro lado, esqueçam as compras. Para desespero dos consumidores contumazes, Illinois, ao lado do Estado de Nova York, é um dos mais caros – a taxa em qualquer transação chega a quase 10%, enquanto em Boston (capital de Massachusetts) e Orlando e Miami (cidades da Flórida), o tributo varia entre 6 e 7%. Em vez de ir aos caros e distantes outlets, há pontos imperdíveis. Difícil arrolar um a um. Prossiga pela região denominada The Loop. Este nome (laço / laçada) deriva do fato de que é onde as linhas do trem encontram-se e dão uma volta em trajeto praticamente retangular e se mantêm ao alto. The Loop é o centro histórico, administrativo e financeiro de Chicago, delimitado pelo rio Chicago e pelo lago Michigan, e onde aconteceram muitas das “travessuras” de Al Capone, como o filme “Os intocáveis” retrata.


Atenção: todos os museus e institutos de arte estão abertos à visitação um dia da semana gratuitamente ou a valores reduzidos. O Art Institute of Chicago é indescritível. Imenso, abriga salas e mais salas com mais de 300 mil peças que reconstroem cinco mil anos da história da humanidade através de obras de arte. Possui a maior coleção de pinturas impressionistas fora do Museu Louvre (Paris) e inclui um encantador recanto de miniaturas. Priorizando a atualidade, o Museum of Contemporary Art Chicago (MCA) expõe trabalhos de grandes nomes modernos, a exemplo do norte-americano Alexander Calder, escultor e pintor bastante eclético: notabilizou-se por seus móbiles, lindas figuras de arame e esculturas de grande porte. Por sua vez, o belga René [François Ghislain] Magritte consagrou-se como adepto do surrealismo. Há muitos outros. Na mesma linha, a Chicago Architecture Foundation disponibiliza os pontos arquitetônicos de Chicago. O Chicago Cultural Center, além de seu deslumbrante estilo arquitetônico originado na Escola de Belas Artes de Paris, combinando influências gregas e romanas com ideias renascentistas, tal como o Millenium Park, oferece centenas de eventos, e tudo aberto ao público, gratuitamente. É uma festa permanente!


Às margens do lago Michigan e do Grant Park, o complexo cultural Museum Campus integra o Field Museum of Natural History, o John Graves Shedd Aquarium e o Adler Planetarium. O Field Museum é imperdível. É o lar do maior fóssil completo de tiranossauro rex encontrado no mundo, com 65 milhões de anos, apesar de muito bem preservado. Mede 12,8 metros do focinho à cauda e quatro metros da cabeça até os quadris. É conhecido como Sue, homenagem à paleontóloga Sue Hendrickson que o descobriu, em 1990. O Shedd Aquarium, com mais de 32.000 espécies, dá destaque à riqueza amazônica, aos animais caribenhos, polares etc., além de abrigar um peixe de origem australiana com, no mínimo, 85 anos. O Adler Planetarium, dedicado à astronomia e à astrofísica, também encanta aos miúdos e graúdos.


Um dos locais mais animados da cidade é o Navy Pier, também à beira do lago. Trata-se de um antigo terminal de carga. Hoje, abriga teatro, cinema, restaurantes, lojinhas e até parque de diversões, onde não falta a preciosa roda-gigante. Aliás, dizem que o artefato que encanta multidões nas mais distintas nações, teve sua origem em Chicago, no longínquo ano de 1893. A beleza feiticeira do Navy Pier parece sussurrar ao ouvido do turista convidando-o a passear nas deliciosas águas de azul intenso do lago em barcos de diferentes portes. E é inimaginável vislumbrar: toda a longa faixa de areia que circunda a lagoa, no verão, torna-se uma implacável placa de gelo no inverno, embora todos digam que a beleza do cenário permanece intacta, apesar dos ventos uivantes e das temperaturas para lá de negativas! Aliás, a cidade vai de um extremo ao outro: no inverno, as temperaturas giram em torno de -20°C; no verão, o calor vai além de 30°C, o que vale dizer que as melhores estações para viver Chicago ou viver em Chicago são outono (setembro e outubro) e primavera, abril, maio e junho.


Indo além, para quem se interessa em entrever a cidade do alto, além do citado The Loop, há duas opções mais procuradas: a Willis Tower ou Skydeck Chicago e o John Hancock Observatory ou, como é conhecido, o 360 Chicago. Neste último, do 94º andar, onde se chega por meio de elevadores que levam, em média, 39 segundos, através de gigantescas janelas de vidro, é possível enxergar a cidade em sua totalidade e para os mais crédulos, visualizam-se, também, os Estados vizinhos de Indiana, Michigan e Wisconsin. E mais, a intensa publicidade promete aos visitantes uma experiência única, o Tilt. Trata-se de um “brinquedo” que desloca as pessoas sobre uma parede de vidro rumo a Chicago, numa vã (graças a Deus) tentativa de se jogar na paisagem protegido por um anteparo de vidro. Na realidade, o Tilt causa mais temor quando lemos sobre ele do que quando vivemos a experiência! Nenhum medo!


Por tudo isto, não é à toa que, apesar de suas taxas quase proibitivas, Chicago aparece como a terceira cidade mais visitada dos EUA, com, aproximadamente, 40 milhões de turistas, que se perdem e se acham em seu 15km de praias de lago. Nos primeiros lugares estão Nova York e Las Vegas, Estado de Nevada. Resta um sentimento de segurança! Policiamento ostensivo por toda parte! Troco de um centavo devolvido na horinha! Muitos espetáculos culturais ao acesso de todos! Boas bibliotecas e museus! Transporte público invejável! Cachorro-quente ou, quem sabe, uma fatia da deep-dish pizza, tudo ao estilo Chicago! Por fim, a alegria de termos assistido a um novo espetáculo do Cirque de Soleil, desta vez, “Luzia”, e pela primeira e, talvez, a última, deslumbramo-nos com o show estrondoso de Lady Gaga, “Joanne world tour”! Belo presente: Chicago com seus mil nomes e suas múltiplas surpresas!

 

 

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