Os mistérios da comunicação. Por Claudio José Lopes Rodrigues.

Odylo, uma poesia. Por Celso Japiassu.

Discurso de Vargas Llosa no Prêmio Nobel. de Literatura.

Novos poemas de Carlos Alberto Jales.

Poemas de Sylvia Beirute.

A tarde, no futuro. De Celso Japiassu.

5 poemas de Carlos Alberto Jales.

A silhueta. De Celso Japiassu.

Réquiem sem música. De Edna St. Vincent Millay.

Retorno. De Celso Japiassu.

Um traço desenhado pelo vento. De Celso Japiassu.

O morto. Por Carlos Alberto Jales.

Sonha, de Celso Japiassu.

A crônica nossa de cada dia. Por Maria das Graças Targino.

Vidas, de Celso Japiassu.

Copacabana: poemas reunidos. De Celso Japiassu.

A menina que roubava livos. Por Maria das Graças Targino.

Dezessete Poemas Noturnos. Celso Japiassu

20 contos curtos de Paulo Maldonado.

O Itinerário dos Emigrantes, de CelsoJapiassu.

4 Poemas de Carlos Alberto Jales.

O Último Número, de Celso Japiassu.

Um poema de Rodrigo Souza Leão: Clarice Chopin.

Infância. De Paulo Mendes Campos.

Talento não é direito divino. Por Aline Santos.

Quatro novos poemas de Carlos Alberto Jales.

A morte de um pensador. Por Carlos Alberto Jales.

Moacir Japiassu: entrevista sobre o novo livro.

Quem será o tal Nonô? Crônica do novo livro de Moacir Japiassu.

As Pelejas de Ojuara, entrevista com Nei Leandro de Castro.

Os Horrores do Mundo. Por Clemente Rosas Ribeiro.

Alguns poemas de Carlos Alberto Jales.

Moacir Japiassu fala sobre seu novo livro: Quando Alegre Partiste.

O Evangelho segundo Jesus Cristo. Por Maria das Graças Targino.

Beócio, mentecapto e troglodita. Por Cláudio José Lopes Rodrigues.

Memórias do nosso tempo: De poetas, estrelas e flores. Por Clemente Rosas.

Dois contos do carnaval. Ângela Belmiro.

Obrigado, Quintanilha. Conto de Paulo Maldonado.

Um poema de Antonio Cisneros.

Cristo diante de Pilatos. Por Eça de Queiroz.

Poemas traduzidos: poetas de todos os tempos e lugares.

O Silêncio do Delator, de José Nêumanne.

As Dunas Vermelhas, de Nei Leandro de Castro. Resenha de Moacy Cirne.

Três poetas, o amor e o tempo.

Equívocos literários: poemas falsos de Brecht, Borges e Garcia Marquez.

Seis novos poemas de Nei Leandro de Castro.

Especial para Uma Coisa e Outra:Borges e seus mistérios, ensaio de José Nêumanne Pinto.

Como uivar para a lua sem a menor possibilidade de estrelas. Antonio Torres.

Alguns poemas de Fabricio Carpinejar.

Cinco céus. Franklin Alves.

Franklin Alves. Novos poemas.

As supresas do novo romance de Moacir Japiassu, por Nei Duclós.

Ode ao Fígado, de Pablo Neruda.

Entrevista: Moacir Japiassu fala sobre seu novo livro.

A biblioteca da literatura mundial.

O Parque, de Carlos Tavares.

Corpo. Conto de Rui Alão.

Notas de um antropólogo cansado, por Rui Alão.

Voltas em volta dos contratos de amor, de Pedro Galvão.

Corpo invisível, poema de Carlos Tavares.

Quando a cidade faz esquina com a escrita. Antonio Torres.

Dois contos de Paulo Maldonado.

Prelúdio a Conessa. Conto inédito de Carlos Tavares

Outros poemas de Marilda Soares.

O Farol e a Ilha, conto inédito de Carlos Tavares.

Poemas inéditos de Marilda Soares.

Adagio Negro, um conto de Carlos Tavares.

Marcos de Castro e A Santa do Cabaré.

Almandrade: um poema visual e quatro poemas escritos.

Literatura polonesa: um classico de Boleslaw Prus, numa tradução de Ruy Bello.

Em tradução de Sebastião Uchoa Leite, um velho (novo) poema de François Villon.

O que fazer diante de tantos livros que teríamos de ler. Gabriel Zaid.

Poemas de Moacy Cirne, poeta e cangaceiro.

Dois contos do poeta R. Leontino Filho.

Leontino Filho: Cinco Poemas.

Erotismo e paixão: Cinco Sentidos, conto de Helena Barreto.

A Retratista, conto de Bill Falcão.

Poemas de Silvana Guimarães.

A orelha de A Santa do Cabaré, por Fábio Lucas.

Fotopoemas de Niterói. Luís Sérgio dos Santos.

O Olhar de Borges, Livro dos Amores. Poemas de Jaime Vaz Brasil.

Poemas de Eric Ponty.

Poemas de Ana Merij.

A Absolvição das Formigas. Eduardo Ramos, à moda de José Saramago .

Quanta confusão fazem em teu nome, poesia. Paulo Maldonado.

Na espera do amanhã, por Affonso Romano de Sant'Anna

O pior livro de todos os tempos, por Sergio Jedi

Três poetas de língua espanhola. Traduções e notas de Anibal Beça.

Anibal Beça, poeta amazônico: apresentação e a Suíte para os Habitantes da Noite.

Autobiografia da minha morte, por Jorge Vismara.

