Poeta na pátria paraibana

 

Clemente Rosas

 

Romancista ao Norte! Foi com tal anúncio que, em 1927, Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, em artigo publicado na imprensa do Rio, chamou a atenção para o então obscuro José Américo de Almeida, que acabava de publicar, modestamente, o seu romance “A Bagaceira”. Embora consciente da desproporção, atrevo-me a imitá-lo, para alertar o distinto público sobre o último livro de W. J. Solha, paraibano por adoção e livre escolha: “DeuS E OUTROS QUARENTA PrOblEMAS”.

 

A tarefa é ciclópica, pois trata-se de livro de poesia, e poesia, embora seja “o gênero literário por excelência”, como a classificou Walmir Ayala, é lida por muito poucos. E, por outro lado, eu não tenho a estatura de arauto do velho Tristão. Para compensar-me, tenho o fato de que Solha não é nenhum iniciante: teatrólogo, ator de cinema, artista plástico, romancista com várias obras premiadas, fixou-se agora no campo poético, com três poemas longos em livro: “Trigal com Corvos”, “Marco do Mundo” e “Esse é o Homem”. O quarto é o que aqui propagamos, com a força da convicção e o tempero da amizade.

 

Além disso, devo pagar tributo aos prefaciadores do livro – Expedito Ferraz Júnior e Hilton Valeriano – que fizeram uma análise percuciente da obra, ressaltando-lhe a versatilidade do estilo, a originalidade da forma, a riqueza dos recursos, os matizes da emoção. Pouco restou para este desertor da poesia, que faz crítica por puro amadorismo.

 

Fazer poesia é cada vez mais difícil, embora a moderna prática do abandono opcional da rima e do metro tenha aberto o campo para uma enxurrada de “poetas”. O problema é que poesia não é apenas sentimentalismo, nem tampouco o atual vezo por brinquedos verbais ou metáforas inusitadas. E é cada vez mais difícil desbravar-lhe novos caminhos, trazer-lhe contribuições novas. É por isso que já não me atrevo a cultivá-la, reverenciando os amigos que lhe permanecem fiéis. E é por isso também que meu conterrâneo Hildeberto Barbosa Filho, professor, crítico e poeta, tem afirmado que “odeia poesia” – aquela falsa poesia dos sentimentaloides ou dos propositores de enigmas.

 

Mas a poesia de Solha é inovadora sem ser artificiosa. Analítica, ao modo de João Cabral, filosófica, como a de Augusto dos Anjos ou Fernando Pessoa, atrai e prende pela singularidade. Segundo um dos seus prefaciadores, desenvolve-se como em espiral, arrebatando o leitor para campos impressentidos da cultura de elite ou de massa, evocando autores clássicos e contemporâneos, girando entre o dramático e o irônico. O recurso da rima é usado de forma descontraída, sem que venha a amarrar a dicção.

 

Arrisco ainda imagem mais ousada. Não a da espiral, mas a do buscapé, cuja trajetória é errática: não sabemos para onde vamos ser levados. E desconfio que não só as ideias acomodam-se em rimas: a perspectiva destas pode “puxar” o enunciado para uma ocasional digressão, retomando-se o caminho desejado mais adiante.

 

Cabe, porém, uma advertência aos apreciadores da boa poesia. A enorme erudição do autor, em matéria de literatura, artes plásticas e música, o faz recorrer a referências que muitas pessoas desconhecem, perdendo parte da fruição estética dos poemas. No meu caso pessoal, não pude acompanhá-lo bem nas remissões à música e à pintura. Mas na literatura fomos quase sempre juntos, autor e leitor, pelas sendas poéticas abertas em terrenos até então inexplorados. Pois o certo é que Solha encontrou e desenvolveu, em meio a tantos descaminhos de maneirismos e fórmulas herméticas por onde ultimamente tem andado a poesia, uma nova forma de poetizar.

 

Talvez venhamos a ter aqui mais um caso de escritor cujo mérito só virá a ser bem reconhecido após a morte, como ocorreu com Kafka, Proust, o próprio Augusto dos Anjos, o maranhense Sousândrade, Joyce, Lampedusa, até mesmo o Jorge de Lima da “Invenção de Orfeu”, eterno desafio para os exegetas. Mas isso não é, obviamente, o que desejo para o amigo Solha, que vem pagando o preço da nobre decisão de permanecer na Paraíba. E este texto é um pálido esforço para esconjurar o avantesma. Pois a grandeza de sua atitude ajusta-se ao preceito do poeta Juan Ramón jimenez, tantas vezes referido pelo Dr. Celso Furtado em seus livros, e que aqui reproduzo, apenas de forma invertida:

 

“Corazón, cabeza

En el aire del mundo”

(pero)

“Pied en la patria

Casual o elegida”.

 

No caso de Solha, não a distante terra paulista, que por casualidade o viu nascer, mas a sua eleita, e sempre cultuada, pátria paraibana.

 

 

 

(voltar ao topo)