Espelho

 

Celso Japiassu

 

Uma aurora incendiada assemelha-se

à sangrenta chaga do crepúsculo

como se fora a noite no lugar do dia.

As passadas na rua são ritmos antigos

em um som cantado pelos ventos.

 

Os sonhos nadam numa argila escura,

espécie de lama a se espraiar nas plantas

e estas são apenas troncos ressequidos.

A fumaça exala brumas, a paisagem

desvenda seu rosto esmaecido.

 

A maré avança sobre os ritos, um altar

feito de galhos queima e o sacrifício

é vão como a rotina dos que morrem

agonizando às primeiras horas da manhã.

Os presságios espalham seu perfume.

 

Nem cânticos ou lamentos nem o pranto

consolarão a noite e seus tormentos.

A escuridão perpassa seus gemidos,

os animais escondem-se nas sombras

e os homens em pressentimentos.

 

Uma noite esmagada pelos sonhos.

Os vultos se perdem pelos labirintos,

são apenas reflexos dos espelhos.

O olhar tenta enxergar o horizonte

e desvendar o segredo desse instante.

 

 

(voltar ao topo)