Os homens amam a guerra. Belíssimo poema de Affonso Romano
de Sant'Anna com traduções de
Fred Ellison e Nahuel Santana.

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Prelúdio a Conessa
Carlos Tavares


"Floresci no meu olho tua lágrima
Murmurei nos meus lábios tua boca
Encostei na minha alma tua fome
Caminhei nas minhas noites teu destino
Cheguei à minha mão a tua porta".

Marilda Soares

 

Ontem à noite sonhei que chorava pensando em você e assim pude escrever esse sonho, nossa história, parte de tudo que somos sem fim, sem começo, sem ponto final até que tudo acabe onde tudo começará outra vez.


Nada, enfim, encontrava ao certo na mobília da memória embaçada que o delírio do sono em geral confere e eterniza quando o terror se instala e não há mais nada a fazer, a não ser esperar, aguardar um sinal ou o momento tão necessário do redespertar para a vida: nossa ilha de impossíveis brisas, que flutua entre pontes de espumas e se reduz aos búzios do coração ante nossos mais profundos desejos.


O acidente amargo desse destino eu mesmo teci, ao engendrar viagens ao salto do nada, intentar o navego à deriva, à tua procura, e agora o náufrago bêbado desponta nos penedos do pesadelo; desbrava o terreno da ilusão, esse lunário de lãs, estrelas, bandejas de luz em que te vejo!


Buscava, mas nada encontrava naquele parque de sombras. Tateava, procurava no sonho ao menos uma réstia que fosse parecida contigo, mas nada achava. Nas janelas, duas ou três peças íntimas impregnadas do aroma adocicado da noite quando mal descerramos as cortinas; o aro prateado do sol hasteava no horizonte as flâmulas de uma nova manhã que renasce entre o brilho tênue da madrugada e a explosão de uma lembrança ensolarada. Mas era a sombra, de novo, que me perseguia na garganta das noites. Vinhas e sumias, ecos de mim! Estavas presa em uma espécie de biombo que se multiplicava à medida que eu expandia a caminhada; via à distância vultos em turba ensandecida a correrem em nossa direção. Procurava escondê-la, tentava afastá-la dos biombos, mas os biombos se enredavam e formavam uma teia, imenso labirinto de alças escorregadias. Agora escutava apenas a tua voz pedindo socorro, ouvia o vozerio dos vultos cada vez mais próximo, e em seguida o apito de um trem. Tentava puxar o cordão do interruptor, mas tocava a parede áspera do quarto, imaginava que estava gritando, quase sufocando, a ponto de começar a estremecer sobre o leito, quando fui acordado pelas enfermeiras. - Acorde, acorde!
Era uma manhã faiscante, ariosa - com seus pássaros inquietos e saltitantes. Custamos a crer ser tudo aquilo uma parte do enredo de nossos corpos, nossos olhos, na realidade, ou se tudo de fato não passava de um sonho. Essa esquisita sensação de que, naquele instante, o mundo deveria terminar para os outros, lá fora, nunca para nós, que criamos essa história de beleza e dor nos ardis de nossos corações.


Sabia que estava pronto, deveria escrever a nossa história, sobretudo agora, nessa manhã, a décima manhã do abandono, o décimo dia sem Conessa; sem suas mãos, os lenços de seu olhar, o aceno negro de seus cabelos e a sua sombra sumindo nas esquinas, indo ao encontro certamente de outros vultos, outros tempos, outras esquinas enevoadas, espaço ideal para testarmos, às vezes, nossa própria tendência a ser fantasmas do efêmero e da certeza do fim.


Penso agora nos dentes suaves, brancos de Conessa, seus dedos sedosos varrendo meu corpo eletrizado por espasmos transitórios, elevando-me ao nicho mais alto das estrelas e dos cometas incandescentes, fazendo-me evoluir da aspereza da solidão à carícia da eternidade, naquele momento de insuspeitados túneis de pele, carne, suores e urros, toques de profunda leveza sobre um verdadeiro pomar de luzes que ainda agora dançam, espocam e se confundem com os suspiros dos astros, na escalada sutil de ombros e espáduas, teus esses, teus silvos, teus braços ávidos a tatear o resumo desse instante na planície iluminada dos lençóis, essas costas de brancura inefável, tuas espáduas nuas, essa camada de pele pintalgada de pequenos círculos eriçados, tatuados pelos rastros dos meus lábios celebram, no meu vácuo azulado e triste, a trilha das preces que um dia desfiei nos frisos do teu prisma: sem a interferência das sombras, do medo e do pavor da perda, sem me importar com as bússolas da razão - preferia sucumbir nas valas do desvario.


Convenço-me cada vez mais sobre o poder da palavra e do corpo que me concedem agora a graça do delírio para recompor o meu mundo de ventres em desalinho no advento lunar da última noite.


