Os mistérios da comunicação. Por Claudio José Lopes Rodrigues.

Odylo, uma poesia. Por Celso Japiassu.

Discurso de Vargas Llosa no Prêmio Nobel. de Literatura.

Novos poemas de Carlos Alberto Jales.

Poemas de Sylvia Beirute.

A tarde, no futuro. De Celso Japiassu.

5 poemas de Carlos Alberto Jales.

A silhueta. De Celso Japiassu.

Réquiem sem música. De Edna St. Vincent Millay.

Retorno. De Celso Japiassu.

Um traço desenhado pelo vento. De Celso Japiassu.

O morto. Por Carlos Alberto Jales.

Sonha, de Celso Japiassu.

A crônica nossa de cada dia. Por Maria das Graças Targino.

Vidas, de Celso Japiassu.

Copacabana: poemas reunidos. De Celso Japiassu.

A menina que roubava livos. Por Maria das Graças Targino.

Dezessete Poemas Noturnos. Celso Japiassu

20 contos curtos de Paulo Maldonado.

O Itinerário dos Emigrantes, de CelsoJapiassu.

4 Poemas de Carlos Alberto Jales.

O Último Número, de Celso Japiassu.

Um poema de Rodrigo Souza Leão: Clarice Chopin.

Infância. De Paulo Mendes Campos.

Talento não é direito divino. Por Aline Santos.

Quatro novos poemas de Carlos Alberto Jales.

A morte de um pensador. Por Carlos Alberto Jales.

Moacir Japiassu: entrevista sobre o novo livro.

Quem será o tal Nonô? Crônica do novo livro de Moacir Japiassu.

As Pelejas de Ojuara, entrevista com Nei Leandro de Castro.

Os Horrores do Mundo. Por Clemente Rosas Ribeiro.

Alguns poemas de Carlos Alberto Jales.

Moacir Japiassu fala sobre seu novo livro: Quando Alegre Partiste.

O Evangelho segundo Jesus Cristo. Por Maria das Graças Targino.

Beócio, mentecapto e troglodita. Por Cláudio José Lopes Rodrigues.

Memórias do nosso tempo: De poetas, estrelas e flores. Por Clemente Rosas.

Dois contos do carnaval. Ângela Belmiro.

Obrigado, Quintanilha. Conto de Paulo Maldonado.

Um poema de Antonio Cisneros.

Cristo diante de Pilatos. Por Eça de Queiroz.

Poemas traduzidos: poetas de todos os tempos e lugares.

O Silêncio do Delator, de José Nêumanne.

As Dunas Vermelhas, de Nei Leandro de Castro. Resenha de Moacy Cirne.

Três poetas, o amor e o tempo.

Equívocos literários: poemas falsos de Brecht, Borges e Garcia Marquez.

Seis novos poemas de Nei Leandro de Castro.

Especial para Uma Coisa e Outra:Borges e seus mistérios, ensaio de José Nêumanne Pinto.

Como uivar para a lua sem a menor possibilidade de estrelas. Antonio Torres.

Alguns poemas de Fabricio Carpinejar.

Cinco céus. Franklin Alves.

Franklin Alves. Novos poemas.

As supresas do novo romance de Moacir Japiassu, por Nei Duclós.

Ode ao Fígado, de Pablo Neruda.

Entrevista: Moacir Japiassu fala sobre seu novo livro.

A biblioteca da literatura mundial.

O Parque, de Carlos Tavares.

Corpo. Conto de Rui Alão.

Notas de um antropólogo cansado, por Rui Alão.

Voltas em volta dos contratos de amor, de Pedro Galvão.

Corpo invisível, poema de Carlos Tavares.

Quando a cidade faz esquina com a escrita. Antonio Torres.

Dois contos de Paulo Maldonado.

Prelúdio a Conessa. Conto inédito de Carlos Tavares

Outros poemas de Marilda Soares.

O Farol e a Ilha, conto inédito de Carlos Tavares.

Poemas inéditos de Marilda Soares.

Adagio Negro, um conto de Carlos Tavares.

Marcos de Castro e A Santa do Cabaré.

Almandrade: um poema visual e quatro poemas escritos.

Literatura polonesa: um classico de Boleslaw Prus, numa tradução de Ruy Bello.

Em tradução de Sebastião Uchoa Leite, um velho (novo) poema de François Villon.

O que fazer diante de tantos livros que teríamos de ler. Gabriel Zaid.

Poemas de Moacy Cirne, poeta e cangaceiro.

Dois contos do poeta R. Leontino Filho.

Leontino Filho: Cinco Poemas.

Erotismo e paixão: Cinco Sentidos, conto de Helena Barreto.

A Retratista, conto de Bill Falcão.

Poemas de Silvana Guimarães.

A orelha de A Santa do Cabaré, por Fábio Lucas.

Fotopoemas de Niterói. Luís Sérgio dos Santos.

O Olhar de Borges, Livro dos Amores. Poemas de Jaime Vaz Brasil.

Poemas de Eric Ponty.

Poemas de Ana Merij.

A Absolvição das Formigas. Eduardo Ramos, à moda de José Saramago .

Quanta confusão fazem em teu nome, poesia. Paulo Maldonado.

Na espera do amanhã, por Affonso Romano de Sant'Anna

O pior livro de todos os tempos, por Sergio Jedi

Três poetas de língua espanhola. Traduções e notas de Anibal Beça.

Anibal Beça, poeta amazônico: apresentação e a Suíte para os Habitantes da Noite.

Autobiografia da minha morte, por Jorge Vismara.

Os homens amam a guerra. Belíssimo poema de Affonso Romano
de Sant'Anna com traduções de
Fred Ellison e Nahuel Santana.

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Paulo Maldonado

 

20

Contos

Curtos

 

 

Paulo Maldonado nasceu em Belo Horizonte, em 1945.

Aos nove anos mudou-se com a família para Niterói, onde

fez o ginásio, o clássico e a faculdade de Direito. Aos 16 anos já trabalhava em escritório de advocacia, no Rio de Janeiro, onde viveu de 1969 até 1995, quando retornou a Icaraí. Foi líder estudantil nos movimentos de 1968, contra a ditadura militar.

É publicitário desde os 18 anos. Sua estréia literária se deu em 1986, com o livro de poemas Vai . Em 1988 publicou O Último Gole e, em 1997, outra coletânea de poemas com o título Vago e Vagas. Agora, em 2008, de volta ao Jardim Botânico, lança 20 Contos Curtos, seleção de contos escritos nos últimos anos.

 

“Acontecimentos independentes de minha vontade impediram-me de realizar, em qualquer ocasião, um esforço sério naquilo que sob mais felizes circunstâncias, teria sido a carreira de minha escolha. Para mim, a poesia não tem sido uma finalidade, mas uma paixão; e as paixões deveriam merecer reverência; nãodevem nem podem, ser excitadas à vontade, com vistas às mesquinhas compensações, ou aos louvores, ainda mais mesquinhos, da humanidade” (1845).

 

Edgar Allan Poe

 

 

“Às vezes creio que os bons leitores são cisnes ainda mais

tenebrosos e singulares que os bons autores”(1935).

 

Jorge Luis Borges

 

 

Índice

 

01 Amor na metade dos noventa

02 Contrários

03 Nós três

04 Ana Clara e Maria Ana

05 Sete minutos de agonia

06 Dia das mães

07 De escritor para escritor

08 Diálogo sobre perdedores e vencedores

09 Obrigado, Quintanilha

10 Mamãe

11 1969

12 Coveiros

13 A morta

14 Por favor

15 Vantagem competitiva

16 Madrugada no Leblon

17 Sábado de merda

18 Zapata não perdoa

19 Diva

20 O começo e o fim

 

 

Amor na metade dos noventa

 

Estamos na sala. É para lá das duas da madrugada e não insisto em sair. Dízio, comprido e seco, cabelo e barba escorridos, dentes escuros de cocaína, mas riso sempre aberto, atento para o bote em todas as fêmeas, seja do irmão, do pai, do filho ou do Espírito Santo. Laureta, tesouro decadente de nossa geração: minissaia mínima e farto tórax seminu – exemplo de dissipação. Depois de muito teatro alternativo, vivem de organizar festas para crianças. Sempre pasmo ao imaginá-los fazendo mágicas e gracinhas para a gurizada nos playgrounds.

 

Conhecimento de anos. Chegamos ao degrau de onde todos os assuntos escorregam. Sabemos o que somos, fazemos e dizemos. Pouco falamos, embora teimando o dolorido resgate do paraíso sonhado. Agarramos as raras chances de nos iludir de que o nirvana esteve perto. Tentativas de minorar o sofrimento do ramerrame de cada dia. Dependemos das lembranças do vivido.

 

Naquela noite, Dízio se esforçou o que pôde. Tentou todos os papos- cabeça de seu repertório. Veio até de poesia, sabedor de minha paixão. Citou uns californianos frouxos, herdeiros de Guinsberg e arranhou Dylan Thomas, mas, fracassada a intenção, desistiu.

 

Mais cedo, vieram para a mesa do bar e, esgotados brindes e rememorações possíveis, esbarramos no convite inevitável:

Fechamos lá em casa – ele determinou.

 

Acontece que a barra do Dízio é pesada. Demais para qualquer um de nós. Serviu dois brancos franceses gelados de autêntica procedência e surpreendente aparição. Armou leros bordados de sorrisos, bateu duas carreiras e se chapou em sono de ronco, no sofá.

 

Contrariando CDs, ouvíamos vinis na vitrola, com os chiados costumeiros: Jamelão e sucessivos Lupicínios. É aí que descerro os olhos e, em sombra, permeando a penumbra azul de um saxofone abajur, sinto e vejo: Laureta pousou a palma em minha coxa esquerda e seus dedos acariciam-me. Fixo melhor o olhar e enxergo sua outra mão entre as pernas abertas de minha Maria. Assim evoluímos, assim nos amamos na metade dos noventa.

 

 

 

Contrários

 

Porque empregadas domésticas levam sobras de fartura das patroas, depois de um sábado de faxina, a mãe chega com um monte de bugigangas. No meio do pacote, um violãozinho de brinquedo, dois palmos se tanto, sem cordas, quebrado.

 

O menino não vê mais nada. Obceca encantado. Toda curiosidade e capacidade lúdica de seu espírito à espera daquele instrumento. Improvisa. Pede cola à vizinha para tapar rachadura do tampo e lustra com bombril. Dia seguinte, no terreiro da escola de samba, só larga do pé do vigia ao conseguir cordas velhas de violão e lascas de goma-laca. Com palitos de sorvete e pirulito, improvisa rastilho, pestana e novas cravelhas. Lustra o compensado. Trabalha como refinado luthier, obrando um Stradivarius. Afina a gosto as cinco cordas, sobe para a laje da casa e, sem a mãe saber dele, só sai ao anoitecer. Imita a posição de mãos dos violeiros e toca.

 

Simbiose perfeita, entre o pequeno violão e o moleque da morada de tijolo aparente, em rua de barro. Ali, onde a adversidade, uma vez em um milhão, encontra caminho na arte de suportar vicissitude, dor, solidão. Menino observador de coisas olha pardais no farpado de cercas, andorinhas no fio de luz, diferencia formato de folhas e flores, nuanças de verde, noites de lua com claro-escuro e grilos, com sutis dessemelhanças de estrelas e ruídos. Percebe comportamento de bichos e pessoas: cor de olhos, tom de pele, pena e pelagem, tipo de boca, dentes, canto, voz. Passa tempo na quadra com sambistas, sente ritmos e a melodia, passos de dança. Tudo observa e escuta. É espontaneamente moldado para o oficio das artes. Está pronto para aprender a tocar sem parar e se tornar um artista em perfeição. Tem futuro garantido se continuar improvisando, superar contrários e deslembrar que o pai sumiu faz tempo, quase sempre falta comida, toda semana vê presunto desovado na vala, o irmão menor morreu de descaso do posto de saúde, teve bala perdida no filho da vizinha, não está mais na escola porque a mãe trabalha e precisa de tomar conta da irmã que mal começa a andar.

 

 

 

Nós três

 

Dirijo de volta, Sílvio emborcado ao meu lado. Passa da meia-noite. Deixamos Pedro no Flamengo e atravessamos Botafogo, em direção à Barra.

 

Nossos encontros servem de refresco para as aporrinhações do trabalho, mulher e filhos. São a confirmação de nossa amizade, valor maior que cultuamos nesse tempo de puro egoísmo e solidão. As regras foram se estabelecendo naturalmente: só a pedido falamos de assuntos pessoais e de família; evitamos o mau humor e a depressão e só faltamos em casos graves. Discutimos futebol, política, mulheres, assuntos da semana, contamos piadas, falamos mal de conhecidos, fazemos todas as gozações permitidas pela intimidade. Mas, principalmente, enchemos a cara.

