Ruinas do templo Zvartnots

 

Armênia: simples assim

 

Maria das Graças Targino

 

Armênia, oficialmente República da Armênia, é um desses recantos perdidos no continente asiático, cercado de nações de maioria islâmica, e com fortes vínculos sociopolíticos e culturais com a Europa. Sem costa marítima, situa-se em região montanhosa na Eurásia, entre o mar Negro e o mar Cáspio, no sul do Cáucaso, alcançando, no verão, 36°C, enquanto, no inverno, a temperatura oscila entre 5º e 10°C.


Ir até lá, invariavelmente, desperta a pergunta reincidente: “o que há por lá? O que há de interessante?” Questão revestida, quase sempre, de crítica sub-reptícia. Contudo, contrariamos frontalmente o escritor maranhense Luiz Costa Lima, quando diz: “sem sair [...] de casa passeia-se pelo mundo (televisão) ou carrega-se a casa nos passeios pelo mundo (as viagens).” Armênia, em sua singularidade, não nos permite carregar nas costas nem casa nem tampouco ideias preconcebidas. É uma nação ímpar. Em 26 de dezembro de 1991, com a fragmentação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (1956-1989), a menor república da extinta URSS, dentre as 15 totais, reconquista sua independência com área de 29 743 km² e população estimada em 3 009 800 habitantes, o que corresponde à densidade geográfica de 101,2 hab. / km², com a ressalva de que sua dimensão territorial em seus primórdios era 13 vezes maior do que a atual, antes que invasores tomassem suas terras, pouco a pouco.  Assim, em cada km², há uma história para lá de interessante. Suas lutas, sua economia, seus traços culturais, enfim, tudo é bastante significativo.


A capital do país abriga a maior parte de seus cidadãos, ou seja, mais de um milhão de pessoas. Estamos falando de Yerevan (ou Erevan ou Erevã), onde estivemos, situada às margens do rio Hrazdan. Data de, aproximadamente, 700 a. C., o que assegura sua posição de uma das mais antigas capitais ao redor do mundo. Seguem Guiumri, Armavir, Vanadzor, Artaxata e Hrazdam, capitais das províncias de maior importância econômica e populacional, uma vez que o país engloba 11 subdivisões. Dentre elas, 10 são chamadas marzer (fronteira; limite). Yerevan mantém status de hamaynq, por sua condição de capital, cujo Poder Executivo está a cargo de um prefeito, designado pelo Presidente. As outras marzer estão sob encargo de um governador. Ao todo, a República da Armênia possui 953 vilarejos, 48 cidades e 932 comunidades: 871 rurais e apenas 61, urbanas.

 

Lutas, genocídio e diáspora
           
Em Yerevan, estão os mais representativos símbolos, que contam a história do sofrido povo armênio. Isto porque, nos últimos séculos, a Armênia é invadida por mongóis, soviéticos e otomanos, com a ressalva de que se atribui à Turquia – herdeira do Império Otomano – uma mancha que parece incrustada no dia a dia das pessoas. Trata-se do Genocídio Armênio ou Holocausto Armênio ou Massacre Armênio ou Medz Yeghern (Grande Crime), ano 1915, plena Primeira Guerra Mundial (1914-1918).


Visitar o Museu-Instituto de Genocídio Armênio, designado poeticamente de Fortaleza das Pequenas Andorinhas, requer coragem do visitante. Embora os turcos aleguem que eles e armênios morreram em combate, a história não deixa dúvidas. Eis um extermínio comandado pelo governo otomano contra os armênios, à época, minoria na esfera de seu território histórico, localizado onde, hoje, está a Turquia. O dia 24 de abril de 2015 é a data oficial do início da matança, quando as autoridades inimigas prendem e executam intelectuais e líderes comunitários armênios em Constantinopla. Os registros fotográficos revelam crueldade horripilante e não deixam dúvidas sobre os impactos do genocídio dentre a população armênia, que não olvida o mais de um milhão de vítimas, de todas as idades, deixando um punhado de órfãos sem eira nem beira.