A febre


Após a pausa da noite, prossigo observando-lhe as coxas alagadas pelo orvalho que desce dos meus olhos, o bailado sôfrego das ancas que se envergam ao sabor do sereno de mais uma estrofe que se derrama no leito de sementes invisíveis, seus pés a caminhar sobre os meus, as mãos entre as mãos, a dupla estátua que se materializa no abraço interminável, as unhas sobre o meu tórax, meu corpo de arrepios, minha vida na dança da euforia, teu alento, teu regaço; imperceptíveis os toques da minha flama nos seixos de tua febre que rolam pelas minhas mãos, pelos nossos corpos arremessados ao som de uma ária de aroma inefável que vibra e arde nas conchas de teus seios.
Agora me diga, Conessa, em que dobra do infinito, caminhas aos recôncavos mais remotos do nosso amanhecer; estarás, enfim, mesmo distante a me espetar nas sendas desse jorro? Tu te debruças sobre o nosso futuro ocaso como uma cigana que carrega o plenilúnio nas mãos e o equinócio no olhar para cavalgar o mundo em pelo nos albedos dos teus olhos. O nosso mundo - "sei que estás aqui" -, tenho tanta certeza disso como desse texto inacabado. Você me avisou que nada em nós teria sentido sem essa palavra, essa comunhão de sangue e verbo, as polpas encarnadas das letras da tua carne, as frutas que travo nas tuas mãos no vazio dos meus dias, nas páginas que singro aos oásis de um certo poema que um dia inventamos, tão próximos estávamos na cor de tua saliva a derramar-se nas alças de um arco-íris que costumávamos entortar ao operar o êxtase dos lírios e das estrelas; vejo, sim, apesar do nevoeiro que baixou sobre o meu sonho, essa constelação que voa e aterrissa nas minhas trilhas desgastadas de tantas caminhadas sem rumo pela penumbra da dor, por essa paisagem de ânsia, irisada pelos rubores da realidade. Não sei, Conessa, o rumo que seguirei, a estrela que te guiou, talvez seja a mesma que me aponta a rigidez dessa trama; a janela que se abriu e mostrou teu sorriso por um só segundo recebe as aragens do sonho para eternizar esse momento; sei apenas que nada me fará arredar das escalas dessa estrada, tua pele macia, teu olhar que no meu olhar emoldura a vida nas tuas pupilas!


Os biombos negros agora sumiram, as alças do labirinto se desmancharam no ar, os arcos do túnel escuro viraram fios coloridos de luz, os pântanos que me cercavam também desapareceram e agora os pássaros cantam, peixes nadam no aquário que imagino conter as pérolas dessa canção: Conessa! Conessa!


Desolação


Esse estado agônico de ser, essa condição trágica de recusar a paz e viver em guerra contra mim mesmo, essa mania de destruir tudo o que se equilibra sobre as vigas da razão, a tendência ao sacrifício, que marca o meu caráter na vida e no jogo, a antipatia crônica contra o mundo legal, moral, ético da burguesia, essa inquietação, esse sopro ácido de angústia, essa tristeza, a queda pela melancolia e pelo drama, eu sei, tudo isso é o que afasta as pessoas de mim.


Estou me vendo no topo da queda! Sim, reconheço e quase sinto a aspereza da queda, reconheço e quase toco a aspereza fria do mármore que abre suas mandíbulas para me engolfar, esse mármore que da pedra na memória faz brotar também a flor da eternidade, além dos cravos do fim e dos gerânios das preces, ah! se houvesse tempo para terminar esse exílio, parar com essa mania de povoar as gavetas com as sebes da lembrança e me arquivar junto a essas folhas que se amontoam e se enredam como se quisessem o urdir o esquife do verbo e das personas.
Mas, se agora é sério, e a queda se aproxima cada vez mais, vou levar a cabo a idéia do derradeiro exílio. Afinal, já fui julgado e condenado a andar por aí com o estigma de louco, mas o que isso importa, quem são as pessoas normais, aquelas pessoas sérias por trás dos óculos e dos bigodes, como diz o Poeta, aquelas que se movem pela vida como máquinas de fazer promessas, dinheiro e enganos?


Quanto a sua imagem, Conessa, permanecerá a mesma, modelada de luz e de candura no meu olhar. A realidade, contudo, não combina muito com essa imagem, percebemos de repente que é tudo tão fugaz, tão rápido como uma lufada de verão, tão inconsistente quanto uma folha equilibrada sobre a ponta de um palito de fósforo aceso, e de repente a gente desperta marchando para as guilhotinas do cotidiano, tombando sob os golpes de nossa própria fragilidade.


Lá atrás ficaram seis anos de paixão que agora somem numa carruagem carregada de névoa e luz; ficaram as promessas de amor nos armários empoeirados, nas dobradiças das portas que rangem o teu nome e nas cortinas de sombra que descem sobre essas janelas enferrujadas; ficaram as mãos apartadas de tudo que tocamos e vivemos e que um dia se cruzaram, se trançaram na aliança dourada das manhãs que pareciam eternas; ficaram as retinas do entardecer, com o brilho do poente suspenso nas folhas murchas da varanda.


Ainda dói o teu aceno!


Lembro-me que no verdejar do inverno, no calor do verão, na intimidade quente do outono vibrava em nós a face das crenças; sim, mas gora, depois de tudo o que aconteceu, mesmo nesse estado de espírito em que me encontro e na liberdade involuntária da loucura, sinto que por mais momentâneas que tenham sido essas centelhas de vida, deveria ter ficado ao menos o cetim dessa paixão na forma da lembrança, porque sei, se restou algo, está agora no baú de miragens que o tempo sopra e fecha.
A impressão que esse silêncio expressa agora é a de que nada aconteceu! Nada foi escrito! Nada foi dito ou tocado! Sequer um sussurro se escutou e mesmo a minha voz, ainda há pouco, deve ter soado como a labareda vibrátil de um látego a retalhar no ar a dor em que me desfaço.


Os meus ouvidos, aliás... Se não me engano, não sei... Naqueles dias de névoa e álcool, sim...Posso ter escutado a voz do trovão e enxergado o fogo azul da tempestade no colo das nuvens como uma dança de penitências, porque agora tudo desaba rumo ao desfecho que se aproxima.