 

Pedro, antes de saltar no Flamengo, reclamou muito, contando que está de saco cheio da mulher, fica acordada esperando ele chegar, cheia de ciúmes, diz que somos viados, tem muita chiação, choro e há semanas ele está dormindo na sala.

 

Vi esse filme montão de vezes. Filho único, sem filhos, enterrei meus pais, dois casamentos de curta duração e uma porção enorme de namoradas, casos e relações de toda espécie. Agora, estou numa fase péssima para mulheres. Quase um ano sem freqüentar. Puta não conta. Frances me estropiou. Comecei encantado pelo exotismo daquela filhinha de papai. Dança do ventre e o escambau.

 

De início foi legal, porque sensual. Até que veio conversa de religiosidade. É mole? Logo eu, que não acredito em duende, nem disco voador. Tinha mania de limpeza, a moça. Na cobertura de alto luxo mostrou bibelôs brilhando, sem poeira. Me esfregava com bucha e sais de sândalo e trepávamos numa esteira de Bali, cercados de incandescentes e perigosas velas. O papo de depois era sempre um arraso pra mim. Sofri a humilhação de ouvir que minha maior qualidade é não pingar mijo na tábua da privada. Por essas e outras, estou ficando sozinho.

 

Feliz é o Sílvio, roncando aqui no lado do carona. Sim, sem sombra de dúvida, ele casou com a mulher certa. Tatí, maravilha das maravilhas. Raridade generosa, nada cobra. Tudo dá. Mãe de meu afilhado. Tatí apóia todo o tempo, no certo ou no errado, chega junto. Por isso, Sílvio, um liso que nada tinha, conseguiu até sociedade em minha corretora. Repete que bastou fazer a coisa certa: escolheu a mulher que gosta mais dele do que ele mesmo consegue gostar. Só eu sei o quanto tentei que Tatí gostasse um tantinho de nada de mim. Não consegui. De nós dois, ela gostou tudo dele.

 

Sempre passo em frente ao condomínio onde moro e vou até Jacarepaguá para deixar Sílvio, que acorda e me arrasta pra saideira. Normalmente aceito, embora não me sinta bem na harmonia impecável daquela casa. O que me atrai é a oportunidade de sentir Tatí, sem o sofrimento do estrago que sua presença me faz. Imaginá-la deitada no quarto, acima de nossas cabeças. Ir ao banheiro e absorver os indeléveis odores dela.

 

Porém, a partir de hoje, será diferente: daqui a pouco acordo Sílvio, alego cansaço, fico na Barra, e mando ele para casa dirigindo minha Toyota. Todo bêbado se julga um ás no volante.

 

 

 

Ana Clara e Maria Ana

 

Augusto me disse:

 

– Maldonado, você me conhece, sabe que o mais importante para mim sempre foi família e amigos. O Beto está acima de tudo que tenho, meus filhos ainda são criancinhas, nós vivemos praticamente juntos o dia todo , horas no escritório , e, não só o meu melhor amigo , ele é irmão de sangue, filho da mesma mãe e do mesmo pai. Coisa rara , nós nunca discutimos, tomamos os primeiros porres e fumamos o primeiro baseado juntos. Quando o pai morreu, nós dois encaramos o negócio de padarias na maior harmonia , depois , casamos na mesma época, nossos filhos estão na mesma escola . Só temos um ano de diferença , nem sei por que não nascemos gêmeos.

 

Não nos víamos há quase um ano, mas meu relacionamento com Augusto vinha de convívio prolongado. Foi ali no Centro do Rio , Bar do Giuseppe, que nos encontramos de novo (perdemos a conta das cervejas daquele dia ). O contado foi desembaraçado por razões de fácil entendimento: sou bem mais velho (ele está beirando os quarenta) e, por ser escritor , as pessoas me julgam mais experiente no trato com sentimentos e diferenças , mais amoral e preparado para o enevoado das coisas . Soltam a língua sobre assuntos que não abrem nem para os mais íntimos. E, não tenho dúvida , a motivação maior de ele contar toda a estória foi para quebrar a solidão , encarar os demônios com alguém de fora do círculo dos acontecimentos em busca de equilíbrio.

 

Augusto continuou falando:

 

– Você sabe, eu e o Beto temos tudo que queremos, mais do que merecemos. Ou melhor , nós achávamos que tínhamos. E olha que nunca foi pouco : a rede de padarias, apartamentos no mesmo condomínio na Barra , casa em Búzios , carros do ano , filhos na melhor escola, galera de amigos do peito. Mas , o que não previmos foi o Beto se apaixonar por uma puta. Paixão alucinada. Cheguei a comer a moça antes dele comparecer duas, três vezes por semana e virar vício de todo dia . Doideira . É óbvio que a mulher do Beto nunca foi nenhum tesão, senão ele não precisava viver na boate com as putas. E não preciso dizer o avião que a Ana Clara é. Ele pirou, parou de ir pra casa , alugou um apê e foi morar com ela, lá no Leme . Até aí tudo bem . Cada um faz da vida o que quer . Entre nós dois, fomos levando, embora afastados da convivência em família . Depois de meu primeiro encontro com eles, vi que a Ana Clara não estava nem aí para já termos transado, uma craque, era como se ela estivesse me vendo pela primeira vez. Eu conheço o Beto mais que a mim mesmo : nunca meu irmãozinho esteve tão feliz . Aí , foi definitivo , resolvi que não havia por que ele se afastar lá de casa . Minha mulher tentou argumentar , porém , como tinha coisa bem maior em jogo, eu não quis nem saber de frescuras morais e preconceitos. O Beto voltou a freqüentar o condomínio e o nosso ponto de praia . Não demorou nada pra que minha mulher junto com a ex dele (elas odiavam a Ana Clara ) tornassem minha vida um inferno , mas a do Beto com a Ana Clara era a vida mais bem resolvida do mundo. Beto mandou ver, se divorciou e passou a ser outro cara. Bebe pouco , parou de cheirar , curte a vida com calma e, o maior barato, até é fiel à Ana Clara – ele me confessou. Eu, pelo contrário , com a chata da minha mulher, o tempo todo no meu pé , se comparando à Ana Clara. Torrava meu saco , com as pernas fechadas há meses, a me empurrar cada vez mais pras putas. Não deu outra , conheci Maria Ana , lá, na mesma boate. Ainda por cima com essa semelhança no nome.

 

Augusto finalizou:

 

– É fácil. Você pode imaginar todo o resto, Maldonado.

 

Ouvi calado e, como nada havia a dizer, levantei-me para a solidariedade de um grande e emocionado abraço.

Voltamos à conversa normal.

 

 

Sete minutos de agonia

 

Acontece o pior se você sofre de fotofobia , dirige de madrugada e cruza com um caminhão de faróis altos na estrada Petrópolis–Teresópolis. Seu carro , que já não é lá essas coisas , na ânsia de evitar o caminhão , descontrolado, balança de um lado para o outro , capota , sai da estrada e pára no fundo de insondável grotão. Nem dá para sentir medo , do jeito que a gente normalmente sente medo . O estrondo é infernal. Como a dor apenas começa , a sensação é de solidão na escuridão avassaladora das brenhas . O cara do caminhão foi embora , sumiu na curva sem perceber o estrago que lhe fez. Instintivamente, você procura saber de cada parte do corpo na tentativa de avaliar sua condição. Entende que está quase de cabeça para baixo , sem sentir as pernas presas pelas ferragens . Os braços livres levam as mãos a esquadrinhar o abdômen e descem ao rosto : a testa sangra e, não dá para acreditar , o que de tudo mais dói é o dedo mindinho da mão direita vergado para trás . Você pressente os ossos quebrados , nervos rompidos, órgãos perfurados, apesar de não detectar de onde vêm as dores. Precisa se controlar , mas chora ou pensa que chora . Depois , surge a lembrança insólita de estória-limite, ouvida há anos, em que o narrador atravessava a pé caminho estreito e inóspito a contornar morro ao lado de ribanceira , puxando atrás de si jumento pela rédea, quando avista a jararaca enrolada bem no meio da passagem. Não dá para dar a volta ou correr o risco de atirar na cobra e acontecer do estampido assustar o animal e ambos acabarem arrastados ao precipício . A única saída é a mais prosaica para a situação : ele põe-se a gritar por socorro, esperando ser ouvido e salvo da sinuca . Você também grita . Grita e descobre que está mudo e apenas balbucia para si mesmo , sem ouvir som algum . Ou está surdo . Ou ambos . Então , sobrevém a compreensão de suas incomensuráveis impossibilidades.

 

Você nunca foi de se entregar . Começa a luta , e aflora curiosa reserva de resistência a lhe indicar que a vida não será mais sentida através do inútil corpo , ela ficará centrada apenas na mente e se expressará pelos seus pensamentos , que se tornam a razão de viver . Não controlá-los será começar a morrer . Como você não sabe por quanto tempo manterá a consciência , deve despender cada segundo para pensar em quem mais ama e importa: a mulher e o filho . Concentra-se neles e despenca ao compreender que eles lamentarão este trágico acidente , irão ao desespero , arrancarão os cabelos , mas continuarão vivendo. E você está morrendo.

 

Sim , egoísmo. E daí? O fato é que a fatalidade da morte é de solidão pura. Elimina qualquer dedicação de tempo para os vivos, senão para multiplicar exponencialmente a solidão. Os mais próximos a serem afastados de seu pensamento serão seus pais, porque distantes , enterrados, e por nunca terem sido íntimos . Materialista empedernido, você sempre considerou a religião bobagem de serventia para os fracos e jamais a usará como muleta ( inviável trazer à baila qualquer deus pronta-entrega para aflitos). Daí, a melhor opção é aproveitar estes últimos momentos para reviver aqueles usufruídos em vida : as viagens ; os prazeres da mesa – comida e bebida, e da cama – o sexo desenfreado; e, por que não ? – as pequenas realizações materiais . Porém , você é violentamente bloqueado pelos seus próprios pensamentos , fica enjoado, enojado, perto de perder o alento . É afrontado pelo confronto da recordação do que teve com o que nunca mais terá. A cabeça explode, o peito incha, arrebenta a dúvida : existirá no momento final pensamento possível capaz de subsistir lado a lado com o sentimento de perda ? Você sempre foi muito lento, demorado em perceber a verdade e normalmente fica parado ou perdido na tentativa de soluções . No entanto, dessa vez ( por sorte ou desespero ?) vislumbra a saída que lhe resta e ela se transforma na simples idéia da lembrança de amigos já mortos ; eles , antes de você , agonizaram e perderam tudo . Finalmente , você se encontra e, por certo , agarrado à saudade profunda e recordação indelével desses amigos , ainda resgatará alguma sobrevivência . Volta-se para eles . Porém, recordar pessoas mortas é complicado porque você se torna tendencioso para o bem ou para o mal . Pode juntar a saudade com a raiva advinda de não estar mais com eles , ou melhor , a raiva de somente você se lembrar deles com a certeza de que eles nunca mais se lembrarão de você . Surgem sentimentos estranhos que se sobrepõem à razão ou vice-versa . Pode incorrer o erro da benevolência, trazida pela distância do tempo e esquecimento dos defeitos . Ou você pode ter mudado tanto a ponto de perder a memória das qualidades que valorizava e deixar emergir apenas o lado negro dos amigos. Pior ainda é quando você involuntariamente mente , ficciona e atribui ao morto fatos vividos por outras pessoas . Na verdade, estas são meras especulações , não há critérios e a memória tem filtros próprios. Virá à mente o que de fato marcou por ser o mais importante em outra época, não agora . Devaneios para se enganar. Aí, você volta para a realidade. Começa a abandonar as percepções, cansado de fugas. A verdade se impõe, finalmente, é única. De novo assoma o medo, tudo volta ao início e se embaralha. Não há como saber a importância de quem ou de quê . De antes, depois ou agora. A dor torna-se agudíssima, não metálica e o gosto da boca torna-se quase doce. Todo você, o que lhe resta do eu sabe do fim derradeiro, definitivo. Ele está chegando e, sem saída, instintivamente, afinal, talvez, até acabaria por desejá-lo, mas ainda permanece nesse horror de evitar o nada. Por pouco tempo. Esgotou-se a força do pensamento e não há nenhuma entrega indigna, apenas o que houve desde o início, a escolha possível: pensar, e, no sétimo minuto, parar de pensar. Você se morre.

