Os mistérios da comunicação. Por Claudio José Lopes Rodrigues.

Odylo, uma poesia. Por Celso Japiassu.

Discurso de Vargas Llosa no Prêmio Nobel. de Literatura.

Novos poemas de Carlos Alberto Jales.

Poemas de Sylvia Beirute.

A tarde, no futuro. De Celso Japiassu.

5 poemas de Carlos Alberto Jales.

A silhueta. De Celso Japiassu.

Réquiem sem música. De Edna St. Vincent Millay.

Retorno. De Celso Japiassu.

Um traço desenhado pelo vento. De Celso Japiassu.

O morto. Por Carlos Alberto Jales.

Sonha, de Celso Japiassu.

A crônica nossa de cada dia. Por Maria das Graças Targino.

Vidas, de Celso Japiassu.

Copacabana: poemas reunidos. De Celso Japiassu.

A menina que roubava livos. Por Maria das Graças Targino.

Dezessete Poemas Noturnos. Celso Japiassu

20 contos curtos de Paulo Maldonado.

O Itinerário dos Emigrantes, de CelsoJapiassu.

4 Poemas de Carlos Alberto Jales.

O Último Número, de Celso Japiassu.

Um poema de Rodrigo Souza Leão: Clarice Chopin.

Infância. De Paulo Mendes Campos.

Talento não é direito divino. Por Aline Santos.

Quatro novos poemas de Carlos Alberto Jales.

A morte de um pensador. Por Carlos Alberto Jales.

Moacir Japiassu: entrevista sobre o novo livro.

Quem será o tal Nonô? Crônica do novo livro de Moacir Japiassu.

As Pelejas de Ojuara, entrevista com Nei Leandro de Castro.

Os Horrores do Mundo. Por Clemente Rosas Ribeiro.

Alguns poemas de Carlos Alberto Jales.

Moacir Japiassu fala sobre seu novo livro: Quando Alegre Partiste.

O Evangelho segundo Jesus Cristo. Por Maria das Graças Targino.

Beócio, mentecapto e troglodita. Por Cláudio José Lopes Rodrigues.

Memórias do nosso tempo: De poetas, estrelas e flores. Por Clemente Rosas.

Dois contos do carnaval. Ângela Belmiro.

Obrigado, Quintanilha. Conto de Paulo Maldonado.

Um poema de Antonio Cisneros.

Cristo diante de Pilatos. Por Eça de Queiroz.

Poemas traduzidos: poetas de todos os tempos e lugares.

O Silêncio do Delator, de José Nêumanne.

As Dunas Vermelhas, de Nei Leandro de Castro. Resenha de Moacy Cirne.

Três poetas, o amor e o tempo.

Equívocos literários: poemas falsos de Brecht, Borges e Garcia Marquez.

Seis novos poemas de Nei Leandro de Castro.

Especial para Uma Coisa e Outra:Borges e seus mistérios, ensaio de José Nêumanne Pinto.

Como uivar para a lua sem a menor possibilidade de estrelas. Antonio Torres.

Alguns poemas de Fabricio Carpinejar.

Cinco céus. Franklin Alves.

Franklin Alves. Novos poemas.

As supresas do novo romance de Moacir Japiassu, por Nei Duclós.

Ode ao Fígado, de Pablo Neruda.

Entrevista: Moacir Japiassu fala sobre seu novo livro.

A biblioteca da literatura mundial.

O Parque, de Carlos Tavares.

Corpo. Conto de Rui Alão.

Notas de um antropólogo cansado, por Rui Alão.

Voltas em volta dos contratos de amor, de Pedro Galvão.

Corpo invisível, poema de Carlos Tavares.

Quando a cidade faz esquina com a escrita. Antonio Torres.

Dois contos de Paulo Maldonado.

Prelúdio a Conessa. Conto inédito de Carlos Tavares

Outros poemas de Marilda Soares.

O Farol e a Ilha, conto inédito de Carlos Tavares.

Poemas inéditos de Marilda Soares.

Adagio Negro, um conto de Carlos Tavares.

Marcos de Castro e A Santa do Cabaré.

Almandrade: um poema visual e quatro poemas escritos.

Literatura polonesa: um classico de Boleslaw Prus, numa tradução de Ruy Bello.

Em tradução de Sebastião Uchoa Leite, um velho (novo) poema de François Villon.

