DUZENTOS LIVROS INDISPENSÁVEIS

 

W. J. Solha

 

Will Durant – filósofo, historiador, escritor americano – fez, há muitos anos, uma lista dos cem livros que ninguém, culto, poderia deixar de ter lido. Mas o rol me pareceu, de imediato, muito sujeito ao lugar e à época em que nasceu e viveu seu autor, donde deduzi que uma relação minha teria de ser em grande parte diferente da dele. E aqui está ela, a pedido do poeta de Ilhéus, Fabrício Brandão, claro que sujeita às minhas limitações. Uma delas foi a de que não consegui levantar cem, mas duzentas obras sem as quais não poderíamos nos dar por satisfeitos.

 

Pra começo de conversa: que obras teríamos em comum com o mundo de Durant? 1) a Bíblia, como base da cultura religiosa de nossos povos; 2) a Ilíada e 3) a Odisseia, clássicos do grego Homero, fonte primeira de toda a visão do mundo ocidental. Aí teríamos de incluir em nossas leituras, pelo menos uma peça de cada autor da grande tríade do teatro helênico: o Prometeu Acorrentado, de Ésquilo (4); o Édipo Rei, de Sófocles (5); e Medeia, de Eurípedes (6), para não falar de todas outras grandes tragédias, além de comédias do ciclo. A História, de Heródoto (7), é obrigatória por estabelecer os fundamentos da ciência que estuda a passagem do Homem pelo tempo e pelo espaço. E seria terrível deixar a Grécia de lado, agora, sem conhecermos pelo menos um livro de cada um de seus dois maiores filósofos, como A República, de Platão(8), e a Política, de Aristóteles (9), com grande esforço meu pra omitir outras obras dessas duas sumidades, como O Banquete, do primeiro e a Poética, do segundo.

 

Do Império Romano não se sai sem passar pela Eneida (10) de Virgílio, pela Guerra das Gálias (11) de Júlio César, pelo Asno de Ouro (12) de Apuleio, por um dos muitos volumes das Vidas Paralelas, de Plutarco - a exemplo do César e Alexandre (13) -, além da comédia Anfitrião (14) de Plauto, As Catilinárias (15) de Cícero, As Odes (16) de Horácio, A Arte de Amar (17) de Ovídio, a História (18) de Tito Lívio, e A Vida dos Doze Césares (19) de Suetônio.

 

Com isso já temos muito de nossa base estabelecida.

 

Aí podemos saltar para As Confissões (20) de Santo Agostinho, a Suma Teológica (21) de Tomás de Aquino, o Leviatã (22) de Hobbes, o Discurso sobre o Método (23) de Descartes, a Ética (24) de Spínoza. Por outro lado, seria uma lacuna de grande porte desconhecermos o Príncipe (25) de Maquiavel e o Elogio da Loucura (26) de Erasmo de Roterdã. E, é claro, temos de dar uma parada em Shakespeare. Seria impossível limitarmo-nos a apenas uma das 36 peças, dele. Hamlet (27)? Muito bem. Mas não dá pra passar por cima de Rei Lear (28), de Macbeth (29), Júlio César (3o), Henrique V (31) e Romeu e Julieta (32)... pelo menos. Fora da Inglaterra, não se pode omitir, jamais, a Divina Comédia (33) do italiano Dante, o Fausto (34), do alemão Goethe, A Vida é Sonho (35) e o Don Quixote (36), dos espanhóis Calderón de La Barca e Cervantes, além de Os Lusíadas (37), do português Camões.

 

Há uma série de filósofos – Locke, Berkeley, Hume, Diderot, Rousseau, Fichte, Schelling, – importantíssimos, claro, mas cujas ideias uma boa História da Filosofia Ocidental, como a de Bertrand Russell (38), pode resumir, situar e interpretar melhor do que nós. Sem falar que essa História lhe entregará bastante simplificado o pensamento de outras figuras essenciais mas bastante complexas, como Kant, Hegel e Heidegger. É indispensável, também, uma boa História da Arte (39 ) como as de Sheldon Cheney, Élie Faure, W. H. Janson ou Gombrich. Para atualizá-la, é necessária a colossal Arte Moderna, de Giulio Carlo Argan (40), e a Arte Contemporânea (41) de Klaus Honnef. Para penetrar nos mecanismos da pintura, nada melhor do que Universos da Arte (42), de Fayga Ostrower. Não se pode esquecer, nesse levantamento, a importância da fotografia, conforme se pode ver no Icons of Photography (the 20th) century (43) da editora Prestel.

