Poesia: Fragmentos Impressionistas

 

Carlos Alberto Jales

 

 

• A poesia é uma forma de mostrar o estranhamento por estarmos no mundo.

 

 

• O poeta é sempre um exilado, um ser perdido na paisagem, um pássaro à procura de seu voo

 

 

• O poeta é sempre um navegante e nunca encontra um porto definitivo.

 

 

• O poeta é um ser provisório • A verdadeira poesia resiste a todas as modas, ou melhor a todos os modismos.

 

 

• A verdadeira poesia só é fiel à palavra, este artefato inventado pelo homem, esse instrumento mais poderoso do que qualquer arma

 

 

• Não pergunte ao poeta o que ele quis dizer no poema. O poeta não saberia dizer. O poeta só sabe criar, transformar a palavra, inventar outra linguagem. Só o leitor é capaz de explicar o poema, se é que o poema pode ser explicado

 

 

• O que faz com que o texto seja verdadeiramente um poema?

 

 

• É quando este texto (o poema) utiliza como recurso as imagens, as metáforas, as paráfrases, as antinomias, as obliterações, os símbolos.

 

 

• É por esta razão que a poesia é fundamentalmente a outra linguagem, a segunda palavra, como bem expressa Otávio Paz. A poesia é sempre a palavra transgressora.

 

 

• Alguém já me disse que para ser poeta não é necessário ler os bons poetas, tomar conhecimento de suas obras.

 

 

• Respondi que é absolutamente essencial conhecer o fazer poético, se apropriar da construção do poema, de seu arcabouço teórico, de suas leis (sim, suas leis) para que o texto mereça este nome.

 

 

• O que caracteriza fundamentalmente o poema é o ritmo, uma certa musicalidade, uma certa cadência, um certo caminho que se percorre. Aliás, o poema se afirma muito mais pelo que não diz, muito mais pelo que sugere do que pelo seu enunciado. O poema é uma grande reticência.

 

 

• O ser humano é um animal simbólico, um animal delirante. Um animal que recusa e porque recusa cria outra linguagem, diferente da linguagem matemática, da linguagem científica, da linguagem filosófica, da linguagem musical. O homem é um animal que sonha e joga. O poema é de certa forma um jogo e como todo jogo é uma atividade lúdica.

 

 

• A poesia não é um conhecimento prático, um conhecimento que ensine a comprar e a vender, que explique a bolsa de valores, um saber que nos oriente no mundo do mercado. A poesia visa apenas a fruição pura e simples da emoção estética, desta emoção que não tem preço, exatamente porque não pode ser mensurada de nenhuma forma.

 

 

• Para Gerardo Melo Mourão, poeta, a poesia não pode estar a serviço de nenhuma causa, por mais nobre que ela seja. A poesia só deve ser fiel a ela mesma, só deve ser a manifestação da soberania da palavra, longe de toda luta ideológica. Toda poesia engajada é uma traição à própria poesia.

 

 

• Quais são os temas preferidos do poeta? Manuel Bandeira nos diz que tudo é matéria de poesia, entendendo-se por isto o olhar polissêmico do poeta, atento ao mundo que o cerca. Mas se tudo é matéria de poesia, o poeta deve encontrar a técnica, o fazer, o construir com os instrumentos da poesia para trabalhar com o cotidiano. A poesia é uma ideia que encontrou uma forma, nos ensina o poeta Francisco de Carvalho.

 

 

• Não acredito em rótulos para classificar a poesia: concreta, marginal, engajada, política, religiosa. Toda vez que a poesia se coloca a serviço de uma causa, deixa seu caráter de poesia para ser apenas uma escrava do panfletarismo. Na bela expressão do poeta Anderson Braga Horta, a poesia é a “recriação do êxtase em palavras”

 

 

• É comum se perguntar se a poesia tem um lugar ou um momento para surgir. A poesia pode nascer num lugar estranho ou numa hora inesperada. Uma visão romântica diz que a inspiração vem em momentos de placidez, em lugares silenciosos. No entanto, a inspiração e a criação poética surgem de um labor ininterrupto, de um estado permanente de tensão interior, de estudos e leituras contínuas

 

 

• O poeta Rilke escreveu a um jovem que aspirava a ser poeta e que reclamava da falta de inspiração, dizendo-lhe que mesmo que tenhamos perdido tudo, mesmo que estejamos presos num lugar infecto, se tivermos as lembranças da infância, ainda assim teremos tudo, pois Baudelaire afirma que a “poesia é o reencontro com a infância”. Poesia e infância são irmãs gêmeas.

