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Odylo, uma poesia. Por Celso Japiassu.

Discurso de Vargas Llosa no Prêmio Nobel. de Literatura.

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A tarde, no futuro. De Celso Japiassu.

5 poemas de Carlos Alberto Jales.

A silhueta. De Celso Japiassu.

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Retorno. De Celso Japiassu.

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Dezessete Poemas Noturnos. Celso Japiassu

20 contos curtos de Paulo Maldonado.

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4 Poemas de Carlos Alberto Jales.

O Último Número, de Celso Japiassu.

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Poemas de Eric Ponty.

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Na espera do amanhã, por Affonso Romano de Sant'Anna

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Autobiografia da minha morte, por Jorge Vismara.

Os homens amam a guerra. Belíssimo poema de Affonso Romano
de Sant'Anna com traduções de
Fred Ellison e Nahuel Santana.

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Fredrich Overbeck (1789-1869) 

 

Um artista no completo domínio da sua arte, é o que nos mostra Eça no texto abaixo, retirado de ‘A Relíquia’, romance publicado em 1887. Ao recriar o julgamento de Cristo, transporta numa vertigem o leitor ao ano 33 da nossa Era.

 

Cristo diante de Pilatos

 

Eça de Queiroz

 

Passamos junto a um jardim de rosas, do tempo dos profetas, esplêndido e silencioso que dois levitas guardavam com lanças douradas. Depois foi uma rua fresca, toda aromatizada pelas lojas dos perfumistas, ornadas de tabuletas em forma de flores e de almofarizes; um toldo de esteiras finas assombreava as portas; o chão estava regado e juncado de erva-doce e de folhas de anêmonas; e pela sombra preguiçavam moços lânguidos, de cabelos frisados em cachos, de olheiras pintadas, mal podendo erguer, nas mãos pesadas de anéis, as sedas roçagantes das túnicas cor de cereja e cor de ouro. Além dessa rua indolente abria-se uma praça, que escaldava ao sol, com uma poeira grossa e branca, onde os pés se enterravam; solitária, no meio, uma vetusta palmeira arqueava o seu penacho, imóvel e como de bronze; e ao fundo, negrejavam na luz as colunatas de granito do velho palácio de Herodes. Aí era o Pretório.

 

Defronte do arco de entrada, onde rondavam, com plumas pretas no elmo reluzente, dois legionários da Síria, um bando de raparigas, tendo detrás da orelha, uma rosa e no regaço coifas de esparto, apregoavam os pães ázimos. Sob um enorme guarda-sol de penas, cravado no chão, homens de mitra de feltro, com tábuas sobre os joelhos e balanças, trocavam a moeda romana. E os vendedores de água, com os seus odres felpudos, lançavam um grito trêmulo. Entramos: e logo um terror me envolveu.

Era um claro pátio, aberto sob o azul, lajeado de mármore, tendo de cada lado uma arcada, elevada em terraço, com parapeito, fresca e sonora como um claustro de mosteiro. Da arcaria ao fundo, encimada pela frontaria austera do palácio, estendia-se um velário, de um estofo escarlate franjado de ouro, fazendo uma sombra quadrada e dura; dois mastros de pau de sicômoro sustentavam-no, rematados por uma flor de lótus.

Aí apertava-se um magote de gente - onde se confundiam as túnicas dos fariseus orladas de azul, o rude saião de estamenha dos obreiros apertado com um cinto de couro, os vastos albornozes listrados de cinzento e branco dos homens de Galiléia, e a capa carmesim de grande capuz dos mercadores de Tiberíade; algumas mulheres, já fora do abrigo do velário, alçavam-se na ponta das chinelas amarelas, estendendo por cima do rosto contra o sol uma dobra do manto ligeiro; e daquela multidão saía um cheiro morno de suor e de mirra. Para além, por cima dos turbantes alvos apinhados, brilhavam pontas de lança. E ao fundo, sobre um sólio, um homem, um magistrado, envolto nas pregas nobres de uma toga pretexta, e mais imóvel que um mármore, apoiava sobre o punho forte a barba densa e grisalha; os seus olhos encovados pareciam indolentemente adormecidos; uma fita escarlate prendia-lhe os cabelos; e por trás, sobre um pedestal que fazia espaldar à sua cadeira curul, a figura de bronze da loba romana abria de través a goela voraz. Perguntei a Topsius quem era aquele magistrado melancólico.