O que fazer diante de tantos livros que teríamos de ler. Gabriel Zaid.

Poemas de Moacy Cirne, poeta e cangaceiro.

Dois contos do poeta R. Leontino Filho.

Leontino Filho: Cinco Poemas.

Erotismo e paixão: Cinco Sentidos, conto de Helena Barreto.

A Retratista, conto de Bill Falcão.

Poemas de Silvana Guimarães.

A orelha de A Santa do Cabaré, por Fábio Lucas.

Fotopoemas de Niterói. Luís Sérgio dos Santos.

O Olhar de Borges, Livro dos Amores. Poemas de Jaime Vaz Brasil.

Poemas de Eric Ponty.

Poemas de Ana Merij.

A Absolvição das Formigas. Eduardo Ramos, à moda de José Saramago .

Quanta confusão fazem em teu nome, poesia. Paulo Maldonado.

Na espera do amanhã, por Affonso Romano de Sant'Anna

O pior livro de todos os tempos, por Sergio Jedi

Três poetas de língua espanhola. Traduções e notas de Anibal Beça.

Anibal Beça, poeta amazônico: apresentação e a Suíte para os Habitantes da Noite.

Autobiografia da minha morte, por Jorge Vismara.

Os homens amam a guerra. Belíssimo poema de Affonso Romano
de Sant'Anna com traduções de
Fred Ellison e Nahuel Santana.

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A CRÔNICA NOSSA DE CADA DIA

 

Maria das Graças TARGINO

 

Há literatura em qualquer forma de vida.

Para o jornalismo, então, a única alternativa é a ressurreição.

Precisamos arrancá-lo da tumba.

(Antonio Pastoriza)

 

PREÂMBULO

 

Inevitavelmente, como não pode deixar de ser, o título reflete a intenção de quem fala, seja num texto escrito de qualquer natureza, seja num texto marcadamente oral, como uma palestra. De fato, A crônica nossa de cada dia é, essencialmente, narrativa de nossa experiência como cronista. Paradoxalmente, não me julgo literato. Não sou cronista “de carteirinha” . Tornei-me cronista ou narradora ou qualquer coisa que o valha, a cada dia, impulsionada pelo desejo quase insano de jogar no papel minhas alegrias ou minhas angústias, minhas inquietudes e minhas incertezas, diante de fatos corriqueiros que fazem a vida de nossa gente e / ou de outros povos, a quem tive a chance de conhecer e compartilhar momentos de vida. É o caso dos franceses, cubanos, indianos, nepaleses e outros mais.

 

Aliás, este é uma resposta recorrente a quem me pergunta como iniciei a escrever: perdi meu pai ainda criança. Dentre todos os acontecimentos que marcaram minha infância e adolescência, esta foi a dor maior. Passei a vida inteira buscando “pai” , querendo colo, um desassossego só... Dele, do meu pai, herdei o temperamento irrequieto, a vontade de escrever, a compulsão de acreditar nas pessoas, na vida, nos sonhos, numa busca quase obsessiva de autenticidade e verdade. E, obviamente, essa falta de sossego que está enraizada em mim, me faz exaltar a beleza ou a feiúra da vida, onde se cruzam e entrecruzam pessoas boas ou más, mas, sempre e irremediavelmente, pessoas falhas, como somos todos nós. Afinal, para onde quer que sigamos ou onde quer que estejamos, carregamos conosco nossos anjos e demônios, que se digladiam e, vez por outra, confraternizam em orgias repletas de cumplicidade e de risos às nossas costas.

 

Assim, aos que me perguntam quando efetivamente iniciei a escrever, volto atrás na linha mágica e, ao mesmo tempo, cruel do tempo. O tempo é implacavelmente irreversível, E lembro, então, do que tão sabiamente Gabriel García Márquez diz, no preâmbulo do livro Viver para contar , “A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la.” Pois bem, me enxergo, rascunhando ou esboçando anotações em busca de imprimir feição definitiva a meus textos de menina e, logo depois, de adolescente, guardados, como não poderia deixar de ser, a sete chaves, ou melhor, a uma única, pequenina e frágil chave de um diário cor-de-rosa.