 

 

• Quem não tem memória da infância dificilmente será um poeta, pois “há sempre uma morte por trás de tudo a nas lembranças de quando éramos crianças talvez resida a pior das mortes”, nos ensina Silvério Duque, no belíssimo livro Ciranda de Sombras.

 

 

• Que poetas devemos ler? Mario Quintana nos aconselha a só lermos os poetas que falem às nossas emoções. Quintana diz que o poeta de nossa predileção não é necessariamente o mais famoso, o mais conhecido, o mais elogiado pela crítica, mas aquele que permite que nos encontremos com nosso eu profundo, aquele que nos proporciona a fruição da beleza, que é o fim último da poesia.

 

 

• Antônio Cícero, poeta e compositor, autor do livro Filosofia e Poesia, faz uma distinção clara entre estas duas formas de verdade. Enquanto a Filosofia é um conhecimento que tudo questiona e procura as causas primeiras, a Poesia é um tipo de conhecimento que não trabalha com lógica formal, mas tem por objetivo último a beleza, expressa pela palavra, mas não por qualquer palavra, mas pela palavra transgressora e recriadora da realidade.

 

 

• De alguma forma, a poesia é uma explosão e mais do que isto, uma epifania feita de imagens, ritmos, metáforas, sons, palavras genesíacas, sentidos ocultos, intervenções na lógica. A poesia é um clarão numa noite escura, uma contra linguagem, uma ruptura do falar comum. A poesia é uma segunda voz, uma segunda manifestação da fala.

 

 

• Qualquer pretendente o poeta precisa ler os bons poetas, não para imitá-los, mas para apreender a forma, a configuração, a cadência, o ritmo, as regras da estrutura do poema, as imagens. Como escreveu Henriques do Cerro Azul, “a poesia sempre foi técnica e continuará a sê-lo séculos afora. O Poeta, que não domina a técnica, não será um poeta, será um marginal da história literária”. O fazer poético é muito exigente.

 

 

• O poema fala mais por seus silêncios, por suas reticências, que não expressa claramente. As palavras poéticas são como um bosque: os espaços entre as árvores dão o sentido ao todo da floresta. Do mesmo modo, o vazio ou o vácuo entre as palavras conferem o sentido ao poema, articulam suas partes, harmonizam suas contradições

 

 

• O poeta cearense Francisco Carvalho afirmou numa entrevista, que a poesia é um teatro sem plateia, uma ribalta vazia. Pessimismo, desânimo? Ou apenas a certeza de que a poesia é uma forma de expressão que transcende o dizer comum, presente em outras formas de arte. Ao utilizar o recurso da metáfora, da simbolização, da aliteração, da contradição, das anáforas, o poeta está convidando o leitor a outra forma de leitura, que não descreve simplesmente a realidade, mas a transforma e a recria.

 

 

• Repete-se, à exaustão, que a poesia (aliás, como a Filosofia) em nada contribui para a construção do mundo, da sociedade.

 

 

• Sob o ângulo do mercado, das relações econômicas, do pragmatismo político, a poesia não tem nenhuma utilidade. A poesia não lida com artefatos materiais, com as coisas que povoam o mundo. A principal função da poesia é fazer da palavra um objeto de prazer. Um poema não compra, não vende, mas proporciona um sentimento de beleza, de fruição estética, de enlevamento e encanto. Pode-se imaginar a civilização Grega sem a Odisseia e sem a Ilíada de Homero? A cultura latina seria a mesma sem as obras de Virgílio e Ovídio? E a história Lusitana privada do poema épico Os Lusíadas, de Luís Camões? E a Literatura Italiana seria a mesma e não existisse a Divina Comédia, de Dante? São todas obras fundamentais, interligadas pelo tempo, verdadeiros Patrimônios da Humanidade.

