Tempo Anônimo e outros 4 poemas

 

Carlos Alberto Jales

Tempo Anônimo

Num tempo anônimo

encontro a vida

Um menino.

Um muro.

Uma casa e suas janelas.

Um por de sol ferindo a tarde

 

Tudo é agora nesse

tempo anônimo.

Tudo é antigo nesse

tempo anônimo

 

As utopias rastejantes.

O sangue que teima em latejar.

O alabastro que reveste os olhos.

As luas deflagradas em noite umedecidas

 

Num tempo anônimo

encontro a vida

 

E recomeço a procura dos dias impossíveis

e seus escombros

 

À minha porta

À minha porta correm velhos rios

de águas soluçantes

Trazem da vida os sonhos esmagados e os

trigais maturados em campos crepusculares

 

Que querem de mim estas águas soluçantes

que correm à minha porta?

 

Que esperam de mim estes trigais,

que não matam minha fome e no

entanto imploram meu perdão?

 

De que é feito este silêncio que absolve meus dias

enquanto a limpidez dos versos me adormece?

 

À minha porta correm velhos rios

de águas soluçantes

 

Corro na sua frente e nas minhas pálpebras pesam

cada vez mais as marcas das esgarçadas manhãs

 

ANTIGAMENTE

Antigamente havia o silêncio:

límpido,

incandescente,

de fogo,

suavizando os passos,

reunindo os mitos,

trancafiando a voz.

 

Sempre o silencio,

antigamente o silêncio

 

Os homens o devoravam,

os animais o respeitavam

O silêncio era antigo num mundo novo,

a cada instante se ouvia a sua voz.

 

Extinto o silêncio,

restaram a palavra e suas armadilhas

 

Nesta velha casa

 

Nesta velha casa manchada de ausência,

o vento é um mensageiro que nada diz

 

Nas paredes, antigos retratos mostram homens e mulheres pensando no futuro,

mas seus olhos pedem socorro aos que ficaram.

Entenderiam os pôsteros este olhar?

 

As portas dos quartos guardam segredos invioláveis,

promessas nunca cumpridas,

anseios soterrados,

acordes de bandolins em noites sufocadas

 

Neta velha casa manchada de ausências,

mendigo o perdão das vilanias

e percorro seus corredores,

ungido pela contemplação de um

tempo pretérito e suas mágoas

 

Outrora

Outrora era o homem

e seus delírios

 

Outrora eram os pássaros e

seus voos indecisos

 

Outrora era o sonho que

nunca amanhecia

 

Outrora eram os templos que

se erguiam na neblina

 

Outrora era o secreto passado

que nos atormentava

 

Outrora era uma chuva bravia

que inundava a noite

 

Otrora era um rosto sereno

que amava os espelhos

 

Outrora era um azul transformado em sarça,

ventos e solidão

 

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