Carlos Alberto Jales: 5 poemas

 

 

Quem lembrará do poema?

 

( Para Celso Japiassu, poeta)

 

Quem lembrará do poema

Quando o poeta partir?

Os ventos?

As luas minguantes?

As estrelas?

O silêncio encarcerado?

Os germes DA solidão?

 

 

Quem lembrará do poema,

Quando OS livros forem

Queimados?

 

As longas caminhadas

Das formigas?

As sílabas recitadas por

crianças?

Uma canção se alongando ,

Se alongando?

 

Quem lembrará do poema

Quando tudo escurecer?

Ó tardes antigas e estivais,

estarão em tuas almas OS

Poemas esquecidos?

 

Na embriaguez da memória

Na embriaguês da memória.

A música, o baile, os bancos

quebrados nas praças.

O dia não nasce mais claro,

os pássaros não acordam

mais alegres, um silêncio

fundo envolve o mundo,

as sombras moram

nos antigos quintais.

 

Na embriaguez da memória.

A menina e suas tranças, a

Limpidez do céu depois da

chuva, o latido dos cães nas

calçadas e nas madrugadas

de agosto a espera dos dias

agônicos

 

Múltiplos exílios já vivi

Múltiplos exílios já vivi.

Sobre nuvens e ventos

instalava minha morada.

 

Nas frias madrugadas

roubava o sonho dos

anjos e amanhecia

órfão.

 

Em portos distantes

esperava navios que

nunca chagavam e o

mar estava sempre lá,

indevassável.

 

Em países sem brilho,

uivos de cães me des-

pertavam das fantasias

e em ásperos caminhos

dissipava minhas dúvidas.

 

Múltiplos exílios já vivi.

E de cada um retornava

sempre, fazendo a cada

volta um inventário de

todos os fracassos.

 

O poeta deixa o poema inacabado

O poeta deixa o

poema inacabado.

 

O poema ultrapassa

a fronteira do tempo

e não se conclui.

 

Tudo acontece como

se a vida não estivesse

pronta.

 

 

As uvas não amadurecem,

a levedura não fermenta

o pão, as presenças se des-

fazem na encruzilhada das

rotas.

 

O poeta deixa o poema

inacabado. O poema se

equivoca, desaparece e

se recria nas pálpebras

do tempo.

 

Nos córregos da memória navego

Nos córregos da memória

navego. Há um barco, um

menino e um sonho.Há me-

ninas em roupas dominguei-

ras, há uma missa que não

termina nunca,mas as bolas

de gude esperam o menino

para um eterno jogo.

 

Nos córregos da memória

navego.O menino se perde,

seu barco escorrega, os tron-

cos das árvores o prendem,

os homens passam ao largo,

indiferentes, mas o poema os

resgata e seus rostos aparecem

macerados em velhos espelhos.

 

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