Os historiadores registram que o Grande Crime ocorre em duas fases. Primeiro, o assassinato de homens sadios e / ou o recrutamento para trabalho forçado. Depois, a morte ou deportação de idosos, mulheres, crianças e enfermos para o deserto sírio privados de água e de comida, além de sujeitos, sem dó nem piedade, a estupros e massacres coletivos. Etnias nativas ou cristãos, como assírios e gregos otomanos, também são vítimas do horror de então.


O sofrimento em massa do povo armênio justifica a diáspora dessa gente ao redor do mundo como decorrência direta do genocídio de 1915, deixando para trás a beleza do famoso Monte Ararat, maciço vulcânico extinto no leste da Turquia. Para os mais crédulos, a arca da figura bíblica Noé está por lá, embora, a bem da verdade e por extrema ironia, o Ararat pertença, de fato, à Turquia. Ararat (de difícil visualização em dias de pouco sol) está em toda parte do país – designação de vinhedos, lojas, fábricas de conhaque, hotéis, etc. – deixando de lado a montanha mais alta da Armênia, o Monte Aragats.


Face à diáspora, comunidades armênias parecem estar em toda parte, com ênfase para França, Irã, Estados Unidos da América, Rússia e Brasil (São Paulo), a tal ponto que “reza a lenda” de que há mais armênios fora do que dentro do país, com um adendo pleno de esperança: os que vivem no exterior e são bem sucedidos, sistematicamente, enviam ajuda aos seus irmãos! Nunca os esqueceram! Poucos sabem, mas a inesquecível Lady Dy; o reconhecido tenista norte-americano Andre Agassi; um dos campeões da Fórmula 1, Alain Prost; o guru mundial da tecnologia, Steve Jobs; e muitos outros têm raízes armênias. Alguns deles com atuação significativa em prol de seus ancestrais, como o cantor francês Charles Aznavour, embaixador da Armênia na Suíça e crítico feroz do genocídio, que dizimou toda a família de sua mãe. No Brasil, o destaque é a atriz global Aracy Balabanian.

 

Economia e oscilação

 

Além do montante enviado do exterior por sua gente, avaliado em 30% do capital circulante, a economia da Armênia sobrevive como nação eminentemente agrícola – é só rever o número de comunidades rurais. Entretanto, como os outros Estados ex-URSS, o país ainda mantém dependência ostensiva diante da Rússia, cujos investimentos decrescem a olho nu. Sua indústria mineira (cobre, prata, urânio, zinco, ouro e chumbo) sobrevive, embora significativa proporção da energia seja produzida graças ao combustível russo, inclusive gás natural e combustível nuclear. A eletricidade garante a energia residencial, que é hidroelétrica, por conta da abundância d’água do país – há, em torno de 10 mil fontes d’água ocupando 4,71% do território armênio. Depois, vêm o álcool, ênfase para o conhaque, produto exportado para Rússia e Irã por ser classificado como um dos melhores do mundo; a indústria têxtil e de tabaco; a exportação de frutas e frutos, como damasco (este, quase um símbolo nacional, a tal ponto que se chega a dizer que provém da Armênia), uva e tomate; tubérculos, como a batata; frangos e cordeiros vivos. 


Nada, porém, parece suficiente para estancar o fechamento de indústrias. Há mais razões que sinalizam a queda da moeda oficial (o dram) e a fragilidade da economia. Os efeitos do remoto Terremoto de Spitak ou Gyumri, 1988, ainda estão presentes, com o rastro de 25 mil pessoas mortas e mais de meio milhão de feridos. A Armênia mantém fronteiras ao norte com a Geórgia; a leste com o Azerbaijão; ao sul com o Irã; a oeste com a Turquia. No entanto, Azerbaijão e Turquia mantêm fronteiras fechadas à Armênia, deflagrando bloqueio econômico catastrófico, até porque as rodovias via Geórgia e Irã são precárias.


