Helio Silveira da Motta, ícone da publicidade brasileira.Por Francisco Socorro.

A publicidade brasileira está precisando de um líder antivírus. Por Francisco Socorro.

O Deus da Criação, de Adilson Xavier. Por Celso Japiassu.

O preço da dignidade. Por Humberto Mendes.

Eu nunca entendí nada de publicidade. Por Aline Santos.

Publicidade: da criatividade ao negócio financeiro. Por Celso Japiassu.

Mainstream na comunicação de marketing. Por Francisco Socorro.

A agência de publicidade e a crise ética. Por Celso Japiassu.

Atender ao cliente não é tirar o pedido. Por Flavio Martino.

Os truques do marketing para você comprar o que não pediu. Por Celso Japiassu.

A fala de Strozenberg no Prêmio Comunicação 2003.

Ignacio Ramonet mostra os perigos da concentração da Midia.

Ricardo Vieira põe o dedo na ferida dos publicitários: "O cliente criativo".

Pesquisa via internet na TV: uma opinião que não vale nada. Por Glaucio Binder.

O risco do negócio. Como o anunciante pode liquidar com o trabalho da agência. Por Celso Japiassu.

Comunicação e Liberdade, discurso de Armando Strozenberg.

Marqueteiros e Mercadólogos. Enio Carvalho.

Sexo e mercado. O corpo humano em liquidação. Celso Japiassu

Cinco textos sobre marketing, por J.Roberto Whitaker Penteado.

Como o marketing explora as crianças.

O Festival de Cannes é uma farsa?

Esplendor e Glória das Agências de Publicidade.

Um velho debate: propaganda é arte

As relações incestuosas entre
propaganda e  jornalismo.

Maurice Levy. CEO do Grupo Publicis,
diz numa palestra por que as previsões
dão errado. (Texto em inglês).

Quer saber como se faz marketing
político para ganhar uma eleição?

 

Eu nunca entendi nada de publicidade.

 

Aline Santos

 

Filha, o comercial do ovo tá passando de novo.

 

Era com essa rima pobre que a Mãe (personifico meus pais com as maiúsculas) me chamava para assistir ao comercial da ESPM, veiculado aproximadamente entre maio e agosto de 95 ou 96. O ano correto a memória apagou, assim como o áudio do anúncio.

 

Tratava-se de um ovo que era quebrado e estrelado numa frigideira. E no final, letras serifadérrimas: ESPM.

 

Eu era absolutamente fanática por esses 30 segundos do comercial. Não sei explicar muito bem o motivo, mas achava brilhante quebrar uma casca para falar alguma coisa sobre idéias e afins. Não que eu compreendesse marketing ou propaganda na época, mas queria fazer alguma coisa parecida com aquilo quando fosse mais velha.

 

Alguns anos depois, em 98, às 7h15 da manhã de uma 2ª feira rançosa, vieram com uma ficha fictícia no colégio, que deveria ser preenchida com a nossa opção no vestibular da UFRJ.

 

Como não sei contar até 10, eliminei as Exatas das minhas pretensões. Pulei para o grupo 5, Humanas. Letras seria maravilhoso, mas não necessariamente completo. A Língua Portuguesa leva 100 anos para admitir um novo verbo, e achei isso muito pouco emocionante. Continuei a lista até encontrar a opção 28 - Comunicação Social - Publicidade e Propaganda.

 

Lembrei imediatamente do ovo, quis quebrar a casca eu mesma, e entreguei a ficha cheia de orgulho. Ninguém da minha turma queria se meter nisso. A onda em 98 era fisioterapia, ênfase no esporte. Eu teria cogitado, não fosse meu horror a osso e sangue. Não sabia muito bem onde estava me metendo, mas sabia que seria pelo menos divertido.

 

No ano seguinte, entregava a minha prova para o inspetor do vestibular, com um sorriso de orelha a orelha. Com certeza eu passaria para a UFRJ, porque:

 

- Não tinha paciência para estudar tudo aquilo de novo. Logo, tomei a prática decisão de resolver meu rumo acadêmico de uma vez.

 

- Não tinha dinheiro para uma faculdade particular.

