Noites iguais e outros poemas

 

Carlos Alberto Jales

Noites iguais

As noites eram todas iguais:

homens nas praças

vozes roucas das meninas

olhar severo de nossos pais

suspiros nas varandas

 

As noites eram todas iguais:

havia a esperança de uma nova manhã

o desespero de que a comida faltasse na mesa

a chegada prematura da lua

 

As noites eram todas iguais:

porque as horas eram preguiçosas

porque as águas dos rios não sangravam

porque os sinos das igrejas ensinavam os mesmos sons

 

E estávamos ali,

parados no território dos delírios,

inebriados pela voz dos ventos,

cansados de esperar o futuro

 

Que chegava,

 

apagando os rastros antigos,

dissolvendo os sonhos e nos convidando

aos abismos

 

Palavra

A palavra é o primordial milagre,

o grito primevo ecoando no paraíso,

o balbucio do primeiro anjo

 

A palavra é antigo espanto,

a voz das velhíssimas aflições,

o riso envergonhado de um homem nu,

a face oculta de uma fera noturna

 

A palavra é a ambição inicial,

a metafísica de uma dor real,

as mãos e os pés de uma estátua de sal,

o mistério desnudado pelo vento

 

A palavra é uma criança desorientada pela ausência dos pais,

uma fotografia desbotada pelo silêncio e solidão,

uma ave que não conheceu o vôo

 

A palavra é o primordial milagre,

o brado dos revoltados e a mansidão profética dos bois

 

Poema

Irmão: Deixa este país estranho,

onde o leite e o mel secaram

há muito tempo

 

Deixa esta terra onde um rebanho

sonolento não reconhece a noite

 

Deixa este sítio em que pássaros ruminam

no sonho e não sabem onde estão

 

Abandona esta colina em que mitos alados

vagueiam desesperados

 

Foge deste chão e procura os vastos campos

onde operários esperam o tempo de solidão

 

Procura esta outra pátria e poderás afinal

cultivar teu límpido silêncio

 

 

Poema tardio

Eu nunca escrevi um poema

para meu pai

 

Minha espessa covardia ficou sempre

escondida nas dobras do querer

 

Esqueci os sinais que tocavam à minha porta,

respirava de encontro aos ventos na minha janela,

desconhecia os sonhos que me atormentavam

 

Caminhei em meio a lagos e cordilheiras,

perdoei os dias longínquos de todos os adeuses,

as ausências morriam ao cair do sol

 

Eu nunca escrevi um poema

para meu pai

 

Do mar chegavam aragens antigas trazendo sua voz,

sentia seus pés maturando o vinho,

via os velhos amigos conversando baixinho,

em seus olhos moravam paisagens apenas lembradas

 

Eu nunca escrevi um

poema para meu pai

 

Mas sei que este tempo chegou,

o tempo claro de todas as lembranças,

o tempo redimido de todas as lições

 

Elegia da Chegada

(para Miminha com muita ternura)

 

Aos 80, teus olhos continuam

a decifrar o mundo.

Há paisagens submersas,

há montanhas escondidas,

há noites que caminham à procura dos dias,

há crianças brincando ao redor de uma fogueira

 

Aos 80, teus olhos pintam

quadros ancestrais:

visões alucinadas pelo fogo,

palavras transmudadas pelos ritos noturnos,

rostos tecidos( e distorcidos) pelos espelhos

 

Aos 80, teus olhos circunavegam

o mundo.

E encontram em cada paragem

veleiros atardados pelos ventos,

sincrônicos altares em antigas catedrais,

e em teu peito miríades de sarças ardem

celebrando tua vida e teus vastos campos

semeados

 

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