 

 

• Por que o poeta escreve? Para ser lido? Para ficar famoso? Ou escreve para exorcizar seus fantasmas interiores? Acredito que o poeta escreve porque este é seu destino, sua missão. Só a poesia o ajuda a lidar com seu desespero lúcido, com seu medo radical, com seu estranhamento do mundo, com a passagem do tempo, com a vida, com a morte. É inevitável ouvir Anderson Braga Horta: “o poema é uma máquina de voar; e a poesia é o voo.

 

 

• O entorpecente do poeta é a palavra. Recriadora, sedutora, misteriosa, ambígua, dilacerada, surpreendente. Palavra em permanente êxtase.

 

 

• Poesia e Infância: uma simbiose perfeita. E a voz de Fernando Pessoa, ecoando: “no tempo em que festejavam o dia de meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto”.

 

 

• A consciência da passagem do tempo é um dos temas fundamentais do poeta. E ninguém expressou tanto este sentimento como Manuel Bandeira, no poema Profundamente, uma síntese perfeita entre a perda da infância e o sentimento da ausência daqueles que partiram. Uma obra prima de rara beleza.

 

 

• Às vezes, penso que Manoel de Barros não é um poeta, e sim um pássaro canoro. Ou não seria um saguim olhando o mundo de cima de uma árvore?

 

 

• Me incomoda essa tendência de endeusar certos poetas, consequentemente em detrimento de outros. Até parece que existe um poetômetro, uma espécie de escola ou de régua para classificar os poetas. Fico com Mário Quintana: “o melhor poeta é aquele que fala às minhas emoções”. O resto é coisa de clubes de elogios mútuos, de cânones criados por muitos tipos de interesses.

 

 

• A poesia de Adélia Prado me encanta. Sobretudo pela sua busca incessante de Deus. Para ela, Deus é seu aguilhão, seu acicate, a serpente que morde seu calcanhar. Adélia Prado é muito amiga de Deus.

 

 

• Por que poetas de grande valor são tão esquecidos pela crítica de nosso país? Por que as universidades com seus cursos de Letras remetem ao limbo poetas como Dante Milano, Alphonsus Guimarães Filho, Helena Kolody, Edmir Dominguez, Zila Mamede, Tasso da Silveira, Bueno de Rivera, Francisco Carvalho, Henriqueta Lisboa, Jorge de Lima, Mauro Mota só para falar nos que morreram? Este é mais um mistério a acrescentar à vida literária do Brasil

 

 

• O Simbolismo é um movimento literário subestimado e até mesmo desprezado pela crítica brasileira. Com exceção talvez de Cruz e Souza, da Costa e Silva e Alphonsus de Guimarães, os outros poetas são pouco conhecidos e estudados. Por que isto acontece? Francini Ricierí afirma que esta pouca importância dos simbolistas se deve à comparação com os poetas parnasianos, uma vez que estes sempre serviram à cena nacional, sempre foram considerados como os verdadeiros fundadores da identidade literária brasileira. Para os Simbolistas restaram ser chamados de beletristas, vazios, desenraizados, fiéis ao colonizador. É hora de poetas como B. Lopes, Eduardo Guimarães, Emiliano Perneta, Alceu Wamosy, entre outros, voltarem à cena da poesia brasileira

 

 

• O mar povoa a poesia de Camões, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Bryner Andersen, Cecília Meireles, Vanildo Brito, Zila Mamede, Edmir Dominguez, Carlos Pena Filho entre outros. O mar e seus abismos.

 

 

• Se a poesia é inútil, como escutei ultimamente, é inútil também um pôr do sol, o sorriso de uma criança, uma palavra de carinho e apreço, a lealdade de um amigo. Por essas inutilidades, a vida continua. Foi Paulo Leminski quem afirmou que “a poesia é um inutensílio”. E é Adélia Prado quem disse: “o que a memória ama, fica eterno”.

 

 

• Fujamos dos formalismos experimentais e de todos os ismos. Pois como aconselha Carlos Nejar, “a verdadeira vanguarda é a consciência do real, capaz de o espelhar, transformando. A poesia só é fiel à palavra recriadora.”

 

 

• Nietzsche diz só acreditar nos livros escritos com o sangue. Eu só acredito nos poetas que escrevem com as entranhas.

 

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