- Um certo Pôncio, chamado Pilatos, que foi prefeito em Batávia.

 

Lentamente caminhei pelo pátio, procurando, como num templo, fazer mais sutil e respeitoso o ruído das minhas solas. Um grave silêncio caía do céu rutilante; só, por vezes, rompia do lado dos jardins, áspero e triste, o gritar dos pavões. Estendidos no chão, junto à balaustrada do claustro, negros dormitavam com a barriga ao sol. Uma velha contava moedas de cobre, acocorada diante do seu gigo de fruta. Em andaimes, postos contra uma coluna, havia trabalhadores compondo o telhado. E crianças, a um canto, jogavam com discos de ferro que tiniam de leve nas lajes.

 

Subitamente, alguém familiar tocou no ombro do historiador dos Herodes. Era o formoso Manassés; e com ele vinha um velho magnífico, de uma nobreza de pontífice, a quem Topsius beijou filialmente a manga da samarra branca, bordada de verdes folhas de parra. Uma barba de neve, lustrosa de óleo, caía-lhe até à faixa que o cingia; e os ombros largos desapareciam sob a esparsa abundância dos cabelos alvos, saindo do turbante como uma pura romeira de arminhos reais. Uma das mãos, cheia de anéis, apoiava-se a um forte bastão de marfim; e a outra conduzia uma criança pálida, que tinha os olhos mais belos que estrelas, e semelhava, junto ao ancião, um lírio à sombra de um cedro.

- Subi à galeria - disse-nos Manassés. - Tereis lá repouso e frescura...

 

Seguimos o patriota; e eu perguntei cautelosamente a Topsius quem era o outro tão velho, tão augusto.

 

- Rabi Robã - murmurou com veneração o meu douto amigo. - Uma luz do sanedrim, facundo e sutil entre todos, e confidente de Caifás...

 

Reverente, saudei três vezes Rabi Robã - que se sentara num banco de mármore, pensativo, aconchegando, sobre o seu vasto peito ancestral, a cabeça da criança mais loura que os milhos de Jopé. Depois continuamos devagar pela galeria sonora e clara, na sua extremidade brilhava uma porta suntuosa de cedro com chapas de prata lavradas; um pretoriano de Cesaréia guardava-a, sonolento, encostado ao seu alto escudo de vime. Aí, comovido, caminhei para o parapeito; e logo os meus olhos mortais encontraram lá embaixo a forma encarnada do meu Deus!

 

Mas, oh rara surpresa da alma variável; não senti êxtase nem terror! Era como se de repente me tivessem fugido da memória longos, laboriosos séculos de história e de religião. Nem pensei que aquele homem seco e moreno fosse o remidor da humanidade... Achei-me inexplicavelmente anterior nos tempos. Eu já não era

Teodorico Raposo, cristão e bacharel; a minha individualidade como que a perdera, à maneira de um manto que escorrega, nessa carreira ansiosa desde a casa de Gamaliel. Toda a antigüidade das cousas ambientes me penetrara, me refizera um ser; eu era também um antigo. Era Teodoricus, um lusitano, que viera numa galera das praias ressoantes do Promontório Magno, e viajava, sendo Tibério imperador, em terras tributárias de Roma. E aquele homem não era Jesus, nem Cristo, nem Messias - mas apenas um moço de Galiléia que, cheio de um grande sonho, desce da sua verde aldeia para transfigurar todo um mundo e renovar todo um céu e encontra a uma esquina um netenim do templo que o amarra e o traz ao pretor, numa manhã de audiência, entre um ladrão que roubara na estrada de Siquém e outro que atirara facadas numa rixa em Emá!

