Pequena contribuição ao combate à corrupção e à vagabundagem

Luiz Otávio Borges (filiado ao IEDC Instituto de Estudos Direito e Cidadania)

 

 

Estão reproduzidos, a seguir, opiniões de algumas pessoas que se destacam, entre outras qualidades, por altíssimos graus de seriedade, credibilidade e qualificação intelectual e profissional: "o atual panorama levanta a suspeita de que vivemos um momento de ultrapassagem. Os maus ultrapassaram os bons. Os corrompidos acumularam mais poder que seus contrários. A banda podre venceu" Roberto Pompeu de Toledo, em 05/04/00 (Revista Veja); "... o poder público caminha aceleradamente para a falência, e a população, para o mais absurdo e completo desamparo... nem dá para ser otimista e dizer que o Brasil vai ser uma grande Colômbia. Vai ser certamente pior..." Clóvis Rossi, em 14/03/01 (Folha de São Paulo); "a incúria e desídia da administração pública federal, ... entorpecida pela arrogância do poder, atingiram níveis insuportáveis" Ana Lúcia Amaral, em 23/05/01 (Observatório da Imprensa).

 

O quadro que motivou avaliações tão pessimistas certamente é também o que levou Karin, leitora dos artigos de Clóvis Rossi, a colocarse, conforme mensagem transcrita pelo jornalista na Folha de São Paulo de 27/05/01, entre as que "... se sentem completamente impotentes quando vêem que estão diante de tanta sujeira". Em linguagem popular: "tá tudo ruim e não dá pra consertar".

 

É isso que querem os bandidos que se apossaram de parte da máquina pública brasileira. Querem anular, em todos nós, a capacidade e o ânimo de lutar contra o progressivo desmantelamento moral. Querem consolidar nas pessoas a convicção de que não adianta protestar, reagir, denunciar ou tentar melhorar a situação. Querem inculcar na coletividade crenças segundo as quais serviço público é assim mesmo, o Brasil não tem mais jeito, o negócio é levar vantagem em tudo, etc. Em resumo, querem que nos rendamos, resignados, à esterilizante e paralisante cultura do nãoadiantismo.

 

Não podemos desistir. Embora Karin tenha expressado um sentimento de impotência vivenciado por milhões de brasileiros, temos de reagir contra o apodrecimento comportamental que infesta porções significativas do aparelho estatal.

É possível mudar para melhor o atual panorama. Pois temos armas para combater o panorama de roubalheira e vagabundagem hoje presente. Entre elas, a Imprensa, o Ministério Público e diversas entidades que defendem a cidadania. Clóvis Rossi, na Imprensa, e Ana Lúcia Amaral, no Ministério Público, são, aliás, provas de que podemos contar com as instituições em que atuam.

 

Este site é muito lido por jornalistas, bem como por procuradores, promotores e membros de entidades que defendem a cidadania. Configurase, portanto, como um espaço ideal para quem quiser expor rascunhos de idéias voltados ao aprimoramento da gestão da coisa pública.

 

Assim entendendo, passo a apresentar uma sugestão, esperando que possa ser usada como matériaprima por pessoas que tenham os meios de convertêla em um instrumento efetivo contra a cultura do descompromisso e em favor da cultura da seriedade.

Começo ressaltando o fato de que existem crimes que o senso comum classifica como "pequenos". Exemplo: poucas pessoas acham que usar o serviço público como uma "boca" é um crime "grande". Afinal, tantos e tantos acham que serviço público é assim mesmo...

 

Acontece, entretanto, que a serpente mais venenosa começa a crescer dentro de um pequeno ovo. Conviver numa boa com crimes "pequenos" significa deixar o pequeno ovo da tolerância, aparentemente inofensivo, iniciar sua transformação na serpente venenosa da acomodação frente aos crimes "grandes". Em outras palavras: quem combate os crimes "pequenos" combate, consequentemente, os crimes "grandes".

 

São frequentes os casos em que os responsáveis por crimes "grandes" são punidos porque cometeram, simultaneamente, crimes "pequenos". Provavelmente, o exemplo mais famoso é o de Al Capone, que acabou sendo alcançado pela Justiça por ter mentido ao fisco norteamericano (um crime, digamos, "pequeno").

Os crimes "pequenos", exatamente por serem vistos como "pequenos", comumente não recebem de seus autores os mesmos cuidados e atenções dados aos crimes "grandes". Assim, transformamse, amiúde, nos pontos fracos de bandidos bemsucedidos.

 

Objetivando atingir uma parte, mesmo que pequena, desses pontos fracos, julgo promissora a realização de cruzamentos entre as seguintes informações: . CPFs de alunos e professores que frequentaram, nos últimos cinco anos, cursos superiores ou cursos voltados a concursos; . CPFs de funcionários públicos.

 

Chamo a atenção do leitor para algumas observações: . os cruzamentos podem ser efetuados gradativamente. Exemplo: uma organização educacional de cada vez (apenas a título de ilustração: GV; USP, Mackenzie, UNIP, PUC, etc); . a gradação pode ser fundamentada, também, no tipo de curso (novamente, apenas a título de ilustração: Direito, Economia, Administração, etc); . a gradação pode, ainda, ter como critério a seleção, para cada cruzamento, de uma diferente instituição governamental; . creio que os cruzamentos recomendados mostrarão dezenas de fantasmas e apadrinhados que por anos seguidos declaram, nos controles de frequência, presenças simultâneas nas aulas e no trabalho (o que configura falsidade ideológica); . os cruzamentos mostrarão, adicionalmente, que dezenas de chefias nada fazem a respeito (estamos aqui diante da chamada condescendência criminosa); . tudo estará claramente documentado e não haverá forma de os envolvidos nas irregularidades escaparem do alcance do Poder Judiciário.

 

Agradeço a paciência do leitor e finalizo lembrando que fazer pouco é melhor do que reclamar, reclamar, e nada fazer.

 

(Este artigo foi originalmente publicado em http://www.idec.org.br)

 

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