Um soneto de merda

 

Antônio Damasceno Bezerra nasceu em Natal, em 1902. Jornalista, trabalhou durante muitos anos, no jornal "A República", órgão oficial do estado. Por escândalo, feito com amigos, em estado de embriaguez, foi demitido do seu emprego e, a partir daí, levou uma vida de pobreza. Para sobreviver, recebeu em seus últimos anos de vida ajuda de amigos. É autor do livro de poemas "Dias de Sol", que permanece inédito. Faleceu em 1947, aos 45 anos.

(Nei Leandro de Castro)

 

sendino@sendino.com.br

TUDO É MERDA...

 

Damasceno Bezerra

 

O mundo é simplesmente merda pura

E a própria vida é merda engarrafada;

Em tudo vive a merda derramada,

Quer seja misturada ou sem mistura.

 

É merda o mal e o bem merda em tintura,

A glória é merda apenas e mais nada.

A honra é merda e merda bem cagada;

É merda o amor, é merda a formosura.

 

É merda e merda rala a inteligência!

De merda viva é feita a consciência,

É merda o coração, merda o saber.

 

Feita de merda é toda a humanidade,

E tanta merda a pobre terra invade,

Que um soneto de merda eu quis fazer...


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