DIÁRIO DA CORRUPÇÃO

Sermão do usufruto
por Lalau*


Pois se querem saber, invejo os larápios pés-de-chinelos, os gatunos de meia-tijela, os varejistas amigos do alheio, os descuidistas em geral, os alegres sujeitos que subtraem bagatelas – entre a carência e o espírito da safadeza -, além dos ladrões de galinha em geral. Estes levam a vida nestas miudezas, conforme a necessidade, e, se derem sorte, ainda fazem rentáveis estágios nas gaiolas públicas, ginásios do crime onde ainda podem diplomar-se em patente maior. Assim sendo, sobem de degrau, obedecendo a uma hierarquia que pode garantir uma boa e confortável velhice.
A Nação inteira e os seu filhos indagam sobre o motivo da minha depressão. Melhor, satirizam e chacoteiam do meu desgosto mais do que legítimo e verdadeiro. Ora, aqui não teço nenhum sermão do arrependimento ou da conversão tardia, como poderiam bestialmente esperar os cristãos devotos do Padre Vieira. Dói-me sobretudo a relação ganho/usufruto. Entrei tarde para a rapinagem pública. Aí, repito, está o erro da minha classe e dos togados em geral: enchem as burras muito tarde, de uma vez só. Imitando a moral do apiário popular, lambuzei-me, como um estrangeiro para a colméia do contribuinte. E como era doce. Comi com os olhos desmedidos. Isso jamais ocorreria a um descuidista que age na penumbra para colher o sal diário.
Minha depressão, pois, é mais do que legítima. Estou com as burras cheias, tenho a liberdade possível que me foi presenteada pelos meus pares, mas a saúde já não anda com as pernas dos meus desejos. Para que tantas lindas damas, champanhes de primeira e queijo suíço se já me falta saúde e deram para me prender justo no meu próprio lar! Como se não bastasse a algema que pus no dia em que referendei o santo sacramento do matrimônio... e ainda termino os meus dias em uma prisão domiciliar. Alias, desgraçado pleonasmo, uma vez que todo domicílio é uma prisão. Com estas maltraçadas não pretendi, em momento algum rogar por vossa piedade, foi apenas uma chance dada por este Carapuceiro, para tentar explicar os motivos da propagada e verdadeira depressão.
Mui respeitosamente, Lalau
 *Sermão deixado na  porta restante deste periódico