A árvore Galvã

 

 

Pedro Galvão

Que casamento de acasos
me levou àquela esquina
do tempo para encontrar
meu mais remoto ancestral,
distante oitocentos anos,
nas páginas do Armorial
Lusitano, esse compêndio
de mil armas e barões
assinalados ou não?

Busco o verbete Galvão
e vejam só o que leio:
“Sobre a origem da família
pouco, mui pouco, se sabe.
Sabe-se só que na corte
do Infante Afonso Henriques,
anos mil cento e sessenta,
vivia Pedro Galvão”.

Que nem meu pai? Que nem eu?

Caí numa gargalhada
e sigo rindo até hoje
da pêdrea coincidência.
Seria Pedro um leão?
Um sábio? Um bobalhão?
Um mago? Um encantador
de mulheres e serpentes?
Um bom sujeito? Uma flor?

Rindo, rindo vou subindo
nessa árvore esgalhada
de prováveis e improváveis
ta-ta-ta-tataravós.

E o tal Pedro gerou Paio,
que veio a se tornar
alto e ilustre cardeal.
Passam Pedros, pedropaios
e no século quatorze
surge um tal João de Lourdes,
um brasonado Galvão.
E no quinze? Rui Galvão
(ruidoso? ruivo? gavião?)
mais o arteiro Dom Duarte,
cronista e Galvão de Évora.
Também no século quinze
evém das Índias Antonio
Galvão e historiador.

Passa o tempo em inho e ão,
passa Gal, pássaro vão,
e vou galgando essa árvore
genealógica e galvã.
Eis que encontro noutro galho
do alto século dezoito
o bahiano Manuel,
magistrado (e demagogo?),
talvez calvo, talvez não,
de olhos azuis transparentes
de um azulzinho galvão.

 

Mil oitocentos e trinta.
Até que enfim um poeta
na prosa dessa família:   
Trajano Galvão Carvalho
em São Luís do Maranhão.
Mais trinta anos e viriam
Rodolfo, na Paraíba,
e Oscar Lamaignère Galvão
talvez bahiano e ascendente
de Abeillard Lamaignère
Hasselmann que, com Almerinda,
gerou Virgínia e a linda
minha Vitória Galvão.

Muito antes nasceu Enéias
lá no Rio Grande do Sul.
E no Rio Grande do Norte
deu-se uma grave cisão:
o ramo Lopes Galvão
(por ser dicotiledôneo?)
brigou e partiu-se em dois:
daí os Galvão de Lima.
Filhos de Antonio e Honorina,
vêm Adalberto, Francisco
mais nossa tia Josina.

E nasce, em noventa e cinco,
meu velho Pedro Galvão
que um dia caminharia
pelas ruas de um poema
já à luz do seu crepúsculo.    
Antes fez dezoito filhos
a crescer por essa fronde.

 

Mas jamais viu a Pagu,
nossa Patrícia Galvão,
que mexeu nos anos vinte
com a cabeça de Oswald,
do Mário (hum! talvez não)
e a moçada modernista.
Sem esquecer Jesus Belo,
Galvão e austero filólogo
do Maranhão de Sousândrade.
Nem Eduardo Galvão,
carioca e etnólogo
do Museu Emílio Göeldi,
anos sessenta, em Belém.
Ou Enéias Arrocheles,
eh juiz de nome estranho,
dos galvões da Paraíba.

Uma pitada de riso
pra lembrar o bravo primo
Jair Galvão, que uma vez,
muito, mas muito indignado
com a lerda burocracia
de um cartório, ai que horror,
sacou de um Smith&Wesson
e matou um inocente,
um pobre... computador.

Já lá no topo da árvore,
a nossa árvore galvã,
nos dá a honra da presença
um bahiano de Valença,
cineasta e romancista,
o Arakén Vaz Galvão,
que me deu preciosas pistas
de galhos, folhas e frutos
para compor estes versos
de miúda inspiração
mas com a enorme pretensão
de esperar do meu leitor
um divertido perdão.
Pelos Pedros desta árvore
assina o Pedro Galvão.

                Belém, 1º.11.2018