 

Para tanto, além de observar o dia-a-dia de uma cidade pacata, como minha João Pessoa, cidade natal (que não esconde ciúme quase doentio de Teresina), ou, logo depois, de uma cidade cosmopolita, como Recife, sempre brinquei de professora. Cedo, descobri ser este o caminho para desvendar com mais propriedade o viver. Como os pensamentos são sombras que vêm e que passam, às vezes, me pego a imaginar que nasci professora : revejo a sala grande de uma casa grande , onde aos meus irmãos cabia a função de atuar como endiabrados alunos. Quando resistiam, restavam minhas bonecas, de verdade ou de fantasia.

 

Passados os anos, bonecas transmutadas em filhos, continuei a escrever. Os textos jornalísticos ou amenos, à época, rareiam, perdidos entre textos técnicos e / ou científicos, resultado de minha função como acadêmica, ainda muito jovem, aos 22 anos. Vez por outra, alguma idéia largada num papel, manuscrito, publicado aqui e ali, até que, no ano de 2003, a formalização de meu encargo como colunista semanal, num portal, gerenciado localmente. Depois, a receptividade de outro portal, umacoisaeoutra.com.br, do publicitário, escritor e poeta carioca, Celso Japiassu.

 

Nesse meio tempo, convite de um jornal impresso local, onde escrevo a cada quarta-feira, dentro dos preceitos do que se chama em jornalismo, coluna de opinião. A maior vantagem: liberdade total e irrestrita de escolher o tema que mais me comove. Falo de tudo ou quase tudo: eutanásia e distanásia; violência urbana e terrorismo; guerras e dor; aborto e dúvidas (muitas dúvidas!); ternura e amor; amizade e traição; viver e morrer; envelhecer e rejuvenescer; sanidade (?) e loucura; solidão a sós e em dose dupla; ser mulher e ser mãe; síndromes patológicas e dor; ensino e educação; imigração e emigração; eleições e desilusão etc.etc.

 

Em meio a tudo isto, a volta à sala de aula para conseguir meu diploma, de vez e de fato, em jornalismo, curso em que me graduei, ainda em 2006, independente de doutoramento antes concluído. Novamente, meu pai “no pedaço” . Ele, jornalista sem diploma. Ele, sem qualquer instrução formal. Ele, sem jardim de infância. Ele, sem bancos escolares. Ele, sem farda engalanada ou lanches achocolatados. Sob outro ângulo ou na outra margem, ele, com inteligência, persistência, obstinação e imenso amor às letras. Letras que se tornam frases. Frases que se tornam textos. Textos que se tornam livros, matérias jornalísticas etc. Meu pai, autodidata, numa época em que vocação era magia e encantamento, tornou-se, em curto espaço de tempo, escritor, ghost-writer de políticos paraibanos e, sobretudo, jornalista, numa vida curta, mas vivida com intensidade, fervor e furor. Meu diploma de jornalista é, pois, oferenda a meu pai.

 

Tudo isto, até então, para reiterar que este não é um momento de discussão teórica sobre crônica, como gênero literário. Até porque, como admitem alguns teóricos, a exemplo do português Vítor M. de A. Silva (autor de um dos mais completos compêndios sobre o tema, Teoria da literatura , cuja oitava edição data de 1988), os gêneros literários constituem, sempre, tema polêmico e nunca consensual. Desde a época do filósofo grego Platão, anos antes de Cristo (429- 347 a .C.), ele e seus seguidores, em meio à teoria das idéias e à preocupação com os temas éticos, enfrentaram a duras penas a categorização dos escritos. Até os dias de hoje, as dúvidas persistem. Discute-se, nas academias de letras e nos circuitos acadêmicos, mundo afora, a concepção estrita do termo – crônica. Não há respostas prontas. Não há respostas unívocas.

 

E há mais, em determinado momento, quando as pessoas passaram a me questionar – que tipo de texto você produz? – a voz não me calou no peito. Respondi: “não sei”. E corri em busca de respostas que não encontrei. Alguém me disse: “Não se preocupe com isto. Simplesmente escreva. Os grandes autores, eles mesmos sofrem ou sofreram esse tipo de angústia, e, às vezes, dolorido patrulhamento. Deixe simplesmente fluir”. Assim tenho feito...