De repente, vejo que sou apenas uma página mal escrita, um olhar de esguelha, a poeira de uma aventura que se distancia nas escunas do desperdício, ao optar pelo abismo que é a minha vida; restam-me, portanto, os muros da solidão e a esperança de permanecer um pouco mais por aqui até voltar a escrever; eis a força da palavra que imagino no éter do atual momento que me ata ao meu desespero e me separa da vida.


- Você não pode se entregar assim. - Disse o médico enquanto lia os escritos de Carlos, que permanecia imóvel na cama, sem se dar conta da quantidade de papéis avulsos, a maior parte, numerada, escrita nos últimos dias com a ajuda da enfermeira que estava sentada, em silêncio, cabeça baixa, aguardando o final da conversa.


- Sou apenas um instrumento da espécie que rolou na esteira do tempo até hoje sem saber o que fazer e para que veio ao mundo. Sem afeto, só e distante - continuou Carlos, depois que o médico deixou o quarto - no sólido terreno da angústia. Mas acabo talvez florescendo sem amargura na consciência do meu fim. Se eu resolver colocar em prática esse projeto, ninguém saberá o que aconteceu. A cena será indescritível, sem bombeiros ou ambulâncias, sem velório.


Quem sabe, usarei o princípio de Lucrécio - "Onde a morte está, eu não estou!" - ou a estratégia dos ventos, a curva do silêncio, a calidez das estações que elevam ao ar a poeira existencial dos condenados; nada mais será feito ou se ouvirá falar em mim. Serei apenas uma nuvem presa no ar, brincando no cosmo dos meus cristais, na cegueira dos meus horizontes, flanando no ocaso, lâmpada apagada que a terra traga e o céu acende para depois prestar contas dos meus pecados às estrelas.


A epígrafe


Conessa, meu amor, esses versos de Marilda

 

"(...) Quanto de mim carrego nesse corpo/ Quanto de mim arrasto nessa viagem/Nessa jornada onde tudo se move/Sempre de volta ao devastado início?(...)"

 

deverão estar escritos no meu epitáfio - Ditava Carlos para a enfermeira.


Baixou-me ontem o espírito de Oswaldo Martins, nosso amigo de tantas datas, palavras, leituras, aquele que em vida, há uns 15 anos, escreveu um testamento, de tom solene e simples. Ao ler o texto, você chorou, se lembra? Espero que a família cumpra o que lhe prometera: a garantia de fazer um enterro sem velório, sem carpideiras, sem cravos, sem o vidro ridículo da moldura de madeira que expõe a nossa dignidade de carne apodrecida aos olhos dos outros, essa bobagem de lágrimas de plástico, sem a mínima consideração pela vida verdadeira, contraditória, que carregamos pela estrada e que se encerra em duas pás de terra e no alívio do coveiro.


Naquela tarde, uma das últimas vezes que nos encontramos, Oswaldo me surpreendeu conferindo a mim a condição de herdeiro do farol, guardião de sua ilha imaginária. Os faróis de São Luís, sua terra natal, seu mausoléu de ouro, sua praça de guerra, seu remanso de areia, seu olhar de saudade com um foco em Cândia, pórtico de um passado abissal, intraduzível, e outro nas grutas de Creta, onde afirmara ter sido feliz, sobretudo ao dobrar-se às memórias sonoras de um violino que ainda sopra os allegros mais harmônicos que pôde entoar em sua enseada povoada de ilusões.
Ainda o vejo se distanciar com a mala e a caixa do violino, aquele sorriso de despedida, franco e triste, ao pisar nas escadas do cargueiro que o levaria às ruínas de Atenas. Nós, abraçados abaixo do tombadilho, à margem do que aconteceria durante a interminável turnê que ali se iniciava por entre as gárgulas marinhas de um oceano de histórias insondáveis, permanecemos mudos na sacada das lembranças como dois caracóis escorregando devagar pelas penínsulas da saudade que nos ligam ao mundo real.


Dois anos depois soubemos da notícia, Oswaldo estava de volta, completara seu périplo pelo Mediterrâneo sem realizar o sonho de compreender os mistérios da humanidade e compor sua rapsódia em homenagem a Marilda.


Seu corpo embalsamado chegaria em breve.


Numa carta que deixou para mim li sobre os motivos daquela viagem, a consciência de que pouco tempo de vida lhe restava. Enfim, cumpriu assim a sua estação de silêncio, afastou-se de tudo e de todos para poder retroceder em paz aos ponteiros do tempo, secar as gotas de sua clepsidra mágica, apagar os segundos de seu relógio de algibeira, soprar os derradeiros grãos de esperança em um certo verão em Madagascar, quando soube, ali, que Marilda estaria aguardando apenas um sinal para reencontrá-lo; isto seria, enfim, o coroamento dessa paixão, sabotado pela fatalidade do destino que primeiro urdiu a iluminura dos ânimos e da certeza para, em seguida, arrebatar o sonho, soterrar o júbilo.