Diante desse panorama pouco animador, algumas notícias trazem alívio. O PIB [Produto Interno Bruto] vem crescendo, com o total de US$ 17,086 mil milhões e renda per capita de US$ 5,178. Há mais. Em 2007, a Transparência Internacional, organização não governamental, instituída em 1993, com sede em Berlim, e cuja meta central é o combate à corrupção, lista o país na 99a posição dentre 179 avaliados. No mesmo ano, no Índice de Liberdade Econômica da norte-americana Heritage Foundation, com sede em Washington, DC, que avalia o nível de liberdade econômica de 186 nações dispersas em diferentes continentes, a Armênia aparece no 32o posto, com índice próximo a nações do continente europeu, como Itália e Portugal. A Armênia também alcança o 80º melhor IDH [Índice de Desenvolvimento Humano] pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o mais elevado dentre as repúblicas transcaucasianas (Armênia, Azerbaijão e Geórgia), lembrando que a Armênia é designada carinhosamente de “Pérola do Cáucaso.”

 

Traços culturais armênios que encantam

 

Idioma
Confessamos “de cara limpa” nosso encantamento pelo idioma armênio, por sua riqueza de detalhes e, por que não, por sua excentricidade e desafios sem fim. Em definitivo: não parece com qualquer outra língua. Exemplificando: como o quadro que resume o alfabeto expõe, há muitas letras sem equivalência em português.
 

 
Atribui-se ao monge Mesrob Machdodz a invenção de seu alfabeto, com apenas 36 caracteres, entre ano 404 e / ou 406 D.C. A língua armênia pertence ao ramo indo-europeu, embora com muitas peculiaridades, o que assegura sua “independência”. Por exemplo, é rica em consoantes, com muitas sibilantes e a acentuação incide sempre na última sílaba. Há o armênio oriental, próprio da Armênia, e o ocidental, amplamente falado pelos nativos e descendentes espalhados pelo mundo. As diferenças recaem prioritariamente na pronúncia. Então, para assegurar a comunicação entre os armênios e os demais povos, além do idioma nativo, os alunos aprendem, na escola, o russo e o inglês ou francês.

 

Igreja Apostólica Armênia


A Igreja Armênia resulta do esforço de dois dos 12 apóstolos de Jesus Cristo: São Judas Tadeu e São Bartolomeu. Estes pregam o cristianismo por ali entre os anos 40 e 60 d.C. Como decorrência, a Armênia consta como o primeiro país a adotar, oficialmente, o cristianismo, em 301, o que justifica a adesão quase total da população (95%) à Igreja Apostólica Armênia, não Ortodoxa, não Católica. Sua adesão ao monofisismo, doutrina teológica segundo a qual Cristo mantém uma só natureza – divina e humana –, ou seja, não separa Deus do homem, a mantém afastada de demais segmentos cristãos, embora, paradoxalmente, sustente há 30 anos convivência pacífica com a Igreja Católica, sem deixar de lado seus ritos particulares. Por exemplo, alguns atos litúrgicos são celebrados conjuntamente, como batizado e crisma; há permissão para os padres casarem, mas quem o faz não ascende a postos hierárquicos superiores, como arcebispo ou bispo ou Patriarca Supremo (vitalício) que corresponde ao Papa da Igreja Católica.


De qualquer forma, é imperdível visita à Igreja de Etchmiadzin, onde está a sede dos Katholikos ou “Vaticano” armênio! Imperdível também visita à Catedral de São Gregório, que guarda relíquias preciosas do padroeiro do país! A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) inscreveu tanto a Igreja quanto a Catedral como Patrimônio Mundial da Humanidade. Além de São Gregório “O Iluminador”, considerado como o primeiro católico de todos os armênios, o outro padroeiro dos armênios é o apóstolo Bartolomeu. Retomando o Holocausto Armênio, acrescemos que os registros históricos dão conta de que a maior canonização realizada por uma igreja cristã acontece exatamente após 100 anos do massacre, em 2015, quando a Igreja Apostólica Armênia canoniza um milhão e meio de vítimas do genocídio.