 

Em resumo: não tenho a pretensão de discorrer sobre crônica como gênero literário, até porque os gêneros nada mais são do que um conjunto de traços característicos, mas instáveis, que identificam a obra dos autores, em momentos, às vezes, fugazes. A prova mais evidente é que, dificilmente, um mesmo autor se prende a vida inteira a um só tipo de texto. Os três escritores – Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Otto Lara Resende –, trio que parece resgatar a crônica do limbo em que estava no contexto da literatura brasileira, anos 50 a 60, apesar de considerados os maiores cronistas do Brasil, ao lado de Rubem Fonseca, também transitam em outros segmentos literários. Sabino, romancista, contista, novelista etc. Paulo Mendes, poeta, crítico literário etc. Otto, contista, novelista, romancista etc.

 

Para idéia mais precisa, a Wikipedia , que ocupa, mais e mais, o espaço antes destinado à Britannica Online , em seu verbete – cronistas do Brasil –, arrola 95 nomes, dentre os quais, estão: Carlos Drummond de Andrade, Carlos Heitor Cony , Clarice Lispector, Graciliano Ramos , José de Alencar, José Lins do Rego, Lygia Fagundes Telles , Machado de Assis , Mário Prata, Martha Medeiros , Nelson Rodrigues, Olavo Bilac , Rachel de Queirós, Rubem Alves, Rubem Braga, e assim quase indefinidamente...

 

Pesquisa aleatória a 20 dos nomes mencionados na Wikipedia , confirma a pressuposto: não há fidelidade à crônica. Exemplificando: no VI Salão do Livro do Piauí (Salipi), ano 2008, Frei Betto deixou evidente que, apesar de sua tendência à memorialística, gênero que privilegia narrações históricas escritas por testemunhas presenciais, circula pelos mais diferentes caminhos (romance, conto, prosa poética, política, culinária etc.). Confessa literalmente: “eu sou um escritor em busca de mim mesmo. Pode ser que um dia eu me encontre em algum gênero.” E vai mais além, quando afirma, sem subterfúgios, que ainda não encontrou um cantinho no manancial dos gêneros literários para depositar o filho caçula Arte de semear estrelas , talvez, “propoética” , mistura de prosa com poesia.

 

As exceções ficam por conta de alguns poucos. É o caso de Dom Hélder Câmara, polêmico arcebispo de Recife e Olinda. Em vida, dedicou parte de seu tempo a escrever e ler, na Rádio Olinda de Pernambuco, belas e expressivas crônicas sobre as duas cidades, posteriormente reunidas no livro Um    olhar sobre a cidade , Editora Paulus, reeditado em 2002. É o caso , também, de Paulo Fernando Craveiro, do tradicional Diário de Pernambuco (Recife), cujas crônicas continuam auxiliando na reconstituição de nosso tempo e de nossa gente.

 

CRÔNICA: LITERATURA OU JORNALISMO?

 

Neste sentido, quando enfrento questionamentos, apesar dos conselhos dos especialistas em letras para que prossiga, sem receio e rótulos, não pretendo calar minhas inquietudes. De início, enveredo pelo caminho etimológico da palavra, efetivando uma prática que idolatro: brincar com as palavras. E aí está: crônica, do grego kronos , assumindo diferentes significados.

 

•  Narração histórica ou registro de fatos cotidianos, em ordem cronológica.

•  Conto de enredo indeterminado.

•  Seção ou coluna de revista ou de jornal dedicada a temas especializados.

•  Conjunto de notícias relativas a certos temas.

•  Biografia, quase sempre, escandalosa, de alguém.

•  Texto jornalístico, redigido de forma livre, que contempla temas ou idéias da atualidade, de teor político, social, cultural etc., ou, simplesmente, concernentes à vida cotidiana.

 

Dentre tais acepções, me interessa mais de perto a crônica como texto jornalístico, não muito longo, dentro da perspectiva dos literatos de que é ela mais comunicação do que literatura, o que nem pacifica nem soluciona a questão. A crônica é, sim, um dos gêneros do jornalismo literário. Portanto, a crônica pode ser literatura ou jornalismo, visto que nem todas as crônicas conseguem alcançar o patamar literário, embora continuem a ser crônicas, ou seja, é importante observar quando a crônica deixa de ter caráter meramente factual para assumir natureza literária. É assim que, no âmbito do jornalismo, a expressão jornalismo literário surge e ressurge, como previsto pelo jornalista Milton Eric Nepomuceno : “Sempre acreditei que jornalismo e literatura são parte da mesma definição”. Dizendo de outra forma, j ornalismo literário constitui especialização do jornalismo feita em conjunção com a arte da literatura. Recebe diferentes denominações, algumas das quais se confundem com suas próprias categorias: literatura não ficcional , literatura da realidade , jornalismo em profundidade, jornalismo diversional, reportagem-ensaio e jornalismo de autor.