A herança


Com a voz rouca, um fio rouco de comoção, Carlos narrava para a enfermeira, de memória, trechos do testamento do amigo.
"Deixo para Marilda, a minha paixão eterna, uma biblioteca de oito mil títulos; livros do começo e do fim do mundo, as mais belas aventuras e desventuras de amor e guerra, além da neblina que cobre o meu rosto, turva o meu olhar ante a sentença que pousou em minha calma naquela madrugada: a hora que me privou dos dias e da noite diante do espelho, ao abrir o envelope e ler o parecer dos médicos. E no espelho divisei ainda a marcha escura e lenta da solidão que perpassava imperiosa nos recantos do meu olhar, as navalhas da treva; o túnel de escuridão de minha passagem que se encerrará no quarto deste hotel. Mas, antes da primeira lágrima, verei o traje diáfano e branco da manhã, nas janelas, que pousará nos lençóis, nos copos, nas fronhas e nas poltronas, acariciará meus cílios molhados, meus medos com dardos de sol; verei descerem sobre mim faces de anjos reproduzindo nos meus lábios a sombra do teu sorriso para que eu beije o teu olhar, teus cabelos, tua imagem, enquanto contemplarei na copa dos tamarineiros os pássaros da nossa história. Perdão, Marilda, mas eu sabia que a viagem seria interrompida".


- Eu também, enfermeira, eu também...Eu sabia de tudo.


- O quê, seu Carlos, o que o Sr. está sentindo?


Nada, não sentia nada, apenas o ardor das lembranças e o desconforto que precedem a despedida dos moribundos.


Depois de alguns minutos em silêncio, Carlos pediu a Sofia que retomasse os cadernos, a caneta para voltar a escrever o que ele ditava. A enfermeira ainda quis reagir, afirmando que ele estava se excedendo. "Não posso parar, tenho de ganhar tempo!".


É isso, escreva, diga que só posso dar-lhes o meu amor, a imagem de minhas estrelas vazias, o que me há de mais caro, as flores do meu poço cinza de consciência sobre o desastre e o júbilo de ter vida e razão. Além da dádiva de me ver texto da sua existência como a réplica de uma obra inacabada, coroando a minha passagem por aqui como os vagões acelerados do tempo passando pelos dias embaçados, esses comboios de fuligem e fumaça que ignoram as estações onde eu quis pousar as asas da minha melancolia. Diga que lamento a interrupção do nosso outono que se consumiu no canto seco das cigarras, nas cascas amolecidas e resinosas da próxima primavera, depois maio virá, o nosso mês, o mais triste dessa jornada, não o abril de Eliot que para mim nada germina, a não ser um belo poema. Mas aqui estou tratando da realidade, assim como chamam a vida racional, dura, séria e pragmática que nos coube viver.


- Mas o tempo é inexorável - amplo, vasto, inútil e vão, pleno de recuos e farto de futuro, você sabe disso, Carlos.


- O presente é apenas uma faúlha de vácuo que penetra e arde em meus olhos a cor parda dos sótãos onde galguei pela primeira vez os trapézios da infância.


- E o passado, que para mim foi tão curto, é apenas a juventude do tempo a espera de um verão para amadurecer e tombar, como os jambos da tua pele e as amoras dos teus cabelos cacheados - sussurrou Conessa e em seguida observou: "Quando voltamos estava me sentindo leve, quase voando de felicidade. Mas eu sabia, no íntimo, que quanto mais eu voasse, maior seria a queda".


Carlos permaneceu calado. Estavam sentados no banquinho de madeira do Parque das Estátuas; aquela seria a última conversa entre eles antes do acidente.


A queda


Agora apalpo pouco a pouco as sobras da minha lucidez para sentir a ardência dessas setas de alumínio que varam minhas veias, me estufam de torpor, todas as manhãs, todas as madrugadas, como se isso fosse resolver alguma coisa, devolver-me a minha suposta sobriedade.


Enquanto eles pensam que estou dopado, semiconsciente, prossigo recompondo a minha história. Mais tarde, Carlos pediria à enfermeira que continuasse a escrever.


- Diga que também lamento não poder dobrar o dorso do tempo para que ele nos devolva a paz e a esperança de uma possível felicidade, a nossa meta, o nosso desejo de atuar nesse palco de modo semelhante ao daqueles que sangram as escaras de um moribundo e o fazem reviver; como quem colhe uma maçã do peito e ainda assim persegue a fome dos dias no teu olhar, persigna-se ante a misericórdia da existência e a cada estação deseja um naco de piedade, sorver teu sangue, tuas águas, teu sal para se perpetuar em múltiplos novelos de passado, presente e futuro.


É nesse tempo que me demoro a contemplar, na cegueira luminosa da insânia, o idílio da infância do mundo e a eternidade do presente! Só assim seríamos eternos. Mas não, o tempo passou e ainda escuto o seu manso tropel nas curvas desse corpo que fenece a cada suspiro. Hoje sou uma fera que gargalha da própria derrota, anjo maldito que cala as trombetas da pureza e faz ecoar a fúria dos séculos.


Muitos pintam o mundo a cores, usam pincéis, o guache, o pastel - eu uso o carvão, do qual nasci, carbono do ventre que pulsa a flor, embora negra, mas que jamais enegrece a minha alma, a minha visão, meu verso de pedra - reduto da vida em ti, laguna avermelhada de antigos luares! - Ditava Carlos para Sofia, de olhos abertos, fixos no quadro à sua frente, o retrato de Conessa.

 

Em seguida, após uma dolorida tentativa para respirar sem sentir o rufar de ossos se retorcendo por dentro do tórax enfaixado, prosseguiu em sua linha de raciocínio, procurando, dessa vez, recuperar trechos de um longo poema escrito na juventude:
Róseas as cavernas que o tempo escoa por entre meus dedos
Negra essa hora de infortúnio ante a natureza branca
Dos gansos que navegam em mim e se fartam
Com a minha paz aparente, típica de um ensaio final.


