BOSTON: “A CIDADE ANDANTE” E MUITO MAIS...

Maria das Grašas Targino *
                                                                                                                                                                           

Retornar aos Estados Unidos da América para conhecer mais um pedacinho de seu território e um pouquinho mais de sua gente é sempre revigorante. Nenhuma exaltação aos EUA. Visitar ou revisitar a América (como insiste uma amiga querida em nomear esse país) permite acreditar que o povo norte-americano ainda vive certo clima de segurança pública. Sem que represente nenhum eldorado, devido à onda crescente e assustadora do terrorismo, com facetas imprevisíveis, como a recente entrega de 14 cartas-bombas endereçadas a autoridades e personalidades do país; atentados sistemáticos, como o ocorrido ao final deste outubro numa sinagoga, com o saldo de 11 mortos; e a ação de serial killers, incluindo assassinatos em escolas, colleges e universidades, nos EUA, a justiça é cercada por credibilidade e há a certeza quase inabalável de que os aparatos policiais existem em prol da população.


BOSTON E PONTOS DE VISITAÇÃO


Desta vez, meu “alvo” é Boston, capital do Estado de Massachusetts. Com área total de 232,17 km², a 22ª cidade mais populosa dos EUA, localizada no Condado de Suffolk, do qual é sede, possui quase 650 mil habitantes, com a região metropolitana, Greater Boston, de 11 683 km², abrigando mais de sete milhões de cidadãos. Apesar da tentativa anunciada e insistente do “atípico” presidente norte-americano, Donald Trump, em erguer um muro entre os EUA e México para salvaguardar “suas” terras, indiferente ao desespero dos bandos de imigrantes que clamam por uma acolhida e uma pátria para chamar de “sua”, Boston é uma sociedade notadamente multicultural, sem que o nacionalismo exacerbado do povo norte-americano fique atrás. Além dos mexicanos, do grande bairro italiano de North End e da Chinatown, há gente de toda parte por quaisquer de seus recantos, como japoneses, coreanos e sul-americanos, incluindo brasileiros.


Sem intuito de explorar sua evolução, ainda que dados históricos apareçam aqui e ali, acresço que Boston foi fundada por imigrantes puritanos (ingleses), que desembarcaram na Baía de Massachusetts, ano 1630. Hoje, figura como a maior cidade da zona de Nova Inglaterra como extenso centro financeiro, comercial, industrial e universitário e, portanto, como principal centro cultural da América Anglo-Saxônica. Consiste num dos principais polos educacionais do país, com instituições de ensino superior, tais como os famosos Massachusetts Institute of Technology (MIT) e Harvard University, ambos situados na vizinha Cambridge, distante um pouco mais de cinco mil quilômetros do centro de Boston. São fatos que envaidecem os nativos do Estado e de Boston, em particular, trazendo para a cidade cognomes, dentre muitos outros, como The hub of the universe (O núcleo do universo) e The Athens of America (A Atenas da América), sugerindo, nos dois casos, a supremacia da cultura elevada de Boston, desde sua instalação, com vida literária e artística intensas.

É simplesmente encantador caminhar por suas centenas de parques, praças, jardins (Boston Public Garden, por exemplo), templos de diferentes credos, monumentos, prédios históricos, bibliotecas e museus durante o Boston outonal, em meio a árvores coloridas do vermelho-alaranjado-amarelado de ferrugem, o que justifica o apodo The walking city (A cidade andante), em meio à invejável segurança pública, em que pese a presença constante dos chamados homeless. Dentre os museus, destaque para o Museum of Fine Arts, Harvard Museum of Natural History e Isabella Stewart Gardner Museum. Este está no charmoso bairro Fenway-Kenmore e preserva preciosa coleção de arte, com exemplares de pinturas, esculturas, tapeçarias, peças decorativas, etc., de origem europeia, asiática e norte-americana. Em se tratando das igrejas, é impossível não notar sua atuação para abrigar imigrantes e fortalecer minorias, como moradores de rua, negros e gays, em suas portas abertas e banners de acolhimento e amor estendidas em suas fachadas.


Além da faixa de terra de 125,04 km², há a presença de águas maravilhosas (107,12 km²): tão prazeroso quanto sentar num dia de sol nos gramados da cidade é dar uma volta ao longo do Harbor Walk. Seguindo o percurso do Charles River e do Porto de Boston, a pista apresenta incríveis cenários. O trecho conhecido como Long Wharf, atrás do Faneuil Hall, oferece trajetos em barcos e, ao entardecer, chegar ao Porto de Boston é algo realmente incrível.


