QUANDO OS LIVROS FORAM À GUERRA

Maria das Grašas Targino *

"Todos sabemos que os livros queimam, mas sabemos também que os livros não podem ser mortos pelo fogo o que é mais importante.  As pessoas morrem, mas os livros nunca morrem. Nenhum homem e nenhuma força podem abolir a memória. Nenhum homem e nenhuma força podem colocar o pensamento num campo de concentração para sempre. Nenhum homem e nenhuma força podem tirar do mundo os livros que encarnam a eterna luta do homem contra a tirania de qualquer tipo. Nessa guerra, sabemos: os livros são armas."
(Presidente Franklin Delano Roosevelt Roosevelt, 32º Presidente dos Estados Unidos da América, de 1933 a 1945, MANNING, 2015, p. 64)

Escritora norte-americana pouco conhecida do público brasileiro e autora de obras de sucesso em seu país de origem, a exemplo de “The myth of Ephraim Tutt” (sem tradução em português) e de artigos veiculados em publicações conhecidas, como “Columbia Journal of Law and Arts”, Molly Guptill Manning merece aplausos por “When books went to war” (2014), tradução de Carlos Szlak para o português sob o título “Quando os livros foram à guerra”, ano 2015. Fazendo jus à formação ampla em História e Direito, com atuação na Procuradoria de Justiça dos Estados Unidos da América, a autora produz um livro surpreendente, embora não seja considerado pela crítica como ficcional e, sim, histórico. Ousamos dizer: um romance deliciosamente histórico, que chegou à lista de best-sellers do New York Times.


Ao tempo em que deixa antever a realidade dos horrores das guerras, com ênfase na Segunda Guerra Mundial, descreve, com vigor e com uma beleza incrível no deslizar das palavras ao longo de suas 272 páginas ilustradas aqui e ali, a inserção crescente do livro desde a entrada dos EUA no referido conflito frente aos alemães. Estes, em atitude oposta, queimaram dezenas de milhares de livros em Berlim e em outras cidades, a tal ponto que, ao final da Segunda Guerra, “[...] mais de 100 milhões de exemplares haviam sido destruídos em toda a Europa pelos nazistas” (MANNING, 2015, p. 16), sem contar os livros escondidos por cidadãos aterrorizados, mas a eles fieis escudeiros como companheiros de jornada e vida. Aqui, lembramos que, paradoxalmente, Adolf Hitler, recorreu com unhas e dentes a “Mein Kampf / Minha luta”, livro de sua autoria em dois volumes, 1925 e 1926, para divulgar ideias antissemitas e que até a contemporaneidade influenciam os neonazistas.


Na ocasião, os EUA investem, com vigor total, em campanhas de arrecadação de doações que envolvem a classe bibliotecária do país e a sociedade civil como um todo, até que chegam à conclusão de que é urgente a edição de volumes mais compactos para facilitar a locomoção. Entra em cena a Armed Services Editions, editora que se especializa em publicar livros adequados a soldados em campos de guerra. Surge o tão propalado e amado “livro de bolso”, menor e mais leve. É ele que faz a festa até o dia de hoje dos que frequentam parques e praças mundo afora ou que utilizam transportes públicos, sobretudo, no continente europeu, com preços aquém dos demais formatos, mesmo em brochura.
A ASE lança, à época, cerca de 1.200 títulos, ou, mais ou menos, 120 milhões de exemplares. Os livros conquistam status de peça fundamental, incorporando-se ao cotidiano: “[...] um marinheiro escreveu que os livros da ASE eram tão populares que um homem parecia estar sem uniforme se um livro não estivesse visível no bolso traseiro da calça” Ou depoimentos plenos de emoção, como o de um fuzileiro naval que diz:

Na manhã seguinte de uma noite particularmente difícil, de pesado fogo de morteiro do inimigo, estava caminhando quando vi alguns dos mortos sendo carregados [...] na parte traseira de diversos caminhões [...] Eu queria ver se reconhecia algum [deles] [...] Havia meia dúzia [...], alguns deitados de costas, e outros de bruços. Um destes era um soldado jovem, loiro, que tinha chegado recentemente [...] orgulhoso de finalmente ser um fuzileiro titular no front de batalha. Quando o observei, vi algo que acho que jamais esquecerei. Saindo pelo bolso de trás da calça, havia uma edição amarela de um livro que ele, evidentemente, estivera lendo em seus momentos de folga [...] (MANNING, 2015, p. 128).  
 
Os soldados liam em qualquer lugar. Nos desembarques. Nas trincheiras. Nos hospitais. Em caminhadas infernais. Em meio aos lamaçais. Em missões de bombardeio. A bordo de navios. Numa prova inequívoca do que Manning chama atenção em diferentes trechos – as guerras são ganhas na mente antes de serem ganhas nos campos de batalha – como a autora acrescenta,

[...] não era uma visão incomum a de homens em longas filas para pegar comida lendo uma das edições. Eles levavam os livros para o cinema e liam antes do início da sessão; liam nas folgas; liam para aproveitar os poucos minutos antes do toque de recolher; liam enquanto esperavam na enfermaria para tratamento; ou liam na barbearia [...] (2015, p. 129).

De fato, “Quando os livros foram à guerra”, responsabilidade editorial da Casa da Palavra, traz à tona uma faceta da guerra inimaginada por nós até então – a força do livro em meio às guerras.  É surpreendente ainda constatar, como o faz a autora, que a leitura transforma, posteriormente, alguns combatentes em escritores. Ademais, por solidão ou por encantamento, muitos deles passam a alimentar o hábito de escrever aos autores, creditando às suas obras alento para sobreviver às batalhas e à solidão, com destaque para Betty Smith, a autora mais popular da Segunda Guerra Mundial com a obra “A tree grows in Brooklin”, porque para os soldados o livro retratava a vida de cada um deles. Também o fluxo intenso de então consegue eternizar títulos até então obscuros como “O grande Gatsby”, que conquista fama e respeito. Escrito por F. Scott Fitzgerald, em 1925, representa crítica ao denominado “sonho americano” e ganha sucessivas adaptações para o cinema. A primeira, de 1926; a última, 2013.


Verdade que, em alguns momentos, “Quando os livros foram à guerra” parece se estender em excesso e se perder em descrições detalhadas demais, como quando a jovem norte-americana arrola os primeiros títulos da Armed Services Editions. Porém, nada compromete de forma irremediável sua beleza e originalidade. Afinal, esta “é a história de canetas que foram tão poderosas quanto baionetas!” (MANNING, 2015, p. 13). 


* Sobre Maria das Graças Targino           
Doutora em Ciência da Informação e jornalista, finalizou pós-doutorado junto ao Instituto Interuniversitario de Iberoamérica da Universidad de Salamanca. Amante da literatura, tem publicado crônicas reunidas em livros “Palavra de honra: palavra de graça”, 2008; “Ideias em retalhos: sem rodeios nem atalhos”, 2015. Destaque para o Jornalismo cidadão..., lançado pela UNESCO. Colunista semanal do diário O Dia, Teresina – PI.

 

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