2


Nessas cavernas observo as penas dos pássaros
Que se esbatem suavemente nos meus olhos brancos
E passam do branco ao rubro após a festa que armaram
Sobre minhas vísceras e mesmo assim
Com o corpo descarnado, consigo escutar a voz do abutre
Contra o eco de um estranho sussurro
- Quem poderia responder a essa gralha macabra?


3


A minha pele se renova na seda desse sangue
Ou a luz há de ficar em mim qual cicatriz que repousa na flor?
Será enfim que no brilho do meu olho refulge
O verniz da ferida que crepita no espelho
Os reflexos da minha face que se racha e foge?


4


No teu ventre de pluma reluz o lustre da minha alma
Torta que parte para o mundo desfeito nessa pétala muda,
O corpo sem pássaros em que me levam nas asas do estremecer.

***
Alguém entra no quarto e senta ao lado de Sofia, fica em silêncio, até tocar a mão de Carlos, a testa, e passa a ler em voz alta os escritos dos cadernos: "Em torno de ti renasço aéreo, mesmo farto dessa ausência onde me banho nas cataratas da alegoria. Sinto assim a luz que vem da tua boca, da plumagem rubra do teu grito e adormeço na pelúcia dos teus seios".

-Dizem que enlouqueci no décimo primeiro dia de sua fuga, Conessa - murmurou Carlos, de repente, para surpresa das duas mulheres. Era como um despertar de lucidez momentâneo. E prosseguiu com sua voz rouca: "Naquela madrugada, via-me voando no bico do corvo branco de porcelana que vive sobre a escrivaninha do meu avô, via-me também nas asas de uma águia suspensa por fios de aço e que estava sempre em posição de ataque à garça que se refugiou no meu escritório desde o dia 2 de junho de 1996".

Conessa estava pasma, perguntava-se de onde Carlos conseguia arrancar forças para resgatar tantas cenas que, mesmo para ela, mantinham-se encoberta pelas teias que o tempo urde entre o alumbramento inicial dos amantes e os desgastes também naturais que só se apresentam em sua aura de opacidade e distanciamento nas ciladas que o futuro elabora, a partir do pesado cotidiano.

"A garça, Conessa, ela vinha e pousava na minha mão, aninhava-se febril, trêmula e frágil no meu colo; ainda sinto o fremir de suas penas no meu corpo tentando se proteger dos corvos que infestavam o ambiente em busca de sua alvura" .

- O Sr. quer parar, seu Carlos? - Pergunta a enfermeira, com voz receosa.

- Sim, é melhor parar - anuiu Conessa.

- Você ainda está aí?

- Sim, vamos, descanse um pouco - aconselhou Conessa.

- Não, não, vamos continuar! Não há tempo, não me interrompam, por favor!

A voz que me persegue repete o bordão do abandono, no desejo de ser eterno, mesmo infeliz, mas ao teu lado, mesmo triste e desesperançado viveria sim, milhões de anos sem abatimento, sem descontos para o mármore, sem exceções para o fim das coisas que na pele da minha paixão jamais morreriam. Acredite! Viveria para sublinhar no mundo esse sopro de afeto infinito que varre de dentro de mim a dor da paixão, sua possível esperança, a inevitável condenação, o sublime e a caverna, a solidão dos desenganados da vida. Agora me reduzo a essa pele ressecada que logo se despedirá da materialidade das coisas - nem tão belas, nem tão lindas como queria Carlos, o Poeta.

A consciência

Quem sabe uma pétala de aço ressurja no meu rosto no último instante e eu consiga arrancar essa máscara, revelar-me inteiro na face monstruosa desse desespero.

- Não posso permitir que continue, você está delirando mais uma vez, já não diz nada com sentido, é melhor parar. Por que sofrer tanto e fazer os outros sofrerem? Você sabe quem está aqui no quarto? - Agora escutava a voz incisiva do médico. "Sim, já falei com ela, mas o que isso tem a ver com o meu livro? Decretaram a minha loucura porque resolvi me estender ao sol e evocar a imagem dela, infinitamente" - lembrava Carlos imerso nos vapores da alucinação. "Passei a ver o teu olhar emoldurado no meu e por ele passavam toda a eletricidade do mundo e o fogo das lareiras da nossa existência; suspendia-me aos alpendres do infinito para lutar contra lobos e escorpiões, podia na lua enxergar o ciumento dragão de brasas com uma espada nas garras, olhar de labaredas avermelhadas a fulminar a raiz das estrelas; podia lutar contra tudo e contra todos e até catar os pirilampos do Universo na esteira macia das tuas colinas, teus prados angelicais".

Ali na estrada Carlos imaginava, deitado ao sol, poder dedilhar o cosmo e a Via Láctea nas harpas do próprio desespero, enquanto pensava serem uvas as moscas que o rodeavam no amanhecer, desciam sobre suas mãos para serem travadas pelos lábios sedentos do paciente. Em seguida, ávido por reconhecer no rosto dos pedestres estranhos o rosto de Conessa, deliciava-se em espasmos enigmáticos ao esmagar com os dentes as minúsculas e almiscaradas pevides das supostas frutas que teria colhido dos braços, das pernas, do ventre de sua imaculada imago. Depois, soprava os leques da aurora ante o olhar moroso de um sol que avançava e depois o queimava, fazia arder o peito despido, as faces nuas, o abdômen exposto a exibir sua inapelável decadência. Afinal, só quem está nos limites da racionalidade se precipita assim ao patético tão característico dos lunáticos.

Naquele sobrado imenso e branco, com seus janelões e seus terraços amplos, escadarias e jardins com fontes, com seus bichos de porcelana e de pedra, até os cães estavam emparedados pelo silêncio.