 

Num espaço ladrilhado de mosaico, em face do sólio onde se erguia o assento curul do pretor, sob a loba romana - Jesus estava de pé, com as mãos cruzadas e frouxamente ligadas por uma corda que rojava no chão. Um largo albornoz de lã grossa, em riscas pardas, orlado de franjas azuis, cobria-o até aos pés, calçados de sandálias já gastas pelos caminhos do deserto e atadas com correias. Não lhe ensangüentava a cabeça essa coroa inumana de espinhos, de que eu lera nos Evangelhos; tinha um turbante branco, feito de uma longa faixa de linho enrolada, cujas pontas lhe pendiam de cada lado sobre os ombros; um cordel amarrava-lho por baixo da barba encaracolada e aguda. Os cabelos secos, passados por trás das orelhas, caíam-lhe em anéis pelas costas; e no rosto magro, requeimado, sobre sobrancelhas densas, unidas num só traço, negrejava com uma profundidade infinita o resplendor dos seus olhos. Não se movia, forte e sereno diante do pretor. Só algum estremecimento das mãos presas, traía o tumulto do seu coração; e às vezes respirava longamente, como se o seu peito, acostumado aos livres e claros ares dos montes e dos lagos de Galiléia, sufocasse entre aqueles mármores, sob o pesado velório romano, na estreiteza formalista da lei.

 

A um lado, Sareias, o vogal do Sanedrim, tendo deposto no chão o seu manto e o seu báculo dourado, ia desenrolando e lendo uma tira escura de pergaminho, num murmúrio cantado e dormente. Sentado num escabelo, o assessor romano, sufocado pelo calor já áspero do mês de Nizam, refrescava com um leque de folhas de heras secas, a face rapada e branca como um gesso; um escriba, velho e nédio, numa mesa de pedra cheia de tabulários e de regras de chumbo, aguçava miudamente os seus cálamos; e entre ambos o intérprete, um fenício imberbe, sorria com a face no ar, com as mãos na cinta, arqueando o peito onde trazia pintado, sobre a jaqueta de linho, um papagaio vermelho. Em torno ao velário, constantemente voavam pombas. E foi assim que eu vi Jesus de Galiléia preso, diante do Pretor de Roma...

No entanto Sareias, tendo enrolado em torno à haste de ferro o pergaminho escuro, saudou Pilatos, beijou um sinete sobre o dedo, para marcar nos seus lábios o selo da verdade, e imediatamente encetou uma arenga em grego, com textos, verbosa e aduladora. Falava do tetrarca de Galiléia, o nobre Antipas; louvava a sua prudência; celebrava seu pai Herodes, o Grande, restaurador do templo... A glória de Herodes enchia a terra; fora terrível, sempre fiel aos césares; seu filho Antipas era engenhoso e forte!... Mas reconhecendo a sua sabedoria, ele estranhava que o tetrarca se recusasse a confirmar a sentença do Sanedrim, que condenava Jesus à morte... Não fora essa sentença fundada nas leis que dera o Senhor? O justo Hanão interrogara o Rabi, que emudecera, num silêncio ultrajante. Era essa a maneira de responder ao sábio, ao puro, ao piedoso Hanão? Por isso um zeloso, sem se conter, atirara a mão violenta à face do Rabi... Onde estava o respeito dos antigos tempos, e a veneração do pontificado?

 

A sua voz cava e larga rolava infindavelmente. Eu, cansado, bocejava. Por baixo de nós, dois homens encruzados nas lajes comiam tâmaras de Betabara, que traziam no saião, bebendo de uma cabaça. Pilatos, com o punho sob a barba, olhava sonolentamente os seus borzeguins escarlates, picados de estrelas de ouro.

 

E Sareias agora proclamava os direitos do templo. Ele era o orgulho da nação, a morada eleita do Senhor! César Augusto ofertara-lhe escudos e vasos de ouro... E esse templo, como o respeitara o Rabi? Ameaçando destruí-lo! “ Eu derrocarei o templo de Jeová e edificá-lo-ei em três dias!” Testemunhas puras, ouvindo esta rude impiedade, tinham coberto a cabeça de cinza, para afastar a cólera do Senhor... Ora, a blasfêmia atirada ao santuário, ressaltava até ao seio de Deus!...