 

Há outros nomes que não podem ser passados às pressas. Descartes com seu Dicionário Filosófico (44), Schopenhauer com seu O Mundo como Vontade e Representação (45), Marx com O Capital (46), Nietzsche com seu Assim Falava Zaratustra (47), Bergson com seu Evolução Criadora (48).

 

Paralelamente, você tem que conhecer a Teoria da Evolução com A Origem das Espécies (49) de Darwin, tem de entender o liberalismo clássico na economia com o Riqueza das Nações, de Adam Smith (50), repassar a história da economia até os anos 70, com A Era da Incerteza (51) de John Kenneth Galbraith, e a História do século XX, com A Era dos Extremos (52) de Eric Hobsbawm.

 

Freud não pode ser descartado, claro. A Interpretação dos Sonhos (53) é uma obra fundamental. Também Psicopatologia da Vida Cotidiana (54), como todos os outros livros do Pai da Psicanálise. De seu discípulo - depois dissidente - Jung, temos Tipos Psicológicos (55) e O Eu e o Inconsciente (56). Importantíssimo, também, o livro organizado por ele, O Homem e seus Símbolos (57).

 

A Rússia do século XIX nos deixou uma literatura poderosa. Aí temos as obras de Tólstoi, principalmente Guerra e Paz (58) e Ana Kariênina (59); as de Dostoiévsky, com destaque para Irmãos Karamazov (60) e Crime e Castigo (61); o teatro (62) e os contos (63) de Tchécov; o Capote (64) de Gogol, e A Mãe (65) de Górki. A Rússia do século XX produziu Dr. Jivago (66) de Pasternak, O Arquipélago Gulag (67) e O Pavilhão dos Cancerosos (68) de Soljenitsin, o 150.000.000 (69) do poeta Maiakóvski. Pra entender a Revolução de 1817, são indispensáveis a densa História da Revolução Russa (70) de Trótsky, e Dez Dias que Abalaram o Mundo (71) de John Reed.

 

Marcante, no século XX, foi o poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht, com seus Poemas (72) e inúmeras peças, como Galileu Galilei (73), Mãe Coragem (74), Os Fuzis da Senhora Carrar (75), Terror e Miséria no Terceiro Reich (76) e muitas outras. Alemão notável, também, foi Hermann Hesse, pelos romances Demian (77), O Lobo da Estepe (78) e O Jogo das Contas de Vidro (79). Thomas Mann marcou também forte presença com Buddenbrock (80), A Montanha Mágica (81), Morte em Veneza (82) e Doutor Faustus (83).

 

A França tem uma infinidade de nomes significativos, como Corneille, Racine, Molière, Montaigne, Rabelais, Ronsard, Montesquieu, Verlaine e Mallarmé, mas podemos nos ater a romances como Os Miseráveis (84) de Victor Hugo, O Germinal ( 85), de Zola, Os Três Mosqueteiros (86) de Dumas, O Vermelho e o Negro (87) de Stendhal e Madame Bovary (88) de Flaubert. Balzac tem uma obra romanesca imensa, englobada sob o título geral de A Comédia Humana, mas podemos destacar dela os romances Ilusões Perdidas (89), A Mulher de Trinta Anos (90), Pai Goriot (91) e Eugênia Grandet (92). Ah, claro, não podemos eliminar os grandes poetas Baudelaire, com Flores do Mal (93), e Rimbaud, com Uma Temporada no Inferno (94). No século XX, marcaram presença Proust, com os sete volumes do Em Busca do Tempo Perdido (95), Camus , com os romances O Estrangeiro (96) e A Peste (97), mais a bela peça teatral Calígula (98); Sartre, com suas obras filosóficas - que, como as de Camus e Wittgenstein, prefiro ver resumidas e analisadas por Bryan Magee, por exemplo, em sua História da Filosofia (99) – Sartre tem como suas mais notáveis criações seu romance A Náusea (99), seu livro de contos O Muro (100), além das peças A Prostituta Respeitosa (101) e Mortos sem Sepultura (102).