 

 

Dia das mães

 

Domingo chuvoso no subúrbio. A moça chega cedo e faz questão de estacionar o carro bem no meio da vila, só pelo prazer de causar inveja mordida na velharia e admiração na gente mais jovem.

 

A mãe já sem largar da cozinha e o pai calado e quieto, a culpá-la do dia que saiu de casa. Foge do sufoco do silêncio e vai à rua. Dá um tempo. Até as irmãs começarem a chegar com o farrancho dos maridos e a garotada.

 

Diz que vai à feira comprar camarão, tira-gosto de antes do almoço: médio, frito com casca, alho e pimenta dedo-de-moça vermelha. Culinária aprendida com Manolo, quando o último cliente deixa a boate, lá em Copa.

 

Caminha entre as barracas e reconhece a mulher com a menininha. Aproxima-se. Vaga a lembrança, mas sabe que no passado foi sua rival. A mulher também se chega, cheia de elogios. Gasta. Parece mãe dela. Recordam a época de colégio, os conhecidos, os saídos da vizinhança. E pergunta por ele, se continua morando no bairro, porque inevitável falar do único namorado dela nunca esquecido, daquele que fez o que ela quis pela primeira vez.

 

Como se ligasse o rádio, a mulher não pára mais de falar:

– Se tenho visto ele? Mais do que devia. Cheio de filhos, encostado na mãe. Mudou com os meninos, assim que a primeira mulher se mandou. Os das outras piranhas sumiram no mundo, ninguém sabe. Ele não esquenta. Regula conosco, trinta e cinco. Desempregado, essa a profissão dele. Só gosta de bola, desde pequeno. Vive na rua e bebe muito. Em todo botequim chamam pelo nome, pode até ser candidato. Tudo que não presta. O sustento vem do jóquei e da sinuca. Besta, de camisa de linho. Vou te contar, mas pra que perder tempo? Vale a pena?

 

Dá a mão à menininha, em dificuldade com o carrinho de compras.

 

É dia das mães. A mulher disse que ia passar sozinha com a menininha e, depois de alguma recusa sem firmeza, aceita o convite dela para comer camarão, beber cerveja e almoçar em família. Porém , antes, tem de telefonar do orelhão, deixar recado com a vizinha. De jeito nenhum vai dizer, mas é para avisar, caso ele passe para ver a filha.

 

 

 

 

De escritor para escritor

 

 

Quem quer saber da estória de um velho escritor, acontecida em 1902? Não a estória dele, mas de um momento de sua vida. Uns vinte minutos de seus sentimentos e pensamentos. O tempo de o velho pegar o bonde no Largo do Machado e saltar no Cosme Velho. Vão taxar de ourivesaria. A realidade comendo solta à nossa volta, século e milênio iniciando e o luxo de uma estória dessas? Vale o trabalho? É um relato de escritor para escritor. Verossímil. Bem poderia ter acontecido o inventado. E pega de tabela o leitor comum e mostra que a fatura literária, além de palavras, tem como escrita a vaidade e a inveja. Relato o argumento como me foi narrado.

 

O velho escritor traja roupas apuradas de lorde inglês. Cumprimenta diversos passageiros ao entrar e transeuntes quando o bonde diminui a marcha. Sente-se conhecido de todos. Vive no topo da glória. Sessenta e três anos cultuados com incomensurável orgulho. Longe o tempo dos pés descalços nas ladeiras, vendendo balas. Primeiras letras pela bondade de patroa. Concurso público e a repetição infinita de ruído de impressoras e de horas na tipografia. Timidez para freqüentar a livraria da moda. Mais que lê, estuda, e escreve. Logo discute franceses, os de língua inglesa e os portugueses, analisados em livros de edições originais recém-publicadas. Quando disserta sobre o Tristam Shandy, na roda da Livraria Garnier, desconhecem seu autor, Lawrence Sterne. Supera dificuldades financeiras e de saúde. Assina artigos nos jornais. Cria as crônicas. E livros de contos e romances. Reúne os melhores de sua época e funda nossa academia de letras. Ele, mulatinho do Morro do Livramento, Joaquim Maria Machado de Assis, estava no ápice, o melhor escritor vivo do Brasil, da língua portuguesa, tem certeza. Até aquela manhã, quando pousa os olhos nas páginas de "Os Sertões", de Euclides da Cunha. O velho Machado remói naquele bonde o que levará consigo até a morte: aquele jovem escreve inigualavelmente melhor que ele. É maior.

 

Corriam os primeiros dias de outubro de 1996 e, entre chopes escuros da Casa Urich, ouço João Antônio falar desse seu conto, cujo enredo ele delineia e minha memória guarda. Época de muitas vicissitudes para ele, mais de quarenta anos vivendo somente para a criação literária, consciente do próprio valor, mas a insistir sobre a pequenez de seus escritos frente ao formidável corpo da literatura brasileira; sempre invejado e retaliado, isolado dos meios literários oficiais. João Antônio morre solitário alguns dias depois, ninguém sabe exatamente quantos, no apartamento alugado onde morava, Praça Serzedelo Correia, em Copacabana, apodrecendo por umas duas semanas (imprecisão de legistas). Seus pertences e escritos inéditos são levados para depósito improvisado numa granja, em Jacarepaguá. Não sabemos se o conto chegou a ser escrito e algum dia será resgatado.

 

 

 

 

Diálogo sobre perdedores e vencedores

 

 

– Só perdedores como amigos.

 

– Como é que é?

 

– Isso, perdedores se atraem.

 

– Seus amigos são meus também. Nenhum é perdedor.

 

– Depende do ângulo de se olhar.

 

– Ângulo? Que ângulo?

 

– Acho vencedores insuportáveis. Só falam de vitória.

 

- Perdedores nunca comentam derrota.

 

– Não estou entendendo.

 

– Vencedores se dão com perdedores para exibir sua condição. O contrário não ocorre. Perdedor foge de vencedor.

 

– Perdedor de quê? Vencedor em quê?

 

– De tudo. Na vida. Basta reparar o comportamento, logo vê: perdedor ou vencedor.

 

– Essa estória dá tese. Mas é maniqueísta, simplista. A vida é bem mais complexa.

 

– Falo de atitude diante do mundo. Chamo de vencedor quem acredita no papel que representa, senta na cabeceira, levanta voz, faz sucesso, tem resposta pra tudo, manda em mulher, ganha mais, é chefe, patrão, dá ordens. Digo do ser humano em geral, qualquer sociedade e atividade, bolsa de valores ou aldeia isolada da Amazônia.

 

– E perdedor?

 

– O oposto. Vive em dúvida e incerteza, vacila o tempo todo. Às vezes, um perdedor se finge vencedor. Em outras, tenta ser ou imitar vencedor e não convence. Entende? Viu aonde quero chegar?

 

– Não, mesmo. Pode afirmar que nosso pessoal, eu, você, somos perdedores?

 

– Sou perdedor com orgulho, consciente. A maioria nem sabe que é. A diferença é essa. Você vai entender: por mais que procure vitória, antes da tentativa, em seu íntimo, o perdedor sabe que a derrota é certa, convive com ela. Veja, não são duas categorias fixas, o cara pode ser idiota vencedor e consegue se tornar perdedor.

 

– Subjetivismo puro, você tem que provar com exemplo concreto, sem essa sua teoria de contrários. Começo com Picasso.

 

– Caso raro, no início, grande perdedor e virou vencedor.

 

– Cristo?

 

– Perdedor.

 

– O Che?

 

– Perdedor.

 

– Fidel?

 

– Vencedor.

 

– Pelé?

 

– Vencedor.

 

– Garrincha?

 

– Perdedor.

 

– Carlos Drummond de Andrade?

 

– Perdedor, fácil. Poeta verdadeiro nunca é vencedor.

 

– Jorge Amado?

 

– Vencedor.

 

– Graciliano Ramos?

 

– Perdedor.

 

– Pixinguinha?

 

– Perdedor.

 

– Tom Jobim?

 

– Vencedor.

 

– Nem vem. Você apenas estabeleceu valores, na sua preferência pessoal. A maioria das pessoas não pensa assim.

 

– A maioria segue como manada a fabricação da mídia. Pensa sem originalidade. Repara o jeito de cada um desses vencedores. Como são, como foram. Distantes da solidariedade, pernósticos, egoístas. Perdedores são especiais. Compara Garrincha com Pelé, Pixinguinha e Tom Jobim, Graciliano e Jorge Amado. Dá pra comparar? Perdedores são maiores, superam a precariedade humana.

 

– Tudo bem. Diz: eu, você, de nosso grupo, quem chama de perdedor e vencedor?

 

– Não tem jeito, você insiste. Quer ouvir. Só tem perdedores. Não disse que se atraem? Exceções eram você e a Mariinha, enquanto posavam como modelo de casal certinho. Agora, já não são mais vencedores, desde a separação. Não dá para negar que ambos melhoraram demais, particularmente a Mariinha. Agora o mérito de serem perdedores é quase todo de vocês, mas eu tenho orgulho de ter contribuído.

 

 

 

Obrigado, Quintanilha

 

Rovái veio de barca do Rio e o táxi o trouxe até o bar, em Icaraí, ao encontro do amigo e do outro homem. Cobrar favor, crédito da época de batalha na delegacia de Magé, quando se tornaram irmãos de sangue, atingidos pela mesma bala – ela atravessou seu braço e se alojou perto da coluna do amigo. Continua lá, sem incomodar, ele não quis correr o risco de tirar.

 

Quintanilha, o homem acompanhando o amigo, conseguiu um informante, em Piratininga, que sabe da quadrilha de roubo de caminhões de carga, envolvida em mais de dez latrocínios, seqüestro, contrabando, uma penca de parágrafos do código. Há meses quer chegar ao bando.

 

O amigo faz as apresentações e diz que Quintanilha é o dono do pedaço. Também fala da bala vazando o braço e ficando nele, avaliza amizades. Os dois se medem em silêncio. Ambos pressentem automáticas sob as axilas e sentem a aspereza e firmeza no aperto de mãos, o olhar que não se desvia. E basta. Nenhum deles é alto ou muito grande, mas sabem de sobra que não quer dizer nada. Vale braveza que vem de dentro e, quando existe, não se exibe. Os seis olhos raiados de sangue transbordam vício, frieza e mais maldade e violência humanas do que é possível imaginar. Pedem Teacher's, viram caubói, lavam com chope e saem.

 

Três coroas, no carro de Quintanilha, Opala Comodoro, anos 70, tinindo de novo. Ele vai contando as qualidades daquela tetéia e, mal deixam o estacionamento, um rapaz acena e cumprimenta alto.

 

– Obrigado, Quintanilha.

 

Pouco tempo depois a cena se repete e quando param no sinal acontece pela terceira vez, ficando claro que o carro é imediatamente identificado e o hábito é se dirigirem a Quintanilha desse modo. Divertindo-se e cartando marra, ele explica que Obrigado virou nome e Quintanilha sobrenome, porque folclore em Niterói, desde os anos sessenta, quando ainda não era polícia e a maconha ficava restrita à bandidagem. Foi ele quem trouxe a erva do morro para o asfalto e areia da praia. Agora, é refresco para a garotada. Gostam de agradecer e ele não se importa, pelo contrário, sente-se honrado.

 

Fazem rápida parada. Como estão do lado de cá, cumprem regra de boa hospitalidade e oferecem uma carreira da deles. Boa. Mas a do Rio é mais pura, muito melhor. Concordam, depois de provar. O motor do Opala volta a roncar. Rovái tinha certeza que o informante ia abrir o bico. Estava sereno, quase feliz. A noite prometia.

 

E, não deu outra, o cara entregou o bando em detalhes: estavam morando ali em Piratininga há mais de seis meses, a coisa de dez quarteirões. Eram cinco cabeças, três homens e duas mulheres, sem crianças ou empregados. O informante alcagüetava porque o de nome Antônio queria a filha dele e toda a família estava ameaçada.

 

Foram até lá. A casa ficava numa rua curta, de terra batida, entre terrenos baldios. Para não correr riscos, resolveram ficar de campana enquanto se certificavam do apurado. Esperaram no botequim da esquina até ele fechar e depois foram para o Opala. Viam pouca movimentação da distância em que estavam e Quintanilha entrou no terreno ao lado da casa e só retornou tempos depois para confirmar que de fato os pilantras eram três, acompanhados de duas vadias. Aguardariam no Opala de Quintanilha e ele daria jeito de voltar sem demora com armas mais pesadas e a ordem judicial pra dar o bote no covil.