 

Sob o velário, os fariseus, os escribas, os netenins do templo, escravos sórdidos, sussurravam como arbustos agrestes que um vento começa a agitar. E Jesus permanecia imóvel, abstraidamente indiferente, com os olhos cerrados, como para isolar melhor o seu sonho contínuo e formoso, longe das cousas duras e vás que o maculavam. Então o assessor romano ergueu-se, depôs no escabelo o seu leque de folhas, traçou com arte o manto forense, orlado de azul, saudou três vezes o Pretor, e a sua mão delicada começou a ondear no ar, fazendo cintilar uma jóia.

- Que diz ele?...

 

- Cousas infinitamente hábeis - murmurou Topsius. - É um pedante, mas tem razão. Diz que o Pretor não é um judeu; que nada sabe de Jeová, nem lhe importam os profetas que se erguem contra Jeová; e que a espada de César não vinga deuses que não protegem César!... O romano é engenhoso!

 

Ofegando, o assessor recaiu languidamente no escabelo. E logo Sareias volveu a arengar, sacudindo os braços para a multidão dos fariseus, como a evocar os seus protestos, e refugiando-se na sua força. Agora, mais retumbante, acusava Jesus, não da sua revolta contra Jeová e o templo, mas das suas pretensões como príncipe da casa de Davi! Toda a gente em Jerusalém o tinha visto, havia quatro dias, entrar pela Porta de Ouro, num falso triunfo, entre palmas verdes, cercado de uma multidão de galileus, que gritavam -“ Hosana ao filho de Davi, hosana ao rei de Israel!...”

 

Ele é o filho de Davi, que vem para nos tornar melhores! gritou ao longe a voz de Gade, cheia de persuasão e de amor.

 

Mas de repente Sareias colou ao corpo as mangas franjadas, mudo e mais teso que um conto de lança; o escriba romano, de pé, com os punhos fincados na mesa, vergava o cachaço reverente e nédio; o assessor sorria, atento. Era o Pretor que ia interrogar o Rabi; e eu, tremendo, vi um legionário empurrar Jesus, que ergueu a face...

 

Debruçado de leve para o Rabi, com as mãos abertas que pareciam soltar, deixar cair todo o interesse por esse pleito ritual de sectários arguciosos, Pôncio murmurou, enfastiado e incerto:

 

És tu então o rei dos judeus?... Os da tua nação trazem-te aqui!... Que fizeste tu?... Onde é o teu reino?

O intérprete, enfatuado, perfilado junto ao sólio de mármore, repetiu muito alto estas cousas na antiga língua hebraica dos livros santos; e, como o Rabi permanecia silencioso, gritou-as na fala caldaica que se usa em Galiléia.

 

Então Jesus deu um passo. Eu ouvi a sua voz. Era clara, segura, dominadora e serena:

 

- O meu reino não é daqui! Se por vontade de meu pai eu fosse Rei de Israel, não estaria diante de ti com esta corda nas mãos... Mas o meu reino não é deste mundo!

 

Um grito estrugiu, desesperado:

 

- Tirai-o então deste mundo!

 

E logo, como lenha preparada que uma faísca inflama, o furor dos fariseus e dos serventes do templo irrompeu, crepitando, em clamores impacientes:

 

- Crucificai-o! Crucificai-o!

 

Pomposamente o intérprete redizia em grego ao Pretor os brados tumultuosos, lançados na língua siríaca que fala o povo em Judéia... Pôncio bateu o borzeguim sobre o mármore. Os dois lictores ergueram ao ar as varas rematadas numa figura de águia; o escriba gritou o nome de Caio Tibério; e logo os braços frementes se abaixaram, e foi como um terror diante da majestade do povo romano.

 

De novo Pôncio falou, lento e vago:

 

- Dizes então que és rei... E que vens tu fazer aqui?

 

Jesus deu outro passo para o Pretor. A sua sandália pousou fortemente sobre as lajes, como se tomasse posse suprema da terra. E o que saiu dos seus lábios trêmulos pareceu-me fulgurar, vivo no ar, como o resplendor que dos seus olhos negros saiu.

 

- Eu vim a este mundo testemunhar a verdade! Quem desejar a verdade, quem quiser pertencer à verdade tem de escutar a minha voz!