 

A Itália vem de longe com o Decameron de Boccaccio(103), o Orlando Furioso (104) de Ariosto, o Jerusalém Libertada (105) de Tasso, e chega ao século XIX e XX com a peça Seis Personagens em busca de um Autor, de Pirandello(106), além dos romances O Conformista ( 107) de Moravia e O Leopardo (108) de Lampedusa.

 

Da velha Inglaterra destacam-se Ivanhoé (109) de Walter Scott; Orgulho e Preconceito (110) de Jane Austen; Jane Eyre (111) de Charlotte Brontë, e O Morro dos Ventos Uivantes (112) de Emily Brontë. Computem-se aí, ainda, A Ilha do Tesouro (113) e Dr. Jeckyll e Mr. Hyde (114), de Robert Louis Stevenson.

 

Como pude me esquecer do francês Júlio Verne e de sua prole inumerável de sucessos, entre os quais Vinte Mil Léguas Submarinas (115), Miguel Strogoff (116), A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (117), Da Terra à Lua (118) e Viagem ao Centro da Terra (119)? E do inglês George Bernard Shaw, com suas peças teatrais Santa Joana (120) e Pigmalião (121)? E do também inglês Oscar Wilde, com seu romance O Retrato de Dorian Gray (122) e peças como Salomé (123) e A Importância de se chamar Ernesto (124)? E da também inglesa Virginia Woolf, com seus belos romances Orlando (125) e Mrs Dalloway (126)? E de Anthony Burgess com seus romances Laranja Mecânica (127) e Sinfonia Napoleão (128)?

 

Dos Estados Unidos vêm, enormes, o Folhas de Relva (129) de Walt Whitman, o romance de James Fenimore Cooper – O Último dos Moicanos (130), os Poemas (131) de Edgar Allan Poe (incluindo o famosíssimo O Corvo), bem como seus Contos (132), entre os quais se incluem O Poço e o Pêndulo, Os crimes da rua Morgue, e A Queda da Casa de Usher. Há Mark Twain, com seus fabulosos Tom Sawyer (133) e Huckleberry Finn (134). Há Melville, com Moby Dick (135). Há Theodore Dreiser e seu romance Uma Tragédia Americana (136), e Steinbeck com As Vinhas da Ira(137). E Eliot com a poesia intensa de Terra Devastada (138).

 

Hemingway tem pelo menos quatro obras-primas indispensáveis: Adeus às Armas (139), Por Quem os Sinos Dobram (140), O Velho e o Mar (141) e O Sol Também se Levanta (142). Como se não bastasse, Faulkner criou Enquanto Agonizo (143), O Som e a Fúria (144), Luz em Agosto (145), etc, etc.

 

Não se pode omitir, também, Lorca, na Espanha, com suas peças densas – Bodas de Sangue (146), A Casa de Bernarda Alba (147) e Yerma (148), sem falar da Antologia Poética (149), envolvendo poemas como Romancero Gitano, Ode a Walt Whitman, Poema del Cante Jondo, etc, etc.

 

E o inglês Aldous Huxley, com seus romances Contraponto (149) e Admirável Mundo Novo (150)?

 

E o francês Teilhard de Chardin, com seu profético O Fenômeno Humano (151)?

 

E temos Einstein, com seu Como vejo o Mundo (152).

 

Temos o irlandês James Joyce com seu monumental Ulisses (153), seus maravilhosos Dublinenses (154) e Retrato do Artista enquanto Jovem (155). Já nem me atrevo a falar do Finnegans Wake... porque esse romance nunca esteve, está ou estará ao meu alcance.