TURISTA OU VIAGEIRO

É recomendável visitar os 18 pontos turísticos centrais, totalmente a pé, num ritmo tranquilo, de mais ou menos um dia, o que não impede o retorno aos lugares mais atraentes ou o uso do excelente transporte público, com ônibus e metrôs seguros e limpos. Na realidade, o turismo a pé é “oficial.” Criado no ano de 1950, o percurso conhecido como Freedom Trail inicia-se no Boston Common, o parque público mais antigo do país, de onde saem excursões guiadas e grátis, que levam os visitantes aos marcos, a maioria deles de feição histórica e decisiva para a Revolução Americana.


Surpreende frequentar os lugares onde Benjamin Franklin (um dos líderes da Revolução Americana e cujas epígrafes rodam o mundo até hoje); Samuel Adams (um dos fundadores dos EUA e, também, Governador de Massachusetts); e Paul Revere, um dos patriotas da Guerra da Independência, se organizaram para conquistar a independência das 13 colônias e darem origem à potência americana. Tais fatos justificam novas alcunhas, como The cradle of liberty (O berço da liberdade) ou The cradle of Modern America (O Berço da América Moderna).  Ao longo de visitas e revisitas, o indivíduo é guiado por uma trilha vermelha no chão, que percorre grande parte da cidade. Às vezes, a linha demarcadada Trilha da Liberdade, mais ou menos quatro quilômetros, apresenta-se em tijolos; noutras, é tão somente uma pintura no asfalto. Cada ponto histórico é identificado por meio de uma insígnia no chão.


Tudo em Boston é interessante e instigante, face à versatilidade da capital, que mistura o histórico e o moderno. Neste caso, está a audaciosa construção do Big Dig, concluído em 2016, após 12 anos de construção: são várias interestaduais transferidas de vias expressas de superfície para túneis de até 10 pistas. Por outro lado, cada um dos 18 pontos requer informações prévias para que você deixe o status de mero turista (alheio ao pulsar da sociedade local) para se trasvestir em viageiro, termo que uso, com frequência, para nomear quem espera vivenciar as experiências da gente local.


FREEDOM TRAIL = RETRATO DA BOSTON

1

Boston Common

Ali, no passado, aconteciam enforcamentos, duelos e celebrações, incluindo datas cívicas e religiosas. Agora, abriga festivais e concertos, no verão; no inverno, mantém pista de patinação, atraindo visitantes de qualquer idade em seus patins e bikes, muitos dos quais acompanhados de seus pets, sobretudo, cães e gatos.

2

Massachusetts State House

O Palácio do Governo suscita curiosidade por ser o prédio mais antigo do conhecido bairro Beacon Hill (1788) e por seu domo dourado, originalmente, de madeira, depois de cobre e, por fim, revestido de folhas de ouro 23 quilates.

3

Park Street Church

De 1809, destaca-se por sua imponente torre de 66 metros de altura.

4

Granary Burying Ground

Como ocorre com um dos pontos de visitação mais concorridos de Paris, o cemitério de Père Lachaise, por permitir render homenagem à diva da música francesa, Edith Piaf, ou ao criador do espiritismo, Alan Kardek, o Granary favorece a visita aos túmulos de nomes eternos da região, como John Hancock (primeiro e terceiro Governador de Massachusetts); Samuel Adams; e Paul Revere.

5

King’s Chapel

A primeira igreja anglicana, ano 1688.

6

Old City Hall

Em sua calçada, está o mosaico City Carpet, que sinaliza o local da primeira escola pública dos EUA, 1635. A Boston Latin School teve alunos ilustres, como Benjamin Franklin, além dos mencionados John Hancock e Samuel Adams. Sobrevive até os dias de hoje em outro local, mas mantém sua reputação. Em frente ao Hall, está uma imponente estátua de Benjamin Franklin.

7

Old Corner Bookstore

Da editora e livraria Old Corner, antes centro literário, responsável pela edição de obras clássicas, como as de Nathaniel Hawthorne, o primeiro grande escritor dos EUA, hoje, nada resta, a não ser um restaurante em funcionamento e a insígnia no chão.

8

Old South Meeting House

Segunda igreja mais antiga de Boston, ano 1729, merece menção por abrigar revolucionários em reuniões e conchavos, à época.

9

Old State House Museum

Eis o prédio mais antigo da capital. Antes, centro da vida política e comercial. Hoje, museu, revive eventos ali ocorridos, como o Massacre de Boston, 1770, e a leitura da Declaração de Independência, ano 1776.

10

Boston Massacre

Em frente ao Old State House, há um anel de pedras. Trata-se de tributo às vítimas do citado Massacre de Boston, quando tropas britânicas fulminaram cinco civis norte-americanos e feriram seis, tomando tal proporção que impulsionou, com força total, a insatisfação da população local contra a Coroa britânica.