 

Pilatos considerou-o um momento, pensativo; depois, encolhendo os ombros:

 

- Mas, homem, o que é a verdade?

 

Jesus de Nazaré emudeceu, e no Pretório espalhou-se um silêncio, como se todos os corações tivessem parado, cheios subitamente de incerteza...

 

Então, apanhando devagar a sua vasta toga, Pilatos desceu os quatro degraus de bronze; e precedido dos lictores, seguido do assessor, penetrou no palácio, por entre o rumor de armas dos legionários que o saudavam, batendo o ferro das lanças sobre o bronze dos escudos.

Imediatamente elevou-se por todo o pátio um áspero e ardente sussurro , como de abelhas irritadas. Sareias perorava, brandindo o báculo , entre os fariseus que apertavam as mãos num terror . Outros , afastados, cochichavam sombriamente . Um grande velho , com um manto negro que esvoaçava, corria numa ânsia o Pretório, por entre os que dormiam ao sol , por entre os vendedores de pães ázimos , gritando: “Israel está perdido!” E eu vi levitas fanáticos arrancarem as borlas das túnicas , como numa calamidade pública .

 

Gade surgiu diante de nós, erguendo os braços triunfantes:

 

- O Pretor é justo e liberta o Rabi!...

 

E, com a face cheia de brilho, revelava-nos a doçura da sua esperança! O Rabi, apenas solto, deixaria Jerusalém onde as pedras eram menos duras que os corações. Os seus amigos armados esperavam-no em Betânia; e partiriam ao romper da lua para o oásis de Engada! Lá estavam aqueles que o amavam. Não era Jesus o irmão dos essênios? Como eles o Rabi pregava o desprezo dos bens terrestres, a ternura pelos que são pobres, a incomparável beleza do reino de Deus...

 

Eu, crédulo, regozijava-me - quando um tumulto invadiu a galeria, que um escravo viera regar. Era o bando escuro dos fariseus, em marcha para o banco de pedra, onde Rabi Robã conversava com Manassés, enrolando docemente nos dedos os cabelos da criança, mais louros que os milhos. Topsius e eu corremos para a turba intolerante. Já Sareias, no meio, curvado, mas com a firmeza de quem intima, dizia:

 

- Rabi Robã, é necessário que vás falar ao Pretor e salvar a nossa lei!

 

E logo, de todos os lados, foi um suplicar ansioso:

 

- Rabi, fala ao Pretor! Rabi, salva Israel!

 

Lentamente o velho erguia-se, majestoso como um grande Moisés. E diante dele um levita, muito pálido, vergava os joelhos, murmurava a tremer:

 

- Rabi, tu és justo, sábio, perfeito e forte diante do Senhor!

 

Rabi Robã levantou as duas mãos abertas para o céu; e todos se curvaram como se o espírito de Jeová, obedecendo à muda invocação, tivesse descido para encher aquele coração justo. Depois, com a mão da criança na sua, pôs-se a caminhar em silêncio, atrás a turba fazia um rumor de sandálias lassas, sobre as lajes de mármore.

 

Paramos, amontoados, diante da porta de cedro, onde o pretoriano cruzara a lança, depois de bater as argolas de prata. Os pesados gonzos rangeram; um tribuno do palácio acudiu, tendo na mão um longo galho de vide. Dentro era uma fria sala, mal alumiada, severa, com os muros forrados de estuques escuros. Ao centro erguia-se palidamente uma estátua de Augusto, com o pedestal juncado de coroas de louro e de ramos votivos; dois grandes tocheiros de bronze dourado reluziam aos cantos, na sombra.

 

Nenhum dos judeus entrou - porque pisar em dia pascal um solo pagão, era cousa impura diante do Senhor. Sareias anunciou altivamente ao tribuno que “ alguns da nação de Israel, à porta do palácio de seus pais, estavam esperando o Pretor”. Depois pesou um silêncio, cheio de ansiedade... Mas dois lictores avançaram; e logo atrás, caminhando a passos largos, com a vasta toga apanhada contra o peito, Pilatos apareceu.