 

Sete da manhã . Hora boa, agora estavam prontos para agir , mas o portão da casa se abriu e um dos caras saiu com cara de sono , distraído , de sandálias e bermuda , até assoviava. Atravessou em direção à padaria da rua principal . Esperaram seu retorno para rendê-lo e tê-lo como escudo , empurrado à frente casa adentro . Um estava na sala vendo tevê e o outro dormindo sozinho num dos quartos . As armas estavam à mostra , mas nem tiveram tempo de tocar nelas. A morena entrou na sala e sua ameaça de grito foi freada por uma tapona . A outra , trancada no banheiro , com o rádio ligado, não sacou nada .

 

Rovái estava ali, quieto no corredor, interpretando os ruídos que ela fazia do lado de dentro do banheiro. Mal destrancou a porta, ele entrou no banheiro e ficou sozinho com ela. A sorte toda do seu lado, a garantir o que verdadeiramente tinha vindo fazer em Niterói. Avisou em tom baixo e rapidamente:

 

– Tão todos dominados. Finge que não me conhece.

 

A moça ameaçou falar, mas obedeceu a ordem:

 

– Cala a boca, não seja burra. Presta atenção. Vou te levar comigo, mas fica muda, não dá bandeira.

 

Ela estava de calcinha e sutiã cor de rosa. Novinha. Pinta brava, mas bonita e gostosa pra dedéu. Totalmente entregue, ela se sentou no vaso e balançou a cabeça em concordância, esperando.

 

Na sala, a confirmação de que aquele realmente era seu dia de sorte: com os três vagabundos algemados no chão, Quintanilha revirava os móveis em busca de grana e armas e seu amigo agarrava a outra putinha. Não iam discordar dele e não estavam nem aí para o que ele queria. Rovái avisou que ia se mandar com a mulher do banheiro, chutou um dos marginais e perguntou quem era o macho da mina do banheiro. Um deles respondeu:

 

– Essa piranha não vale nada, pode levar de graça.

 

E ele confirmou:

 

– Seu nome é Antonio, não é? O picão, comedor de menininhas.

 

Aí, bicou o cara até se cansar e ele parar de emitir qualquer som. Voltou ao banheiro e levou a lourinha pra se vestir no quarto.

 

Saíram rapidamente da casa , andando até a padaria, pra arranjar um táxi . Lá, pediu média e pão na chapa para eles dois . Entre uma mastigada e outra avisou que dessa vez seria a última , ela nunca mais ia se mandar . Ela ficou calada e ele também . Não havia mais o que dizer . Rovái levou o pensamento para longe , primeiro para trás , lembrando bons momentos deles dois, depois preparando todo seu sentimento para o que estava por vir . Só então se deu conta de que antes de sair da casa deixou de agradecer ao amigo de seu amigo , a quem ficaria devendo. Bem poderia ter dito :

 

– Obrigado , Quintanilha. Ele entenderia perfeitamente a homenagem .

Mamãe

 

 

Mulheres nascem com a missão de nos pôr no mundo, às vezes nos amam e quase sempre exercem o poder de ferrar com a vida da gente. A que me casei revelou-se campeoníssima nesse último quesito. Logo eu, que nunca saí por aí corneando ninguém e, se transei com outras por tesão, jamais permiti confronto e mágoa a meu amor.

 

Perdi a bicicleta quando descia morro abaixo, cheio de confiança e fidelidade, todo dedicação e paixão pra dar. Estabaquei no chão da enganação e desvairada chifragem. Ninguém precisa dizer que não fui o primeiro, nem vou ser o último, que cornos todos nós somos ou um dia ainda seremos. Aconteceu com a escolhida para mãe de meus filhos, a tida por mim e todo mundo como normal.

 

Outros sabiam ou ela enganava geral? Nem tive tempo de apurar se algum amigo comia. Sim, com certeza. Devem continuar comendo. Ninfo, ela rolava com homens e até com mulheres. Adorava foder. O pior é que ela mesma, a cadela vagabunda, é que me disse a coisa, bem na lata, no pega de briga boboca, de repente transformada em porrada, quase de foice, navalhada. Pirei. A vizinhança chamou polícia e saí escoltado para nunca mais voltar. Fui parar num hotelzinho fuleiro, sem dormir, e, no dia seguinte, liguei para meus pais explicando a situação.

 

Mamãe nem quis conversa, ajeitou de mandar buscar minhas roupas e outros trecos mais urgentes lá em casa pra me acolher. Mais de meia-noite, depois do trabalho, dois bares e muita cana, fui pra casa de mamãe.

 

Espetáculo: meu antigo quarto com cama arrumada de lençol novinho. Jantar completo: arroz, feijão preto, ovo frito na manteiga, farofa, ensopadinho de batata com lingüiça. De manhã, quando acordei e entrei no banheiro, o cheiro de café já perfumava todo o ambiente. À mesa tinha jornal dobrado, iogurte, suco de laranja, omelete, torrada e até geléia de jabuticaba. A roupa passada e arrumada, pronta para vestir. Só conforto. Até aí, tudo bem, consolo perfeito para a mais terrível dor de corno do planeta. O que lamentei, não pude agüentar, e me trouxe de volta a esse hotelzinho fuleiro foi a pergunta de mamãe, quando eu já alcançava a porta do elevador, a mesma pergunta que eu não ouvia há mais de vinte anos:

 

– Meu filho, você escovou os dentes?

 

 

1969

 

 

Em l969, Roberto Azêdo trocou de nome, largou a vida pequeno-burguesa de estudante de engenharia e saiu de casa para cair na clandestinidade. Transformou-se no revolucionário Carlos para seus companheiros de militância política e logo seria apontado como terrorista pelo DOPS.

 

Mãe e irmãs tornaram-se acaso biológico, estorvo ao desempenho consciente de seu papel de indivíduo na história. Deixou a namorada de infância porque ela não cabia na categoria de companheira de ideologia, formada no marxismo e adepta do amor livre.

 

Difícil o processo de autotransformação do jovem bem-criado e com futuro promissor para o revolucionário renegado pelo sistema. Complexa a superação do que considerava como limitações de sua origem pequeno-burguesa: a formação em colégios de elite e curso na faculdade de engenharia; moradia em bairro nobre em apartamento da família e o título de professor do IBEU. Roberto, agora Carlos, ironizava muito o fato de ensinar a língua e transmitir a cultura do opressor imperialista. Dizia que, no futuro, seu domínio perfeito do idioma do inimigo serviria à revolução.

 

Veio da dissensão de 67, do racha com o Partido Comunista, onde surgiu o braço para a luta armada. Estiveram em reunião fechada e discussão permanente por um mês, e amarraram os fundamentos teóricos que conduziriam à militância. Esgotada qualquer possibilidade de participação legal na política, devido ao endurecimento da ditadura militar, a luta de guerrilha tornou-se a única opção para a tomada do poder. A exemplo de Cuba – apesar de rejeitarem transplantações mecânicas de experiências de outros países – a insurreição começaria no campo e com a adesão do proletariado se alastraria para as cidades. Existiam as condições objetivas para a luta armada, em cada esquina urbana ou encruzilhada campesina: imperialismo, latifúndio, exploração e miséria escorchantes. As condições subjetivas seriam criadas pelo foco insurrecional para aguçar as contradições do sistema e levar as massas à sublevação.

 

Carlos e seus companheiros de luta armada substituíram os clássicos do marxismo, considerados ultrapassados – o próprio Marx, Engels, Plekanov, Kautsky, Lênin e Trotsky – pelos teóricos da revolução armada – Mao, Ho Chi Minh, Giap. Estudavam a guerrilha do Che, cuja trágica morte na selva boliviana exigia discussões infindáveis, embasadas em relatos escritos pelos irmãos Peredo, companheiros de Guevara desde o primeiro momento. Sobreviventes, os Peredo desmentiam as declarações do traidor Régis Debray, agente infiltrado pela CIA na guerrilha boliviana. Revisavam a história brasileira, desde a colonização, re-estudada à luz do materialismo dialético e da luta de classes: Cabanada, Balaiada, Inconfidência, Quilombos e todos os movimentos de revolta, desmistificavam definitivamente a propalada índole pacífica dos brasileiros.

 

Essa a crença mais profunda de Carlos e todo resto acomodação de colonizados pelo imperialismo norte-americano. Com pressa, partia para a ação, preparava-se com afinco para subir a serra e se entregar totalmente à revolução. As poucas quatro horas de sono de cada noite já provocavam fundas olheiras e realçavam o desbotado azul do olhar. Jejuava por dias seguidos e não andava mais de ônibus, forçando caminhadas de cem quilômetros por semana. Mao não fez a Longa Marcha? Durante a Campanha da Sierra Maestra, Che, Fidel, Camilo Cienfuegos não percorriam dezenas de quilômetros num único dia ou noite? Como exemplo de resistência física revolucionária citava a Coluna Prestes e sua épica caminhada pelo país. Treinava o corpo e o espírito – com total consciência do que é estar atento e forte para combater o medo contra-revolucionário. Aprendeu a manipular explosivos e fabricar bombas caseiras. Ficava no mato por dias, acampado em barraca, exercitando o uso de armamentos e sobrevivência na selva. Planejava assaltos a bancos para expropriar os capitalistas, detentores da riqueza do povo.

 

O afável e tímido Roberto, displicente estudante de engenharia e professor de inglês, tornou-se o agressivo e denodado Carlos, permanentemente pronto a denunciar qualquer desvio pequeno-burguês dos companheiros, sem permitir sentimentalismos e criticando obsessivamente tudo e a todos. Falava sempre que o dito do Che “Hay que endurecer pero sin perder la ternura jamás” foi de período posterior à revolução cubana:

– Estamos na aurora da nossa – debochava do romantismo.

 

Dedicou-se à formação da rede de simpatizantes, base logística de implantação do foco guerrilheiro. Pedia colaboração aos conhecidos, sem se importar com o grau do esquerdismo. Dinheiro para pagar casas e apartamentos alugados por temporada, comprar armas, estruturar o aparelhamento dos revolucionários na clandestinidade. Alimentos, remédios, roupas, tudo era bem-vindo. As doações funcionavam para aplacar a consciência culpada de esquerdistas pequeno-burgueses, sem peito de participar ativamente do processo de mudança da história. Sabia da falta de firmeza dessa gente e cinicamente tirava proveito. Nem perdia tempo com eles, só dava atenção aos que tinham por origem de classe o embrião revolucionário e a revolta no sangue.

 

Aconteceu o esperado batismo de fogo. Foi encarregado pela direção da Organização de executar a expropriação de dinheiro de banco e conseguiu fazer a coisa toda acontecer em menos de duas semanas. Levaram o equivalente a duzentos mil dólares de agência do Bradesco, em Botafogo. No dia do assalto, venceu completamente o medo de principiante que o ameaçava. Pôs o pé dentro do banco e foi tomado por gélida e estranha frieza. Tranqüilo, piscou para a caixa, ex-aluna e simpatizante de esquerda, que entregou a rotina da agência, esquema de segurança, identificação de funcionários e tudo o mais. Não precisaram dar um tiro. O gerente se mijou com a pistola na testa, desligou o alarme e abriu o cofre. Carlos conquistou definitivamente a admiração dos companheiros e sentiu-se pronto para “subir a serra”.

 

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Nenhuma estória é exata, no sentido preciso da palavra. E nunca será exatamente preciso o que contam da curta vida de um homem. Fatos acontecidos podem ter diversas interpretações e versões. Atribuí a Roberto Azedo, o revolucionário Carlos, esta estória. Provavelmente, certas partes foram protagonizadas por seus companheiros de guerrilha. Sei que a busca exagerada da exatidão, ao contrário da verdade, não tem grande utilidade para a vida ou para a arte.

 

Certa vez, numa das inúmeras discussões políticas que travávamos, Roberto disse que cada um vive como pensa e pensa como vive . Decorridas mais de três décadas, desde 1969, este escrito quer lembrar que os melhores de nossa geração exigiam viver como pensavam. Para isso, precisavam transformar o mundo, fazer a revolução, prontos a sacrificar a própria vida como preço a pagar pela realização de tudo em que acreditavam

 

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Veio um mês de dezembro esquisito, com muita chuva e frio. E chegaram péssimas notícias: o Jornal do Brasil publicou nota do DOPS, distribuída à imprensa, com a informação de que agentes da repressão estouraram um aparelho de terroristas, na Rua Siqueira Campos, em Copacabana, e um deles, de codinome Carlos, se suicidou ao pular do quinto andar.

 

Em seguida, conhecidos da família confirmaram a morte de Roberto e trouxeram outras versões de sua morte: o DOPS invadiu o apartamento e ele resistiu, sendo jogado pela janela; ou a variante de que, na iminência do arrombamento, ele se atirou pela janela para alertar os companheiros, ainda incógnitos na rua.