 

- Estava louca para descobrir, depois de anos, como quebrar cascas e estrelar ovos para criar alguma coisa. 

 

No primeiro dia de faculdade, em aula inaugural ministrada pelo brilhante professor de Filosofia (e também o que somos todos: filósofo) Paulo Vaz, eu e mais 200 calouros ouvimos a pergunta:

 

- Vocês vieram descobrir alguma coisa, certo? Aprender sobre comunicação, jornalismo, anúncio, essas coisas não é?

 

Fizemos que sim com a cabeça.

 

Infelizmente aqui não é o melhor lugar. O máximo que podemos fazer é ensinar vocês a pensar diferente. Não garanto mais nada.

 

Não sei explicar a minha frustração. Nos 5 anos seguintes estudei Proust, Hegel, Marx, Foucalt, Nietzche, Maquiavel, Drummond, Lipovetsky, Freud, Deleuze, Baudrillard, Kotler, (pinceladas que não feriram o título de escola de pensamento francês da Escola de Comunicação da UFRJ) Xuxa e Pokemon, mas nada tangível que justificasse o ovo.

 

E o mercado chamou. Sem saber o que fazer com e nele, cheguei mansa como estagiária,

depois  trainee e agora analista. Claro que prática e técnica são irmãs gêmeas, e tenho aprendido muito sobre core business, cross selling, given e outras denominações que não sei aplicar com naturalidade, mas descobri que tenho conhecimentos interessantes em determinados elementos-chave do mercado. Divido com vocês a minha nomenclatura toda própria:

 

Criança - Criança quer brincar o tempo todo. Então ela vai querer brincar com a comida, no parque e no shopping para o qual foi arrastada, porque sua mãe, linda aos 30, precisa de um vestido e sapatos novos para lembrar do fato de que é linda na festa de casamento do ex, que ela vai para demonstrar despeito. É só dar à criança um mundo de fantasia, e pronto. Ela vai saber o que fazer com isso.  Nunca a subestime.

 

Adolescente - Debaixo da camada de merda que eles fazem, existe uma vontade imensa de criar uma identidade. Respeite isso e dê a eles informação, conhecimento e formas de defesa contra o derretimento do cérebro por falta de bom uso.

 

Homem - Dado importante sobre os nascidos no Brasil: enquanto a venda da Playboy lá fora destina-se a garotos e adolescentes,o público brasileiro que compra a revista tem mais de 30 anos. Se essa informação não for suficiente para entendê-los, faça o seguinte: entre os dias 20 e 5 de qualquer final e troca de mês, sente-se num bar perto dos centros de trabalho, e observe como eles pisam mansos e barulhentos por ali, afrouxando a gravata e a alma na espuma de um bom chope. São poetas quixotes e andam em bandos. Jogam bola nos campos ou no computador com devoção e seriedade.

 

Mulher - Suas bolsas são gigantes porque elas portam 10 identidades diferentes, como os artistas. Não as entenda como falsas, e sim como geniais. Tem momentos de mãe, de tia, de madame, de operária, de puta, de dama, de atriz. Adoram luxo - não entenda nunca luxo como algo supérfluo, ainda mais quando o sujeito da frase for mulher. Entre em contato comigo urgentemente se você encontrar uma recepcionista ou servente que vá para casa com o uniforme do trabalho, ou qualquer mulher que veja o próprio reflexo numa superfície e não modifique sua postura para encontrar outro ângulo. Valorize tudo o que somos, se quiser nos vender alguma coisa.

 

Classificação A, A+, B, B+, C, etc - Antes de encarar o consumidor nesses conceitos, pense sempre em A, A+, A/B+, O+, O-. É disso que somos feitos. Todos. 

 

Aos poucos, entre elogios e porradas, aprendo mais sobre o ovo. Se forçar demais, quebro o que tem dentro. Se desistir do interior, não quebro nada. Se encontrar a fórmula certa para quebrá-lo, ela já está obsoleta.

 

E se eu quiser entender um dia sobre publicidade, preciso entender primeiro sobre uma de suas rimas pobres: felicidade.

 

 

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