Poema antigo e outros poemas

 

 

Carlos Alberto Jales

 

 

 

Poema antigo

Envelheço agarrado

à minha infância

 

Minha infância

envelhece comigo

 

Deslizamos pelas calçadas,

experimentamos as mesmas

saudades das meninas e suas

eternas promessas

 

Festejamos os mesmos santos,

escutamos a chuva caindo na memória,

vislumbramos uma lua sincera pousando

nos trigais

 

Envelheço agarrado à minha

infância

 

Minha infância envelhece

comigo

 

Siameses, embalamos a mesma insônia,

nossos relógios nos convidam às excursões,

aos túmulos esculpidos pelos ventos

 

E pelos caminhos, nossas sombras

seguem jungidas pelo silêncio primitivo,

embriagadas pelo urgente apelo dos dias

 

Na memória dos galos

 

Na memória dos galos

seu canto é um leão

rugindo para a noite

 

Na memória dos galos

os pássaros insones se

aninham nas sarças da

noite

 

Na memória dos galos

as almas gêmeas se

encontram e se dispersam

na noite

 

Na memória dos galos

o vinho é um velho mágico

embebedando a noite

 

Na memória dos galos

o sono é um arlequim

e sua troupe cavalgando

a noite

 

Na memória dos galos

a poesia é uma dama

dilacerada pelos gritos

da noite

 

Na memória dos galos

os homens traçam seu

destino para enfim

mergulhar nos abismos

da noite

 

Não gosto

 

Não. Não gosto dos

dias esplendorosos

 

A luz solar me sufoca,

destrói minha alegria,

minha inspiração se desfaz

aos raios impertinentes

 

Os dias iluminados

me transformam em conchas,

apagam as marcas de rios

estranhos, me fazem náufragos

num mar que não conheci

 

Não . Não gosto dos dias

esplendorosos

 

A luz jorra das minhas veias

como se fossem pássaros

maltratados pela noite, em

cada esquina vejo esculpida

a cabeça de um cavalo de fogo

 

Prefiro as sombras dos dias enevoados.

Com eles, minha alma caminha por

montanhas isoladas, meus olhos pastoreiam

velhas mansardas e em antigos reinos todos

os ritmos são meus vassalos

 

Poesia é vida

 

“A matéria é forte e absoluta. Sem ela não há poesia”

(Murilo Mendes)

 

Tudo é matéria de poesia:

este menino levado pela mão

o riso que não consegue florescer

o esquecimento que os vivos devotam

aos mortos

 

Tudo é matéria de poesia:

o medo que tritura os homens

os punhais que ferem as palavras

as horas prediletas que saciam as veias

 

Tudo é matéria de poesia:

as noites disfarçadas

os dias atropelados

a metáfora que sobrevive

na memória do poema

 

Tempo pretérito

 

Num tempo pretérito

o poeta vive

 

Caminha com Proust

“à la recherche du temps perdu”.

No rio de Heráclito navega

sendo o mesmo e sendo outro,

seu futuro carrega seu passado,

em cada canto escuta vozes machucadas,

passos atravessando lembranças,

nos jardins ausências se calam.

 

Num tempo pretérito

o poeta vive.

 

Em seus olhos a paisagem escorre,

límpida e alada,

embriagada e sólida,

paisagem –pássaros,

paisagem-flores adubadas pelo

húmus elegíaco da memória

 

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