 

Dado insólito e sem explicação, também mencionado na versão oficial do jornal, é que encontraram diversas balas de revólver dentro dos sapatos de Roberto. Quem teve o privilégio de conhecê-lo mais de perto, entendeu as balas nos sapatos como treinamento para adquirir resistência nas torturas que os agentes da repressão infligiam aos opositores do governo militar. Ultrapassadas tantas barreiras para se tornar um revolucionário, ele almejava também ter controle sobre a dor.

 

A verdade é que, no último ano da década de sessenta (apenas aparentemente distante e infinitamente menos cruel do que a época em que esta estória é lida), Roberto Azêdo, sob o nome de Carlos, morreu lutando por um mundo mais justo, e com balas nos sapatos, andava pela cidade como os mártires sobre brasas.

 

 

Coveiros

 

 

Minha estória no meio literário carioca terminou quando aceitei o convite para a festa de trinta anos da Editora Border, na cobertura dúplex de mil metros quadrados do patrão, no Leblon, com vista livre para os quatro pontos cardeais: Ipanema, Lagoa, Jardim Botânico e Dois Irmãos.

 

Mal cheguei, a Crítica de Mau Hálito, gorda e sedutora, perguntou se eu também fazia parte do Comando e, rindo de meu aparvalhamento, explicou que a denominação não tinha nada a ver com o Comando Vermelho. Bem mais antiga, datava da ditadura, dos três Cês, CCC, Comando de Caça aos Comunistas, e já naquela época era apenas um disfarce para pedir Caviar, Champanhe e Cocaína. Ela já tinha consumido os dois primeiros. Quase vomitei com o malabarismo da gorda pedindo pó para cafungar.

 

Estava de azar. Logo em seguida, esbarrei no Escritor Famoso, acadêmico de peso, fechando roda na ponta da quilométrica varanda, e ele me provocou perguntando se eu ainda pertencia ao coro das viúvas de Guimarães Rosa. Contendor antigo, o Escritor Famoso, foi providencial para aquele meu dia. Está até hoje pendurado na taça flûte de champanhe, com o que ouviu dos meus trinta e dois anos:

– Seu parvo, político literário baba-ovo, não merece comer a bosta das montarias de Rosa pelos Gerais. O que conhece dele é só de ouvir falar, de oitiva, orelha de livro e adaptações pra cinema e tevê, no máximo você pode falar de “A Hora e a Vez”, “A Terceira Margem”, o “Grande Sertão”, e assim mesmo só por causa da tesuda Bruna Lombardi posando de Diadorim. Aliás, todo mundo sabe que você detesta ler. Que vá escrever novelas de tevê. Pare com livros chatos que ninguém consegue ler.

E desafiei o ignorante:

– Lambo o cu, se você conhece uma frase ou sequer o enredo de “Meu Tio Uiauaretê” ou de “Sorôco”.

Vendo a disposição, o panaca se acovardou, não encarou, criou ares de superioridade e virou as costas.

 

Desci, peguei um táxi e comecei a deixar para trás todo aquele arranjo.

 

Tudo começou quando vim para o Rio. Dei baixa no exército e saí de Conselheiro Josino, local onde nasci e me criei. Antiga parada de trens da Leopoldina, nem dez ruas, uns duzentos moradores e, por dia, duas partidas de ônibus para Campos pela BR 102. Acreditava ser aquele o pior lugar do mundo para me tornar escritor.

 

Descobri minha vocação para a literatura porque o pai era empregado na maior fazenda do distrito e a mãe cozinhava na sede. Saíam para o batente cedo e me deixavam na escola. Acabava a aula e eu ia a pé até a fazenda para almoçar o prato feito pela mãe, graças à bondade da patroa. O resto da tarde acompanhava o pai ou outros empregados, em volta da casa. O dono não gostava de crianças, tinha que falar baixo e me esconder de sua vista. Por isso, descobri o compartimento repleto de livros, no porão usado como paiol.

 

Aí, o começo. Não desgrudei mais daquela eclética biblioteca, formada ao longo da vida do tio do dono da fazenda, que era político com veleidades literárias, para minha sorte, morto sem herdeiros interessados em livros e intelectualidades. Freqüentei aquele porão fedendo a pó de broca por mais de dez anos. Primeiro às escondidas, depois com aprovação dos donos, obtida por minha mãe. Surrupiei e ainda guardo exemplar de “Os Sertões”, com o ex-líbris impresso na contracapa, marca da biblioteca abandonada no porão: delicada torre de livros inclinada, símbolo da fragilidade e risco do mais alto saber, sustentada por duplo M, iniciais de Manoel Mansur, o nome do antigo proprietário.

 

Quando cheguei aqui, morei de favor até arranjar emprego, em quarto dividido com três primos, casa de fundos de quitanda, em rua ao lado do Cemitério de Inhaúma, onde meu tio era coveiro. Nos dois anos seguintes, passei por seis empregos: de balconista de lanchonete a digitador de agência de turismo. A solidão me fez instável, debochado, agressivo e não convencia ninguém. Até o dia que o primo mais simplório trouxe a melhor idéia:

– Um cara que vive agarrado aos livros só pode se dar bem trabalhando com livros.

 

E lá fui eu ser vendedor de livraria. E vi que a venda de livros equivale à de sanduíches, nem de longe tem nada a ver com a literatura. Para mim o pulo do gato seria estar junto de quem escreve os livros e, para isso, tinha que trabalhar numa editora. Tentei à beça, sem conseguir nem preencher ficha, até que o vendedor da Editora Border, das maiores do país, cansado de meus tantos e insistentes pedidos, conseguiu uma entrevista. Acabei contratado apenas como digitador da contabilidade. Início modesto para minhas pretensões, mas cheio de esperança iniciei.

 

Fui-me enturmando e comecei a sair com o pessoal da editora, procurava principalmente me aproximar dos escritores. Sabia que eles têm a capacidade apurada de observar pessoas e perceber situações. Por isso, tentava estar sempre afinadíssimo, mas não adiantava. Até que comecei a entender com quem estava lidando e o que me esperava. Foi aí que passei por experiência dura demais para minha curta, simples e monótona existência. Até essa época, não lidava com intelectuais e pessoas que desde o berço manipulam a realidade a seu prazer, transformando verdade em mentira e vice-versa. Para eles viver se resume em fazer sucesso. A cada momento esbarrava em atitudes absurdas aceitas com complacência e conivência. Desdobrava-me para descobrir a razão de ser desse mundo de representações. Nele, nunca havia coadjuvantes, ou melhor, eu era o único e todos os demais, atores principais.

 

Dificuldades se sucediam, mas acabava conseguindo bom desempenho social. Aprendi a beber, comer e a me vestir como aqueles que me cercavam e a ouvir calado suas soporíferas conversas sobre futebol, ginástica, automóveis e outras tantas futilidades idiotas.

 

Passaram-se dez anos. Continuei a estudar com afinco, aprendi idiomas e meu trabalho foi cada vez mais respeitado e admirado na Border. Acabei fazendo carreira e me tornando editor júnior e, em pouco tempo, promovido a sênior. Não foi difícil me destacar como fonte de informações do setor editorial e até palestrante na Bienal do Livro. Aprendi a ter a crítica no cabresto, em rédea curta. No entanto, estava cada dia mais infeliz e não conseguia escrever.

 

Fui para a Border crente de encontrar um universo de relacionamento cultural e artístico paralelo às atividades literária e editorial. Mas, que nada. Tudo era subordinado a critérios comerciais. Só pesava na balança a rentabilidade e o lucro. Os autores, subservientes ao sistema, relegavam a arte a segundo plano, dedicados exclusivamente a promover seus livros e a si mesmos. Sofriam de estranha doença, transformados em vendedores venais atuando como garotos-propaganda, atores de televisão e músicos de segunda classe, dependentes da mídia.

 

A coisa esquentava mesmo era no campo das idéias e, em se tratando de literatura, fervia.

 

O Romancista Consagrado, de esquerda e antiamericanista, arrasava Hemingway, taxando-o de escritor de segunda classe, bêbado, viado. Perguntei se conhecia o longo ensaio de Otto Maria Carpeaux sobre a obra de Hemingway, considerada por ele das mais importantes do século. O cara nem tinha ouvido falar e ganhei mais um desafeto perigoso para a gorda coleção de inimigos.

 

Tentava fugir de confrontos, mas, frente à ignorância e ao despreparo, eu era empurrado para o ringue.

 

Bom o embate com o Poeta Laureado que disparou a falar asneira e titubeou no básico sobre poesia. Foi questão de princípio denunciar seu desconhecimento entre sílaba breve e longa, estrofe e estância ou que a literatura, especialmente a poesia, ao contrário de outras formas de expressão artística, não admite em seu corpo espontneísmo ou primitivismo. Letra de música popular, como a prosa, pode ser poética sem ser poesia, e por aí se estendeu minha preleção. O Poeta Laureado ficou possesso, disse que minha cultura era de almanaque, ele tinha obra construída, livros traduzidos em várias línguas, e que não sabia dos meus. Quis me destruir e só não fui demitido porque os patrões disputavam, milímetro a milímetro, com o ego de seus contratados e cresciam ao vê-los desmascarados em seu falso saber.

 

Como contei, logo que cheguei aqui no Rio, o único destino possível foi a casa do tio com profissão de coveiro. E logo descobri que essa é profissão de fachada, cuja principal atividade é noturna. Coveiros vivem de saquear os mortos enterrados de dia: ouro das próteses dentárias, jóias, roupas, cabelos, tudo que tenha valor monetário. O que quero dizer é que não consigo mais pensar nos literatos e nessa gente que orbita a literatura sem metaforizar e me transportar para os coveiros. O livro é o cadáver pronto para suas pilhagens.

 

Foi demorado aprender que para não me tornar mais um desses escritores vagabundos tenho de manter distância geográfica deste Rio de Gente Vazia. Estou voltando para o norte-fluminense, imediações de Campos, Conselheiro Josino, onde nasci e me criei.

 

 

A morta

 

Tem trinta anos. E se dá conta que nunca viu ninguém morto. Parente, amigo ou desconhecido. Mortos estão presentes nas conversas, livros, cinema, tevê e são como parte de qualquer realidade: as flores que murcham e caem, o paralelepípedo da rua ou a cadeira do bar. Você sabe que existem e não os vê, meros objetos na paisagem. Morto, morto mesmo, de corpo presente, mortinho da silva, cadáver cadavérico, ainda não apareceu nenhum na frente dele. E vai continuar assim. Até quem sabe quando? Salvo alguma pequena circunstância que nunca acontece, o fato corriqueiro de alguém apagar diante de seus olhos, por atropelamento ou tiro, como é hábito. Um dos pais, avós ou tios, o vizinho que seja – morrendo naturalmente, como seria normal e esperado. Ou que alguém funere e, devido à morosidade do camburão, permaneça largado na calçada e possa suprir sua deficiência e por fim tirá-lo dessa estranha ignorância existencial e visual.

 

O detonador é o recebimento de e-mail com o texto “Fazenda de corpos”, relato de experiência de antropólogo norte-americano, no Tennessee, que mantém corpos expostos às mais diversas condições climáticas, por dias, meses e anos, com o objetivo de conhecer como humanos apodrecem. Depois os esqueletos são guardados para pesquisa em caixas com dimensões de 1mx30cmx30cm.

 

Remói aquela estranha matéria por dias, quando outra, sobre a perda de religiosidade no ocidente, ensina que até as primeiras décadas do último século, antes do advento da penicilina e avanços da medicina, as pessoas cresciam assistindo os irmãos, os pais e os conhecidos passar desta para melhor. Ou seja, ao contrário de agora como acontece com ele, a morte fazia parte do cotidiano da humanidade. É a partir daí, da junção dessas duas leituras, que adquire aguda consciência de que nunca viu um endurecido.