Aos médicos e às visitas, Carlos garantia que à noite avistava vultos se esgueirando pelos degraus da entrada da casa, pelas aléias dos jardins, canteiros e quintais, mas só escutava o latido dos dois perdigueiros perfilados em sua postura de pedra, lado a lado do portão de ferro com lanças de aço que dava acesso à garagem.

- Mas ali eu era o Rei das Constelações e trazia nos olhos as estampas da Via Láctea como escudo de proteção contra seus demônios, seus santos, seus heróis de poeira e marfim. Ninguém, é certo, poderia me superar na extensão do devaneio que me extraía da realidade, passando a todos a impressão de estar mentalmente transtornado. Na verdade, eu preparava o terreno para a última viagem através do território da criação. Não somente naquela estrada, mas também aqui embaixo, deitado nesse leito como carvalho seco tombado diante de seus serrotes, dizia Carlos procurando dirigir-se aos médicos. Mas agora não penso em nada além da palavra, esse consolo intraduzível, na ausência do amor que se perde como se perde a um filho e que só perde, a palavra, em dimensão de graça e brilho para o conforto do teu colo, que já não possuo mais, nosso balanço morno dos dias vibrando ondas esverdeadas sob as mangueiras e as acácias e que levariam a minha dor para longe, afastariam sombras, inaugurariam, em mim, a ternura de um novo sorriso.

Despedida

Na fatalidade ensolarada daqueles dias de quadrantes sem minutos, relógios sem pêndulos, segundos, queria plantar-me como erva ou lírios na terra seca, fundir-me com as pedras, os seixos, os bichos, as flores e quem sabe virar húmus, camada fosca de folhas sem seiva, galho sem frondes, tronco emurchecido e rachado, para renascer rocha, lagarto de casca de ferro, instransponível ser de outras eras, serpente de fogo, reboco despedaçado no barro seco do meu coração.

Ali, no meu castelo de constelações imaginárias, as mãos cruzadas, postas sobre o peito, à espera de um fio de água morna ou de uma gota de lágrima, para me dessedentar, desejava uma tarde de luz que desceria de teus olhos, um certo sol azulado que luziria as réstias dessas páginas escritas sem a linearidade habitual das aventuras de começo, meio e fim. Era o que me interessava, não importava publicação ou se alguém um dia iria toca-las. O fato é que passei semanas bebendo a água suja das valas da rua, o lodo das cercas de arame farpado, pedaços de vento; comia insetos, pequenos frutos podres que caíam das árvores. Sentia-me tão poderoso e vivaz como a libélula que se liberta da luz e não resiste aos vendavais de setembro.

As pessoas que passavam e viam aquele corpo no chão sorriam com sarcasmo, ou ignoravam aquele cepo desgarrado da vida, exposto à fome das abelhas, ao trabalho insidioso das formigas e das baratas, mas nada importava para Carlos, até o dia em que, a ponto de entrar em choque, dois policiais o recolheram, levaram-no para o hospital. Lá os médicos concluíram que ele estava no estado máximo de alheamento do mundo exterior, totalmente catatônico.

Quando o interrogaram pela primeira vez, quatro meses depois do incidente, de início nada respondeu; ficava olhando o retrato de Conessa com os olhos vítreos, sem lágrimas, como se dissesse, "vocês venceram, eu desisto"; depois pronunciou o vôo da garça, a invasão dos porões do sobrado, declarou o bailado dos olhares, o silêncio amarelado dos lagos, a lua dos lábios de Conessa que mirava do chão, de frente para o céu, com tal nitidez e palpabilidade que só alguém imerso na irrealidade poderia enxergar a situação por aquele prisma. "Pobre idiota!" - Pensava o médico mais velho, que usava o método do eletrochoque como possibilidade de cura para o incurável.

"Vejam, não há porque me manterem aqui, afinal, o que eu fiz, a não ser me deitar ao sol?".

"O Sr. acha essa atitude normal? Nos dias de hoje? Alguém agir assim por causa de uma mulher?". - Conessa já havia deixado o quarto e aguardava os médicos para saber o que estava acontecendo com Carlos.

"Não sei, apenas queria que ela aparecesse. Bastava um olhar, nada de mais, não sei porque acham isso estranho".

"Mas o Sr. estava esperando quem?".

"Conessa!".

"Aquela casa estava fechada há anos. A família mudara para o exterior. Somente agora Conessa voltou, portanto, na época, não havia ninguém no sobrado".

Alumbramento

Estou no meu mundo turvo, sobrevivendo sob a presidência das trevas que me abatem pouco a pouco. Sei, no entanto, que nada estará acabado; nada com as estacas de um ponto final me seduz, muito menos a morte!

A minha atitude pode denunciar o avesso dessa postura, mas o que posso fazer para que acreditem no que eu digo? Sempre disse e nem ela acreditou, que mesmo a morte, que encerra em suas lajes todos os milagres do universo, tanto na forca, na seda ou no fado, jamais soterraria o meu amor por Conessa. Agora, essas masmorras, essas correias de couro apertando meus pulsos, esse zunido infernal na minha cabeça, os sinos que não param, os motores do mundo corroendo o meu sossego, quando queria apenas ficar deitado ao sol pronunciando em silêncio as senhas da nossa paixão, ilha, poesia, janelas, parques e sombras, as mãos e o olhar, as almas que se fundiam em um só corpo, os abismos do luar e o carisma das prímulas, a pele do êxtase, não o furor amargo do orgasmo transitório, mas sim o êxtase divinal dos ventos superiores que movem o espírito desse moinho invernal de tantas estrelas girando suas pás sobre um pórtico de murmúrio e sedução; suaves gemidos produzidos pelo toque cálido de nossos dedos, nossas línguas sem verbo, nossos ombros de plumagem multicor, feitos de torturas imaginárias que tramam a memória das cinzas e os musgos do adeus.

