Pequenos auto-retratos

 

Carlos Alberto Jales

 

Neste silêncio noturno há um menino antigo.

Seus olhos espreitam as árvores.

Suas mãos constroem um tosco palácio.

Em cada canto um mito acorda seu desespero.

 

De fontes devastadas pelos ventos se ouvem

vozes e seus soluços.

Nos jardins há fantasmas sardônicos

que não esperam o nascer do dia.

Um menino antigo se esconde na memória.

 

O resto do mundo nada ensina.

A tarde se ilude e teima em não morrer.

De quem serão os passos furtivos nos corredores?

Na velha casa um menino antigo espera

o pão de cada dia.

 

Nos cânticos prematuros há gritos entrelaçados

de homens e anjos.

A dor do tempo não os detém.

Mas um menino antigo sabe que a dor não foge pelos dedos.

 

Nada sabemos.

O mundo não se revela.

Em cada porta, há uma fresta oculta.

E um menino antigo que constrói

a cada dia uma ode à solidão

 

 

(voltar ao topo)