Na longínqua infância e outros quatro poemas

 

Carlos Alberto Jales

 

 

Na longínqua infância

 

 

Na longínqua infância reencon-

tro minha alma

 

Ela não me reconhece e como um

saltimbanco dança diante de mim

como se eu fosse um rei

 

Seus olhos são cambiantes como a

lua, seus pés parecem operários nu-

ma vinha sem lagar, em suas mãos

há vestígios de tormento e solidão

 

Na longínqua infância reencontro minha

alma. Ela não me reconhece, mas cami-

nhamos como gêmeos, olhos fixados num

deserto inatingível

 

 

 

Álibi

 

A vida é um álibi

dos espelhos

 

A cada olhar mul-

tiplica a dor

 

A cada dia rouba

a cena sem nada

devolver

 

Em cada esquina

os punhais nos

espreitam

 

Se paramos os cães

vêem farejar nosso

rosto

 

Se não paramos, o

sol atrapalha nossos

pés e embaralha nossas

mãos

 

Se recuamos, os abismos

não nos recebem

 

Se avançamos, os caminhos

não têm futuro

Sem desculpas nem remorsos

a vida é um álibi dos espelhos

 

 

 

Amo o lado obscuro das coisas

 

Amo o lado obscuro

das coisas.

A claridade fere meus

olhos. Por isto não vejo

o contorno dos caminhos,

nem consigo observar a

chegada das aves a seus

abrigos

 

A claridade me é intolerá-

vel.Lembra-me esses an-

tigos salões com músicas

e pessoas sorrindo quando

queriam chorar.

 

Amo o lado obscuro das

coisas: a ternura das pe-

dras, a vida dos espinhos

que vegetam nos desertos,

o olhar melancólico de uma

criança.

 

O lado obscuro das coisas me

comove e acalenta meus sonhos

mais desvairados. O lado obscuro

das coisas me redime de todas as

covardias

 

 

 

No labirinto da memória

 

No labirinto da memória,

o poema caminha.

Aqui recolhe uma velha casa

plantada numa colina, ali seus

ouvidos escutam o fluir de um

regato no meio da folhagem.

Mas adiante, seus olhos se

refletem nos espelhos dos

campos e fantasmas rondam

o corpo da noite

 

No labirinto da memória,

o poema caminha.

Desamparado, percorre len

tamente um tempo de esque-

cimento, embriagado por águas

subterrâneas que o afogam

 

No labirinto da memória,

o poema caminha irresoluto

e insatisfeito com a fuga que

não empreende, amedrontado

com os abutres e relâmpagos

sobre sua cabeça, dilacerado

pelo riso sardônico dos demo-

nios da meia noite

 

 

 

Depois virão meus olhos

 

Depois virão meus olhos

ferindo todas as paisagens

 

Depois minha boca não

dirá as palavras dissolu-

tas que jamais esquece-

remos

 

Depois minhas mãos serão

pássaros magoados à procu-

ra dos abrigos

 

Depois meus pés desconhece-

rão os caminhos e entorpeci-

dos se perderão na noite

 

Depois meu corpo será o que

sempre foi: um templo aban-

donado, um pátio onde habi-

tam memórias transidas de frio,

êxtases e colheitas tardias

 

 

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