Três novíssimos poemas de Carlos Alberto Jales

 

 

Dúvida

 

Não sei se meus pensamentos

são meus.

Lí tantos filósofos loucos,

tantos poetas infelizes,

tantos livros fantasiados de

sabedoria que não sei mais

se sou eu.

 

Regurgitam em minha cabeça

sentenças insanas,

frases sem importância com

aparência de verdades.

Definitivamente concluo:

não sei se meus pensamentos

são meus.

Pior: não sei nem mesmo se sou

eu que escrevo este poema disfarçado.

 

 

Oferenda

 

Tudo te ofereci, poesia.

O silêncio das madrugadas,

o lume incandescente das estrelas

 

As coisas mais queridas

te dei: as vozes dos que

partiram e as vozes dos

que chegaram.

 

Os gestos dilacerados

embrulhei num pedaço

de sonho e te ofereci.

 

Os farrapos que vestia,

a comida que mendigava,

a falsa sensação de existir

te dei como presente.

 

E agora, poesia, exausto

e de pé num campo claro,

espero que me estendas

as mãos e me redimas

de todas as ilusões.

 

 

Quando o sol adoece

 

Quando o sol adoece,

os lobos se recolhem ao covil,

os pássaros esquecem a voz,

milagres carregam o ar,

rios reverberam na solidão,

homens abandonam seus dogmas,

em cada fala há um grito de assombração.

 

Quando o sol adoece,

os presunçosos se humilham até o chão,

os campos floridos jazem sem perdão,

pressente-se no ar o gosto dos retornos.

 

Quando o sol adoece,

todas as cabeças se curvam,

as promessas se renovam,

o azul do céu se transforma em ouro,

e então os bichos,

os homens e as coisas se reconhecem

e penitentes,

aguardam o milagre da vida.

 

 

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