 

Independente da diversidade terminológica, a expansão do jornalismo literário decorre da pretensão crescente de se fazer um jornalismo mais próximo do dia-a-dia das pessoas, porém, sem destituí-lo de beleza. E, diferentemente do que se pensa, não se trata de termo recente, nem no Brasil, nem em termos mundiais. Extensa bibliografia trata da temática. Há compêndios impressos, ainda da década de 50, como o livro de Alceu Amoroso Lima, O jornalismo como gênero literário , do ano de 1958, que se configura como estudo clássico sobre as confluências entre os dois campos.

 

Mas, não há consenso. Tal como se dá com os gêneros literários, há muitos caminhos, sem qualquer indício de absolutismo. Em termos genéricos, o jornalismo literário, no Brasil, é classificado de formas distintas, o que parece “natural” . Ora, se o jornalismo é, em sua essência, elemento determinante e, ao mesmo tempo, determinado pelo contexto social onde se insere, inevitavelmente, acompanha as tendências dos diferentes momentos históricos, e sofre mutações contínuas e constantes. Por exemplo, o jornalismo da década de 20 é distinto da prática jornalística dos anos 60 e 70 do século passado e da atualidade, em que a promessa do jornal digital, o webjornalismo e o jornalismo de fonte aberta ou jornalismo cidadão ganham formas distintas e adeptos entusiasmados ou não.

 

Então, a primeira concepção de jornalismo literário o identifica como a fase do jornalismo em que escritores, poetas e cronistas assumem as funções de jornalistas, editores, articulistas, quer dizer, o jornalismo, em sua fase inicial, se confunde com as tendências literárias vigentes. Essa fase, de 1808 até 1880, 72 anos após a edição do primeiro jornal, a Gazeta do Rio de Janeiro , caracteriza-se pela prevalência de idéias, em detrimento da tradição e do valor econômico. Reúne em torno de uma pequena imprensa, com jornais de pequeno porte e de vida passageira, nomes que polemizam, divergem, lutam, contestam e, sobretudo, participam da vida do País na condição de liberais, monarquistas, republicanos, moderados, abolicionistas, ideólogos e socialistas. Esse universo plural e multifacetado conjuga nomes díspares, como o conservador José da Silva Lisboa e o panfletário e polêmico Cipriano José Barata de Almeida. Além desses dois, Evaristo da Veiga, José Bonifácio e muitos outros se alternam como políticos, profissionais de comunicação, publicistas, desenhistas, caricaturistas, humoristas e impressores.

 

A segunda concepção, segundo Felipe Pena, em seu livro Jornalismo literário , da Editora Contexto, ano 2006, refere-se à crítica de obras literárias publicada em jornais. A terceira diz respeito ao movimento do new journalism , surgido nos Estados Unidos, entre os anos 60 e 70 do século XX. É a reação de alguns jornalistas ante o risco crescente de engessamento do texto com a obediência quase cega ao famoso lide. A redação da notícia segue a “lei” da pirâmide invertida, transmutada em dogma jornalístico. O jornalista deve iniciar, sempre, pelo mais importante: o quê, quem, quando, como, onde e o porquê. O novo jornalismo luta por um jornalismo menos “amarrado” e mais subjetivo, além de primar pelo valor estético, valendo-se para tanto de técnicas literárias, com o uso de interjeições, exclamações, adjetivos e advérbios.

 

É o que se registra em textos anteriores ao norte-americano Tom Wolfe, mas que ganha força graças ao manifesto que ele lança, em 1973. É a tentativa de o jornalista se aproximar, invariavelmente, do leitor: por exemplo, para falar do aborto, uma boa estratégia é lembrar que ele – leitor ou leitora – vivenciou a situação alguma vez, com ator ou partícipe da sempre dolorosa decisão. É este o cerne da crônica: olhares acertados ou enviesados sobre a linha tortuosa das cidades e do viver, ou seja, o registro bem ou mal humorado do cotidiano. Na mesma linha, o delicioso livro de Carlos Drummond de Andrade, De notícias e não notícias faz-se a crônica reforça, desde o título, a concepção de crônica: as notícias, simbolizando o real; as não notícias, o imaginário do cronista.