11

Faneuil Hall

De 1742, destinado a ser um grande mercado, torna-se, ano a ano, ponto de encontro dos revolucionários norte-americanos visando consolidar a oposição contra os britânicos. Apelidado, também, de Cradle of Liberty (como a cidade como um todo), reuniu cidadãos em luta contra a Lei do Açúcar e do Selo. Depois da Independência, abrigou antiescravagistas e defensores dos direitos das mulheres. Até os dias atuais, com seu pequeno museu e lojinhas, é cenário de manifestações e reivindicações.

12

Quincy Market

Mercado público de Boston, que abriga, em suas imediações, lojas artesanais, opções de lazer, como jogos de xadrez para o público, e, em especial, cardápios sofisticados, com ênfase para os pescados, a imperdível lagosta e o delicioso camarão.

13

Paul Revere House

Eis a construção privada mais antiga de Boston, ano 1680, ainda em madeira, pintada em tons de cinza escuro e localizada em North End.

14

Old North Church

A igreja mais antiga da capital Boston é bastante relevante para a Revolução Americana. De seu campanário, na noite de 18 de abril de 1775, foram penduradas duas lanternas como alerta para Paul Revere iniciar a cavalgada com o intuito de avisar aos patriotas sobre a chegada dos exércitos britânicos.

15

Copp’s Hill Burying Ground

Cemitério histórico, como mencionado.

16

USS Constitution ou Old Ironsides

Suas paredes de ferro são resistentes às balas dos canhões. Além de abrigar o navio de guerra mais antigo em serviço, mantém museu e loja com mil souvenires.

17

Bunker Hill Monument

Próximo ao USS Constitution, refere-se ao obelisco de granito, 67 metros de altura, que lembra a batalha mais sangrenta da Revolução Americana, a batalha de Bunker Hill.

18

Boston Public Library

Instalada em 1848, na Copley Square, centro, está próxima a outros prédios arquitetônicos importantes, como Trinity Church e John Hancock Tower (um dos arranha-céus mais altos do mundo com seu Skywalk Observatory). Preserva 23 milhões de itens num quarteirão enorme e num belo prédio em estilo neorrenascentista. A cada dia, de janeiro a dezembro, mediante planejamento invejável, mantém uma série de atividades que se destinam a públicos de todas as faixas etárias e de interesses diversificados. Mantém exposições culturais permanentes, além de saraus, concertos, cursos de extensão em distintas áreas.

          
Em minha opinião, tão somente enfrentar novas ondas climáticas e vagar por recantos antes nunca vistos ajuda a vencer a melancolia que nos engole dia a dia. No entanto, a quem insiste em me perguntar qual a nação que mais me fascina, respondo sem titubear: não visito simplesmente territórios ou fronteiras. Tento conhecer culturas diferentes. Tento estabelecer alguma forma de interação com os nativos, mediante excessiva curiosidade, observação cuidadosa, andar lento e perguntas plenas e longas. Por tudo isso, não consigo eleger o país preferido (meu Brasil segue à frente), mas tento explorar e guardar na memória a beleza natural do local e as excentricidades dos povos. Acredito ser vital para qualquer um conviver com outras culturas como estratégia única para compreender o outro e, sobretudo, para aprender a respeitar e a viver em meio às diversidades subjacentes às coletividades. Deliciam-me as singularidades das tribos, embora, paradoxalmente, o ser humano, onde quer que esteja, assemelhe-se em sua essência: alegria e tristeza; alento e desalento; altruísmo e egoísmo; bondade e maldade; amor e desamor.


A BELEZA DE SALEM


Resta-me, portanto, enaltecer o amor, a tolerância e a complacência que deveriam pairar entre as pessoas perdidas na vastidão dos continentes, ciente de que há chances de sobrevivência e de vivência para todos, sem que seja necessário adotar o Halloween como festa nacional brasileira. Refiro-me à charmosa Salem (ou Cidade das bruxas), a 25 quilômetros de Boston, que está no patamar dos lugares afamados dos EUA quando, no longínquo janeiro de 1692, 19 assassinatos de inocentes acusados de bruxaria, deram origem à “caça às bruxas” na cidade. Se quase nada resta desse período, apenas um museu da época – The Witch House, que não pertenceu a nenhum dos envolvidos nos fatos de então – e alguns outros, instalados para rota turística, nada impede aos governantes e à população reconstruírem cenários daquela fase, de tal forma que andar a pé em suas ruas permite reviver o ano todo a magia do Halloween, oficialmente, celebrado, em 31 de outubro. Trata-se de data que naquele país constitui verdadeira “febre.” São bruxas, porções mágicas, caveiras, dragões, múmias por toda parte, o que fazem de Halem um lugar mágico, misterioso e sedutor! 


    *Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto de Iberoamérica.