 

Culinária


Devido à história e à localização geográfica do país – proximidade com Pérsia e Arábia – a culinária armênia é quase uma mescla da cozinha mediterrânea e caucasiana, com influência da Europa Oriental e do Oriente Médio. Além do pão sírio, não faltam quibe, coalhada, kafta (espécie de almôndegas, comum nos países originários da queda do Império Otomano), e, em especial, recheios, purês e coberturas que acompanham carnes, peixes e legumes. Encanta a tradição milenar da produção coletiva de grupos de mulheres do lavash, pão típico do interior da Armênia, assado em buraco no chão. Kefir também tem vez. É um produto obtido pela fermentação do leite por microrganismos benéficos. Assemelha-se na aparência ao nosso iogurte, mas mantém maior valor nutricional e terapêutico.

 

Esportes


Como em nações vizinhas, à semelhança do Azerbaijão, o xadrez faz parte do cotidiano do armênio, independentemente da faixa etária, sendo disciplina da grade escolar do ensino médio público e privado, o qual é obrigatório entre seis e 18 anos, o que resulta em baixo analfabetismo, em torno de 0,4%. O xadrez está por toda parte. Afora ele, destacam-se luta livre, halterofilismo, judô, futebol e boxe, além de desportos próprios de regiões montanhosas, como esqui e alpinismo.


Sem litoral, os esportes aquáticos são restritos aos lagos. No caso, sobretudo, ao lago Servan, o maior da Armênia e da região do Cáucaso, além de ser um dos mais altos do mundo, localizado na parte central da Armênia, província de Gegharkunik, que percorremos rumo à capital. Aliás, o percurso de ônibus entre a fronteira de Tbilisi, capital da Geórgia, e à chegada à capital armênia, resulta em experiência fantástica. Conhecer o Mosteiro de Haghpat, complexo monástico medieval pertencente à Igreja Apostólica Armênia e situado em cidade homônima, é se deparar com verdadeira obra-prima da arquitetura religiosa da Idade Média, tombada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, ano 1996. Ainda no percurso, é o momento de conhecer a “Suíça da Armênia”, apodo de Dilijan, coalhada de florestas dentro do Parque Nacional e situada na província de Tavush, que ostenta a mais tradicional arquitetura do país.

 

O que há por lá?

 

Retomando a questão – o que há por lá? – além do descrito até então, especificamente na capital Yerevan, há muito mais. O Parque da Vitória com a estátua “Mãe Armênia” é tocante.  O Instituto Mashtots de Manuscritos Antigos ou, simplesmente, Matenadaran, com acervo de 18 mil manuscritos antiguíssimos de origem armênia, grega, hebraica, persa, romana e síria, exerce a função vital de museu e de instituto de pesquisa. A chamada Cascates de Yerevan, 1980, é um espetáculo à parte. Uma escadaria gigante conduz ao interior do edifício com galerias de arte e terraços. Esculturas grandiosas, fontes e jardins maravilhosos, restaurantes, cafés com mesinhas nas calçadas se estendem ao redor do complexo arquitetônico e dão um toque mágico ao lugar!


Adiante, a Praça da República, onde estão os principais edifícios do governo e uma fonte atrativa. À noite, apresenta belo espetáculo de luzes e música em meio a águas irrequietas. Ainda tratando de sonoridade, os espetáculos intermitentes de música medieval armênia atraem turistas e nativos em busca de tranquilidade. É o que se passa no Mosteiro de Geghard, escavado na rocha e, segundo dizem, com fonte milagrosa. Por enquanto, a certeza é uma só: a acústica é inegavelmente perfeita! Não é preciso ser armênio, cristão ou adepto de qualquer religião para se comover!


Assim, embora não seja recomendável usar a expressão – para finalizar – até porque a Armênia é uma caixinha de surpresa, as ruínas do templo de Zvartnots (patrimônio da UNESCO), século VII, não podem ser esquecidas em seu roteiro! Eis uma catedral circular em ruínas, a mais ou menos km a oeste de Yerevan, limite de Echmiatsin, província de Armavir. Sua história guarda lacunas que você pode preencher!  Assim é Armênia! Permite voos de sonho e de imaginação!

 

 

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