 

E há o argentino José Hernández, com seu poema clássico Martin Fierro (152); e o chileno Pablo Neruda, com seu Canto Geral (153) e seus Vinte Poemas de Amor e uma Canção Desesperada (154); e o argentino Jorge Luís Borges, com seus livros de contos – Ficções (155), Aleph (156), O Jardim dos Caminhos que se Bifurcam (157) , além de sua fantástica Obra Poética (158).

 

E há Cortázar, com seus romances Jogo da Amarelinha (159), Os Prêmios (160) e Livro de Emanuel (161), mais os livros de contos Bestiário (162), Final de Jogo (163), Todos os Fogos o Fogo (164), A Volta ao Dia em Oitenta Mundos (165), Octaedro (166), Queremos tanto a Glenda (167).

 

Claro: temos o Gabriel García Marquez, lá da Colômbia, com Cem Anos de Solidão (168), considerado por Eric Hobsbawm, na supramencionada A Era dos Extremos, como o último romance de consenso universal.

 

Resta-nos o Brasil. Aqui temos, indispensáveis, o Casa Grande & Senzala (169) de Gilberto Freire; Raízes do Brasil (170), de Sérgio Buarque que Holanda; Macunaíma (171) e Pauliceia Desvairada (172), de Mário de Andrade; Oito Anos de Nassau no Brasil (173), de Gustavo Barleus; a História do Brasil (174) de Frei Vicente do Salvador; O Valeroso Lucideno e Triunfo da Liberdade na Restauração de Pernambuco (175), de Frei Manuel Calado; Os Sermões (176) do Padre Vieira; Geografia da Fome (177), de Josué de Castro; Os Sertôes (178) de Euclides da Cunha; o Grande Sertão:Veredas (179) do Guimarães Rosa; o Vidas Secas (180), do Graciliano Ramos; Fogo Morto (181) e Menino de Engenho (182) de José Lins do Rego.

 

E ainda há o Eu (183) do Augusto dos Anjos.

 

Morte e Vida Severina (184) de João Cabral de Melo Neto.

 

Que País é Este? (185), de Affonso Romano de Sant´Anna.

 

Poema Sujo ( 186), de Ferreira Gullar.

 

Há o Estrelas de Couro – A Estética do Cangaço, de Frederico Pernambucano de Mello (187).

 

Formação Econômica do Brasil (188), de Celso Furtado.

 

O Dilema da América Latina (189), de Darcy Ribeiro.

 

Ia me esquecendo de As Veias Abertas da América Latina (190), de Eduardo Galeano!

 

Claro, nenhum brasileiro pode deixar de ler alguns romances de Machado de Assis, como Memórias Póstumas de Brás Cubas (191) e Dom Casmurro (192). Nem os Poemas (193) de Castro Alves, em que se incluem o Navio Negreiro e Espumas Flutuantes. Nem os Poemas (193) de Manuel Bandeira. Nem os Poemas (194) de Carlos Drummond, em que se incluem José, Claro Enigma e Rosa do Povo.

 

Ariano Suassuna, claro, comparece com A Pedra do Reino (195) e O Auto da Compadecida (196).

 

O teatro brasileiro tem no Vestido de Noiva ( 197), do Nelson Rodrigues, sem dúvida, um divisor de águas para a modernidade.

 

E a educação tem na Pedagogia do Oprimido (198), do Paulo Freire, uma saída que a ditadura desestruturou.

 

Chatô, o Rei do Brasil (199), de Fernando Morais, retrata com fidelidade um personagem paraibano que revolucionou o país.

 

Ah: e as Poesias (200) de Fernando Pessoa, pra fechar a relação com chave de ouro!

 

Claro que ao rememorar todas essas obras de um jato só, sem me dar tempo de correções ou inclusões, devo ter cometido omissões imperdoáveis. Ah, faltaram os portugueses Eça de Queiroz, Camilo de Castelo Branco, Saramago, Florbela Espanca; faltaram os brasileiros José J. Veiga, Antonio Torres, Érico Veríssimo, Ubaldo Ribeiro, ... e Jorge Amado, caramba! O paraibano Paulo Pontes!!!

 

Chega!

 

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