Dez elegias mínimas


                      Carlos Alberto Jales


I


Os dias  me ignoram
sou um navegante sem caminhos
um pássaro desnorteado
as asas me ferem


II


Um poeta já proclamou o barro
eu proclamo outras coisas:
um pensamento fugidio
a execução de um sonho
um deserdado sem abrigo
um poeta já proclamou o barro
eu proclamo que a vida sangra


III


Em meu peito escavo passagens
mas o sangue se recusa a fluir
haverá em cada dor uma ave de rapina
esperando a chuva


IV


De onde surge esta triste sinfonia
que não ousamos escutar?
Surge de um campo de urzes
com seus olhos de aves?
Ou surge de uma rubra manhã
de olhos desmaiados?
Ou surge de uma estranha orquestra
desafiando os sons?

 

Esta triste sinfonia vem com certeza
das sombrias montanhas encantadas
pelo olhar dos homens à procura de
refúgios  e solidão 


V


Que sabem os homens
neste momento?

 

De uma lâmina esfaqueando
 a noite?

 

De um temporal que se prepara
e nunca chega?

 

De uma criança esperando
carinho?

 

De um tempo de ausências
sem perdão? 

 

Que sabem os homens
neste momento?

 

De um cansado sentir que
empareda todos os gestos?


VI


Nesses campos transitórios onde
nada se move os homens se
encontram e se dispersam

 

Não compreendem a sagração dos dias,
não compartilham os ventos impiedosos
nem se comprazem ao escutar uma música

 

Nesses campos transitórios há um abismo
esconjurando a dor e exigindo dos homens
a fuga das armadilhas

 

VII

 

De onde vem a força
desta noite sem retorno?

 

Virá do pranto que se veste de
alegria e fascina os deserdados?

 

Virá dessas tristes estátuas
abandonadas nas praças?

 

Ou virá das promessas que apenas pressentimos
mas que não se libertam de nossas almas?

 

VIII

 

Há uma saudade inútil
nesta tarde

 

Vozes que se foram
muros que se ergueram
fantasias perdidas

 

Sonhos extraviados
campos desertos de bois
olhares desesperados por perdão

 

Há uma saudade inútil
nesta tarde 

 

e um vento que tudo possui
porque tudo compreende

 

IX

 

Os pássaros não voam
porque querem

 

Os pássaros são mágicos
demiurgos do tempo
adivinhos das palavras

 

Os pássaros são almas migrantes
em busca de crepúsculos
silêncio e solidão

 

X

 

Nas dobras da noite
todos se encontram

 

Os poetas e seus fantasmas:
Rimbaud, Rilke, Baudelaire,
Cecília, Kaváfis, Pessoa
e suas máscaras

 

Discutem a vida
exorcizam as dores

 

Riem de suas angústias
nas dobras da noite
todos se encontram

 

E se despedem,
irônicos e descrentes
de suas próprias palavras

 

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