 

Mas não pára por aqui. Há quem considere jornalismo literário como aquele concernente à biografia publicizada em tom jornalístico, ao romance-reportagem e à ficção jornalística, classificação provisória e sempre polêmica. As biografias constituem mescla de jornalismo, literatura e história, em que determinado personagem atua como fio condutor de todo o texto. Citamos Fernando Morais, que discorre sobre a história de vida de Olga Benário, alemã rica que opta pelo comunismo e se torna agente soviética. Trata-se de livro, intitulado Olga , e adaptado para o cinema, sob título homônimo. Também de Fernando Morais e base para novo filme, Chatô, o rei do Brasil , trata do paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo, radicado no Rio de Janeiro. Chateaubriand é, por excelência, figura representativa da denominada fase moderna do jornalismo brasileiro, quando ocorre a concentração do setor midiático em poderosos conglomerados de informação e de comunicação.

 

O romance-reportagem, por sua vez, não comporta ficção, no sentido pleno do termo. O jornalista concentra-se em fatos. Seu foco é a realidade. Ainda que o discurso puro constitua mera utopia, o jornalista recorre à interseção entre narrativa romanesca e narrativa jornalística. Exemplo representativo é o romance Sertões , de Euclides da Cunha, ano 1902, escrito a partir de sua experiência como repórter de guerra na declarada Guerra de Canudos.

 

Resta, ainda, a categoria ficção jornalística, dentro do jornalismo literário, exercitada por diferentes profissionais, a exemplo do citado Felipe Pena. Exemplificando: a partir de fato real – o assassinato da jovem estudante universitária, Luciana Gonçalves de Novaes, no campus de uma universidade carioca, em 2003 – ele trama uma história. Inexiste compromisso com a realidade. Ao contrário do que se dá no romance-reportagem, em que o jornalista-escritor pretende reconstruir, com fidedignidade, os fatos, o autor de ficção jornalística dá vazão à imaginação, de forma deliberada. Na verdade, ambos trabalham mais com a verossimilitude do que com a veracidade.

 

A CRÔNICA NOSSA DE CADA DIA: O MEU DIA-A-DIA

 

No entanto, dentre tantas variações do jornalismo literário e posições da crônica como texto, reconheço que minhas crônicas têm, quase sempre, tom confessional, raro nos cronistas, raro nos jornalistas. Não são necessariamente autobiográficas. Na minha percepção, são auto-referenciais. Explico: minha existência constitui referência ou é assim utilizada para tratar de temas os mais díspares. Não estou no centro da discussão. Mas, parto de meus acertos e de meus erros para compreender mil situações vivenciadas pelo outro. Poucos autores buscam inspiração em suas vidas pessoais e / ou em detalhes belos ou sórdidos de sua intimidade sem subterfúgios, como Lya Luft e Danuza Leão o fazem. A primeira, por exemplo, traz à tona, sua separação marital e, depois, a morte do amado, para tratar das recomposições d´alma impostas ao homem em sua trajetória. A segunda, no livro Quase tudo , confessa a coragem de fazer amor com um desconhecido, a quem vislumbra num café perdido de Paris, aos quase 65 anos. E vai adiante para reconhecer o prazer vivenciado com a aventura, confessando cândida e lindamente – “eu me esqueci de quem era e nunca fui tão eu mesma!?”

 

De forma similar, minhas crônicas “me entregam” . Falo da dor que se apossa de mim ao olhar a dor do outro, no rosto desfigurado dos imigrantes africanos ou da submissão imposta à mulher indiana. Falo de uma grande paixão proibida. Falo de amor casto e platônico por um trapezista de circo. Falo da minha posição favorável em prol da eutanásia e do aborto. Falo da vontade de acarinhar uma tia louca, e assim sucessivamente. É óbvio que consigo entender melhor a dor do africano ou da indiana, porque, em algum momento fugidio de minha vida, me senti pária. As paixões escusas que vivi me dão munição para compreender os “pecadores” , daí a defesa que faço de Camilla Parker Bowles, a “bruxa” que se transforma em fada e que, de destruidora de lares passa à condição de mulher capaz de construir caminho pleno de afeto e dedicação, em meio à vida de enfado do príncipe inglês Charles. O trapezista me deixou como legado amor incondicional ao circo e à vida de sacrifício dos circenses. Os doentes terminais me remetem à dor insuportável de parentes próximos, que pediam paz... As mulheres que optam pelo aborto se aproximam da decisão sofrida que tomei num dia qualquer...