 

Todos os turbantes se curvaram, saudando o Procurador da Judéia. Ele parara junto à estátua de Augusto. E, como repetindo o gesto nobre da figura de mármore, estendeu a mão que segurava um pergaminho enrolado, e disse:

 

- Que a paz seja convosco e com as vossas palavras...Falai!

 

Sareias, vogal do Sanedrim, adiantando-se, declarou que os seus corações vinham em verdade cheios de paz... Mas, tendo o Pretor deixado o Pretório, sem confirmar nem anular a sentença do Sanedrim, que condenava Jesus-ben-José - eles se achavam como o homem que vê a uva na vinha, suspensa, sem secar e sem amadurecer!

 

Pôncio pareceu-me penetrado de eqüidade e demência.

 

- Eu interroguei o vosso preso - disse ele; e não lhe achei culpa que deva punir o Procurador da Judéia... Antipas Herodes, que é prudente e forte, que pratica a vossa lei e ora no vosso templo, interrogou-o também e nenhuma culpa nele encontrou... Esse homem diz apenas cousas incoerentes, como os que falam em sonhos... Mas as suas mãos estão puras de sangue; nem ouvi que ele escalasse o muro do seu vizinho... César não é um amo inexorável... Esse homem é apenas um visionário.

 

Então, com um sombrio murmúrio, todos recuaram, deixando Rabi Robã só no limiar da sala romana. Um brilho de jóia tremia na ponta da sua tiara; as suas cãs caindo sobre os vastos ombros, coroavam-no de majestade como a neve faz aos montes; as franjas azuis do seu manto solto rojavam nas lajes, em redor. Devagar, sereno, como se explicasse a lei aos seus discípulos, ergueu a mão e disse:

 

- Oficial de César, Pôncio, muito justo e muito sábio! O homem que tu chamas visionário, há anos que ofende todas as nossas leis e blasfema o nosso Deus. Mas quando o prendemos nós, quando te trouxemos nós? Somente quando o vimos entrar em triunfo pela Porta de Ouro, aclamado como Rei da Judéia. Porque a Judéia não tem outro rei senão Tibério; e apenas um sedicioso se proclama em revolta contra César, apressamo-nos a castigá-lo. Assim fazemos nós, que não temos mandado de César, nem cobramos do seu erário; e tu, oficial de César, não queres que seja castigado o rebelde a teu amo?

 

A face larga de Pôncio, que uma sonolência amolecia, relampeou, raiada vivamente de sangue. Aquela tortuosidade de judeus que, execrando Roma, apregoavam agora um zelo ruidoso por César para poderem, em nome da sua autoridade, saciar um ódio sacerdotal - revoltou a retidão do romano; e a audaciosa admoestação foi intolerável ao seu orgulho.

 

Desabridamente exclamou, com um gesto que os sacudia:

 

- Cessai! Os procuradores de César não vêm aprender, a uma colônia bárbara da Ásia, os seus deveres para com César!

 

Manassés que ao meu lado, já impaciente, puxava a barba, afastou-se com indignação. Eu tremi. Mas o soberbo Rabi prosseguiu, mais indiferente à ira de Pôncio do que ao balar de um anho que arrastasse às aras:

 

- Que faria o procurador de César, em Alexandria, se um visionário descesse de Bubastes, proclamando-se Rei do Egito? O que tu não queres fazer nesta terra bárbara da Ásia! Teu amo dá-te a guardar uma vinha, e tu deixas que entrem nela e que a vindimem? Para que estás então na Judéia? Para que está a sexta legião na Torre Antônia? Mas o nosso espírito é claro, e a nossa voz é clara e alta bastante, Pôncio, para que César a ouça!...

 

Pôncio deu um passo lento para a porta. E com os olhos faiscantes, cravados naqueles judeus que, astutamente, o iam enlaçando na trama sutil dos seus rancores religiosos:

 

- Eu não receio as vossas intrigas! - murmurou surdamente. Elio Lama é meu amigo!... E César conhece-me bem!