A busca

Antes do processo, da última ruptura, Carlos passara a vagar nas ruas, observando os faróis e os letreiros de néon, os vultos femininos; arrancava os xales dos ombros das mulheres em filas de cinema e de teatro, pois acreditava que uma delas poderia ser Conessa! Certa vez fora detido por um policial porque se postara diante de uma vitrine durante quatro horas para observar os rostos da multidão. É claro que o gerente da loja imaginou que se tratasse de um ladrão. O policial o levou à delegacia e lá descobriu que se tratava de um transeunte qualquer que estava esperando a mulher. Outra vez tentou atravessar uma movimentada avenida, em pleno centro da cidade e quase morreu atropelado. Por coincidência, o mesmo policial da vitrine o resgatou do trânsito e o levou até o banco de uma praça. Ali ele despencou de vez e começou a chorar na frente de todo mundo. Na sua imaginação, perdera a oportunidade, mais uma vez, de encontrar Conessa.

Depois de vários dias de perseguição, Carlos se enfurnou em casa, passou semanas sem ver o sol. Quando resolveu rever o mundo, caminhou em direção ao Parque das Estátuas, onde costumava encontrar Conessa. Segundo a versão de seu relato, que depois foi confirmado pela polícia, um grupo de estranhos o espancou e quase o matou com golpes de barras de ferro.

"Não eram pessoas, eram vultos que se recusavam aparecer na minha frente e se escondiam entre os bancos e as estátuas da praça. Eis a vingança final, Doutor! O ódio já me espreitava há muito tempo e a trama se estreitava, meus passos se moviam em direção ao pântano onde hoje me encontro. Agora não importa, o destino está traçado nessas máscaras de oxigênio, nesses pinos de platina, nessas ataduras que cobrem mais da metade do meu corpo, no pranto de alguém que me visita e vai embora todos os dias sem que eu consiga identificar a voz, o rosto, o olhar".

"Você sabe quem estava aqui e ainda está, mas não no apartamento, lá fora, esperando para falar comigo no corredor", respondeu o médico mais jovem.

"O pior é que não sei onde te esconderam. Essa pausa, silêncio, meu deus, como incomodam! Sou um mar revolto, a tempestade e o mergulho nos vagalhões da escuridão".

- Você está delirando, Carlos! Não aconteceu nada disso, você sabe, você sabe que eu te amo! - Dizia Conessa, que voltara ao quarto e em prantos pedia que ele se acalmasse, que tudo ia dar certo. Os enfermeiros a expulsaram do ambiente e enquanto se distanciava pelo corredor da ala dos pacientes de doenças mentais graves, escutava os gritos de Carlos. Ele sabia que enfrentaria mais uma sessão de choques, o mundo dos prótons e dos elétrons passeando pelo seu corpo; lá fora as girândolas da realidade faziam-no tremer de pavor.

Sem saída!

No túnel!

Nos biombos da letargia!

Nas teias dos sete demônios!

Queria gritar "volta", "volta, Conessa!", mas já haviam cerrado sua boca, seus punhos e suas pernas.

"É isso que você é, Carlos, nada além do que uma haste de carne esturricada, lanças de ossos tremulando sobre os muros do mundo, sem ninguém para socorrê-lo", murmurava o moribundo enquanto recebia as descargas elétricas que mais tarde, supunham, o acalmariam. Mesmo assim, logo após os choques, prosseguia em seu monólogo, sei que já é tarde para qualquer tipo de renúncia. Continuarei por aqui, no entanto, me equilibrando nesse casto fio de existência. Mas isso não significa, contudo, que me entregarei às garras de Letargo ou da malvada Eris, essas deusas ancestrais que movem no mundo as molas da modorra e da discórdia, da inveja e da noite. Ao contrário, me desvestirei, antes, das estratégias toscas de sobrevivência, escolherei melhor minhas as táticas, os meus rumos, a minha caserna de luz, a minha trincheira de paz, o meu farol, as minhas quilhas afiadas, as minhas proas apontadas para navegar sobre os estreitos tenebrosos das armadilhas e das ruínas!

- Fique em paz, não tema nada, Conessa!

- Ela já se foi.

- Não haverá mais muros a transpor, cercas e portões a pular, cães a ignorar ou a temer, luzes, agonia ou gritos no meio da noite.

- O Sr. está bem? Seu Carlos, acorde, meu Deus, seu Carlos... - Gritava Sofia, desesperada.

Quando os médicos entraram no quarto se depararam com os olhos fixos de Carlos no retrato de Conessa pendurado na parede; um olhar de doçura e gratidão; com um enigmático sorriso de cumplicidade, um ar de incontestável dedicação.

Naquele momento, embora de dor e pesar, parecia não haver ali espaço para o pânico, antes às preces da paixão. Muito menos para o drama de vidro porque tudo era leveza, naquele olhar contemplativo, como se suave fosse o leito de veludo de um casal de amantes que se deitam na eternidade, se protegem da vida na macieza das violetas, se afagam em sua dignidade amorosa, tão profunda, inabalável, refletia o médico mais jovem. Sim, naquele olhar, eu vejo o olhar de Conessa, a devoção ao amor, que a tudo sereniza, reconstrói, até o sonho, a despedida, infinitamente!

 

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