 

Achava que se conhecia e se embasbaca com o próprio estado desapercebido de ignorância infantil. Indigna-se. Envergonha-se. E, nesse instante de autoconhecimento, parte para as capelas mortuárias do cemitério São João Batista. Essa, a sua idéia mais imediata para solucionar a questão. Porém, não dá sorte: a colheita de corpos está fraca naquele dia e só tem uma velhinha sendo velada numa das capelas. Para cúmulo do azar o diabo da velha era vaidosíssima, a ponto de ainda em vida exigir da filha o compromisso de enrolá-la e costurá-la no lençol da cama de sua morte decrépita. Nem o médico responsável pelo laudo viu a finada. O caixão aberto é um canteiro coberto de flores, bonito, mas sem a morta. Espera horas por outro defunto. E, aí sim, até ensaiando certa alegria, chega ao seu primeiro apagado, porém é imensa a surpresa, seguida de frustração maior ainda, porque ao vê-lo não sente absolutamente nada. Zero de qualquer sentimento. Está diante de uma moça vítima de seqüestro, sem vida há poucas horas, baleada durante tentativa de seu resgate. Ao lado de parentes histéricos, chega a tocá-la, mas, sem a mais mínima emoção digna de registro. É olhar para um mineral. Ou pior, para qualquer pessoa viva. Igualdade absoluta, nenhuma diferença. No ato, saca o motivo. A morta não é dele. Para um desaparecido ter alguma relevância é imperativo ser alguém relacionado a nós ou pelo menos sentirmos que poderia ser um dos nossos. Valorizamos um cadáver ao incorporarmos a perda, o medo da perda ou simplesmente o medo de não existirmos mais para o que morreu, ele finalmente entende.

 

Volta para casa ruminando idéias. Confuso e com medo, mas já não é mais um estranho aos que se foram sem volta. À noite, depois do jantar, vai pra cama e transa. A mulher dorme e ele permanece acordado ao seu lado até o cinza da madrugada, quando a sufoca com o travesseiro.

 

 

Por favor

 

 

Demitido de três empregos em menos de dois meses, mas ele nunca levou desaforo pra casa.

 

Estava numa moleza total – como porteiro do prédio Natividade, em Icaraí. Já chamava moradores pelo nome e recebia elogios de que é educado e tal e muito prestativo. Ganhou de presente tênis novinho do 204, e a dona Nelma do 703 já rendia jantar completo, com suco de frutas, só pela simpatia dele abrir a porta do elevador.

Desde moleque gramou trabalhos aos milhares, sem nunca fincar pé, mesmo quando já tinha alguma instrução de segundo ginasial. No caso presente, o problema é o síndico mal educado em choque com a doce ilusão de ter direito de exigir respeito do mundo, como se tivesse igualdade e não a subalterna posição de porteiro, otário de calças arriadas e pernas abertas pra ser enrabado.

 

O bicho pega feio, quando o síndico homenzinho metido a homenzarrão chega nervoso com o vazamento da caixa d'água e manda:

– Vai, vai logo, é preciso implorar? Enxuga o terraço, porra.

Resposta na lata, de cima de seu metro e noventa:

– Se quer pede, por favor, e fala baixo, que não sou tua nega.

Olho da rua, no ato.

 

Cava emprego de segunda a sexta, sem encontrar o que fazer, e na semana seguinte está enterrando rede de esgoto para a Prefeitura. Dureza é aquilo. Dentro do buraco, das oito da matina ao escurecer, mexendo em merda e lama, poeira imunda espirrada dos carros e sol tisnando na moleira ou chuva no quengo. Sucursal do inferno. Com o diabo em pessoa, o chefe de turma com chicote na mão, cutucando a moçada. Na parada para o almoço, ele exige esquentar a marmita primeiro que os outros. Até o dia em que vai cagar no botequim da esquina, se atrasa, e chega avisando geral:

– Tô com pressa.

Ele empurra o rango da peãozada de cima da trempe do fogareiro. Agüentaria esse rojão e muito mais, não fosse seu chuchu com ovo parar no asfalto.

Dessa vez, quem parte pro berro é ele, sem contemplação:

– Filho da puta, babaca, comigo não tem folga, não tem não! Educação, caralho! Licença, porra! E, pede por favor, seu bosta!

Bastou plantar a mão na cara e empurrar, sem precisar bater, e foi tudo pro chão. Fogareiro, marmitas, barraca e, principalmente, o próprio emprego.

De novo, olho da rua, no ato.

 

A velha estória que Deus escreve certo por linhas tortas, há destino, e todo o acontecido está escrito nas estrelas. Mas, se fosse a comida de qualquer outro no chão e não a dele, ainda estaria no ramo dos buracos, e não seria trocador de ônibus na linha Tribobó-Ponta da Areia. Um nada, comparado à boa vida da portaria do Edifício Natividade, na rica Icaraí, embora infinitamente mais suave do que obrar com pá e picareta.

 

A encrenca, até alguém encarar a lida de trocador, é não imaginar como o povão consegue ser tão mal educado. É isso, malandro, só maus-tratos, pra todo lado, de graça, à toa, chove resmungo, xingamento, reclamação. Homem, mulher, velhinhos e criancinhas acham que trocador é capacho pra limpar o pé sujo de merda. De lotar o saco. Porém, como no caso da marmita, se não fazem transbordar, por sobrevivência até dá pra aturar. A foda é que sempre tem alguém para repisar no seu limite.

 

É assim. Cretinice, dizer que a coisa acontece como um raio. Desaba fulminante. O fato é que uns pivetes entram no ônibus, pagam direitinho, zoam um tanto e começam a assaltar os passageiros. Como certamente eles estão armados, tem que se comportar como reza a cartilha. O chofer do ônibus nem rabisca o olho no retrovisor. Nada está acontecendo. Mas um dos moleques, mais abusado, provocador, grita pra ele humilhando, logo pra ele:

– E aí, viadão, vai encarar? Vai encarar?

Levanta-se, e nem tem tempo de pedir educação e a cortesia do “por favor”. Leva dois tirambaços no peito e cai estrebuchando.

 

 

Vantagem competitiva

 

 

Meu nome é Plínio. Bêbado no bar, não vejo o azul de maio vazando entre os prédios, as pessoas e os carros passando. Segunda-feira, nem é meio-dia e sozinho remôo a derrota. A perspectiva de ficar desempregado não incomoda tanto quanto a perda da batalha. Tenho como único consolo meu fracasso não ter dependido de minhas qualidades pessoais ou profissionais. Tanto azar ou tão pouca sorte: literalmente, o famoso capricho da natureza.

 

Tudo começa quando o grupo inglês AAI – Aldrich Advertising International – compra a maioria das ações da Tande Comunicação e

Mr. Wallace Greg desembarca em nosso escritório para consolidar o negócio. Chega gerando insegurança geral, mas surpreende avisando que sua permanência será temporária, com a missão de escolher o brasileiro que tocará a empresa. Entupidos de dinheiro, os acionistas vendedores pouco aparecem. Sentem-se tranqüilos com o campo bem dividido por quem domina os clientes: Gustavo José Cantarino, conhecido no meio como Gustavinho, e eu, Plínio Soares, chamado de Plínio, mesmo, esse perdedor que está bêbado no bar.

 

Devo apresentar meu concorrente: Gustavinho tem trinta e dois, ainda sem filhos, é casado com Sônia Paranhos, advogada em escritório da própria família. Bem-criado, estudou no Padre Antônio Vieira, PUC, e tem MBA no exterior. Fala francês e inglês de adolescente. Seu pai, diretor da Petrobrás, o encaminhou na publicidade.

 

E me apresentar: eu, Plínio, nascido na Rua Mossoró, subúrbio do Cachambi, filho de fiscal de trens, trabalhei de dia para estudar à noite. Aprendi inglês em cursinhos e cavei estágio na Tande, onde faço carreira há onze anos. É com muito orgulho que falo disso e aviso que nunca me senti inferior ao Gustavinho, em nada. Se fossem outras as circunstâncias, teria ganhado a parada.

 

Não me detive na nossa qualificação profissional, feitos ou talentos, pois nada disso contou na estória. Prefiro lembrar que Gustavinho considera-se feio, embora as mulheres não concordem. E essa auto-avaliação, somada às surras que o pai dominador dava, construiu um tímido, disfarçado de mal-humorado.

 

Como autocrítica, registro que estou meio gordo e, apesar de ser conhecido como bom papo, ando enchendo o saco de muita gente com demonstrações de minha prodigiosa memória para times de futebol e letras de música, que ninguém quer saber.

 

Mas, indo aos fatos: foi na sexta-feira, fim do expediente, neste mesmo bar onde agora estou bêbado . Gustavinho veio da academia que freqüenta religiosamente, cabelo ainda molhado, e parou para um único chope. Sua intenção era marcar presença com Mister Wallace, pois não gostava de freqüentar o pessoal do trabalho, mas sentia-se em desvantagem comigo, que, quase todo dia tirava o gringo da solidão do hotel para cair na boemia. A sorte estava do lado dele e Mister Wallace disse que nós três devíamos terminar o dia na sauna. Gustavinho topou na hora.

 

Seguimos em carros separados. Não passava das nove quando chegamos. O de sempre: as recepcionistas informaram o preço do programa e nos levaram para trocar os ternos por roupões. Recebemos chaves para armários contíguos, e nos despíamos apressadamente quando, por acaso, percebi que o olhar de Mister Wallace, se demorou por um segundo a mais no entreaberto do roupão de Gustavinho. Fomos às putas.

 

O sábado do dia seguinte e o domingo foram intermináveis para mim, emenda de muita bebida com a ressaca. Martírio, a lembrança do que percebi naquele olhar de Mister Wallace.

 

E, na segunda-feira de manhã, na reunião semanal da diretoria, além de Mister Wallace, fui o único conhecedor antecipado de minha própria derrota e ele precipitou o anúncio do vencedor que eu já sabia escolhido desde sexta. Gustavinho, por pouco tempo, pensará ser outro o seu valor. Vim para o bar encher a cara.

 

 

Madrugada no Leblon

 

 

Ainda menina a Mulher descobriu do que gostava. Qualquer homem servia para cavalinho na perna esquerda. Esfregava-se o que podia. Adolescente precoce, peitinho de limão , já exercitava o gosto de tanto dar e sentir prazer, escalada de infindável saciedade ao sexo. Novinha, deu jeito de freqüentar puteiros e soube que sua satisfação não passava apenas pela quantidade ou variedade de parceiros. Dezenas, centenas de experiências vividas para saber que só o sexo transgressor e violento se tornava completo, com a participação e assistência de outras pessoas.

 

Alguns fazem de tudo por quem amam. Muitas vezes o Homem tinha largado aquela louca ninfo, mas sempre voltava. Talvez porque não encontrasse outro amor que se comparasse ou, pura e simplesmente, aquele era o tipo de amor no qual se viciara. De coleira, era conduzido por ela. Ele ajudava nas transas, com as amigas dela. Primeiro com casais conhecidos. Depois qualquer um ou qualquer outra . E, no final , valia tudo. Mergulhou de cabeça . E começou a busca aleatória por machos e fêmeas , machos e machos , fêmeas e fêmeas , todo o permitido pela imaginação. Acontecia nos lugares mais estranhos: praça, igreja, cemitério. Quanto maior o risco de escândalo, maior o tesão . Cada dia ela inventava mais uma, ele o companheiro sempre fiel.

 

Três mulheres , dois filhos e não viver com nenhuma é que sempre fez de nosso amigo Dudu o primeiro à mesa do Alvaro's. Pedia a garrafa de scotch e esperava nossa chegada. Ele já conversava com Léo, cheguei e entrei no embalo do papo. Àquela hora o barulho era ensurdecedor e crescia, todos falavam alto, na tentativa de serem ouvidos ou de se fazer entender . Essa era a música que amávamos, da qual não prescindíamos e curtíamos com reverência religiosa, conhecíamos sua melodia de cor e salteado , nela embalávamos nossa cadência.

 

Quando a Mulher e o Homem chegaram, entrava a madrugada e restávamos apenas nós três de clientes. O clima meio esfumaçado era de quase silêncio , cadeiras já recolhidas sobre as mesas. Sentaram, e a Mulher mandou a mão na cara do Homem, que revidou, e ela bateu de cabeça na madeira da parede com barulho maior ainda que o do tapa. Discutiam com ofensas e xingamentos . Ela era jovem , menos de trinta, bonita demais , e ele com pinta de cara de grana . Olhamos com discrição que o fato não merecia, e eles continuaram a dar o show, passando da cena de violência para muito alisamento e beijo de língua.

 

– É mole ou quer mais? Léo não resistiu e instigou alto, antes de levantar pra ir ao banheiro. E voltou a tempo de ver a pancadaria reiniciar: a Mulher de novo estapeou o Homem, que devolveu com força para a cabeça dela mais uma vez explodir na parede.

Léo provocou novamente:

– Homem não bate em mulher bonita , quer ajuda meu anjo?

Não o Homem, mas a Mulher respondeu:

– Tá interessado, meu amor? Tu não é macho, nem pra mim , nem pra ele .

– Quer a prova?

Dudu e eu conseguimos que Léo se calasse, sem dar o que provocavam e eles voltaram aos carinhos e beijos.

 

O casal não demorou a pagar a conta e a sair.

– Sinistros, doença pura , depravação, vão transar a mil noite afora – Dudu disse.