 

Isto é, vivo. E viver me permite entender e exercitar a complacência em relação ao outro. Por tudo isto, escrevo e me desnudo... Como conseqüência, dificilmente, minhas crônicas “cheiram” à reclamação ou a queixume. Não são reclamações-clichês sobre políticos, religiosos, administradores, corrupção etc. Posso até falar sobre política, religião, acertos e erros de nossos administradores ou sobre os malefícios da corrupção. Mas, quando o faço, busco um tom, se não de conciliação, no mínimo, de desabafo e de mea-culpa , para entender até que ponto, nós, na condição de cidadãos, estamos quites com nossas obrigações e nossos deveres. Daí, admito escrever, invariavelmente, sobre lugares-comuns. E nem sempre é fácil identificar lugares-comuns que possam se transformar em lugares-incomuns...

 

FINALIZANDO

 

Da mesma forma que se dá com os conceitos de literatura e da própria literariedade, acreditamos ser difícil conceituar, com termos precisos ou indiscutíveis, as expressões – crônica e jornalismo literário. Até mesmo a distinção entre prosa e poesia é frágil. Nada impede que linguagem poética marque presença na prosa ou a poesia se aproxime da prosa. A priori , registra-se a inexistência de denominador(es) comum(ns) para todas as produções ditas literárias e a interferência das denominadas comunidades interpretativas em tal julgamento. Teoricamente , tais comunidades interpretativas estão aptas a um julgamento isento de paixão para distinguir publicações literárias de não literárias.

 

Mas, é impossível relegar o fato de que elas expõem suas idéias a depender do contexto social, cultural, econômico, político etc. onde se inserem, ou a depender do fator temporal. Isto explica, em parte, o respeito à obra de Paulo Coelho, em países, como França e Espanha, independentemente do repúdio que cerca seu nome nas academias brasileiras. Isto explica a repercussão dos livros publicados por Pedro Juan Gutierrez, escritor cubano, ignorado em sua terra natal e festejado em outros países, pela coragem em decantar em seus livros, muitas vezes, de forma brutal e venal, as atrocidades vividas por seu povo. Isto explica o fato de autores demorarem a ser reconhecidos por seu valor literário ou cujo valor sofre oscilações, ao longo dos tempos, como o brasileiro Monteiro Lobato.

Reiteramos, pois, o fato de que as comunidades interpretativas julgam segundo seus valores. Sem dúvida, valores são sempre contestáveis. Tudo isto leva à conclusão, que a literatura é per se uma categoria convencional, estabelecida em função de decisões dos leitores, e não necessariamente tão-somente da comunidade interpretativa. Há, sempre, a chance de interpretações e percepções distintas, dentro da perspectiva de Umberto Eco, em seu livro Interpretações e superinterpretações , de que um texto é, irremediavelmente, um “[...] piquenique, onde o autor entra com as palavras e os leitores com o sentido”. (1997, p. 28).

 

Enfim, os termos comportam, sempre, múltiplas interpretações. Resta um só caminho: ler crônicas, escrever crônicas, vivenciar momentos de luz ou de obscuridade no olhar de alguém que se debruça sobre os fatos cotidianos de seu tempo. Não importa se é mais comunicação do que literatura. Não importa se é mais literatura do que comunicação. Vale, acima de tudo, os momentos de prazer! E de deleite. E o que é melhor, sem muita pressão, livre dos deadlines que oprimem os jornalistas no cotidiano das redações e das normas impostas aos literatos. Afinal, crônica pode ser o registro de um tempo, de uma gente, além de oferecer, no meu caso específico, a possibilidade rica e múltipla de escrever para significativa variedade de publicações, e, muitas vezes, simplesmente para extravasar as dores da alma.

 

 

* Maria das Graças TARGINO é jornalista, Doutora em Ciência da Informação e Pós-Doutora em Jornalismo

 

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