 

- Tu vês o que não está nos nossos corações! - disse Rabi Robã, calmo como se conversasse à sombra do seu vergel. - Mas nós vemos bem o que está no teu, Pôncio! Que te importa a ti a vida ou a morte de um vagabundo de Galiléia?... Se tu não queres, como dizes, vingar deuses cuja divindade não respeitas, como podes querer salvar um profeta cujas profecias não crês?... A tua malícia é outra, romano! Tu queres a destruição de Judá!

 

Um estremecimento de cólera, de paixão devota, passou entre os fariseus; alguns palpavam o seio da túnica, como procurando uma arma. E Rabi Robã continuava denunciando o Pretor, com serenidade e lentidão:

 

- Tu queres deixar impune o homem que pregou a insurreição, declarando-se rei numa província de César, para tentar, pela impunidade, outras ambições mais fortes e levar, outro Judas de Gamala, a atacar as guarnições de Samaria! Assim preparas um pretexto para abater sobre nós a espada imperial, e inteiramente apagar a vida nacional da Judéia. Tu queres uma revolta para afogares em sangue, e apresentar-te depois a César como soldado vitorioso, administrador sábio, digno de um proconsulado ou de um governo na Itália! E a isso que chamais a fé romana? Eu não estive em Roma, mas sei que a isso se chama lá a fé púnica... Não nos suponhas, porém, tão simples como um pastor de Iduméia! Nós estamos em paz com César, e cumprimos o nosso dever, condenando o homem que se revoltou contra César... Tu não queres cumprir o teu, confirmando essa condenação? Bem! Mandaremos emissários a Roma, levando a nossa sentença e a tua recusa, e tendo salvaguardado perante César a nossa responsabilidade, mostraremos a César como procede na Judéia aquele que representa a lei do Império!... E agora, Pretor, podes voltar ao Pretório.

 

- E lembra-te dos escudos votivos - gritou Sareias. - Talvez novamente vejas a quem César dá razão!

 

Pôncio baixara a face, perturbado. Decerto imaginava já ver além, num claro terraço junto ao Mar de Cáprea, Sejano, Cesônio, todos os seus inimigos, falando ao ouvido de Tibério e mostrando-lhe os emissários do templo... César, desconfiado e sempre inquieto, suspeitaria logo um pacto dele com esse “ Rei dos Judeus”, para sublevarem uma rica provinda imperial... E assim a sua justiça e o orgulho em a manter podiam custar-lhe o proconsulado da Judéia! Orgulho e justiça foram então, na sua alma frouxa, como ondas um momento altas que uma sobre outra se abatem, se desfazem. Veio até ao limiar da porta, devagar, abrindo os braços, como trazido por um impulso magnânimo de conciliação - e começou a dizer, mais branco que a sua toga:

 

- Há sete anos que governo a Judéia. Encontrastes-me jamais injusto, ou infiel às promessas juradas?... Decerto, as vossas ameaças não me movem... César conhece-me bem... Mas entre nós, para proveito de César, não deve haver desacordo. Sempre vos fiz concessões! Mais que nenhum outro procurador, desde Copônio, tenho respeitado as vossas leis... Quando vieram os dous homens de Samaria poluir o vosso templo, não os fiz eu supliciar? Entre nós não deve haver dissensões, nem palavras amargas...

 

Um momento hesitou; depois, esfregando lentamente as mãos, e sacudindo-as, como molhadas numa água impura:

- Quereis a vida desse visionário? Que me importa? Tomai-a... Não vos basta a flagelação? Quereis a cruz? Crucificai-o... Mas não sou eu que derramo esse sangue!

 

O levita macilento bradou com paixão:

 

- Somos nós, e que esse sangue caia sobre as nossas cabeças!

 

E alguns estremeceram - crentes de que todas as palavras têm um poder sobrenatural e tornam vivas as cousas pensadas.

 

Pôncio deixara a sala; o decurião, saudando, cerrou a porta de cedro. Então Rabi Robã voltou-se, sereno, resplandecente como um justo; e adiantando-se por entre os fariseus, que se baixavam a beijar-lhe as franjas da túnica - murmurava com uma grave doçura:

 

- Antes sofra um só homem, do que sofra um povo inteiro!

 

 

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