E eu comentei:

– O bicho homem é isso aí, não presta, vou morrer sem saber o limite da sordidez humana.

Léo ficou surpreendentemente calado.

 

Dudu continuou bebendo, Léo saiu primeiro e eu em seguida. Percorrendo o quarteirão, fui avistá-lo na rua transversal, trepava com a Mulher encostado num carro, e vi também o Homem sentado dentro, com a porta semi-aberta. Apressei o passo e me afastei para não ser notado, como se tivesse invadido a privacidade deles.

 

 

Sábado de merda

 

 

Começou com o telefonema da Sonsa furando meu esquema de passar o dia na praia. Tinha que pegar as meninas, a tia dela estava no hospital e eu na condição de pai tinha obrigação de ficar com as Gêmeas, mais um montão de conversa mole que nem consigo lembrar.

 

Mudança completa no meu sábado. Não pude escapar, disse que sim: pegaria minhas filhas depois do almoço. Aturei a reclamação dos amigos, muito mais ainda da gata da vez, a que me jurava amor. Já que o dia estava fodido, liguei para a delegacia e antecipei meu plantão de domingo à noite praquele sábado mesmo. Acertei com as meninas o programa da tarde perdida: nada de ir pra shopping gastar dinheiro em bobagem. Íamos ao circo. Ali mesmo, na Central, pertinho da minha delegacia.

 

Cheguei à Ilha e buzinei embaixo do prédio. As Gêmeas vieram correndo e a mãe nem deu as caras. Que bom. Rumei pro Centro, com parada no McDonald's para enganar minha fome e a gula das crianças. Depois, direto pro circo.

 

Fora aquele cheiro fedido de mijo e bosta – sabe lá se de elefante, macaco, leão ou outros bichos – a coisa no circo é bem interessante. De início, o vício de ver espetáculo na TV comanda a gente e, pela diferença de acontecer tudo em tamanho natural, parece meio mixo, pequeno, mas logo o olho se acostuma e dá pra adulto virar criança e até se divertir bastante: a gente voa no trapézio, se equilibra na corda bamba, bota a cabeça na boca do leão, faz pirueta em cima do elefante, e o maior barato de todos é mesmo rir sem parar com as inocentes trapalhadas dos palhaços e seu bando de anões – homenzinhos, mulherzinhas e anõezinhos filhotes. Os churros, a pipoca, a cocada e a praliné fazem a diferença comestível.

 

Comecei aporrinhado, carregado da sensação da perda do sábado de sol esplendoroso, ali dentro do abafamento malcheiroso da lona mal ventilada do circo, cercado de velhos, crianças e gente feia, bem distante da belezura e prazeres que podia estar curtindo na praia. Mas, sou do lema de que desgraça pouca é bobagem, e, vai daí, fui relaxando, deixei rolar e aproveitei ao máximo.

 

Foi assim. Até entregar as Gêmeas, lá na Ilha. Já era de noitinha e a Sonsa desceu até a portaria. Tinha gato na tuba, estava de óculos escuros. Saí do carro e fui falar com ela. Nem a mágica lá do circo ia enganar o sacana que sou, acostumado a lidar com a total falsidade das dezenas de vagabundas mentirosas que entram às pencas na delegacia. Fui logo perguntando o que estava escondendo, se era olho roxo de porrada de macho e se ela tinha pagado vexame na frente de minhas filhas. Caiu na besteira de crescer, veio para cima de mim, que eu não tinha nada a ver com mais isso e mais aquilo, abriu o palavrório, mas o que a Sonsa queria não colou, deu pra ver o malandro atrapalhado escapando pela saída de serviço – deviam estar trepando. Aí, foi fácil. Peguei o puto antes do estacionamento e já estava bicando o canalha todo encolhido no chão, quando aconteceu a segunda merda do dia: passava viatura do BOPE a caminho de diligência no Morro do Dendê. Viram a porrada comendo solta e, pra meu azar, contrariando sua praxe de só cuidar de operações especiais, pararam para apartar. E armaram o friforó.

 

Os Caveiras não brincam. De nada adiantou a minha argumentação e identificação de detetive, no ato me renderam e desarmaram; pior ainda, ao ouvir a Sonsa descontrolada com o puto junto, a me chamar de covarde, pilantra, mau pai, os caralhos, os caras queriam até me algemar. Juntou multidão. A vergonha das Gêmeas da janela vendo tudo. Não estávamos mais no circo, mas o show era de graça pra vizinhança. Demorou pra convencer a Sonsa e o puto a não apresentar queixa, e tive de gastar toda minha lábia para os do BOPE entenderem meu lado e me liberarem. Com um grande porém, o porém da baita humilhação de levar esporro e receber inúmeras outras exibições de autoridade e superioridade da tropa de elite sobre o reles polícia civil apanhado no vacilo. Só faltou mijarem em mim.

 

Voltei derrotado pela Linha Vermelha. Queria chegar pro plantão na delegacia e me trancar com desculpa de estar passando mal, sem ver a cara de ninguém. Não foi possível. Ao cruzar a entrada achei que a anã sentada na sala de espera era a mesma do circo. Cheguei junto, me identifiquei, falei de como eu e minhas filhas nos divertimos à beça com ela mais cedo no circo e ofereci ajuda caso a anãzinha precisasse resolver algum problema ali na delegacia. Foi então que se deu a pior de todas, a maior merda daquele sábado. A anãzinha apontava o dedo no meu nariz, que estava abaixado na altura dela, enquanto com a outra mão esfregava a carteira de advogada na minha cara. Estertorava:

– Me respeite! Nada de deboche! Não admito discriminação! Sou advogada criminalista! Vou lhe processar, seu moleque! Apresentar queixa na OAB! Exigir sua exoneração! Chama o delegado! Agora!

 

Merda de sábado. Sábado de merda.

 

 

Zapata não perdoa

 

 

Fora a esperada aporrinhação, o perrengue de se mudar é isso : os novos vizinhos não te conhecem, nem imaginam do que você é capaz . Professor de história, sim, mas longe de ser otário . Criado na Gávea , bairro de primeira , antes de ser tomado pela Rocinha. A favela cresceu comigo , invadiu tudo . Papai morreu. Mamãe morreu. Herdei o apartamento e me fodi. Dos antigos vizinhos fui dos últimos a escapulir . Cinco anos pra conseguir vender o apê, pela metade do preço . Baita prejuízo de trocar de um três quartos por um de um . Sem querer conhecer o desavisado comprador, mudando às pressas, pra me livrar de roubo de carro , bala perdida, gente pobre e gente feia .

 

Mas, tudo bem. Fui pra Copa, quase Leme, distância igual da Gávea ao Arpoador, percurso da corrida diária com Zapata ao lado, na coleira. Zapata é o Bull Terrier que amo e a praia do Arpoador, minha escola e universidade maior, onde me formei de verdade. Foi desgraça muita, aumentada depois da mudança, demais. O regulamento do prédio para o qual me mudei proibia cães nas áreas internas do prédio e eu já mudado sem saber disso. Mas como saber? Estava habituado a morar no antes quase luxo, só entre bacanas, classe média alta, agora me sentindo empatado por essa exigência fascista. E logo num condomínio chué daqueles, grudado na Rua Prado Júnior, tremendo mafuá, cheia de putas, durangos e desqualificados. Como logo descobri, o síndico só podia ser idiota completo, moralista, conflituoso.

 

A mudança foi rápida porque possuo pouquíssimos móveis, resto do acervo passado no cobre desde a morte de meus pais . Zapata estava na Veterinária Paz e Amor para evitar o estresse da zorra da mudança . Passei por lá para levá-lo para casa . Cheguei inocentemente no prédio pela entrada de serviço e subi para o apartamento , sem reparar no nervosismo do porteiro . Mal fechei a porta a campainha tocou e ele , já a pedido do síndico , me entregou o malfadado Regulamento com a proibição de ter animais de qualquer tipo nos apartamentos e de transitar com eles nas dependências do condomínio , tudo sublinhado com tinta grossa . Gaguejando, o moço disse que seu Orlando pedia para tirar imediatamente Zapata do apartamento . Ouvi com a frieza adquirida em anos de tatame , olho no olho de contendores, e demonstrei meu total desinteresse por recados . Disse pro tal de seu Orlando vir pessoalmente falar comigo , mas que viesse limpando o rabo com o Regulamento .

 

Antevi toda a merda que me criavam. O telefone tocou e a voz de seu Orlando atropelou dizendo que exigia respeito, que era um senhor de idade, que não podia ter cão no prédio, que não aceitava desacato de autoridade, um montão de quês e de nãos obsessivos:

– Uma fera dessas, bradava.

E muitas outras baboseiras. Velho neurótico. Sem coragem de me encarar, provocava troco pelo telefone.

 

Antes de continuar contando o imbróglio, abro parênteses, para informar aos leigos o que é um Bull Terrier e o que é ser dono de um. Estou me explicando para facilitar a compreensão das atitudes que tomei no desenrolar da estória.

 

Quem é leitor voraz já esbarrou com o conto “A Oeste de Roma” de John Fante, e tem idéia do que vou falar. Nem de perto, Bull Terriers se aproximam com o pensamento que temos de cães em geral ou qualquer de suas raças. É como se fossem de outra espécie, canídeos como a raposa ou a hiena, mas não cães. As pessoas intuem isso e reagem inconscientemente, sem meio termo, amando os bulls ou odiando-os, embora atribuam sua atração ou repulsão a sua estranha aparência de simetria bilateral. Defendo esta tese depois de muita observação e chego a considerá-la quase científica. Não há quem olhe para um bull e não pare. Os piratas como Zapata são sempre um arraso, branco com machas pretas em orelha e olho opostos. Donos, como eu, ouvem imbecilidades e monstruosidades:

– São cruza de cachorro com porco, cachorro com ovelha, têm olhar cínico, perverso, assassino.

 

Idiotas confundem os bulls com pit bulls, sentem medo, pavor. Bulls têm personalidade marcante e diferenciada. Não abanam a cauda para qualquer estalar de dedos e só fazem o que a gente manda quando gostam. Não são maria-vai-com-as-outras como os cachorros de outras raças. São fortíssimos e sempre ligados. De poucos latidos. Ganir jamais. Não choramingam nem quando recém-nascidos. Compreendem e conversam conosco. Não chegam a falar, mas, que conversam, conversam. Eu, por exemplo, bato longos papos com Zapata e sempre tive a mesma facilidade de diálogo com Urraca, minha black-brindle (rajada com preto) morta precocemente.

 

Mas, voltando ao seu Orlando me provocando pelo telefone, ele teve resposta para todos os infindáveis quês e nãos que pronunciou sem conseguir nenhum sim. Ouviu que era um velho viado e cagão, que idade não é desculpa pra covardia e mau-caratice, que se fosse macho descia e me encontrava na portaria, de preferência com quantos filhos tivesse, que a polícia podia vir junto e que a mulher dele também entrasse na fila pra ser enrabada. Disse com voz calma e gélida. No inicio, ele estertorava gemidos do outro lado da linha, depois se aquietou e esperou minha iniciativa de desligar o telefone. Pensei que tivesse abichornado.

 

Porém, sempre tem um porém com esses caretas, ele armou bonitinho pra mim. Descobri mais tarde, quando desci para Zapata fazer as necessidades da noite, e li afixado na porta do elevador, o comunicado de que havia cão feroz no condomínio e que porteiros seriam sumariamente demitidos se permitissem sua circulação no prédio. O filho-de-uma-puta não era bobo, sabia que nem a polícia podia me impedir de ir e vir com Zapata; ele teria que resolver a parada na justiça, mover ação e buscar nos tribunais a decisão da pendenga, que duraria meses, talvez anos; enquanto isso, Zapata e eu poderíamos circular livremente pelos corredores do excelso Edifício Siboney. O safado nos pegou por outro lado: jogou todos os moradores contra nós e nos tornou responsáveis pela iminente demissão de funcionários, pais de família.

 

Demorei horas com Zapata na rua, arquitetando a vingança.

 

Cagava pros vizinhos, aquele bando de classe-mérdia. Contudo, por ser guevarista e não seria eu ou Zapata, também comunista, que iríamos prejudicar trabalhadores inocentes. Zapata voltou para a Veterinária Paz e Amor, onde permaneceu até arranjar estada no canil de um amigo, e eu para o apê. Duas vezes por dia recolhi as fezes e urina de Zapata, acumulando-as em latão hermeticamente fechado. Copacabana ficou mais limpa e nós, cada vez mais felizes, saboreávamos antecipadamente a vingança, que não demoraria, e, a cada desenroscada de tampa do latão, eu colaborava com uma bela mijada.

