Sobre Idéias em Retalhos: sem rodeios nem atalhos

 

 

MARIA DAS GRAÇAS TARGINO E VIRTUDE

 

Antonio Miranda *

 

Todo registro do conhecimento humano, seja um romance, um diário, uma crônica ou até mesmo um artigo científico, por mais objetivo que se instaure em sua “arquitextura”, sempre tem um sentido autobiográfico, vaticinou o grande escritor argentino Manuel Mujica Láinez, autor do célebre romance Bomarzo, depois transformado em ópera com a contribuição do músico Alberto Ginastera. Há quem disfarce e se apresente evitando a evidência do “eu”, como pretenderam os poetas concretistas, mas os críticos mais perscrutadores já detectaram diferenças de estilo nas obras de Haroldo de Campos, do irmão Augusto, de Décio Pignatari e seguidores, revelando alguma individualidade... Oswald de Andrade dizia ser 300... E tem quem prefira heterônimos para multiplicar-se, como fez Fernando Pessoa.

 

Maria das Graças Targino aponta em todas as direções, mas identificando-se como observadora de seu espaço e tempo, compartilhando sua visão da realidade e opinando sobre questões contemporâneas desde uma perspectiva muito pessoal e militante. Fácil no discurso, sem ser jamais superficial: uma unidade de pensamento numa diversidade de temas, graças ao seu espírito investigativo e à sua capacidade de comunicadora por ofício e opção de vida, confessando um “interesse precípuo e profundo em seguir o curso do mundo.”

 

Eu a conheci na liderança da Biblioteca Central da Universidade Federal do Piauí no início de sua carreira profissional e sigo seus passos a distância sempre com interesse, admirador de sua versatilidade e criatividade. Dá sinais de vida de várias partes do mundo como professora e conferencista e também como viandante atenta, deixando textos em jornais, em revistas científicas, em publicações virtuais e em mensagens instigantes. A presente reunião de textos revela as mais recentes manifestações literárias que tecem uma amostra significativa de suas inquietações, pontos de vista e reflexões (pessoais e sociais), num caleidoscópio expressivo, fluido e inteligente. Ler sua obra é descobrir sua humanidade comprometida e solidária.

 

 

* Poeta e Professor Emérito da Universidade de Brasília.

 

 

 

A SUSTENTÁVEL LEVEZA DE MARIA DAS GRAÇAS TARGINO

 

 

José Nêumanne Pinto *

 

Maria das Graças Targino é uma respeitável professora de Comunicação e os textos que compõem esta coletânea se sustentam sobre pilares do templo de sólida carreira acadêmica. Os campos de interesse devassados por seus olhos e analisados por seu cérebro são de uma variedade incrível: paisagens de viagens; tipos humanos cuja experiência de vida lhe chamou atenção; comentários nas redes sociais do computador; a própria vocação pela docência; e a cobrança da decência, entre outros.

 

Mais do que a base do conhecimento, que aqui merece ser chamado de erudição, contudo, o fio condutor desta narrativa, que não é fictícia, mas documental, é tecido com elegância e leveza que denotam a delicadeza e a familiaridade com que a autora aborda o exercício da escrita. As imagens que ela reproduz com precisão e cores de retratista (e não é à toa que o fotógrafo Sebastião Salgado é um de seus ícones) e os conceitos que ela desfia ao longo do novelo são conduzidos de tal forma no navegar pelos mares de sua palavra que o leitor se enfronha (e aqui a palavra ganha força, porque definitivamente a leitura leva a uma intimidade de lençóis, fronhas e edredom sem contato físico, mas de uma conversa a meio tom e ao pé do fogo) e participa da condução do argumento como se fosse seu cúmplice. Temas batidos como a prostituição, controversos como a relação mãe-filho(a) ou duros de suportar como o envelhecimento físico ganham novos tons a partir de pinceladas únicas ou reiteradas.

 

Este livro é um caleidoscópio de imagens, cores, pensamentos e emoções, mas também tem uma unidade singular, mal disfarçando a construção sólida, embora leve, de um perfil variegado, embora também de impressionante nitidez. Infelizmente para um fanático de futebol, como este seu leitor impenitente, Graça não se dignou olhar a bola branca rolar sobre o gramado verde. Se o fizesse, talvez lhe fosse dado perceber que, naquele jogo de tensões e relaxamentos, houve um craque cujo estilo se assemelha ao da escrita dela. E este foi um jogador que João Cabral de Melo Neto escalou como tema: Ademir da Guia, o Divino. Como o jeito do meia da Academia do futebol no Palmeiras, a escrita de Graça padece de uma falsa lerdeza: sem correr, sem perder o fôlego, ela chega sempre à palavra exata e atrás dela chegam outras que a completam. Se alguma vez, o poeta pernambucano, em cuja Recife a autora viveu sua adolescência, a tivesse lido, teria se lembrado do ritmo de suas frases ao descrever o jogo do ídolo improvável: “Ritmo morno, de andar na areia, / de água doente de alagados, / entorpecendo e então atando // o mais irrequieto adversário”. Ritmo ditado, escreveria Graça Targino, pelo destino da finitude do tempo infinito: “Se houvera tempo, talvez não carregássemos conosco o peso dos mortos”. Amém.

 

 

* Jornalista, poeta e escritor

 

 

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