 

Na madrugada aprazada com Zapata, fui para a porta de seu Orlando, mãos cobertas de luvas cirúrgicas, e derramei toda merda e mijo do latão para sua sala por um tubo de aspirador de pó com a boca achatada encaixada perfeitamente entre a porta e o piso. Depois, lacrei cada centímetro da porta e fechaduras com farto durepoxi de alta resistência e secagem ultra-rápida. Saí sorrateiramente pela porta de serviço, peguei o carro cinco quadras além e fomos, eu e Zapata para ares mais puros, primeiro no surfe da madrugada do Arpoador e, pela manhã, de férias pra Búzios.

 

Professor tem compromisso e o início das aulas nos trouxe de volta . Soubemos que só o Corpo de Bombeiros deu jeito na porta do seu Orlando, chegando a fedentina a virar notícia no Dia . O porteiro entre sorrisos contou tudo e comentou, com cuidado, o falatório de que não bato bem da cabeça, dizem que sou lelé. Seu Orlando passou por mim e cumprimentou docemente . Provavelmente está disposto a aceitar Zapata, no entanto, agora, sou eu que não quero. Aquela gente não presta pra ele, nem pra mim. Pus o apartamento à venda.

 

 

Diva

 

 

Dezesseis anos, calor entre as pernas e viver em Niterói nos anos sessenta – foi essa a desgraça de Diva. E mais: a mãe sempre dedurando suas demoras e escapadas para o pai delegado de polícia. Brigas aos berros e surras de fivela de cinto. Pais tão covardes como os vizinhos, fuxicando pelas costas, chamando-a de galinha. Todos gostavam do pai delegado, mas ela só se lembrava dele escarrando no assoalho. Admiravam as vantagens contadas por ele: tinha coragem de pegar malandro no porrete, sem precisar do 38. Eles temiam e admiravam, não gostavam. Delegado casado com mulher cordata e de respeito com o azar de uma filha daquelas.

 

Apesar de levar fama ruim desde novinha, à Diva cabe a escolha de seu primeiro homem. Playboy bonito e de lambreta, na praia sempre cercado de garotas. Mascarado e bobo, ela sabe. E não se surpreende ao ouvir que o bonitão exibe sua calcinha manchada de sangue. Em se tratando de homem, pela primeira e única vez na vida Diva acerta: é mesmo um bobo.

 

Vive o enfrentamento da ditadura familiar, mas descobre a salvação ao ir ao armarinho comprar alfinetes, e Ernesto, filho do turco, não consegue sustentar seu olhar. Diva encontra a saída para as complicações de sua vida. Casam-se menos de um ano depois e vão morar no centro da cidade, em casa assobradada sobre outro armarinho do sogro.

 

Doce ilusão de Diva – parece canção popular. As coisas pioram. Descobre em Ernesto o neurótico ciumento, controlador mil vezes mais rigoroso que o pai e a mãe juntos. Desde o início, ela diz que não é virgem e transa com ele. Mas, nem tem tempo de achar que prendeu Ernesto pelas trepadas, porque importam as dela, de antes do casamento e em especial a primeira. Isso é o alimento diário dele, e sua tortura. Obrigação de contar nos mínimos detalhes, repetidas vezes, o desvirginamento na casa de máquinas do elevador. Nem lembra bem o nome do playboy e até passa a atribuir àquele fato algum prazer. As batalhas continuam as de solteira, mudaram apenas os contendores e, se tinha coragem de enfrentar os próprios pais, descobre no marido insuspeitado adversário, belicoso e perverso.

 

A luta campeia farta e solta, até o feio dia, em que para se vingar de ter sido trancada no quarto a tarde toda, no tormento da discussão e para pisar em Ernesto como se esmigalha uma barata, Diva confessa o guardado consigo de menina: que o pai abusava dela; desce às escabrosas minúcias – masturbação, felação – todo o feito e obrigado a fazer.

 

O que já é péssimo fica pior. O horror. Diva compreende que, apesar dos pesares, morando com os pais, era feliz. Naquele dia infindável e mais vinte, trancada na sobreloja do armarinho, com o marido louco, ela sofre a pior injúria infligida a qualquer mulher por um marido. Por fim, aniquilada, veste a camisola de cambraia, deita na cama de casal feita com o esmero de fronhas e lençol de cetim branco, ensopa-se de álcool e ateia fogo no lindo corpo, que ainda não deixa transparecer a gravidez existente.

 

 

O começo e o fim

 

 

Tudo começou quando Carlota contou para o Rovái:

– Levantei cedo, papai e mamãe me cobrindo de beijos e presentes. Alfredo chegou pra me buscar. Aquele dia oito de março não deveria ter sido o pior de minha vida. Fui festejar meu aniversário de dezoito anos na casa de Alfredo, junto com nossos pais, os parentes e amigos. O almoço terminou de noitinha e todos já tinham ido, menos nossos pais, a irmã de Alfredo e nós. Foi só festa até que começasse o terror. Eles desceram pela encosta por detrás da casa até o quintal e, com os cachorros presos, nos dominaram. Eram cinco. Amarraram todos nós, saquearam a casa, separaram os homens das mulheres e nos estupraram: minha mãe, eu, a mãe de Alfredo e a irmã, Nildinha, que tinha só 13 anos e era virgem. Os vagabundos eram novos, aí pelos vinte, só o Ladeira parecia um pouco mais velho.

 

No dia em que se conheceram, Rovái chegou cedo na boate de propósito , antes de começar a barulheira infernal daquilo que chamam de música e ele nunca conseguiu engolir . Esperava o dono da casa para fazer o caixa de final de mês. Acumulava a gerência e a segurança. Seu pessoal , quase sem precisar de ajuda, mantinha à distância os vagabundos que desciam da comunidade da Estrada das Canoas, e vitava a cheiração de pó ostensiva dos clientes e controlava os pitboys desarvorados em disputa pela mulherada .

 

A primeira coisa que viu ao entrar foram as três mulheres na beira da pista. Fez acerto relâmpago com Pepe que, do nada, insistiu para que Rovái conhecesse aquelas grã-finas, trinca de belas mulheres beirando os trinta. O papo engrenou, começou a chegar gente , as amigas dela se enturmaram e ele acabou sozinho com Carlota para iniciar seu caso de paixão mais encrencado.

 

No dia seguinte ligou para Pepe e confirmou sua desconfiança de que ela quis ser apresentada só porque soube que ele foi da polícia e não apenas pelos seus belos olhos. Por serem habituais e óbvios, Rovái sempre dispensou destaques para chamar atenção: não pintava cabelo, nada de barba, detestava charuto, nem bebia vinho, nunca usava roupa ou corte de cabelo na moda – enfeites óbvios na maioria dos de mais de cinqüenta. Talvez, por essa diferença, mulher de ótima qualidade e toda idade é que não faltava em cima dele. Estava acostumado. Com Carlota aconteceu redondo, de imediato, engrenaram no papo e se tornaram íntimos. Logo ele sabia quase tudo dela e ela ia sabendo dele, é claro, o que permitiam e a ambos convinha.

 

Daquela noite em diante se viam quase diariamente. Ela morava em Ipanema, onde ficavam mais vezes, e curtiam finais de semana estendidos na casa dele, em Santa Tereza.

 

A estória geral do estupro foi contada logo no início, porém seus detalhes vieram aos pedaços. Ele não forçava, ela sem descer a minúcias, e Rovái se esforçando para não parecer desinteressado no ocorrido. A desgraça foi completa. O namoro de Carlota acabou naquele dia, os pais do namorado também se separaram, a irmãzinha pirou e até hoje vive internada em clínicas psiquiátricas. Os pais de Carlota se mudaram para fazenda no interior.

 

Os estupradores acabaram identificados, dois morreram na guerra do tráfico, outros dois foram assassinados e restava um vivo, o de nome João da Ladeira, que nunca foi encontrado.

 

Demorou em Carlota pedir a Rovái o que queria e o sexto sentido dele já o alertara que ela faria. Aí ela detalhou:

– Foi assim, como num prostíbulo, eu fui a preferida deles, todos os cinco me comeram, pela frente ou por trás, e foi desmaiando de dor e ódio, eles nem tinham acabado, jurei para mim mesma fazer da minha vida qualquer coisa que fosse preciso para me vingar e matar os filhos da puta. Falta um e preciso de você, meu amor, pra me livrar desse carma. Só assim vou me libertar de vez dessa desgraça. Conto contigo.

 

Sinuca de bico para Rovái. Estava se dando bem como nunca com a gata, mas a coisa tinha se complicado. Ela acabara de pedir para ele matar. Por mais que seja canalha, quem mata dificilmente esquece o que é matar, mesmo que nem se lembre de quem matou. Era assim com Rovái, ele nunca conseguia esquecer de cada um dos mais de vinte a quem deu fim. Entendia a vingança como parte do Direito Natural, forma válida de justiça, mas se sentia aposentado, tinha nascido seu primeiro neto, só havia lembranças terríveis da adrenalina de quando era detetive, da fissura emocional do jovem vibrador subindo morro na caça à bandidagem, torturas, chacinas, tudo que viu e viveu e não apagava da memória. Não queria mais voltar a tirar a vida de ninguém.

 

Carlota voltou ao assunto e contou como fez para acabar com dois dos estupradores:

– Paguei alta grana pro policial que fuzilou um deles e o outro foi afogado num rio da Baixada pelo namorado que arranjei pra esse fim.

Rovái disse que tentaria descobrir o paradeiro do tal de Ladeira. Mas ouviu como resposta no mesmo instante:

– Que tentar coisa nenhuma. Acabei de pedir meu presente de Natal. Sei que você sempre foi o maior policial do mundo.

Naquela tarde, ela sim, foi a melhor amante do mundo. E marcou data:

– Estamos no começo de novembro, até dezembro você traz a cabeça dele, meu Papai Noel.

 

Rovái mobilizou toda sua rede de relacionamentos na polícia e no baixo mundo. Polícias civil, militar, carcerária, o pessoal da justiça, seguranças, jornalistas, choferes de táxi, feirantes, camelôs, líderes de favelas, alcagüetes, traficantes, vapozeiros, viciados, gente de todo tipo se pôs a tentar localizar Ladeira. Só na virada do ano, esbarrou com conhecido numa churrascaria, que, por acaso, conhecia o marginal. Soube que ele explorava a distribuição de gás em botijão para o comando do tráfico no Morro do Estado, lá em Niterói, e atuava em seqüestros relâmpagos em todo o outro lado da baía.

 

Carlota não parava de perguntar sobre suas diligências de busca. Cobrou insistentemente o presente de Natal que não recebeu e perturbava com todo tipo de chantagem emocional. Rovái foi engambelando a gata como podia, a informação obtida sobre Ladeira bem guardada. Tinha quase certeza de que morto Ladeira, Carlota daria o caso deles por encerrado.

 

Então Rovái começou com remancheios, meias verdades, meias mentiras e, como Cherazade com o Sultão, conseguiu adiar o desenlace, não por Mil e Uma Noites, mas por quase cem dias. Até que a relação ficou insustentável. A persistência obsessiva de Carlota em matar Ladeira trouxe um bode preto e malcheiroso para se interpor entre eles. Carlota era sofrida demais e Rovái experiente demais, nenhum dos dois se permitiu ser enganado por muito tempo. E o fim teve início quando Carlota deu o cheque-mate:

– Intuição feminina, meu amor. Você já localizou o filho da puta. Não vai me dar a volta, ou cumpre o que prometeu ou some de minha vida.

 

O fim aconteceu quando Rovái cumpriu o prometido e entregou Ladeira para a vingança de Carlota. Apresentado pelos que lhe deviam favores, Rovái ganhou a confiança de Ladeira, que sem razão para desconfiar apareceu para encontro, foi seqüestrado e levado para garagem de ônibus em São Cristóvão. Carlota veio correndo receber de presente a cabeça do bandido, e, como Rovái esperava, ela mesma fez o justiçamento. Bastou pôr a pistola em sua mão e Carlota fuzilou o último que sobrava vivo dos que a tinham estuprado.

 

Rovái teve o cuidado de filmar a cena com câmera escondida. Pensava em usar o registro da morte de Ladeira para chantagear Carlota e mantê-la junto de si. Mas o policial profundo conhecedor da baixeza humana se cegou no amante, agora transformado em perigosa testemunha do crime cometido por ela. Carlota atirou nele também.

 

Enquanto se esvaía em sangue, Rovái pensava que devia ter investigado a morte dos outros dois estupradores e também a de seus matadores. E, se ainda lhe restasse alguma sorte, alguém encontraria a câmera escondida.

 

 

 

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